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OPERAÇÃO MUTUM – O FOOTING / A SEGUNDA BAIXA

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           (Episódios 18 e 19)

O FOOTING

As noites em Mutum sempre foram muito animadas, desde quando eu ainda morava lá, durante a minha infância e minha adolescência. Em minhas lembranças, me vejo parado na calçada que circundava os canteiros floridos da Praça Benedito Valadares, por onde circulam centenas de pessoas, todas as noites, do anoitecer até altas horas. Esse hábito de ficar horas e horas circulando pela praça era conhecido como fazer o footing, uma expressão que em inglês significa fazer uma caminhada ou um passeio informal. Era durante o footing que flertávamos com as garotas, batíamos papo com os amigos e discutíamos calorosamente futebol. Principalmente nos dias em que o Esporte ou o Tringolingo jogava, o que acontecia quase sempre nos finais de semana. Era só o tempo entre voltar do campo de futebol, que era como conhecíamos o Estádio Municipal, tomar um banho, trocar de roupa e correr para a praça. Hora de fazer o footing. Quem tinha namorada, ficava sentado nos bancos de cimento, colocados na parte interna, entre os canteiros sempre bem cuidados, cheios das mais variadas flores e de pequenos arvoredos, podados em formas geométricas ou de animais. Nos bancos podia-se ler o nome daqueles que os patrocinaram. A iluminação da praça era feita por pequenos postes decorativos, trabalhados artisticamente, dos quais pendiam as lâmpadas protegidas por luminárias ornamentais.  Aqueles que ficavam próximos aos bancos estavam sempre com suas lâmpadas apagadas, deixando um escurinho que era disputado pelos casais de namorados. Quanto mais cedo chegavam, maior a certeza de garantirem o espaço nos bancos escuros. Alguns amigos revezavam no uso dos bancos, um casal ficando lá por um tempo determinado e deixando, depois, que outro o ocupasse. Ali aconteciam os abraços, os beijos, entre um amasso e outro e os sarros.               

Durante o dia poucos eram os que se sentavam nos bancos do jardim da pracinha onde era feita o footing, à noite. O calor, provocado pelo sol muito quente no verão ou o frio, excessivo no inverno, afastavam naturalmente o povo da praça durante o dia. Fatores agravados pelo fato de lá só existirem pequenas árvores, incapazes de criarem grandes sombras.

O mesmo já não acontecia com a parte da praça que ficava bem em frente ao Hotel dos Viajantes, que sempre tinha seus bancos ocupados pelas manhãs, por alguns idosos que ali se sentavam, aproveitando  a sombras das árvores, para baterem papo.

Lá, também, ficavam a banca de revistas do Arnaldo e as três cadeiras de engraxates do Rui.

Nessa parte da praça, à noite, não havia footing e nenhum casal usava os bancos para namorar. À noite, eram ocupados por casais que moravam ao redor da praça e lá ficavam observando o movimento no jardim, até o movimento cessar.

Durante a permanência das tropas militares em Mutum, o footing passou a ter um interesse maior por parte das mulheres, já que os soldados, como eram chamados de uma forma genérica, passaram a frequentar a Praça Benedito Valadares quando não estavam de serviço. Consequentemente, em razão de serem estranhos, tornaram-se uma espécie de atração extra. Muitos namoros de alguns casais, até então considerados firmes, foram terminados tendo alguns “de fora”, como nós os chamávamos, como responsáveis.

Em Mutum, como ocorre em algumas cidades interioranas, havia algumas garotas que não gostavam de namorar os rapazes da cidade. Raramente aceitavam algum de nós como namorado. Mas, sempre que havia algum evento com a participação de alguém de fora, era certo que não ficavam sozinhas. Podiam ser vistas na pracinha, circulando abraçadinhas com os seus rapazes, sem se importarem com os olhares atravessados que lhes eram dirigidos. Na realidade, era tudo uma questão de bairrismo, porque quando a situação era inversa, e alguma garota de fora aparecia na cidade, acontecia uma verdadeira corrida entre nós, na tentativa de conquistá-la e partir para os encontros nos bancos escuros da praça. Só que, no caso dos militares que buscavam as bombas, nós estávamos correndo o risco de perder até as nossas namoradas firmes, porque eram muitos e todos de fora.

Foi assim que aconteceu com o meu amigo Clemente, filho da Dona Candinha Quitandeira e namorado da Marcília.

Nas minhas lembranças do meu tempo de criança, em Mutum, a figura de Dona Candinha Quitandeira tem um lugar especial.

    A segunda baixa

O Clemente era meu companheiro de futebol, desde o infantil do Esporte. Crescemos juntos, tínhamos a mesma idade e éramos amigos inseparáveis. Onde estivesse um o outro seria encontrado, com toda a certeza. Dona Candinha aceitava muito bem essa nossa amizade e ia além, afirmando que “se esses dois fossem irmãos, eu acho que não combinariam tanto como combinam, sendo amigos”.

Não passava sequer um dia sem que eu fosse a casa do Clemente. Lá, não importando a hora que chegasse, Dona Candinha fazia com que eu e o Clemente nos deliciássemos com alguns dos quitutes que fazia para atender os seus clientes. Enquanto comíamos, Dona Candinha estava sempre junto conosco, conversando e rindo das nossas brincadeiras. Assim o tempo ia passando enquanto crescíamos. Até que o Clemente começou a namorar com a Marcília, que era uma morena linda que morava em uma rua que ficava perto da caixa d’água, por onde eu e o Clemente passávamos quando íamos jogar futebol.

 De tanto nos ver passando e de tanto que o Clemente a olhava, Marcília acabou dando bola para o Clemente que, por sua vez e mesmo sendo muito tímido, não perdeu a chance. Começaram a namorar e a nossa rotina de amigos foi sendo deixada de lado, pouco a pouco.

Depois, naturalmente, minhas idas à casa do Clemente foram rareando, diminuindo até que se tornaram escassas. Nos dias de treinos eu já não passava mais pela rua da casa do Clemente. Ia direto da minha casa, na Praça Benedito Valadares para o campo, passando por outras ruas. Além de ser mais perto, eu sabia que o Clemente não estaria mais em casa, pois seu tempo de folga ele passava sempre em companhia da Marcília, na casa dela ou de alguma de suas amigas.

Sempre que via Dona Candinha, nas suas andanças pela cidade fazendo entrega de suas encomendas de quitandas, ela reclamava que eu tinha sumido, que devia aparecer, que eu não precisava ir lá na casa dela só quando o Clemente estivesse lá. Assim, vez por outra, eu dava uma chegada na casa de Dona Candinha. E sempre que o fazia, ouvia em algum momento ela dizer “Não gosto nada desse namoro do Clemente com essa tipa” e quando eu tentava argumentar em defesa dos dois, ela retrucava “essa menina não me parece boa pra ele”.

O meu amigo Clemente e sua namorada Marcília já estavam juntos há um bom tempo e todos nós, seus amigos, sabíamos que acabariam no altar da Matriz de São Manoel. Eles até já haviam me confidenciado que seria padrinho dos dois. Não falavam de datas, mas era certo que casariam. Ninguém era capaz de duvidar dessa realidade futura.

Quando as bombas caíram em Mutum eu já não morava mais lá e o Clemente e a Marcília eram noivos, planejando o casamento do qual eu seria padrinho. Ainda faziam o footing na pracinha.

 Foi lá uma noite que a Marcília, que estava aguardando a chegada do Clemente, percebeu que estava sendo observada por alguém quando caminhava com suas amigas. Curiosa, procurou de uma forma discreta e despistada identificar quem a observava. Seu olhar cruzou com o de um soldado da Marinha, que lhe deu um sorriso. A partir daí, durante um bom tempo os dois ficaram se procurando com os olhos, flertando de uma forma bem atrevida. Ele, o soldado, parado na calçada com outros soldados, e ela, Marcília, caminhando com suas amigas ao redor da pracinha. De tanto se olharem, as amigas de Marcília resolveram dar a ela uma cobertura, já que o Clemente demorava para chegar. Em determinado momento, fizeram uma parada junto do grupinho de soldados no qual fazia parte o que flertava com Marcília. Ninguém sabe o que conversaram. O certo é que pouco tempo depois da chegada de Clemente, Marcília lhe disse que não se sentia muito bem e ele a levou para casa. Pouco depois, Clemente se reuniu comigo e outros de seus amigos no salão de sinucas.

