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OPERAÇÃO MUTUM -O jogo

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(Episódio 33)
Naquela noite de quarta-feira, como aconteciam todas as noites de quarta e de quinta-feira e nas tardes de sábado e de domingo, um grupo de torcedores se reunia no Bar do Paulo e em outros locais onde havia algum aparelho de televisão exposto ao público, para assistirem a jogos de futebol do campeonato carioca ou paulista ou aos jogos da Seleção Brasileira. Em Mutum só eram captados os sinais da Rede Globo, Rede Tupi e Rede Bandeirantes. Todas com programações diretas do Rio de janeiro e de São Paulo. Os jogos de futebol do Campeonato Mineiro não eram transmitidos ao vivo para Mutum, como eram os campeonatos Carioca e Paulista.
As nove da noite, a Rede Tupi transmitiu o jogo entre Flamengo e Portuguesa, pelo Campeonato Carioca, direto do Maracanã. Ninguém ali, no Bar do Paulo, se preocupava com o que poderia estar acontecendo nas obras da estrada para Lajinha, na beira dos rios São Manoel e Mutum, no quartel dos militares no Estádio Municipal e nem com as bombas perdidas no São Roque.
O que era importante naquela noite para todos nós, eram apenas os lances que iam se desenrolando durante a partida e vistos ao vivo, pela televisão, em Mutum.
Quando o árbitro Arnaldo César Coelho apitou o final da partida,  o Flamengo tinha vencido por 3 a
0, com um gol do Zico, de pênalti e dois gols do Luiz Paulo. O Flamengo jogou com Cantarele, Júnior, Rondineli, Luiz Carlos, Rodrigues Neto, Liminha, Geraldo, Doval (que foi substituído por Toninho), Luisinho, Zico e Luiz Paulo.
O Técnico do Flamengo era Joubert.
A Portuguesa jogou com Íris, Calibé, Daniel, Fernando (que foi substituído por Niltinho), Jurandir, Carlinhos, Dinho, Jair, Carlos Magno, Russo e Filé (substituído por Nivaldo).
O Técnico da Portuguesa era Luis Mariano.
O Bar do Paulo, depois do jogo, foi ficando aos pouco vazio. Restaram apenas uns pobres gatos pingados, entre eles eu, em uma mesa. Enquanto a turma tomava cerveja eu, que não bebia nada que tivesse teor alcoólico, tomava suco e refrigerante enquanto conversávamos sobre assuntos variados. Pura filosofia de botequim. Sabedoria de mesa de bar. Conversa jogada fora. Fofocas, muitas fofocas. Essas, as mais recentes, eu fiquei sabendo através da Fê, que estava sempre muito bem informada. E que havia entrado no bar em determinado momento, me tomado pelo braço e levado com ela até a praça, onde nos sentamos em um banco do jardim.  Ali eu a ouvi.
Os pais da Fernanda, Fé para os amigos, como gostava de dizer, tinham mudado de Mutum para Goiânia quando ela ainda era criancinha, com cinco anos.
O pai, Seu Horácio, tinha sido aprovado em concurso para o INPS e nomeado para a Capital do Estado de Goiás.
A mãe, Dona Carlinha, acompanhou o marido como simples dona de casa. Mas, chegando em Goiânia, conseguiu um lugar como professora municipal. Moraram em Goiás por dezessete anos, até que Seu Horácio conseguiu uma transferência para o Posto do INPS em Ipanema. Mas
preferiram morar em Mutum, onde moravam todos os seus parentes. Seu Horácio trabalhava em Ipanema e passava os finais de semana e os feriados em casa, junto com Dona Carlinha e a Fé. Até que conseguisse transferir-se mais uma vez, esta para Mutum. Ou até que se aposentasse.
Aos vinte e dois anos Fé jurava com os pés juntos que ia fazer dezenove, na maior cara de pau. E fechava a cara se alguém dela duvidasse. Mas todo mundo gostava dela e ninguém queria que ela ficasse aborrecida. Principalmente porque, se ela não gostasse de uma pessoa, ai dela. Ela era viciada em mexerico. E
o vício do mexerico e da bisbilhotice aos olhos da maioria das pessoas mostrava ser muito pior que o pior de qualquer outro vício. Mas a Fé, sempre que ia falar de alguém, se desculpava e começava dizendo “Vão me desculpar, mas embora eu saiba muito pouco de…” e logo soltava a língua pelo tempo que fosse necessário para esgotar todo o assunto sobre aquela pessoa. Depois, reiniciava com outra. Para quem dizia saber muito pouco de um alguém, até que ela estava sempre maravilhosamente bem informada.
Sentado ali naquela quarta-feira, depois de assistir a vitória do meu Flamengo sobre a Portuguesa eu fui sendo atualizado pela minha amiga Fernanda, a Fê, sobre tudo o que eu ainda não sabia de Mutum. No geral, fui me informando dos namoricos escondidos, quem traía quem com quem, quem estava brigado com o marido a ponto de não se falarem mais, mas procurava manter as aparências para que não houvesse escândalos, essas coisas assim. Mexericos.
Em determinado momento me perguntou se eu estava dormindo bem nesses dias que estava passando na casa dos meus avós. Eu lhe disse que sim, que tinha um sono pesado, que quase nunca acordava durante a noite. E que sempre ia me deitar muito tarde, o que me ajudava a pegar no sono logo quando deitava. Ela deu uma gargalhada gostosa e me disse que era muito bom que eu tivesse um sono profundo, por que as noites no quintal da casa do meu avô às vezes eram muito animadas. E que o cachorro que ficava solto lá, o Tigre, que era muito bravo, costumava passar latindo a noite toda. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa ela me explicou.
 O quintal da casa dos meus avós era muito grande, imenso mesmo. Começava na varanda da cozinha e terminava na rua que ficava às margens do rio. Para a proteção do quintal, sempre cheio de galinhas, patos, marrecos, perus, galinhas d’angola, cabritos e um chiqueiro para a criação de porcos, meu avô sempre deixou lá, solto, um cachorro bravo, desses que só ficavam preso, sem ver muita gente estranha. E quando via alguém que não fosse conhecido, quase endoidava. Para evitar problemas com as pessoas que frequentavam a nossa casa, que estava sempre cheia de parentes e de amigos, o quintal era dividido em três partes, separadas por portões. Um, pequeno, que saía da cozinha e, pelo lado esquerdo dava numa horta onde ficava um coqueiro gigantesco, outro, onde ficava a parreira de uvas e o maior, onde ficavam as árvores frutíferas exóticas como carambola, peludinha, manga, graviola, goiaba, bananeiras, cajá-manga e outras.
 Durante o dia o Tigre ficava na parte de baixo do quintal, que era a maior parte. Sempre solto, ele era o rei do pedaço. Muito bravo. Violento, mesmo, reinava absoluto entre os outros animais. Vez por outra matava gatos, gambás e até cobras tapete, que às vezes apareciam no quintal. De noite os portões eram abertos e os quintais ficavam ligados, sem nada que pudesse impedir o Tigre de vigiar desde a porta da cozinha até o final do quintal, lá embaixo.
Segundo me contou a Fê, em algumas noites alguém esperava o Tigre subir para o quintal menor, onde ficava a parreira de uvas, na porta da cozinha, e fechava o portão isolando o quintal de baixo. Aí, então, o quintal da casa dos meus avós passava a ser um local de putaria, da mais pura putaria, com muita foda rolando lá. Uma verdadeira zona.
Quando eu quis saber quem frequentava o quintal ela me disse sorrindo que “eu falo o milagre sem problemas. Só não conto o nome do santo” e riu da minha cara de espanto. E me disse que o coitado do Tigre quase não deixava ninguém dormir de tanto latir e pular feito doido no portão, tentando “pegar o sem vergonha do ladrão de galinhas” que toda semana ia lá e trancava o portão, como diziam a Madrinha Maria e a Elvira, prendendo o Tigre no quintal menor, da cozinha. Foi então me lembrei de um dia em que, numa das minhas idas em férias a Mutum, estava andando pelo quintal quando, no chão, vi uma camisinha usada. Na hora pensei “Mas como essa porcaria veio parar aqui?” e ficara imaginando que alguém a devia ter jogado por cima da cerca. Agora, a Fé acabava de me contar como a camisinha foi parar no quintal da casa dos meus avós.