Como havia muito tempo que não nos víamos, aproveitamos para atualizar nossa conversa. O ponto principal, como não podia deixar de ser, foi o episódio das bombas perdidas, como ficaram conhecidas. Ficamos conversando e já era bem tarde quando o Clemente despediu-se dizendo que ia para casa porque precisaria acordar bem cedo no dia seguinte      .

 Ninguém se importou quando o Dino Maluco entrou no Bar do Paulo, encostou no balcão e começou a rir sozinho, como era do seu costume quando queria dar alguma noticia sobre alguma coisa que tinha visto de estranho nas suas andanças pela cidade. Ele ficava rindo sozinho até que alguém lhe perguntasse o que tinha acontecido. Aí, desfiava sua estória. E assim foi. Quando lhe perguntaram o que tinha acontecido, Dino Maluco contou que naquela noite, estava passando pela rua da Marcília, noiva do Clemente, quando viu a Marcília trocando abraços e beijos com alguém que não era o Clemente. Era um soldado. Eles estavam no beco da casa dela na maior safadeza. Ele disse que tinha visto tudo o que eles fizeram, mas que eles não tinham visto que ele tinha visto. Quando alguém falou que o que estava dizendo era um absurdo, e que ele devia tomar cuidado, pois o Clemente não ia gostar nada do que ele estava inventando, o Dino Maluco deu uma risada e falou que já tinha contado tudo pro Clemente, de manhãzinha, quando ele estava indo pro serviço. E que o Clemente nem tinha brigado com ele.

Naquela noite, na pracinha durante o footing, sem que alguém se desse conta ou pudesse impedir, Clemente deu dois tiros de garrucha 44 na barriga de um marinheiro chamado Charles. Clemente foi preso em flagrante e recolhido ao quartel do Comando Militar, onde ficaria detido até que a justiça determinasse o que fazer com ele. O marinheiro Charles, atendido emergencialmente, ainda na pracinha, foi removido de helicóptero para Vitória, onde foi internado em estado grave e no Hospital Naval.

Quando encontrei Dona Candinha, no outro dia, e a abracei, dizendo o quanto sentia pelo Clemente, ela me deu um sorriso tristonho dizendo apenas “eu não falei que aquela Marcília não era boa bisca? Ela não serve para o meu Clemente. Eu sabia que ela não prestava pra ele”. Quanto a Marcília, no mesmo dia viajou para Aimorés, de onde, segundo me disse uma de suas amigas, iria pegar o trem para Vitória. Onde ficava o Hospital Naval.

O marinheiro tornou-se a segunda baixa entre os militares encarregados da busca pelas bombas perdidas em Mutum. E ainda não tinha sido encontrada nenhuma das bombas.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – AS BUSCAS / A PRIMEIRA BAIXA

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(Episódios 17 e 18)

02 de julho de 1975

          

O dia 2 de julho, uma quinta-feira, terceiro após o lançamento involuntário das bombas sobre Mutum, foi, na realidade, o primeiro dia em que efetivamente começaram as buscas.

As tropas militares foram movimentadas bem cedo, pela madrugada, em direção a saída para Lajinha. Obtive informações de que as primeiras buscas seriam feitas na região do distrito de Ocidente, onde, supunha-se, poderiam estar as bombas e, após haver insistido muito e prometido solenemente não interferir em nenhum momento nas ações, fui autorizado a acompanhar as tropas, na condição de observador.

 O trabalho de buscas começou, realmente, na altura da Serra do São Roque.

 Ali, no sopé da serra, foi onde as tropas desceram dos veículos e se esparramaram pelos dois lados da estrada, já então demarcada como MG 108, ainda não totalmente encascalhada, mas já sendo preparada para receber o asfalto.

A Serra do São Roque sempre foi uma referência para os viajantes que iam de Mutum para Lajinha, por ser um trecho que, na época das chuvas, tornava-se praticamente intransitável em razão das quedas de barreiras e das pedras que, rolando da serra, impediam em alguns trechos a sua passagem.

Nós não estávamos em um período chuvoso, o que contava a favor dos militares empenhados na missão de recuperação das bombas, embora a temperatura se fizesse muito baixa na Serra do São Roque, com a presença de um forte nevoeiro, acompanhado de uma intensa neblina, comuns em regiões altas nas manhãs durante o inverno.

A região do Distrito de Ocidente, em Mutum, está situada em uma área montanhosa, com predominância de grandes pedras, como a Invejada, localizada a 20 quilômetros do centro da cidade, na Serra do São Roque. Trata-se de uma imponente elevação de puro granito, com altitude estimada em mais de 1000 metros.

 A Invejada é considerada como o maior bloco de granito puro do Estado de Minas Gerais e um dos maiores do Brasil.

Com toda a certeza, considerando a topografia da região, não seria fácil para as Forças Armadas localizarem as bombas, se tivessem mesmo caído naquela região.

 Essa era também a opinião de Manuel da Mota, um antigo morador de São Roque, profundo conhecedor daquela região e que tinha se oferecido como voluntário para ajudar nas buscas, já que, segundo ele, entendia também um pouco  de bombas.

“Nesta região – dizia ele fazendo cara de deboche –  existem buracos tão escondidos nas pedras, que não se consegue achar nada que tenha caído lá. Sem contar se tiver caído nas profundezas das grotas”.

Manuel da Mota tinha realmente experiência em operações militares do Exército Brasileiro. Fora integrante da Força Internacional de Emergência conhecida como III – 2º RI – Batalhão Suez.

 Esse contingente militar, composto de um Batalhão Independente, fora instituído pelo governo brasileiro através do Decreto Legislativo nº 61, de 22 de novembro de 1956, do Senado Federal, para atender a Resolução da Assembléia Geral das Nações Unidas, de 07 de novembro de 1956, com o objetivo de manter a paz e a segurança internacional na região compreendida entre o Canal de Suez e a linha de armistício entre Israel e o Egito, no continente africano.

 O Canal de Suez, com 163 quilômetros de extensão liga Port Said, no Mar Mediterrâneo a Suez, no Mar Vermelho, ambos no território egípcio. O Batalhão Suez,  do qual Manuel Mota fizera parte atuou na região do conflito entre árabes e israelenses de 1957 até 1967.

                              A PRIMEIRA BAIXA

O grupo de buscas na Serra do São Roque era formado por uma Companhia do Exército, composta por 150 homens, liderados pelo Primeiro Sargento Pereira e sob o comando do Tenente Coaracy, que reportava suas ações diretamente ao Capitão Peixoto.

O Sargento Pereira determinou que os seus soldados, que se encontravam espalhados pelas duas margens da estrada, formassem duplas e dessem inicio ao trabalho de buscas.

 Apenas Manuel Mota, do pessoal civil, foi autorizado a acompanhar a tropa. Eu e os demais representantes da imprensa, bem como os curiosos, que acompanhávamos a operação, tivemos que permanecer observando à distância.

O Sargento Pereira, munido de um rádio transmissor, escolhera um ponto mais alto, situado à nossa direita, para dali acompanhar a movimentação de seus comandados, enquanto o Tenente Coaracy e o Capitão Peixoto examinavam alguns mapas espalhados sobre o capô de um dos veículos de transporte da tropa.

De onde estava eu podia perceber quando o Sargento Pereira recebia informações ou ditava ordens pelo rádio.

O tempo passou sem nenhuma novidade sobre as bombas nessa manhã do primeiro dia de buscas. O sol indicava a metade do dia quando ficou alto no centro do céu. Eu, junto com alguns outros jornalistas, observadores da operação resolvemos nos dirigir para Ocidente à procura de um local para almoçar. Antes, no entanto, procuramos nos informar com o Capitão Peixoto sobre alguma novidade, sendo comunicados de que ninguém havia encontrado algum sinal que pudesse indicar a presença das bombas. Masque as buscas continuariam durante todo o resto do dia.

Em Ocidente, embora fosse um distrito relativamente grande, não encontramos nenhum restaurante, mas fomos informados por alguns dos moradores de lá, que se encontravam também acompanhando o movimento das tropas, que poderíamos almoçar no Bar do Povo, do Seu Nonô, na Praça da Igreja.

O Bar do Povo não era mesmo nenhum restaurante, mas lá o Seu Nonô nos serviu uma deliciosa macarronada, com arroz, feijão, frango frito, angu e uma salada de tomate com folhas verdes que, segundo ele, colhia de sua própria horta, que cultivava nos fundos da casa. “Sem essa porcaria de agrotóxico”, nos falou todo orgulhoso.

Enquanto comíamos, Seu Nonô  nos relatou o que sabia sobre o avião e sobre as bombas. Segundo ele o avião passara muito alto, sobre Ocidente e não pareceu ser um avião dos comuns, que sempre sobrevoavam a região, pelo barulho que fez ao cruzar o céu. Era um barulho diferente, coisa que ele nunca tinha ouvido antes. Parecia com o barulho daqueles aviões que via nos filmes de guerra na televisão.

  Ele se lembrava de ter ido até a porta do Bar, para tentar ver o avião, mas não conseguiu, embora se lembrasse também de que o céu ainda estava bem claro, naquele início de noite. O avião já tinha passado e a única coisa que pôde ver foram as suas luzes piscando, muito alto. Quando perguntei se tinha visto as bombas caindo do céu ele disse que não, que ninguém em Ocidente tinha visto e que só ficaram sabendo delas depois que os soldados chegaram a Mutum.

Após o almoço, combinei com o Tião Fotógrafo, que morava em Ocidente, para que fizesse umas fotos do Distrito e da região da Serra do São Roque, onde estavam sendo feitas as buscas, para que eu as pudesse enviar ao jornal, junto com os primeiros relatos da viagem. Como era de costume, eu não levava nenhum fotógrafo do jornal comigo para cobrir reportagens feitas em outras cidades. Aproveitava sempre alguém do local, que conhecesse melhor a região. Assim, além das fotos recentes, tiradas durante a reportagem que estivesse fazendo, poderia usar outras, antigas, tiradas dos arquivos dos fotógrafos locais, que sempre enriqueciam o meu trabalho. Além de poder me aproveitar das dicas de quem conhecia melhor a região e que sempre eram bem-vindas.

 Assim, estava certo de que quando retornasse para a casa dos meus avós, em Mutum, estaria levando uma boa quantidade de fotos de Ocidente e da Serra do São Roque, para poder  escolher quais as que mandaria para a redação. Todas legendadas, naturalmente.

Ao retornarmos ao nosso ponto de observação, após o almoço, ficamos sabendo da primeira baixa entre as tropas do Exército.

Um soldado, identificado depois  como Laerte, ao se aproximar de um córrego, foi picado no braço por uma cobra.

A serpente foi morta pelo seu companheiro Soldado Marins e, por sorte do Soldado Laerte, identificada pelo Manuel da Mota, que estava próximo ao local do ataque, como sendo uma surucucu, ainda nova, considerando que media pouco mais de um metro e meio de tamanho.

A surucucu ou Lachesis muta é considerada a maior serpente venenosa de todo o continente americano e uma das maiores do mundo. É muito comum na região do Vale do Rio Doce, onde está situada Mutum, principalmente na divisa com o Espírito Santo, onde fica Ocidente e a Serra do São Roque. Pode alcançar, quando adulta, quatro metros e meio de comprimento e suas presas chegam a medir 3,5 centímetros. Os naturais da região a temem pela sua periculosidade e virulência, aprendendo, desde quando crianças, a identificarem a sua presença pelo som que emite ao se sentir incomodada quando o seu território é invadido. Ela não tem guizos em forma de chocalho na ponta da cauda para chacoalhar como a cascavel, mas emite um som perceptível por quem a conhece. Esse é o seu sinal de ataque. Com toda a certeza o Soldado Laerte não a conhecia, como afirmou Manuel da Mota. Aproximou-se muito e, ao movimentar o braço em sua direção, foi atacado e picado.

 A surucucu é uma cobra que tem um comportamento muito agressivo e pode, com seu bote, alcançar a distância correspondente a um terço do seu comprimento. O veneno de suas presas provoca, nas suas vítimas, um quadro de queda imediata da pressão arterial, inchaço e dor no local da picada, diminuição da frequência cardíaca, alteração da visão, sangramento na gengiva, pele e urina, diarreia, vômitos e insuficiência renal. De ação neurotóxica, a vítima de sua picada, para ter alguma chance de sobrevivência, precisa contar com ajuda médica imediata, com utilização de soro antilaquésico/antibotrópico laquésico.

Pela avaliação de Manuel da Mota a tropa militar que se deslocara para Mutum tinha muito conhecimento sobre a região, principalmente sobre os riscos que iriam correr durante toda a operação. Sua opinião era fundamentada no fato de que, logo após a identificação que ele fizera da serpente como sendo uma surucucu, o Soldado Marins, companheiro da vítima retirou da sua mochila um estojo de primeiros socorros e lhe aplicou, de imediato, o soro indicado para a picada daquele tipo de ofídio. O que demonstrava estar a tropa bem preparada para a busca das bombas em locais de risco de ataques de animais peçonhentos, como as pedreiras da região do São Roque.

Segundo Manuel da Mota, a situação dos soldados ali era idêntica a dos pracinhas brasileiros em ação de paz em Suez, no Egito, respeitadas, naturalmente, as devidas proporções. Encontrariam, segundo ele, muitas dificuldades pela frente antes de encontrarem as bombas perdidas. O terreno acidentado não seria o seu único e grande inimigo. Disso ele não tinha dúvidas. O relevo era representado por pedras, muitas pedras, mato serrado da Mata Atlântica compondo a Serra do Mar, vales profundos, nascentes de riachos e ribanceiras traiçoeiras. Mas havia também animais peçonhentos, animais selvagens como porco do mato, jaguatiricas e onças parda e pintada.

Manuel da Mota observava o lento avanço dos soldados pela região e torcia para que estivessem, realmente, preparados para aquele tipo de ação como ele próprio estava, quando partiu com a força de paz, para o Egito. Lembranças foram tomando formas em sua mente e Manuel da Mota deixou-se ficar quieto, imóvel, encostado a uma árvore, os olhos fixos no vazio. Via-se, novamente, segurando um binóculo, observando a imensidão do nada formado pelas areias do deserto da Península do Sinai. Aos poucos, saiu do estupor em que se encontrava, deu uma sacudidela na cabeça e falou baixinho, sem que alguém pudesse ouvir – “Ah, não vão encontrar porra nenhuma de bombas nessas pedras”.

Beirava dezoito horas quando o Tenente Coaracy, atendendo determinação do Capitão Peixoto, ordenou pelo rádio que o Sargento Pereira reunisse a sua tropa e retornasse ao seu ponto de apoio, onde se encontravam os veículos que os levariam de novo ao acampamento, em Mutum. Nenhuma bomba havia sido localizada na região do São Roque nesse primeiro dia de buscas. O Exército tivera sua primeira baixa oficial.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – O VATICÍNIO

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(Episódio 16)

Em 1941 o já famoso escritor austríaco Stefan Zweig, que escolhera o Brasil como local para viver ao lado de sua segunda esposa, Charlotte Elizabeth Altmann, masi conhecida como Lotte, ao fugir das atrocidades cometidas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, publicou o livro “Brasilien ein land der zukunft” – “Brasil, um País do Futuro”, no qual tecia rasgados elogios ao nosso país.  Moravam em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde suicidaram-se em 1942. Deixou o escritor uma declaração, na qual escreveu: Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite. Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes. Stefan Zweig”.

Zweig não viu a aurora surgir após o final da Segunda Guerra Mundial, com a derrota de Hitler, destruição e reconstrução da Alemanha, surgimento da Guerra Fria e divisão do mundo em dois blocos distintos: um capitalista, liderado pelos Estados Unidos da América do Norte e um comunista, sob a liderança da União Soviética. Nem viu, também, o cumprimento de sua profecia de que o Brasil era o País do Futuro.

A partir de 1964, com a Revolução, o Brasil havia se transformado, segundo os seus governantes militares, em um Brasil Novo.

Para reforçar essa afirmação, em 1975, quando ocorreu o incidente de Mutum, apresentavam as suas realizações, com destaque para as construções da Rodovia Transamazônica, Ponte Rio Niterói, Usinas Hidroelétricas de Itaipu, Tucuruí, Ilha Solteira, Jupiá,  Ferrovia do Aço, Usinas Nucleares de Angra I e Angra II, criação do Instituto Nacional de Previdência Social/INPS, FUNRURAL, construção do Porto do Maranhão, entre outras.

 Os governos militares apregoavam o que era conhecido então como o “Milagre Brasileiro”.