Também foi pela Fé que fiquei sabendo da história da Mirtes, que morava na Rua da Beira do Rio, onde terminava o nosso quintal.
Quando a Mirtes mudou da roça para a cidade, vieram ela, sua mãe Dona Armênia e um irmão menor, Francisco. Mirtes tinha 12 anos. Seu pai havia sido assassinado em uma tocaia e quem o matara não havia sido encontrado nem descoberto. Os motivos do crime também não eram conhecidos.
Na cidade, Dona Armênia trabalhava como costureira e Mirtes, ainda novinha, já ajudava a mãe vendendo ovos caipira e bolos feitos em casa, de porta em porta. Francisco
tinha uma caixa de engraxate e ficava na praça, engraxando sapatos. Estudavam, os dois, e eram bons alunos. A família de Dona Armênia era respeitada e admirada por todos pelo tanto que trabalhavam. Todos trabalhavam. Essa era a história que todos conheciam. Segundo me disse a Fé, à medida em que crescia, Mirtes ia sendo observada por alguém, uma pessoa com muito poder econômico, que passou a ter por ela um interesse especial. Esse interesse começou em um dia que Mirtes passou por essa pessoa na rua e a cumprimentou, como fazia com todos. Mas o jeito como ela olhou deixou a pessoa agitada. Mirtes tinha, então, quatorze anos. Tinha um corpo bem desenvolvido e estava se tornando uma admirável mulher. Quem não a conhecesse pensaria que ela tivesse uns dezoito a vinte anos. Mas ainda ia fazer quinze. Naquele dia, a pessoa a chamou e perguntou-lhe se sabia fazer unhas. Ela disse que fazia as suas próprias unhas e as da sua mãe. Mas que nunca tinha estudado para isso. A pessoa, então, lhe disse que mais tarde fosse até a sua casa e procurasse a sua esposa. Que ela iria lhe ensinar a fazer unhas direito. Assim começou a história de  Mirtes como manicure e pedicure .
Todos os dias ela ia até a casa da esposa da pessoa – Fê insistia em não dizer o nome “Falo o milagre, mas não conto o nome do santo” – onde ia treinando as técnicas de cuidar das unhas. Das mãos e dos pés. Sempre quando chegava, tinha alguém diferente para lhe servir de cobaia. Em pouco tempo suas habilidades já eram reconhecidas e já era uma profissional. Em uma maleta guardava todo o material que usava para o seu trabalho e logo espalhou pela cidade a notícia de que fazia unhas a domicilio. A maleta, havia sido trazida de São Paulo pela esposa da pessoa, que lhe disse, quando quis saber como faria para pagar “É um presente para você começar a sua carreira” e concluiu “Só quero que venha fazer as minhas unhas todo sábado”. Assim ficaram combinadas.
Quando perguntei a Fê como ela sabia dessa história, ela me disse que a própria Mirtes lhe havia contado. Mas que a maior parte da história só ela sabia. E que muito se falava mas pouco havia de verdade no que os outros diziam. “Maledicências, você sabe como é”, disse sorrindo.
Mirtes não tardou muito para ter um grande número de mulheres que se tornaram suas clientes, para fazer unhas em suas casas, durante toda a semana . Ficava o dia inteiro percorrendo a cidade, de um lado para o outro, trabalhando. Montava os roteiros conforme o agendamento que fazia. Estava começando a ganhar um dinheirinho que já a fizera recuperar a confiança em seu futuro. Pensava em ajudar a mãe e dar uma arrumada na casa.
Tinha quinze anos quando, numa tarde de sábado, estava na casa daquela pessoa, quando começou a cair um temporal daqueles de arrasar o mundo. As duas, ela e a esposa da pessoa, estavam sentadas na varanda interna da casa, fazendo as unhas e conversando animadamente. Na televisão que ficava na sala passava um filme que as duas acompanhavam pela janela que dava da varanda para a sala. Em determinado momento, no filme, dois personagens se beijaram. Ambas, mulheres. Fez-se um estranho silêncio na varanda. As duas olharam-se meio sem jeito. A esposa da pessoa forçou um sorriso e disse a Mirtes que aquela não era a hora apropriada para um beijo daqueles. Mirtes, na sua inocência, respondeu que não via nada demais. Que achava que não precisava ter hora certa para duas pessoas se beijarem. Então a esposa da pessoa perguntou se ela achava normal duas mulheres se beijarem e Mirtes lhe disse que sim, que achava, que até achava bonito. E quando a esposa da pessoa lhe perguntou se teria coragem de beijar outra mulher, Mirtes simplesmente levantou-se do banquinho em que estava sentada, caminhou até onde a esposa da pessoa estava, curvou-se e a beijou na boca, de leve. Foi um beijo rápido, que nem deixou sabor. Depois voltou para o seu banco e continuou a cuidar das unhas da esposa da pessoa.
Segundo a Fê, aquele beijo foi apenas o começo de uma série de beijos que se seguiram ainda naquele dia, na varanda, na sala e, finalmente, no quarto do casal, onde a esposa da pessoa iniciou Mirtes nas coisas de sexo.
Aos quinze anos ela era virgem. Já tinha corpo de mulher, mas nunca tivera namorado. Só havia sido beijada umas poucas vezes, por um rapaz mais audacioso, de Pocrane, que tinha ido jogar futebol em Mutum, num domingo. Mas nem tinha sido beijo direito. Agora, soubera o que era beijar de verdade. Com língua na língua, sendo apertada por outra mulher, sentindo o corpo sendo percorrido por uma boca ávida que a beijava todinha. Ficou sabendo o que é ter tesão, ficar com o meio das pernas pegando fogo, sentir um langor gostoso quando a língua da esposa da pessoa percorreu sua nuca. Pela primeira vez foi desnudada por alguém. E para cada peça de roupa que lhe era tirada do corpo, mais beijos, mais abraços, mais apertos, mas língua a deixa-la inebriada.
Mirtes disse para a Fé que simplesmente, naquele dia, enlouqueceu de prazer, de amor e de paixão. Como a pessoa estava viajando e sua esposa tinha ficado sozinha em casa, Mirtes resolveu ficar para dormir na casa da pessoa, mesmo sem avisar sua mãe. Sabia que ela não se importaria porque ia imaginar que Mirtes estava se abrigando da tempestade na casa de alguma de suas clientes.
Nessa noite fizeram amor, ela e a esposa da pessoa, até se exaurirem. Mirtes nunca mais se esqueceu de tudo o que aconteceu naquele sábado.
Fé me disse que foi a pessoa o primeiro homem a possuir Mirtes. E que acontecera no sábado seguinte àquele em que ela fora iniciada pela sua esposa. Sem nenhum trauma, sem nenhuma traição sem nenhum problema.
Depois de ficar um tempo calada a Fé me disse que qualquer coisa que eu ouvisse ser falado da Mirtes era, na verdade, invenção. Principalmente quando a chamavam de sapatão. Ela não era sapatão. Nem era puta. Nunca tinha feito amor com outra mulher além da esposa da pessoa. E nunca tinha dado para nenhum outro homem a não ser aquela pessoa. Eles simplesmente se amavam. Os três se amavam. Qualquer coisa que eu ouvisse além disso, era a mais pura e deslavada mentira.
Eu fingia estar cada vez mais interessado e ia deixando a Fé falar mais e mais, na empolgação. Foi bem no meio dos fatos mais escabrosos que a Fé deixou escapar uma informação que me fez arregalar os olhos e pedir que repetisse o que dissera. Ela então repetiu que tinha ouvido, segundo ela, de uma autoridade da cidade, que ela não podia dizer quem era, que estavam para acontecer em Mutum algumas prisões que deixariam a todos surpresos e assustados. Quando eu insisti para que ela me esclarecesse melhor, ela simplesmente me disse que era muito discreta e que, embora pudesse me contar os fatos, desta vez ela mesma não sabia quem eram os santos. E, sorrindo, me deu um beijo de boa-noite no rosto e me deixou lá, em um banco da praça, tentando entender sobre o que a Fé estaria falando.
Passava de duas horas da manhã quando deixei a Fé na porta de sua casa e voltei para a casa dos meus avós, ainda pensando naquela história de que haveria algumas prisões na cidade, que a Fé tinha me contado.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – 09 de julho de 1975 – Palomares