 Para confirmar tal ufanismo, em 1974 o Presidente  Richard  Milhous Nixon, 37º Presidente eleito dos EUA, pouco antes de ser tornar o primeiro presidente americano a renunciar ao seu mandato, afirmou ao Presidente Garrastazu Médici que, “para onde for o Brasil irá a América latina” procurando demonstrar que, para aquele País, Brasil deveria posicionar-se como líder entre os demais países da América Latina. Assim sendo, mantê-lo alinhado com os Estados Unidos era a principal pretensão do governo americano.

O Governo Militar procurou, de todas as formas, inclusive promovendo violenta repressão aos seus contrários, mostrar o Brasil como um país que dera um salto ao encontro do desenvolvimento.

O País começou a ser apresentado ao mundo, pelos governistas, como uma nação progressista, desenvolvimentista, a caminho de tornar-se uma grande potência. Na economia, estimulava-se o consumismo da classe média, que despontava como nova força social. O progresso e o desenvolvimento apregoado por todos, fazia com que houvesse uma corrida em busca de melhoria de vida e ascensão social. Paralelamente, o governo também fortaleceu todo o seu aparato repressivo e, com base na sua Doutrina de Segurança Nacional, procurou internacionalizar todo o processo econômico brasileiro e, ao mesmo tempo, eliminar focos internos de resistência. Resistência, essa, que já estava sendo disseminada para o interior do País e para alguns outros países sul-americanos, como os nossos vizinhos fronteiriços Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Venezuela e Colômbia, além do Chile e do Equador, na costa do Pacífico.

 Em alguns desses países os regimes democráticos também sofreram interrupção no mesmo período em que o poder militar se impunha no Brasil, sendo substituídos por ditaduras, civis ou militares.

 A preocupação com a Segurança Nacional era justificada pelo governo brasileiro como necessária para assegurar ao País continuar seu crescimento de forma segura, impedindo o avanço sistemático do comunismo.

Nesse sentido, o General Breno Borges Fortes, então comandante do Estado Maior do Exército, ao proferir discurso em Caracas, na Venezuela, durante a 10ª Conferência dos Exércitos Americanos, publicado no Jornal da Tarde de 10 de setembro de 1973, afirmou, referindo-se aos que se opunham ao governo que “O inimigo usa mimetismo, se adapta a qualquer ambiente e usa todos os meios, lícitos e ilícitos, para lograr seus objetivos. Ele se disfarça de sacerdote ou professor, de aluno ou de camponês, de vigilante defensor da democracia ou de intelectual avançado; vai ao campo e às escolas, às fábricas e às igrejas, à cátedra e à magistratura; enfim, desempenhará qualquer papel que considerar conveniente para enganar, mentir e conquistar a boa fé dos povos ocidentais.Daí porquê a preocupação dos Exércitos em termos de segurança do continente  deve consistir na manutenção da segurança interna frente ao inimigo principal; este inimigo, para o Brasil, continua sendo a subversão provocada e alimentada pelo movimento comunista internacional.”

Para adequar-se à Doutrina de Segurança Nacional, o governo revolucionário além de criar organismos militares como o Serviço Nacional de Informações/SNI, o Centro de Informações do Exército/ CIE, o Centro de Informações da Aeronáutica/CISA e a reformulação do Centro de Informações da Marinha/CENIMAR, que já funcionava desde 1964, criou a Operação Bandeirantes/OBAN, em São Paulo, financiada com verbas de empresas nacionais e internacionais, dividida em três tipos de operações efetuadas durante 24 horas por dia: de buscas, de interrogatório e de análises. A Operação OBAN, como ficou conhecida, contava como elementos militares das três armas das Forças Armadas, da Polícia Federal, das Polícias Estaduais e até do Corpo de Bombeiros. Seu custo operacional era muito elevado, em razão das operações que realizava, tendo sido necessário, para o seu financiamento, um sistema de arrecadação permanente de recursos entre empresários nacionais e estrangeiros com atuação no Brasil, que apoiavam o golpe militar e temiam o aumento da influência comunista na América Latina, via Cuba.

A presença do Brasil na região passou a ser vista como de tal importância, que alguns setores militares mais duros brasileiros e americanos passaram a discutir a necessidade de tornar o País, no menor prazo possível, uma potência atômica.

 Assim, poderiam contrabalançar a ofensiva da URSS ao tentar usar a ilha caribenha de Cuba como ponta de lança avançada, colocando nela algumas ogivas nucleares, considerando estar situada tão perto dos americanos, como se fizesse parte do seu próprio quintal.

O sonho nuclear brasileiro remonta aos longínquos anos 30, com o início das pesquisas relativas à física nuclear sendo feito na Universidade de São Paulo. Estenderam-se, depois, pouco a pouco a outras Universidades, espalhadas pelo País, como em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.

 Aqueles cientistas que sonhavam com o Brasil como uma potência atômica contavam, já na década de 50, com institutos de pesquisas equipados com reatores atômicos experimentais e grupos próprios de pesquisadores atuando em sofisticados laboratórios.

Mais precisamente em 15 de Janeiro de 1951 foi criado pelo governo o Centro Nacional de Pesquisas – CNPq, encarregado da coordenação e orientação de toda a  produção científica, e do desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Brasil. Era, com toda a certeza, um grande passo dado pelo País em direção ao desenvolvimento que levaria a busca de uma política nuclear. Acordos e parcerias de troca de informações já vinham sendo firmados entre os Governos  do Brasil e dos Estados Unidos, desde a partir da década de 40.

 Através desses acordos, o Brasil pretendia ter acesso às tecnologias que possibilitavam o domínio da energia atômica. Aos Estados Unidos interessava também, além do alinhamento do Brasil com suas políticas anticomunistas, ter acesso aos minérios atômicos existentes em algumas áreas do  nosso território, principalmente o Urânio.

Em 04 de Outubro de 1967 o Presidente Arthur da Costa e Silva, em reunião ministerial realizada no Palácio do Planalto, em Brasília, lançou oficialmente o programa brasileiro de energia nuclear, denominado como Política Nacional de Energia Nuclear.

Em 1º de Junho de 1968, em Nova York, nos Estados Unidos, foi assinado por 190 países o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que começou a vigorar em 05 de março de 1970. O governo brasileiro não assinou o Tratado e, em 1971, adquiriu da empresa americana Westinghouse o seu primeiro reator nuclear, que foi instalado na Usina Nuclear de Angra I, situada em Angra dos Reis, cidade do litoral fluminense, cujas obras de construção tiveram seu início em Março de 1972.

O Brasil, País do Futuro, imaginado pelo escritor austríaco Stefan Zweig na década de 1940, tornava-se agora nuclear, na década de 1970. Começava, na visão do Governo, o Brasil Novo.                    

OPERAÇÃO MUTUM / O COMUNICADO / A PESQUISA

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(Episódios 14 e 15)

Eu havia acabado de tomar o café da manhã, com meus avós, quando fui informado por um primo, que trabalhava na Prefeitura, de que estaria acontecendo a porta fechadas, no salão solene da Prefeitura Municipal, uma reunião da qual participavam o Prefeito, Dr. Arquimedes de Souza, os três comandantes militares, Major Alfredo, do Exército, Major Lemos, da Aeronáutica e Capitão-de-Fragata Coutinho, o Juiz de Direito Dr. Altamiro Lages, o Presidente da Câmara Municipal Pastor Freitas e outras pessoas de influência na cidade.

Como não podia deixar de ser, a intensa movimentação de tropas militares na região havia despertado a atenção da imprensa regional e, consequentemente, acorreram para Mutum jornalistas de diversas partes, inclusive de emissoras de TV afiliadas às grandes Redes Nacionais de Televisão.

 A Praça Benedito Valadares estava atulhada de gente e de carros, alguns equipados com aparelhagens especiais que os transformavam em verdadeiras estações móveis de Rádio e Televisão. Fios e cabos de todos os tipos, dimensões e tamanhos se espalhavam pelo chão, em várias direções.

Todos da imprensa foram autorizados a assistir a reunião, mas advertidos de que fazer gravações, fazer fotos, bem como filmar não seria permitido.

Durante a reunião, que decorreu em um clima tranquilo, mas cercado de muitos mistérios, foram fornecidas as informações oficiais do Governo sobre o que estava, na realidade, acontecendo naqueles dias em Mutum. Em nome das Forças Armadas falou o Major Alfredo, representante do Exército.