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(Episódio 32)
Na quarta-feira, dia 09 de julho, o rio havia baixado de nível sinalizando que não haveria perigo de mais enchente. Um comboio militar seguiu para a região da Invejada, onde recomeçaria a busca das bombas e as máquinas pesadas que tinham chegado durante a noite foram movimentadas para o local onde fariam o trabalho de recuperação da estrada. Mutum agitava-se.
A bronca dada por Manfred Kurt quando da minha última ligação para o Jornal do Povo ainda soava na minha cabeça. Todos nós, do Jornal do Povo, sabíamos dos resultados das suas intuições: ele sempre acertava. Assim, resolvi fazer uma análise de tudo o que tinha acontecido em Mutum e tentar ver alguma coisa que tivesse passado despercebido.  Foi então que resolvi ler, de novo, os jornais que estavam guardados na estante do meu avô. “Alguma coisa não está certa”, pensei. “Cadê a notícia das bombas nos jornais? Não tem nenhuma em nenhum”. Folheei um por um, novamente. Nada. Quando comentei com meu avô ele me disse que estava achando todo aquele negócio das bombas muito estranho. E concluiu dizendo “Imagina se uma bomba dessas fosse atômica”. Aí foi que minha curiosidade despertou de vez. Corri para a estante e comecei a procurar o jornal que me interessava. Quando o achei, li a manchete estampada na primeira página “BRASIL INICIA SEU PROJETO NUCLEAR”.
A notícia tinha sido divulgada na Folha de São Paulo do dia 28 de junho, portanto, um dia antes das bombas serem “perdidas” sobre Mutum por um bombardeiro da Força Aérea Brasileira. “Muita coincidência” pensei. E lembrei-me logo de Manfred Kurt. “Aí tem coisas, com certeza aí tem coisas”. Apanhei uma tesoura e recortei o texto, que dizia:
“O Governo anunciou ontem ao Congresso Nacional e ao povo brasileiro o texto integral do acordo de Cooperação Nuclear assinado às 6 h 45 (hora de Brasília, em Bonn, com a República federal da Alemanha. A comunicação foi lida pelo Senador Virgílio Távora.
Basicamente, o acordo envolve entendimentos que deverão proporcionar ao Brasil a instalação de oito centrais nucleares, uma usina de enriquecimento de urânio, uma companhia de engenharia nuclear e uma companhia de componentes pesados. No conjunto, o programa envolverá investimentos de dez bilhões de dólares (mais de oitenta bilhões de cruzeiros).
Embora o texto oficial do acordo não mencione explicitamente o fato, os “subsídios sobre o acordo Brasil-Alemanha”, divulgados pelo Palácio do Planalto, revelam que o Brasil concordou em submeter suas atividades nucleares ao controle da Agência Internacional de Energia Atômica, órgão da ONU, com o qual nosso País deverá firmar outro acordo, antes de receber qualquer equipamento ou material alemão.
O Secretário de Estado Henry Kissinger enviou uma carta – cujo teor será possivelmente divulgado hoje – ao chanceler Azeredo da Silveira, explicando a posição oficial dos Estados Unidos. (Pág.15”).
Depois de ler e reler inúmeras vezes o que tinha sido divulgado sobre o acordo nuclear assinado entre o Brasil e a Alemanha, comecei a imaginar o que teria acontecido se fosse como disse o meu avô. E se fossem bombas nucleares?
Lembrei-me que já acontecera alguma coisa assim alguns anos antes, na Espanha. Liguei para o Jornal do Povo, em Belo Horizonte
e pedi ao Manfred Kurt que me enviasse informações sobre o que tinha acontecido de semelhante na Espanha. Ele me enviou, via fax da Prefeitura Municipal.
 O artigo que recebi havia sido publicado por Jonas Liasch em uma revista de cultura aeronáutica. O fato tinha acontecido em 1966, em Palomares, na região litorânea da Espanha.
“Durante as décadas de 1950 e 1960, auge da Guerra Fria, tanto as aeronaves soviéticas quanto as americanas carregavam regularmente armas nucleares a bordo, para poder entrar em combate de imediato para “revidar uma agressão”. Naturalmente, um medo era constante: e se uma aeronave armada com bombas nucleares sofresse um acidente?
Os cientistas que projetavam e construíam as bombas tinham essa preocupação e, já que os acidentes com os aviões eram tidos como praticamente inevitáveis, eles projetaram os artefatos de maneira a evitar, a qualquer custo, uma explosão nuclear acidental, que poderia ser catastrófica. De fato, embora tenham ocorrido acidentes, nenhuma bomba nuclear explodiu acidentalmente até hoje. Mesmo assim, é claro que um acidente envolvendo bombas nucleares é um evento dramático, e o que ocorreu em 17 de janeiro de 1966 na costa mediterrânea da Espanha, perto da localidade de Palomares, foi um dos piores.
O acidente envolveu um bombardeiro Boeing B-52G, que transportava quatro bombas termonucleares B28, de 1,5 megatons, e um avião-tanque KC-135, ambos da Força Aérea dos Estados Unidos, que carregava 110 mil litros de combustível. O B-52 tinha decolado da Turquia, junto com outras aeronaves do mesmo grupo, e voavam para sua base na Carolina do Norte, nos Estados Unidos.
As duas aeronaves voavam a cerca de 31 mil pés de altitude sobre o Mar Mediterrâneo, quando se aproximaram para iniciar a operação de reabastecimento, a segunda da missão, às 10 horas e 30 minutos de 17 de janeiro de 1966. O B-52 se aproximou demais, sendo atingido em cheio pelo boom de abastecimento, já estendido pelo operador do avião-tanque, e chocou-se com a barriga do KC-135, que explodiu em seguida, matando seus quatro ocupantes. O B-52 também explodiu, mas 4 dos 7 tripulantes conseguiram escapar, saltando de paraquedas antes da explosão, e não se feriram.
Das quatro bombas nucleares a bordo, três caíram em terra, no vilarejo pesqueiro de Palomares, e uma caiu no mar. Explosivos convencionais em duas das bombas que caíram em terra explodiram, espalhando pela área fragmentos de plutônio, o mais perigoso elemento químico conhecido. Felizmente, e para espanto dos tripulantes sobreviventes do B-52, não houve explosão nuclear.
A Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) rapidamente montou uma operação de guerra para resgatar as bombas nucleares e limpar a área. Três das bombas foram encontradas em menos de 24 horas após o acidente. Duas estavam destruídas e outra estava relativamente intacta. A quarta bomba não foi encontrada, e logo se concluiu que tinha caído no mar.
Os civis da área foram todos evacuados, devido ao perigo dos resíduos de plutônio espalhados pela explosão. As bombas e destroços em terra foram removidos, assim como uma grande quantidade do terreno próximo. Entretanto, 15 por cento do plutônio espalhado pela explosão, aproximadamente por 3 quilômetros
, nunca foi encontrado. O maior problema, entretanto, tinha sido localizar a bomba que caiu no mar.