Primeiramente, informou que as Forças Armadas Brasileiras, ali representadas por tropas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, em cumprimento de determinação do Gabinete Militar da Presidência da República, estava assumindo militarmente o comando da cidade, pelo prazo que se fizesse necessário. Tinham como missão efetuar buscas e localização de bombas que tinham sido, acidentalmente, deixadas cair por um avião militar, sobre a cidade.

Explicou então que tropas de combate do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, sediadas no Rio de Janeiro, estavam participando de manobras militares conjuntas de defesa marítima, no litoral do Espírito Santo, juntamente com tropas militares dos Estados Unidos da América do Norte e do Canadá. E que um dos aviões bombardeiros B-26 da FAB, que iria se incorporar às tropas, ao sobrevoar Mutum, sofreu uma pane, e, precisando livrar-se das bombas que transportava, deixou-as cair na região.

Infelizmente, explicou o Major, a localização exata de onde caíram não foi registrada em mapa, como deveria ter ocorrido, em virtude da pane nos aparelhos de registro do vôo. Mesmo assim, podia garantir e garantia que, para a localização e recuperação de todas as bombas, seriam empregados todos os recursos de que dispunham e que esses recursos eram os mais modernos existentes. Assegurou que as bombas eram seguras e seriam encontradas, com certeza, antes que pudessem se tornar um perigo para a população.

 Terminou dizendo que as Forças Armadas brasileiras contavam com a ajuda de toda a população de Mutum, que todos deveriam manter a tranquilidade, bem como evitar situações que pudessem atrapalhar as buscas e a recuperação dos artefatos militares. Terminou sua fala garantindo que, findada a missão com a localização e o recolhimento das bombas, o comando da cidade seria devolvido imediatamente aos civis que a governavam.

Acabada a reunião, tudo o que havia sido nela informado pelo Major Alfredo foi emitido um boletim e distribuído para a imprensa que se incumbiria de divulgar os fatos e a as medidas adotadas pelas autoridades para toda a população. Carros militares, equipados com alto-falantes passaram a percorrer as ruas, em todas as direções, transmitindo de maneira bem clara as informações oficiais.

Agora, sim, eu tinha toda a certeza de que ali havia coisas. A meu ver, não tinha muita lógica o que estava acontecendo.     

As manobras conjuntas envolvendo forças militares brasileiras e estrangeiras remontavam aos tempos da Segunda Guerra Mundial, quando o Presidente Getúlio Vargas assinou uma aliança formal com os Estados Unidos, em 1942. No entanto, aeronaves de guerra americanas, desde maio de 1941, já atravessavam o Atlântico e utilizavam-se das bases aéreas situadas em terras brasileiras para as suas ações.

 É certo que o Alto Comando do Exército brasileiro se posicionava contrário à presença das tropas americanas no território brasileiro. Mas a Marinha de Guerra dos Estados Unidos já estava autorizada pelo Governo do Brasil a utilizar-se dos portos de Recife, em Pernambuco e de Salvador, na Bahia, e o fazia desde 1941. Portanto, os dois Países já mantinham ações militares conjuntas mesmo antes da assinatura oficial da aliança.

Em 1942 o Brasil abriu em definitivo todos os portos e as bases aéreas e navais no seu território para as operações militares das forças do Vice-Almirante Jonas Ingram, Comandante Norte-Americano das tropas do Atlântico Sul.

 Por decisão do Presidente Vargas, o comandante Ingram assumiu também, de maneira informal, o comando de todas as forças aéreas e navais do Brasil, tornando-se, à partir daí, o verdadeiro responsável pela defesa marítima de todo o território  nacional.

 Nesse mesmo ano de 1942, em agosto, o nosso País sofreu as primeiras agressões dos alemães, com o bombardeio de navios brasileiros, no litoral da Bahia e de Sergipe, com centenas de mortos. Reagindo, o Presidente Getúlio Vargas  declarou solenemente  guerra à Alemanha e à Itália. Mas, hoje, ali em Mutum, não estávamos em guerra com ninguém.

            A PESQUISA

Por que as bombas ainda não estavam sendo procuradas, dois dias após terem caído? Por que o Major havia dito que seriam encontradas antes que se tornassem um perigo para a população? A que tipo de perigo ele estava se referindo? Que tipo de bombas eram as que caíram em Mutum? Quantas eram?

Durante o restante do dia dediquei-me a buscar respostas para essas e outras perguntas que não saíam da minha cabeça. Não obtive nenhum resultado satisfatório. Apenas consegui confirmar que estava acontecendo, no litoral capixada, uma manobra conjunta das Forças Armadas brasileiras e americanas, podendo-se, do litoral, observar vários navios de guerra e alguns submarinos em alto mar.

 A informação do Major Alfredo procedia. Ali, no litoral do Espírito Santo estava o início de tudo o que acontecia em Mutum. A operação militar conjunta fora causa de um avião bombardeiro desgarrado da sua esquadrilha lançar bombas sobre a cidade. Mas, que bombas seriam aquelas?

Para entender melhor os fatos e tirar algumas dúvidas e preocupações que insistiam em não me deixar sossegado, fiz contato com a redação do Jornal do Povo, em Belo Horizonte, solicitando a Manfredo Kurt que me enviasse, por fax, todas as informações possíveis sobre o que pensavam os governantes militares sobre a política de segurança nacional.

 A pesquisa foi feita e as informações me foram enviadas, como havia solicitado.

Já fiz alusão antes a momentos da política brasileira em que presenciamos manifestações de grupos favoráveis a que o Brasil, através de sua política externa, se afastasse do capitalismo, representado pelos Estados Unidos da América do Norte e se aproximasse do comunismo, representado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS. Essas manifestações ao se tornarem públicas, em nosso País, começaram a ser vistas por algumas correntes militares, como sendo uma ameaça à soberania nacional.

 A discussão que se impunha, ainda no campo das idéias, fazia-se, em princípio, apenas e tão somente em torno da soberania nacional.

A soberania, para que tenhamos uma melhor compreensão do termo, é una, integral e universal. O que significa que não pode ser relativa, nem condicionada por um poder normativo dominante que a impeça de ser plena.

 As únicas exceções possíveis de aceitação são aquelas que dizem respeito às exigências relativas à convivência pacífica das nações soberanas, previstas no Direito Internacional, regulamentadas pela Organização das Nações Unidas – ONU. Assim, consideravam os nacionalistas que os Estados Unidos, embora representassem o capitalismo em todo o mundo, respeitavam a soberania dos países sob a sua influência, uma vez que essa influência era sentida apenas no campo econômico. Os países do bloco capitalista eram soberanos.

A URSS, pelo contrário, país de dimensão continental criado em 1922, como resultado da Revolução Russa de 1917, formado pela união das repúblicas da Rússia, Ucrânia, Bielorússia, Transcaucásia, Estônia, Lituânia, Letônia, Moldávia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Quirguistão e Tadjiquistão, tinha apenas um Governo Central, localizado em Moscou, na Rússia, conhecido como Soviete Supremo.  Então, logicamente, concluíam os mesmos nacionalistas que os países que compunham o bloco soviético não possuíam soberania.

O Brasil, em todas as vezes em que precisou alinhar-se a um dos blocos de influência no mundo, sempre o fez para figurar ao lado dos Estados Unidos. Como nas ocasiões da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais.

Quando aconteceu a Primeira Guerra Mundial, o Brasil, inicialmente respaldado pela Convenção de Haia, declarou oficialmente sua neutralidade em 4 de agosto de 1914.

 Em 1917, a 11 de abril o Brasil declarou guerra à Alemanha após o navio brasileiro “Paraná”, um dos maiores da marinha mercante brasileira, carregado de café, ser afundado pelos alemães. Três brasileiros foram mortos.

 O Brasil foi o único país latino-americano a participar da Primeira Guerra mundial. Sua participação se deu mediante o envio de alguns pilotos de aviões, navios de guerra e apoio médico. Os brasileiros foram incumbidos do patrulhamento do Atlântico Sul, como forma de impedir o ataque de submarinos alemães.

 Durante a guerra o Brasil aumentou suas exportações para os países beligerantes, principalmente de borracha, cacau, café e açúcar.

Durante a Segunda Guerra Mundial a Força Expedicionária Brasileira – FEB participou da retomada e libertação da Itália pelas tropas aliadas.

A campanha das Forças Armadas Brasileiras – FEB na Europa previa o envio de até 100.000 brasileiros para os campos de batalha. No entanto, envolveu de 1943 até 1945, 25.834 homens e mulheres, divididos em uma Divisão de Infantaria, uma Esquadrilha de Reconhecimento e um Esquadrão de Caças.