Em 22 de janeiro, a USAF pediu ajuda ao Secretário da Marinha, e a Marinha despachou para o local nada menos que 19 navios de guerra, para localizar o artefato. Não foi fácil encontrar a bomba.
 Oitenta dias de busca foram necessários até que a mesma foi encontrada por um mini-submarino Alvin, a 869 metros
de profundidade e 5 milhas
náuticas da costa. A bomba foi finalmente recuperada, graças a um aparelho denominado “CURV”, projetado para recuperar torpedos do fundo do mar.”

Terminei a leitura do artigo com a impressão de que os dois fatos estavam muito parecidos, entre si. Era coincidência demais. Tinha alguma coisa que não estava batendo bem na história toda.
Comecei a pensar nas duas situações e algumas coisas pareceram ficar mais claras. “Se o avião chegou a ser visto por algumas pessoas isso quer dizer que estava mais baixo do que os do acidente de Palomares. Os de lá estavam a 31.000 pés o que representa em metros 9.448 mais ou menos. É muita altura para se enxergar a olho vivo. Então o daqui devia estar bem mais baixo. Mas porque será que voava baixo se ainda estava tão longe de Vitória?”
Ao anoitecer o comboio militar não havia retornado e soubemos, por meio de um morador da região onde estava os militares, que tinham montado barracas e passariam a noite acampados perto da Invejada, de onde recomeçariam as buscas pela manhã.
 Os trabalhos estavam sendo dificultados em virtude do lamaçal deixado pela chuvarada e porque alguns pequenos córregos, que eram normalmente mínimos, tinham se transformado em quase rios com corredeiras perigosas, tanto era o volume das águas que tinham adquirido.
Com a queda da barreira na estrada de Lajinha,  a cratera que tinha sido formada e os córregos da região transformados em rios, os caminhões tiveram que ficar muito longe de onde os soldados estavam. Assim, o comando das buscas decidiu que seria melhor acamparem ali mesmo, para continuarem a procurar no outro dia.
Perto de onde estavam acampados os soldados, o trabalho de aterro e recuperação da estrada que havia sido destruída pelo deslizamento da enorme pedra, continuava noite adentro. Enormes refletores tinham sido instalados de forma a permitir que o trabalho não fosse interrompido por falta de iluminação.
Caminhões-caçambas iam e vinham transportando terra vermelha enlameada, que eram retiradas por grandes retro-escavadeiras e tratores de esteira, de um local situado a uns três quilômetros abaixo e despejadas na cratera, onde trabalhavam uma moto niveladora e um rolo compactador.
A estrada não demoraria muito a ser usada novamente.
(Continua na próxima semana)
 
 
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08 de julho de 1975 – A SEREIA

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(EPISÓDIO 31)

Lá por volta do meio-dia o sol mostrou o seu rosto amarelo entre farrapos de nuvens e começou a avançar lentamente no céu, na direção do ocaso. Primeiro, foi como uma dissolução de estrelas no firmamento, que parecia até lavado e ensaboado pela chuva. Depois, uma mancha cobalto estendendo-se para o leste e, por fim, um resplendor rubro-amarelo brotando no horizonte.

 No céu de Mutum o sol mostrou a sua irradiante cara risonha e tudo mudou por completo, tornando-se ou marrom ou verde ou azul. Marrom da terra ainda enlameada. Verde das matas ainda molhadas pela chuva. Azul do céu agora livre das nuvens, relâmpagos e trovões.

O cessar da chuva permitiu que a cidade voltasse a ter o movimento normal dos dias normais de férias. As pessoas voltaram a andar pelas ruas e a praça foi novamente adquirindo vida.

No quartel improvisado no Estádio Municipal, naquele dia, surgiu uma nova preocupação além da principal, que era achar as bombas: o rio.

Com a quantidade de chuva nas cabeceiras dos rios São Manoel e Mutum, o volume de suas águas estava aumentando muito rapidamente e havia grandes chances de que houvesse uma enchente de grandes proporções na cidade. O que poderia se tornar um problema sério para os militares, já que o Estádio Municipal, onde estava instalado o quartel general das tropas, sempre era tomado pelas águas do Rio Mutum, quando enchia demais e saia de sua caixa.

Por determinação do comando geral das tropas, formado pelo Major Alfredo, do Exército, Major Lemos, da Aeronáutica e pelo Capitão de Fragata Coutinho, da Marinha, foram postados observadores às margens do rio para fazerem o monitoramento da elevação do seu nível e possibilitar, se fosse necessário, a movimentação das tropas para outro local mais seguro.

Sempre que havia ameaça de enchente, três locais específicos da cidade viravam atração turística e ficavam cheios de gente observando o rio. A Ponte que dava passagem para o Canto do Rio, a Cachoeira do Balé, na saída para Aimorés e a Rua da Praia, que se chamava realmente Rua Quintino Bocaiúva, onde ficava a casa em que meus pais moraram quando eu era criança. Era lá, na Rua da Praia, que ficava o estádio Municipal, transformado em quartel das tropas militares.

Quando correu a notícia de que o rio estava subindo fui até a Rua da Praia para também ver até onde já havia aumentado. Ao chegar à sua margem, fui invadido por lembranças do tempo em que ficava nadando e brincando em suas águas. Ali, sentindo o cheiro de mato, ouvindo o som borbulhante da correnteza e o frescor das águas, ao pensamento me vieram as inúmeras vezes, em minha infância, em que ajudei meus pais a retirarem de casa tudo o que tinham de valor, antes que o rio invadisse a rua com suas águas.

Nessas ocasiões, a casa dos meus avós, que era na verdade a minha casa, servia de pousada para os meus pais e meus irmãos e para mais duas ou três famílias de amigos deles.

Mesmo sem que houvesse uma combinação, a subida das águas era seguida de um verdadeiro ritual de mudança. Na medida em que o rio ia tomando conta da rua, os moradores iam abandonando as suas casas, um por um. Lembro-me de uma vez em que ninguém pôde continuar em casa. Todos precisaram se retirar. As águas subiram até a metade do morro que levava à Praça Benedito Valadares. De lá podíamos ver que algumas casas ficavam inteiramente debaixo d’água enquanto que de outras só se podia ver os telhados. Algumas pessoas mais experimentadas diziam que as águas, em algumas ocasiões, chegavam a subir até dez metros além do seu nível normal.

Ali, a mais forte das lembranças que me dominou, foi a da Sereia.

Ah, como era linda a Sereia. É claro que esse não era o seu nome real. Chamava-se Totonha ou Antonia, seu nome de verdade.

Morava em uma das ruas que, saindo da Praça Benedito Valadares, terminava na beira do rio, num lugar que chamávamos de prainha, ao lado da Rua Quintino Bocaiúva, que chamávamos de Rua da Praia. Era lá onde ficava o bote de madeira que fazia a travessia para o outro lado do rio, onde havia uma espécie de continuação da cidade. Um lugar com algumas poucas casas, que só podia ser alcançado através do rio, por canoa, já que não tinha nenhuma ponte. Uma fazenda de criação de gado, na realidade.

Era também, na prainha, a parte do rio onde nós, crianças e adolescentes à época, nadávamos. Todos os dias algum de nós, na minha época, se lançava do barranco alto, num salto acrobático, mergulhava na água e seguia nadando até ao outro lado. Lá, na outra margem, uns trinta metros depois, onde havia um espaço largo, sem mato e cheio de areia, saíamos da água, descansávamos e fazíamos o caminho de volta até a margem de onde havíamos saído.

Ah, mas e a Sereia? Bom, a Sereia também usava esse mesmo espaço do rio para nadar. Só que ela o fazia de forma diferente. Não atravessava simplesmente o rio, como era o nosso costume. Ela se lançava na água, nadava até a metade do rio e ficava lá, brincando na correnteza. Mergulhava, sumindo no fundo e voltava, metros abaixo de onde afundara. Nadava contra a correnteza para logo depois deixar-se levar pelas águas, até determinado ponto. Aí, mergulhava de novo e recomeçava tudo outra vez. Ficava horas brincando. Sozinha. Mesmo quando havia alguém na margem, querendo também nadar, ela sempre continuava sozinha. Ninguém, mas ninguém mesmo, entrava na água quando ela estava lá. Uma espécie de respeito ou de acordo tácito, que nunca fora feito, de verdade, mas que todos respeitávamos.

Como ela era? Linda, simplesmente linda. Uma menina morena, queimada de sol, que devia ter, à época, uns dezesseis, dezessete anos, com os olhos muito azuis e sempre mostrando um sorriso, verdadeiramente lindo, no rosto. E o seu corpo era curvilíneo e gingava levemente, com alto chamado sensual, ao andar. A Sereia era uma linda mulher. Muito gostosa, a Sereia.

Vestia-se sempre com vestidos curtos, deixando que víssemos uma boa parte das suas pernas. Tinha coxas bem feitas, como se tivessem sido torneadas por algum artista. Nem finas nem grossas. Mas todos a desejávamos. E gostávamos de vê-la nadando na prainha.

A razão mesmo, para que gostássemos tanto de vê-la nadando no rio era o fato de que, para fazê-lo, usava sempre um vestido branco, fino, que deixava à mostra o seu corpo. Não usava sutiã. Apenas uma calcinha atrevida protegia sua intimidade. Seus peitinhos durinhos eram de uma beleza estonteante e pareciam querer saltar para fora do vestido. Todos adorávamos os peitinhos durinhos da Sereia.

Diziam as más línguas que o respeito que todos demonstravam por ela quando estava nadando, havia sido imposto pela Sereia quando, um dia, logo após ter chegado de mudança para a cidade, entrou pela primeira vez no rio para se banhar e foi assediada por um rapaz folgado, de uma família muito rica. Ele, logo quando a viu nadando, entrou na água atrás dela e tentou bolinar o seu corpo, primeiro de uma forma discreta, mas tornando-se mais abusado e violento quando ela o repeliu. Então, os que assistiam a cena disseram que ela, simplesmente, lhe deu uma tremenda surra que começou na água mesmo e terminou na beira do rio, na areia da praia. Bateu nele sem dó nem piedade até que o deixou quase desmaiado, no chão. Nunca mais ninguém entrou atrás dela, no rio, quando ia nadar. Nascera assim o respeito pelo banho da Sereia. E esse respeito aumentou ainda mais quando disse, mais tarde, que antes de se mudar do Rio de janeiro, onde morava, para Mutum, praticava o que na época era conhecido como artes marciais. Dominava com maestria algumas técnicas de lutas orientais, que envolviam manobras usadas por soldados quando em guerra, para defesa pessoal no corpo a corpo. A Sereia demonstrou, na prática, ser muito capaz de se defender. O rapaz nunca mais foi visto na beira do rio.

Eu a admirava muito e fazia parte do pequeno círculo dos seus amigos. Digo amigos, porque ela tinha muitas amigas que a cercavam de atenção, ouvindo suas histórias sobre o Rio de Janeiro, então recentemente transformado em Estado da Guanabara, mas tinha poucos amigos. Até pouco tempo antes, a cidade maravilhosa fora a Capital Federal. Cheia de encantamentos e de malandragem.

 Ela dizia que havia nascido e morado em um morro, numa das mais conhecidas favelas da cidade, a Favela do Vidigal. Lá, crescera e aprendera a se virar. Ninguém, mas ninguém mesmo, dizia ela, punha nela as mãos sem que ela deixasse. E, se forçasse a barra de forma que ela não gostasse, apanhava pra ver o que era bom.

Como seu amigo, ouvia suas histórias ora acreditando, ora desconfiando que inventava tudo, ora descrendo totalmente do que dizia pelos absurdos dos fatos. Mas nunca dizia a ela o que eu pensava. Respeito. Que era bom e ela gostava.

Um dia, ela me disse que iria receber a visita de um primo, que viria do Rio de janeiro passar uns dias em sua casa e que queria que eu o conhecesse. “Vai conhecer um pouco mais de mim, conhecendo ele”, me disse. Dito e feito.

O primo da Sereia chamava-se Carlos, mas ela o chamava de Carlinhos Maioral. E ele só a chamava de Totonha.

Era um sujeito diferente das pessoas com as quais convivíamos. Tinha uma acentuada preocupação com segurança, ao ponto de não se sentar em nenhum lugar  com as costas viradas para a entrada. Ficava sempre de frente. Gingava muito o corpo ao andar, os braços balançando soltos junto ao corpo, num caminhar típico dos malandros que víamos no cinema. Muito queimado, nos dizia que vivia na praia, na areia, no sol. Que era ali que trabalhava. Junto do povão que gostava do mar. Tudo nele, desde a sua fala até o modo de caminhar e o jeito esquisito de se mostrar assustado com tudo, indicava, sem nenhuma dúvida, que era um tremendo malandro. Era exímio jogador de sinuca. Só perdia quando queria. E só jogava apostando qualquer coisa. Bebida, cigarros, dinheiro. E nunca saia para onde quer que fosse sem levar consigo uma navalha que ficava em um dos seus bolsos. Em suma, Carlinhos parecia perigoso. E era perigoso. Mas me dizia ser meu amigo, que tinha ido com a minha cara, que os nossos santos tinham batido. Mas eu confesso que tinha um pouco de medo dele. O medo é algo que levamos no nosso íntimo, que existe dentro de nós desde que fomos criados. Ter medo é a coisa mais normal do mundo. O importante é não permitir que ele seja maior do que a nossa vontade. Devemos prendê-lo. Não permitir que escape ao nosso controle. Do contrário, será ele quem passará a dominar-nos. Transforma-se em senhor e já nada podemos contra ele. Por isso, eu nunca deixei que o Carlinhos nem a Sereia percebessem o meu temor. “Bom, se ele quer ser meu amigo, que seja”, eu pensava.

Uma noite, o calor insuportável não me deixava dormir e resolvi sair um pouco e fui caminhando pela praça, já vazia. Ao olhar para a rua do rio eu a vi a Sereia caminhando em direção a prainha. Não sei porque alguma coisa me fez segui-la, sem que a deixasse perceber. Vi quando chegou na areia, tirou toda a roupa, jogou de lado e entrou na água. A luz da luz era suficiente para que eu a visse indo ao encontro do Carlinhos, que lá estava, parado, firme, nu, no meio da correnteza. Enquanto eles se abraçavam eu saí rápido de lá, antes que pudessem notar a minha presença.  Depois, uns dois anos depois, a Sereia virou puta na Casa da Dulce, em Governador Valadares.    

Desta vez, embora os rios tivessem ficado muito cheios, não provocaram enchente na Rua da Praia, embora alagassem outras áreas da cidade, em seus arredores.

De qualquer forma, os rios se tornaram uma atração durante todo o tempo em que estiveram recebendo o excesso de águas das chuvas.

Embora a situação na cidade ainda não fosse de todo tranquila, o Comando Militar sediado em Mutum recebeu ordens para realizar o trabalho de recuperação do trecho destruído da estrada que ligava a cidade a Lajinha. Para fazer o trabalho chegaram, logo no começo da tarde, de helicóptero, engenheiros militares especializados na construção e reparação de estradas. Assim, a cidade ganhou novas distrações: a observação da cheia dos rios, a busca pelas bombas e o aterro da cratera aberta na estrada de Lajinha. Eu já me sentia como se estivesse em férias.

Embora alimentando de notícias o Jornal do Povo, em Belo Horizonte, o motivo maior da minha ida a Mutum, que era acompanhar as buscas das bombas perdidas por um avião militar, não evoluía. Apenas duas bombas tinham sido encontradas e as buscas às outras duas estava ficando cada dia mais difícil. Eu sentia, nas vezes em que ligava para a redação, pelo tom de voz empregado por Manfred Kurt, que ele estava ficando cada hora mais irritado com a situação. “Porra, cara, sei que aí tem coisas e você não descobre porra nenhuma, sô. Se vira” dizia ao final de cada conversa.