MUTUM संचालन

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ट्रॉप्स
(एपिसोड 12 और 13)


जब पहला हेलीकॉप्टर शहर के ऊपर से गुजरा, तो वह लगभग उन्नीस का रहा होगा। वह नगर स्टेडियम गया, जहाँ वह उतरा। इसके तुरंत बाद, और अधिकांश रात के लिए, अन्य लोग पहुंचे। मैंने दस गिने। इनमें से सात बड़े थे, सैनिकों के परिवहन के लिए। बस तीन छोटी, गिलहरी जैसी। सभी ब्राजील के प्रतीक के साथ।
उनमें आप ब्राज़ीलियाई वायु सेना – FAB पढ़ सकते हैं, जिसकी सशस्त्र शाखा एयर ऑपरेशंस कमांड (COMGAR) है, जिसमें सभी वायु इकाइयाँ, हवाई ठिकाने और इसी तरह के निकाय अधीनस्थ हैं।
मुटुम में चलने वाले हेलीकॉप्टर 2 डी वायु सेना या द्वितीय एफए से संबंधित थे, जिसका मुख्यालय रियो डी जेनेरियो शहर में है, जिसमें रोटरी विंग इकाइयां (हेलीकॉप्टर) और खोज और बचाव इकाइयां, समुद्री गश्त और सामान्य रूप से नौसेना का समर्थन शामिल है। , रियो डी जनेरियो में मुख्यालय और रियो डी जनेरियो, मिनस गेरैस और एस्पिरिटो सेंटो के राज्यों पर अधिकार क्षेत्र के साथ III क्षेत्रीय वायु कमान एल – COMAR के अधीनस्थ।
जब मुटुम में चीजें हो रही थीं, उस दिन जब सैन्य विमान द्वारा बम गिराए जाने के बाद, सबसे मजबूत बात सच हो गई, मेरे दिमाग में, मेरे मुख्य संपादक का भाषण, कि वहां चीजें थीं।
जो बात मुझे सबसे ज्यादा असहज कर रही थी, वह यह थी कि बमबारी की घटना के बारे में खबरें आना बंद हो गई थीं, रेडियो और टेलीविजन दोनों पर। वे क्यों बंद हो गए थे? केवल रविवार को दी गई खबर जारी की गई थी। अब और नहीं। कुछ भी नहीं। क्या बम गिराना महत्वपूर्ण नहीं होगा? यदि नहीं, तो संघीय सैनिकों को वहां क्यों भेजा जाए? उस रात की बातचीत में, मुटुम में, ये ऐसे सवाल थे जो बिना किसी को पता चले कि कैसे जवाब दिया जाए।
शहर सोता नहीं था। स्टेडियम, जो सेना के शिविर और वायु सेना के हेलीकॉप्टर स्थित थे, तक पहुँच प्रदान करने के लिए निवासियों को मना किया गया था। भौतिक बाधाओं को रखा गया था, कंटीले तारों के रोल द्वारा प्रबलित और उनके छोर पर सशस्त्र संतरी तैनात थे। क्षेत्र अलग-थलग पड़ गया।
हेलीकॉप्टरों को पास से गुजरते हुए निवासियों की जिज्ञासा बढ़ गई और कई सारी रात रुक गए। इस तरह 30 जून, 1975 को समाप्त हुआ, सोमवार, मुतम में बम गिरने के बाद पहला दिन।

1 जुलाई, 1975
छुट्टी शुरू

अगले दिन, मंगलवार, 1 जुलाई की सुबह व्यस्त हो गई। दो बहुत विशिष्ट कारणों के लिए। कि उनका एक-दूसरे से कोई लेना-देना नहीं था।
पहला, जब कुछ लोगों ने रात बिताई थी, जो छोटे समूहों का निर्माण कर रहे थे, वर्ग की स्थिति के बारे में बात करते हुए, सुबह में सूचना दी कि सुबह के दौरान एक और सैन्य काफिला आया था। इस बार, सेना और वायु सेना में शामिल होने वाले नौसेना के सैनिकों को परिवहन, कार्रवाई में सैन्य कर्मियों की संख्या में वृद्धि और नगर स्टेडियम के सामने चौक को निश्चित रूप से युद्ध चौक में बदलना।
मूटम में तैनात नौसेना की टुकड़ी, जैसा कि मैंने बाद में सीखा, रियो नौसेना के जनेरियो स्थित, दक्षिणपूर्व नौसेना गश्ती दल के अधीनस्थ मरीन कॉर्प्स ग्रुप ऑफ द ईस्ट नेवल जिले के थे, जिसका मिशन समुद्री बचाव और बचाव करना है। , नौसैनिक, तटीय संचालन और नौसैनिक निरीक्षण, मानव जीवन की सुरक्षा और समुद्र में ब्राजील के हितों की सुरक्षा और नियंत्रण के लिए योगदान करने और सुनिश्चित करने के लिए।
ब्राजीलियन नेवी के ब्राजीलियन मरीन कॉर्प्स (CFN) अपनी तत्परता दिखाने के लिए एक लैटिन शब्द – Adsumus – का उपयोग करते हैं। सीएफएन कमांड के अनुसार इसका अर्थ है: “यहां हम हैं”, इस पेशेवर टुकड़ी की तत्परता और स्थायी स्थिति की तत्परता को दर्शाता है।
मुटुम में अपनी उपस्थिति के विशिष्ट मामले में, इसका मिशन सेना और वायु सेना की सैन्य कार्रवाइयों को पूरा समर्थन देना था।
बम गिरने के बाद दूसरे दिन उस सुबह के आंदोलन का दूसरा कारण, छुट्टी पर छात्रों के एक शोर समूह का आगमन था, वायाको मेलो बस पर दो में आना, एक जो रात में रवाना हुआ, मनहुमिरिम से और दूसरा जो चला गया सुबह जल्दी उठना। आखिरकार, स्कूल की छुट्टियां शुरू हुईं और हमेशा की तरह, शहर को महीने भर में बड़ी संख्या में आगंतुकों को प्राप्त करना चाहिए, भूमि के बच्चों के अलावा, जिन्होंने विदेश में अध्ययन किया और प्रत्येक वर्ष जुलाई में अपने परिवारों का आनंद लेने के लिए लौट आए। , मटुम में।
जैसा कि अपेक्षित था, शहर बदल गया था, सरगर्मी और अपनी मुख्य विशेषता खो रही थी, जो कि यह एक शांत शहर था, खाली और शांत सड़कों के साथ। सेना की उपस्थिति और छात्रों के आगमन ने शहर के हर हिस्से में अशांति पैदा कर दी।
(अगले सप्ताह जारी रखने के लिए)

OPERAÇÃO MUTUM – O QUARTEL MILITAR

(Episódio 11)

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Pouco antes de entrarmos em Mutum, nas imediações da encruzilhada que levava ao Distrito de  Ocidente, nos deparamos com um comboio do Exército Brasileiro, formado por três caminhões de transporte de tropas, precedidos por um jipe onde deveria levar, eu supus, algum oficial comandante. Deduzi que deveriam estar se deslocando desde Juiz de Fora, onde estava sediada a IV Divisão de Infantaria da IV Região Militar do Exército, e que a razão para a presença ali, daquela tropa, não seria outra senão a mesma que me fizera viajar tanto, desde Belo Horizonte: a queda as bombas.

Como tínhamos feito apenas uma parada rápida durante toda a viagem, para reabastecer, em Realeza, chegamos à casa dos meus avós pouco depois das dezesseis horas, com o sol ainda alto no céu.

Eu estava ansioso para sair andando pela cidade em busca de informações. Mas não antes de saber, pelo meu avô, que todos na cidade estavam apreensivos, que ninguém sabia direito o que tinha acontecido, que haviam, sim, ouvido o som de um avião sobrevoando Mutum por umas três vezes, no dia anterior, devia ser umas sete horas da noite e que algumas pessoas viram que ele deixava cair alguma coisa sobre a cidade. Mas ninguém identificou o que era nem onde tinha caído.

Só mais tarde, quando a noticia foi divulgada nos rádios e nas TVs ficaram sabendo que se tratava de um avião militar e de bombas.

Minha avó, que estava sentada na varanda da entrada da casa, enquanto meu avô e eu conversávamos na sala, irrompeu ao nosso encontro, dizendo que caminhões cheios de soldados estavam chegando na Praça. Expliquei que já os tinha visto na estrada na chegada e que iria até lá, para saber o que tinham ido fazer em Mutum.

A tropa do exército passou pela Praça Benedito Valadares e dirigiu-se para o espaço existente na frente do Estádio Municipal, na beira do rio, onde montaram acampamento e aquartelaram-se. Fui até lá e consegui, sem muitas dificuldades,  falar com o Major Alfredo, que estava no comando da tropa.

 Ouvi dele a informação de que, por ordens superiores recebidas do Comando do Exército, em Brasília, estavam ali para manter a ordem e prepararem o caminho para uma operação militar que seria realizada, a partir daquela noite.

Nada disse sobre as bombas e quando perguntei delas, virou-me simplesmente as costas sem responder.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – OS FATOS

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(Episódio 10)

Antes de acontecer no Brasil o Golpe Militar que ficou conhecido como Revolução de 1964, assistíamos o surgimento de movimentos populares que questionavam a situação interna do País. Indo além, criticavam a nossa dependência externa, exigindo um rompimento político do governo com os Estados Unidos da América, então considerados opressores pelos líderes nacionalistas, principalmente os estudantes, representados nacional e politicamente pela União Nacional dos Estudantes – UNE, com sede no Rio de Janeiro.

 Ao mesmo tempo, esses mesmos grupos populares reivindicavam fosse feita uma maior inclusão social das camadas mais pobres e trabalhadoras.

 A rejeição declarada aos americanos, chamados pelos estudantes e esquerdistas de “ianques”, era manifestada através da expressão “yanques go home”, que podia ser lida nos muros ao longo do País e ouvida como palavra de ordem nas passeatas de estudantes e trabalhadores, que já se tinham tornavam um fato comum no Governo João Goulart.  Significava “ianques vão para casa”.

A palavra iankee, para pessoas que não são americanas indica qualquer americano. Para um americano, no entanto, um yankee é uma pessoa que vive em um Estado do Norte do País. Para pessoas que vivem no Leste dos Estados Unidos, um yankee é uma pessoa que tem origem ou reside em Nova Inglaterra, região localizada no Nordeste dos Estados Unidos, composta por seis estados – Connecticut, Maine, Massachusetts, Nova Hampshire, Rhode Island, Vermont.

Durante a Guerra de Secessão, entre 1861 e 1865, a palavra yankee foi popularizada pelos sulistas, quando foi usada para referir-se aos soldados nortistas, vitoriosos, e, de uma maneira geral às pessoas que viviam no Norte dos Estados Unidos.

Esses anseios democráticos, no Brasil, tiveram origem na década de 50 avançando pelo inicio dos anos 60 até o advento da Revolução.         

Como não poderia deixar de acontecer, o Governo Militar, após a Revolução de 1964, procurou criar uma Doutrina de Segurança Nacional, que fosse capaz de identificar, apontar e eliminar os possíveis inimigos internos, incluindo-se, aí, naturalmente, todos aqueles que questionassem e criticassem o novo regime, com especial destaque para os reconhecidamente partidários do comunismo.

Para tornar reais as ações que se fariam necessárias para o alcance dos objetivos propostos, foram criados alguns órgãos governamentais especiais, com destaque para o Serviço Nacional de Informações – SNI. Responsável por toda a rede de informações e contra-informações do Governo, o SNI, criado em 1964 e dirigido pelo General Golbery do Couto e Silva, passou a direcionar todas as informações recebidas, diretamente para o Poder Executivo, ou seja, para o Presidente da República.

Ao terminar esta primeira análise sobre o que ocorrera em Mutum, naquele Domingo 29 de Junho de 1975, conclui que, embora a Aeronáutica, responsável pelo avião que sofrera a pane e lançara sobre a cidade as quatro bombas, não tivesse soltado nenhuma nota oficial, com certeza o General Ernesto Geisel, Presidente do Brasil, já estaria a par de tudo. Com certeza o Serviço Nacional de Informações/SNI já o havia informado.

Por que será então que ninguém falava oficialmente? Sendo assim, era muito provável que Manfredo Kurt, o Redator-chefe do Jornal do Povo estivesse certo. “Aí tem coisas” conclui.

 Com os olhos fechados, perguntei ao Francisco Neto em tom de brincadeira –  E aí, Chicão, vamos chegar em Mutum ainda esse mês? – enquanto me ajeitava no banco para tentar cochilar um pouco. Com os olhos semicerrados, deixei o pensamento voar solto em direção a Mutum. Uma lassidão foi tomando conta de meu corpo enquanto o sono se apossava de mim. Francisco Neto não deve ter entendido porque eu estava sorrindo enquanto cochilava no banco do passageiro do fusca.

(Continua na próxima semana)

operação mutum – a viagem

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( Episódio 9 )


30 de junho de  1975

Segunda-feira   

No outro dia, ainda cedo, me dirigi para a redação do Jornal do Povo, onde trabalhava. A noticia do acontecimento em Mutum já se espalhara e todos queriam saber mais de mim sobre o assunto, por eu ser de lá, de Mutum, onde o fato acontecera. Expliquei que havia falado na casa dos meus avós, mas que não sabiam de nada diferente do que tinha sido noticiado.

O Redator-chefe, Manfredo Kurt, com aquele seu jeitão alemão de falar e toda a sua experiência de mais de trinta anos farejando notícias, me chamou em sua sala e me disse de uma forma bem clara “Aí tem coisas. Estou com um pressentimento de que aí tem coisas. Quero que vá lá e veja de perto. Afinal, bombardearam foi a sua cidade, não é mesmo?” 

Não eram ainda dez horas da manhã e eu já estava a caminho, na estrada, conforme determinara o meu chefe de redação, levado pelo Francisco Neto, motorista do Jornal do Povo, em um Fusca, rumo a Mutum.

 Passaríamos por Ouro Preto e Ponte Nova, caminho mais curto, com estrada asfaltada até Manhuaçu. De lá, iríamos por estrada de terra até Mutum, passando por Lajinha. Não acontecendo nenhum imprevisto, chegaríamos a Mutum no mais tardar no final do dia ou no inicio da noite.

Durante a viagem, enquanto Francisco Neto se preocupava exclusivamente em chegar o mais rápido possível a Mutum, eu tentava, na minha cabeça, entender os acontecimentos de uma forma lógica. Mas não me esquecia das palavras de Manfredo Kurt  “aí tem coisas”. Que coisas, eu pensava, poderiam estar escondidas na noticia de que um avião militar havia, durante uma pane, soltado suas bombas sobre Mutum? Que tipo de bombas seriam? Por que a Aeronáutica ainda não soltara nenhuma nota oficial? O que fazia um avião militar sobrevoando a região de Mutum? Por que estava transportando bombas? Quantas bombas?

 Eu, até aquele momento da viagem, não era capaz de responder, com certeza e segurança, a nenhuma das muitas perguntas que até aquele momento formulara em minha mente. Embora pudesse fazer inúmeras conjecturas, com base em informações que eu tinha e que eram, na maioria das vezes, do desconhecimento da maior parte do povo comum.

 Como alguns fatos que serviram de base para o levante militar que derrubou Jango.

(Continua na próxima semana )

operação mutum – O começo de tudo

 

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(Episódio 8)

       29 de junho de1975

        O começo de tudo

No dia 29 de Junho de 1975, um Domingo, eu havia cumprido a mesma rotina de sempre.

Pela manhã, tinha assistido a uma missa solene na Igreja de São José, na Avenida Afonso Pena, entre as Ruas Tamoios e Espírito Santo e almoçado um Kaol no Restaurante Giratório, na Rua Rio de Janeiro, esquina de Praça Sete, no subsolo do Edifício Helena Passig.

 Na parte da tarde, um cochilo em casa, na Rua Itajubá, esquina com Rua Pouso Alegre, na Floresta, um filme no Cine Paladium, na Rua Rio de Janeiro, um chopp no Maleta, na Rua da Bahia. À noite, ver televisão em casa. Rotina, pura rotina.      

Como já era de costume e como gostava de saber quais eram as últimas notícias importantes do dia e de estar sempre ligado em noticiários, eu tinha por hábito assistir, todas as noites, ao Repórter Real, que havia sucedido ao Repórter Esso, na TV Itacolomy.

O Repórter Esso era o principal noticiário televisivo do Brasil até ser extinto, em 1970.  Existiu desde 28 de agosto de 1941, quando foi apresentado pela primeira vez na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, para noticiar principalmente os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial.