Já era noite alta quando os caminhões transportando as máquinas que seriam usadas no trabalho de aterro e recuperação da estrada começaram a chegar a Mutum, vindas de Aimorés, para onde tinham sido trazidos de Vitória, por trem. Todos os caminhões e todas as máquinas eram militares.

(Continua na proxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – A CRATERA

                     (Episódio 30)

           1

Sentado na cabine do pesado caminhão camuflado, o Capitão Peixoto não aparentava estar muito feliz. O dia estava frio e a chuva não aparentava querer diminuir. Pelo contrário, a tormenta descia sobre eles. Um relâmpago sulfúreo clareou o céu e as pesadas nuvens roncaram sinistramente, como enorme caixas de ressonância. Como se aquilo fosse algum tipo de sinal, um aguaceiro violento começou a cair.

O grande caminhão REO M-34 roncava o seu potente motor e seguia firme pela estrada de terra, agora puro lamaçal, sem se importar com o que encontrasse pela frente. Era valente e acostumado a terrenos difíceis.

O Exército Brasileiro havia começado a usar os caminhões REO em 1958, quando cerca de 270 foram adquiridos de segunda mão do exército dos Estados Unidos.

O REO M-34 era uma VTNE (Viatura de Transporte não Especializada de 2 ½ Tonelada, de origem americana, que já havia sido utilizado pelo exército brasileiro nas campanhas de apoio aos contingentes enviados pelo Brasil para compor as tropas empregadas na UNEF (United Nation Emergencial Force) nos esforços de pacificação do conflito entre Israel e Egito. No Brasil, os REO M-34 eram utilizados em missões de transporte de tropas, reboque de peças de artilharia e demais funções não especializadas de logística. Essa a razão para estarem ali em Mutum.

                                               2

Encolhido dentro do seu capote militar, o Capitão Peixoto observava o movimento de ir e vir dos limpadores de para-brisa à sua frente, enquanto seus pensamentos vagavam, distantes.

Foi no ano de 1972 que o Capitão Peixoto estivera pela primeira vez em Mutum. Naquela época, estava comandando uma tropa enviada de Juiz de Fora, encarregada de fazer a segurança da cidade durante as eleições municipais. Tinha ficado na cidade por uma semana inteira. Tudo havia transcorrido sem a ocorrência de algum incidente importante que pudesse ameaçar a tranqüilidade do pleito. Quando voltara ao quartel, tinha sido cumprimentado e recebido um elogio a ser acrescentado em sua folha de serviços. Agora, estava ali, novamente, com a missão de comandar os seus homens na procura das bombas perdidas por um avião. “Merda de missão”, pensou. “Só encontramos duas dessas porras de bombas e já tive duas baixas”. Olhando para fora, pela janela do caminhão, disse ao seu motorista, o Soldado Montanha “Vai com cuidado nessa subida, ô caralho. Só falta agora a gente rolar numa ribanceira dessas”. Quando recebera a missão no gabinete do Major Alfredo, este lhe informara que seria uma operação tranqüila e segura, para ser realizada em poucos dias e, com toda a certeza, sem nenhum risco para os seus homens. Agora, estavam ali debaixo de um verdadeiro dilúvio, deslizando na lama e, para piorar tudo, só tinham encontrado duas bombas. Irritado, virou-se e ia dizer alguma coisa ao Soldado Montanha, quando lhe pareceu que o mundo ia acabar.

                                                    3    

O Sargento Pereira destacava-se onde quer que estivesse. Alto, magro, feições angulosas, olhos escuros, jeito impávido e uma grande boca de lábios finos com expressão que até poderia demonstrar alguma simpatia. Mas não era nenhum anjinho o Sargento Pereira. Qualquer pessoa mais esperta saberia logo que ser seu amigo era bom, mas o ter como inimigo era uma coisa muito ruim. Por isso, seus subordinados nem sequer pestanejavam para cumprir todas suas ordens. Não importava quais fossem. Sentado na carroceria junto aos seus comandados o Sargento Pereira parecia absorto e desinteressado de tudo naquela manhã fria e úmida. No entanto, seu olhar acompanhava o que acontecia ao seu redor e os seus sentidos estavam aguçados. Tenso. Parecia pressentir que alguma coisa não ia bem e que algo estava por acontecer. Ninguém dizia uma palavra e o silencio só não era absoluto porque, vez por outra, era quebrado por um trovão que se seguia ao riscar de raios no céu. “Parece até que o mundo vai se acabar em água”, pensou o Sargento Pereira enquanto firmava a vista na abertura da capota, tentando enxergar a estrada. “Que estradinha perigosa essa estradinha de merda. Não consigo ver nada”

Foi quando simplesmente aconteceu.

                                                         4

O Soldado Montanha conduzia o REO com todo o cuidado pela estrada enlameada e tortuosa, atento às grandes poças d’água, esperando sempre encontrar nelas algum buraco. Vez por outra, olhava ao seu lado, onde se encontrava o Capitão Peixoto. Percebera, logo no início da viagem, ainda dentro da cidade, que o capitão não estava bem “Amanheceu com o ovo virado”, pensou. “Vai ficar o tempo todo me enchendo o saco, com certeza”. O Soldado Montanha, no entanto, não podia ficar se preocupando com o que acontecia com o Capitão Peixoto. Tinha que preocupar-se era com a estrada, com a lama e com os buracos, com o Sargento Pereira e os soldados na carroceria.. E com as ribanceiras. Sem contar com as pedras. “Puta que pariu, que pedras mais filhas da puta de grandes” admirava-se ele, olhando aquele grandes blocos de granito, que pareciam pendurar sobre a estrada. “Ah se uma merda dessa rola”. Sentiu um arrepio passar pelo seu corpo. O pesado caminhão subia lentamente, em marcha reduzida, sem nenhuma pressa. O Soldado Montanha parecia também não ter nenhuma pressa em conduzir os seus passageiros ao final da rota traçada pelo Capitão Peixoto. “Vou bem devagar porque estou com muita pressa” disse baixinho despistando um sorriso. “Não adianta nenhuma pressa se a gente não conseguir chegar ao final”.

A chuva era intensa e os limpadores do para-brisa quase não conseguiam afastar a quantidade de água que escorriam, deixando o vidro embaçado. O Soldado Montanha já sentia alguma dificuldade em ver a estrada. Os limpadores estavam funcionando na velocidade máxima e embora fosse dia, os faróis estavam acesos lançando dois fachos de luz à frente do REO.

Ao ouvir o estrondo o Soldado Montanha sentiu que todo o caminhão se sacudiu e pisou instintivamente e violentamente no freio, segurando firmemente o volante. Então, viu que já não tinha mais controle de nada. 

                                               5

O Tenente Filogônio ia sentado na cabine do segundo caminhão que formava o comboio e era conduzido pelo  Soldado Carlúcio.

Por medida de segurança, cada veículo se posicionava a cerca de cinqüenta metros um do outro e, nessa distância, debaixo daquela verdadeira tormenta, só era possível seguir as lanternas traseiras do que ia na frente.

O Soldado Carlúcio ouviu o estrondo ao mesmo tempo em que viu que o Soldado Montanha tinha pisado fundo no freio do caminhão à sua frente. Fez o mesmo com o que estava conduzindo. Com a sua freada, o Tenente Filogônio, que estava cochilando, foi jogado violentamente para a frente, só não se chocando com o parabrisa porque foi impedido pelo cinto de segurança. Mas o seu corpo foi sacolejado violentamente. “Que porra é essa, soldado? Ficou doido?” gritou enquanto procurava se equilibrar. O pesado caminhão ainda patinou por alguns metros, antes de parar atravessado na estrada estreita. Na carroceria, o Sargento Colombo, assim como os soldados, que não esperavam pelo tranco, foram jogados para a frente, caindo uns sobre os outros. Aconteceu, então, com os outros três caminhões um efeito dominó, com cada um parando em seguida ao outro, de uma forma desordenada, na medida em que percebiam que o da frente freara.  

                                                          6

O Soldado Montanha e o Capitão Peixoto, no momento do estrondo, puderam ver, ao mesmo tempo, quando a grande pedra se moveu, no barranco à esquerda, uns cem metros a sua frente. A princípio, lentamente, fazendo descer sobre a estrada uma grande quantidade de barro. Depois, tudo desmoronou e um rio de lama desceu levando tudo o que encontrava pelo caminho. O caminhão, com os freios acionados pelo Soldado Montanha, foi sacudido violentamente e empurrado para trás. O deslizamento não durou mais que alguns poucos segundos. Mas quando terminou, não havia mais estrada por onde passou a lama. Ficara apenas um enorme buraco. Uma imensa cratera. Por pouco o REO 34, conduzido pelo Soldado Montanha, transportando o Capitão Peixoto, o Sargento Pereira e um punhado de soldados, não tinha sido engolido por aquela extraordinária cratera.

Recuperado do susto, o Capitão Peixoto fez uma rápida avaliação da situação de seus homens e, após constatar que nenhum se ferira, acionou por rádio o quartel, em Mutum, relatando os acontecimentos. A ligação pela estrada principal entre Mutum e Lajinha estava até não se sabia quando, interrompida. E terminou o seu comunicado afirmando “Nem a pé se consegue passar mais por aqui”.

Anoitecia quando o comboio retornou ao quartel. Nenhuma outra bomba tinha sido encontrada. A estrada para Lajinha estava interrompida. A chuva não deu tréguas. A Praça ficou vazia. O Bar do Paulo ficou quase sem nenhum movimento. Mas foi lá que me refugiei naquela noite, com um grupo de amigos que, assim como eu, tinham medo de ficar presos em casa quando chovia e corriam para a rua ao som do primeiro trovão. Enquanto houvesse assunto ficaríamos lá, sentados no Bar do Paulo, esperando o dia amanhecer. Quando me recolhi para dormir já passava de quatro horas da manhã e a chuva ainda caia insistente e fria.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – 07 de julho de1975 – O Damista

(Episódio 29)

A segunda-feira amanheceu com o céu encapotado e com fortes pancadas de chuva. Mais uma forte tormenta tropical se anunciava para a região. Eu sabia, por experiência própria, dos tempos que morava em Mutum, que aquele seria um dia para se ficar em casa.

 Em Mutum, quando chove forte, o dia fica muito feio. O melhor a fazer era não sair porque nenhum guarda-chuva iria segurar aquele temporal que estava para cair. Da janela da sala eu observava a praça vazia. Estava absorto, concentrado em meus próprios pensamentos, quando, ao ouvir passos no corredor, virei-me para ver quem estava vindo até onde eu estava e vi meu avô que virou-se e subiu as escadas para o sobrado. Foi ao virar-me de frente para o corredor que percebi, a um canto da sala, a mesa com o tabuleiro de xadrez e de damas. Foi nele que aprendi a jogar com meu tio Levy. Fiquei ali, parado, olhando a mesa, o tabuleiro e as lembranças da minha infância tomaram conta dos meus pensamentos.

Eu tinha naquela época doze anos e passava a maior parte do meu tempo no salão de barbeiro do Zequita, bem ao lado da casa dos meus avós, na Praça. Lá, eu engraxava os sapatos dos clientes da barbearia. O salão tinha uma cadeira de engraxate completa, alta, de metal, duas gavetas grandes onde ficava guardado todo o material necessário para um bom brilho em qualquer tipo de sapato.

Ganhava uma porcentagem por quantidade de pares de sapatos engraxados, o que representava um valor em dinheiro suficiente para os meus gastos com bobagens. E a garantia do ingresso nos domingos para assistir os jogos do Esporte.

Quando não tinha sapatos para engraxar, jogava damas com o Zequita ou com qualquer pessoa que por lá aparecesse e quisesse uma partidinha. Havia bons jogadores, e eu, embora com pouca idade, não fazia feio com nenhum deles. Além do salão do Zequita havia tabuleiros de xadrez e damas em outros locais, como o Clube Recreativo e o Tringolingo, clube que pertencia ao Independente, clube de futebol de rivalizava com o Esporte.

Os melhores jogos aconteciam aos sábados, quando o salão ficava cheio, com todas as cadeiras de barbeiro ocupadas, e nas manhãs de domingo, depois das missas e dos cultos, pois às tardes todos tinham compromisso com o Esporte, com sua camisa vermelha como a do América do Rio de Janeiro ou com o Tringolingo, com sua camisa amarela como a camisa da Seleção Brasileira. O salão sempre fechava as duas da tarde, no domingo, para dar tempo do Zequita ir ver o futebol.

Uma manhã, eu estava no salão quando chegou um senhor para cortar os cabelos e engraxar os sapatos. Enquanto eu engraxava, ele olhava os jogadores de dama com atenção. Era um senhor negro, de uns cinqüenta e poucos anos, risonho e simpático.

Terminou de engraxar e ficou ali por perto do tabuleiro, sapeando. Sapo era como chamávamos quem fica do lado assistindo os jogos quando a gente jogava, torcendo para um ou outro jogador e, às vezes, rindo de uma jogada errada ou até dando palpites quando pensava que havia alguma jogada que o jogador não havia percebido. Muito vezes o jogador adotava um procedimento de era conhecido como enganar o sapo, que era ver uma jogada clara e lógica e fazer uma outra, completamente inesperada, só para ver o sapo chiar e depois o jogador gozar com a sua frustração por não ter feito a jogada que o sapo esperava que fizesse. Era sempre um procedimento perigoso porque, no jogo de damas, não existem, para algumas jogadas, muitas possibilidades de variação sem que a gente se complique. Mas sempre valia a pena provocar o sapo.

Eu me lembro que o senhor cujos sapatos eu acabara de engraxar não demonstrou ser um sapo chato. Esteve durante todo o tempo apenas observando o jogo com um olhar atento, sem nem balançar a cabeça quando uma jogada ou outra provocava a agitação dos sapos.

Quando o tabuleiro ficou livre, ele sentou-se e perguntou com quem poderia jogar uma partidinha. Logo o Zequita olhou para a cadeira de engraxate e vendo que eu não estava engraxando, disse que eu sabia jogar bem e me fez um sinal para aceitar o jogo. 

Os sapos já tinham saído e começamos a jogar com o salão vazio. Nossas primeiras partidas foram pau a pau, sendo decididas sempre nas jogadas finais. Depois, comecei a perder sempre, de forma cada vez mais fácil. Por mais que eu tentasse resistir, não conseguia endurecer mais o jogo. Então eu disse que não tinha mais jeito, que eu não conseguia mais encarar. Então o senhor começou a falar, elogiando a minha forma de jogar e tentando me estimular. E se apresentou.

Ele se chamava Messias, era funcionário dos Correios e Telégrafos em Juiz de Fora, tinha ido a Mutum para um serviço especial de verificação de linhas e disputava, sempre, o Campeonato Brasileiro de Damas. Elogiou mais uma vez o meu jogo e, abrindo uma pasta de couro que levava consigo, nos mostrou alguns recortes de jornais com relatos de torneiro e campeonatos dos quais já participara em vários locais do Brasil, sempre com grande destaque. Ela era, disparado, muito melhor que todos nós, que jogávamos no salão do Zequita. Então, interessou-se em saber onde e como eu aprendera a jogar damas. Eu lhe disse que havia aprendido com o meu tio Levy, com quem jogava dama e xadrez quando ele vinha a Mutum, nos visitar.