Foi criado nos Estados Unidos para difundir propaganda de guerra e era transmitido em quatorze países das Américas através de cinquenta e nove estações de rádios e televisões.   Era patrocinado pela empresa petrolífera americana “Standart Oil Company of Brazil”, conhecida em nosso País como ESSO Brasileira de Petróleo.

Encerrou suas atividades radiofônicas em 31 de dezembro de 1968, com sua última transmissão feita pela Rádio Globo do Rio de Janeiro, mas permaneceu sendo apresentado, nas redes de Televisão, até 31 de dezembro de 1970, quando teve sua última apresentação levada ao ar pela TV TUPI.

Naquela noite de 29 de junho de 1975, um Domingo, as notícias apresentadas pelo Repórter Real estavam dentro do que eu considerava um padrão normal de notícias, sem nada que pudesse ser considerado um destaque especial, daqueles que me fariam parar o que estivesse fazendo para dedicar maior atenção ao que estava sendo noticiado.

Eu estava a caminho da cozinha quando o que ouvi me fez parar e correr para perto da TV. O repórter acabava de anunciar que um avião militar, ao sobrevoar uma cidade do interior de Minas Gerais, havia sofrido uma pane e deixado cair sobre a região as bombas que transportava quando se dirigia para um exercício militar.

 O porta-voz do Governo informou que a Aeronáutica soltaria uma nota oficial assim que estivesse de posse de detalhes da operação.

O que me fez parar a minha caminhada para a cozinha e me colocar ao lado da TV foi a palavra Mutum que eu tinha ouvido, com toda a clareza. “Puta merda, as bombas caíram em Mutum”, eu disse baixinho.

Minha primeira providência foi telefonar para um amigo que trabalhava na redação da Itacolomy, para me inteirar melhor sobre o ocorrido. Ele me informou que a notícia estava sendo divulgada apenas conforme fora informada pelos serviços de divulgação do Governo. Quando perguntei se havia mais alguma coisa, por parte da Aeronáutica, me disse que não havia mais nada além do que fora anunciado no Repórter Real.

 Em seguida, fiz uma ligação para a casa dos meus avós, em Mutum, recebendo a informação de que lá só sabiam do que tinham acabado de ouvir, divulgado pela TV Globo, pela TV Tupi e pela TV Bandeirantes, únicas emissoras de TV que eram captadas na região. Nenhuma outra notícia havia sido divulgada, nem mesmo através das rádios. E que a cidade estava que era uma agitação só. Uma verdadeira loucura, antes nunca visto. disse-me o meu avô.

Como  eram as mesmas informações que eu já tinha ouvido e levando em conta que não me adiantaria fr nada ficar tentando obter mais informações naquela noite, resolvi que o melhor que podia fazer era ir para o meu quarto, dormir e deixar para tentar entender melhor toda a situação no dia seguinte, pela manhã.

Meu sono foi muito agitado e entrecortado de sonhos que mais pareciam pesadelos.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – A VISITA

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(Episódio 7)

Em 1967, quando completava um ano da prisão de Paulo de Sá, seu irmão Carlos recebeu uma importante informação: Paulo havia sido localizado. Estava encarcerado, já por algum tempo no DOPS em Belo Horizonte. O Departamento de Ordem Política e Social: DOPS/MG, criado em 1956, tinha como atribuições gerais, segundo o seu ato constitutivo, a prevenção e repressão dos delitos de caráter político-social, a fiscalização do fabrico, importação, exportação, comércio e uso de armas, munições, explosivos e produtos químicos, a fiscalização das estações ferroviárias, rodoviárias e aeroportos, além da expedição de salvo-conduto em caso de guerra.

O serviço de polícia-política do Estado de Minas Gerais existia desde 1927, com a criação da Delegacia de Segurança Pessoal e Ordem Política e Social, que possuía como atribuições a manutenção da ordem pública, a garantia dos direitos individuais e a investigação de crimes contra a vida e a integridade física.

Extinto em 1931, as suas funções originais, que eram relacionadas à investigação e repressão ao crime político, foram transferidas para a Delegacia de Ordem Pública que se tornou, depois, o temido Departamento de Ordem Política e Social/ DOPS.

Após inteirar-se da situação e confirmar a presença de seu irmão no DOPS, em Belo Horizonte, Carlos de Sá começou então a mover céus e terra para conseguir obter, de alguém e de alguma forma, autorização para visitá-lo na prisão.

 Quis a sorte que a Secretaria de Estado de Educação promovesse, em Belo Horizonte, um curso de treinamento para professores a ser realizado na Faculdade de Educação/FAE, da Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG, através da Campanha de Aperfeiçoamento e Desenvolvimento do Ensino Secundário – CADES, e Carlos de Sá foi um dos indicados, de Mutum, a frequentar o curso, que ocorreria durante todo  o mês de Julho de 1967.

Recém-formado no segundo grau, eu havia também sido indicado para fazer o mesmo curso, uma vez que seria contratado como professor de História e Geografia do curso ginasial, a partir do segundo semestre.

 Outros seis professores de Mutum compunham conosco o grupo a ser treinado.

Uma manhã, antes de iniciar as aulas, quando caminhávamos pelo corredor da FAE, Carlos de Sá segurou-me pelo braço e me disse “preciso da sua ajuda”. Quando perguntei o que acontecera ele me disse que havia sido autorizado a fazer uma visita ao seu irmão, Paulo, na tarde desse mesmo dia. E que havia sido aconselhado, por um amigo deputado estadual, a se fazer acompanhar por mais alguém. Por segurança, me disse. Essa era a ajuda que esperava de mim. Que eu lhe fizesse companhia na ida ao DOPS para visitar o irmão. Aceitei o convite sem nenhuma discussão.

No horário combinado, ressabiados e muito apreensivos, nós dirigimos à sede do DOPS, que estava situado na Avenida Afonso Pena, pouco acima do Instituto de Educação.

Na portaria, apresentamos nossas identidades, passamos por uma revista minuciosa para ver se portávamos alguma arma, assinamos um livro de controle e ficamos aguardando que nos autorizassem a começar a visita.

Alguns minutos se passaram até que um detetive, portando em mãos uma metralhadora, nos fez um sinal para que o acompanhássemos. Descemos uma escada e entramos em uma sala na parte inferior do prédio, uma espécie de porão, sem janelas.

 Lá, sentado em uma cadeira encostada na parede no fundo da sala, estava Paulo de Sá. Algemado. Ficou a nos olhar sem dizer nada. Nós, também, ficamos a observá-lo, calados, sob o impacto da figura que víamos à nossa frente.

Magro, abatido, envelhecido e, em minha opinião, totalmente vencido. Aquele não era o Paulo de Sá que eu conhecera. Aquele não era o Paulo de Sá que nos falava do comunismo avançando sobre os países capitalistas. Aquele Paulo de Sá era outro muito diferente, um desconhecido. Apenas um preso. Vi lágrimas nos olhos do professor Carlos de Sá.

O detetive que nos acompanhava, metralhadora em punho, riu um riso irônico quando percebeu que Carlos de Sá chorava. Ficamos lá os quatro, calados a maior parte do tempo, com o silêncio só sendo quebrado algumas poucas vezes pelos irmãos. A mim não foi permitido dizer alguma coisa. Até que o tempo da visita se esgotou. Dez minutos que me pareceram um século.

Quando deixamos o DOPS, já rua, enquanto caminhávamos de volta  o professor Carlos de Sá me estendeu a mão, agradeceu pela companhia e disse apenas “Graças a Deus o Paulo ainda está vivo”.

Paulo de Sá nunca mais voltou a Havana para terminar o treinamento de guerrilha. Ficou preso até 1979, quando, beneficiado pela Lei de Anistia, deixou os porões sem janelas da repressão e voltou ao encontro de sua família. O professor Carlos de Sá já se havia mudado de Mutum com a família quando o seu irmão Paulo foi solto.  Eu já me formara jornalista e trabalhava em Belo Horizonte.

 Como antes dissera o Nestor, o Brasil continuava dirigido por autoridades militares, que ainda detinham todo o poder político. Como eu pude comprovar aquele dia, ao entrar como visitante, naquele porão, vigiado por aquele detetive que portava nas mãos uma metralhadora e nos lábios um sorriso insolente, irônico, mas superior, por ser ele, durante todo o tempo em que estivemos naquela sala, o único dono da situação. E da verdade. O único reconhecido como autoridade.

      

 

(Continua na próxima semana)

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