O Senhor Messias deu uma risadinha e disse que não era isso que estava perguntando. Quando me mostrei desentendido, ele me explicou que, no início das nossas partidas, eu realmente havia jogado de uma forma atrevida e tão segura que ele ficara surpreso e teve que se esforçar para me vencer. Mas que depois, foi aos poucos estudando o meu jogo e logo, logo, não teve mais nenhuma dificuldade em me dominar. Depois, ele me perguntou se eu lia o Correio da Manhã. Eu disse que sim e ele me perguntou se eu conhecia O Damista e eu confirmei que conhecia.

O Damista era uma seção do jornal carioca Correio da Manhã que trazia o desenho de um tabuleiro de damas, com jogadas para serem estudadas e decoradas, sempre preparadas por alguns dos melhores jogadores do Brasil. Eu tinha me acostumado a recortar e colecionar essas jogadas e depois usá-las contra os meus adversários quando jogava no salão. O Senhor Messias me perguntou se eu tinha guardado alguns daqueles recortes e me pediu para vê-los. Eu, prontamente, corri para buscá-los em minha casa, que era bem ali, ao lado do salão. 

Ele deu-me então as explicações que eu não tinha para o meu desempenho tão irregular, forte no início das partidas e tão fraco ao final.

Dentre os meus recortes havia lances de partidas que eu usara e que tinha sido, para o meu espanto, preparadas e enviadas por alguém que assinava M alguma coisa, isto é Messias de tal, o próprio que estava ali e que tinha jogado comigo. E que passou a me dar uma incrível lavada no tabuleiro de damas assim que identificou, nas minhas jogadas, as suas dicas dadas no Damista. Que eu estudava, recortava, guardava e usava nas minhas partidas contra todo mundo que jogava comigo.

Para que eu não desanimasse por causa do passeio que tinha tomado no salão, o Senhor Messias deu-me de presente um tabuleiro de damas portátil, daqueles que as peças ficam presa ao tabuleiro por um imã e um conselho: “você é um menino inteligente. Continue jogando. E não pare de ler o Damista”.

Um relâmpago riscou o céu e um ensurdecedor trovão sacudiu a casa trazendo-me de volta à realidade daquela manhã chuvosa.

Dali de onde me encontrava, na sala da casa dos meus avós, pude ver quando o comboio militar passou pela praça e se dirigiu para a saída da cidade, na direção de Lajinha. “Vão recomeçar as buscas mesmo com toda essa chuvarada”, eu disse baixinho. “Povo mais doido”, completei.

(Continua na próxima semana)

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OPERAÇÃO MUTUM – A PARADEIRA

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     (Episódio 28)

06 de julho de 1975

Naquela manhã de domingo o sol apareceu forte e brilhante, prometendo esquentar ainda mais, e já passava de meio-dia quando saí do meu quarto e desci para começar a agir. Na sala de visitas da casa dos meus avós, depois de ter tomado um café reforçado na cozinha, apanhei um jornal para ver o que havia de interessante. Era a Folha de São Paulo de Sexta-feira, dia 04.

Em Mutum os jornais não chegavam no mesmo dia em que eram editados. Os exemplares de assinantes eram enviados através dos Correios e podiam demorar até três dias para chegar. Os pacotes avulsos, que se destinavam à venda, chegavam em dois dias. Assim, as notícias mais atuais tinham acontecido há, no mínimo, dois dias. Assim, as pessoas quando liam o jornal, já sabiam de antemão quais eram as principais notícias porque já haviam sido divulgadas nos rádios e pela televisão. No jornal buscavam apenas a confirmação dos fatos com uma maior profundidade. E os comentários dos analistas. Além daquelas notícias que, importantes ou não, por não merecerem maiores destaques, não tinham sido  divulgadas, por outros meios, além do jornal. Para a maioria, no entanto, o jornal servia, mesmo, era para fazer embrulho. Para esse fim era vendido, aos quilos, para os donos de todo o tipo de comércio.

Como sempre fiz, apanhei o jornal, coloquei debaixo do braço e fui ler no banheiro, sentado no vaso. Ali, com certeza, não seria incomodado por ninguém durante a leitura.

Ao ler a data da Folha, comentei baixinho “Vamos ver o que mais aconteceu de importante no mundo na sexta além da morte do Gordo”.

Em Buenos Aires, na Argentina, policiais armados com rifles de grosso calibre tinham cercado a sede da CGT para impedir manifestação contra a política econômica do Governo de María Estela Martínez de Perón, Isabelita, que havia prestado juramento em 29 de junho de 1974 e assumido a Presidência na Casa Rosada, em substituição ao seu marido Juan Domingo Perón, falecido em 1º de julho de 1974, vitimado por um enfarte. Houve um confronto entre manifestantes e militares nas ruas com dezenas de feridos a bala.

Em Portugal o Governo de António Sebastião Ribeiro de Spínola decidiu estatizar todas as emissoras de rádio do País, como forma de controlar os seus opositores.

Na Inglaterra, o Primeiro-Ministro Harold Wilson afirmou que o seu governo trabalhista iria cumprir a meta de não permitir que a inflação ultrapasse os dez por cento, ao defender-se de acusações da líder da oposição conservadora  Margaret Tatcher.

Nos Estados Unidos aconteceram as comemorações pelo 199º aniversário da Independência americana.

Em Nairobi, Uganda, o Presidente Idi Amin comutou as penas de morte de prisioneiros políticos para seis meses de prisão.

Em Londres, na Inglaterra, a polícia intensificou a busca por Ilich Ramírez Sanches, nome verdadeiro de  Carlos “O Chacal” e prendeu três suspeitos de estarem envolvidos com o terrorista venezuelano.

Ao terminar, lembrei-me do Gordo.

Pelo pouco que conhecia do Gordo, pensei comigo, todos esses assuntos seriam excelentes motivos para uma baita discussão.

O Gordo tinha um nível cultural bastante elevado, bem acima da maioria dos amigos que conviviam com ele. Fruto, naturalmente, das leituras feitas dos jornais e das revistas que assinava e que lia, diariamente, na sua loja, quando não estava atendendo a algum freguês. Em Roseiral o Gordo era considerado intelectual. A vila perdia muito culturalmente com a sua morte.

O resto da manhã passou sem que eu percebesse, já que ficara em casa lendo as notícias da Folha.

O Esporte Clube Mutum não jogaria em casa naquele domingo, porque o seu Estádio Municipal estava servindo de Quartel General para as tropas encarregadas de resgatarem as bombas lançadas sobre a cidade. Jogariam em Afonso Cláudio, no Espírito Santo, para onde o time já tinha viajado de madrugada, logo após o fim do baile.

Como também não houve movimentação das tropas militares, o domingo foi de uma completa paradeira. Só as missas nas igrejas católicas e os cultos nas igrejas crentes provocaram algum movimento de pessoas pelas ruas. No mais, o sol, com seus raios fortíssimos cuidou de manter aquela gente da cidade no interior de suas casas, onde a temperatura era mais agradável. Só voltariam a sair quando chegasse a noite, para o footing na praça e as rodas de papo nos bares.

Tinha acabado de almoçar com os meus avós quando ouvi me chamarem na porta da sala. Fui ver quem era e dei de cara com a Alice. “Você prometeu que ia me ver e não foi até agora” me disse sorrindo. “Então, vim ver se ainda estava aqui ou se já tinha voltado pra BH”. Eu a convidei a entrar e ela foi comigo ver meus avós. Ficou lá conversando um pouco com eles enquanto eu trocava de roupa. Depois, saímos.

Fui com Alice a casa dos seus pais e ficamos lá, conversando e tomando café com bolo e broa uma boa parte da tarde.

Estar em companhia da Alice provocava em mim muito  boas lembranças. Mas não tocamos no assunto em nenhum momento, como se tivéssemos combinado que seria assim. O passado era passado. E deveria permanecer no passado. Ou não?

Quando começou a anoitecer deixamos a sua casa e nos dirigimos à Praça. Alice me disse que não me deixaria sair de perto dela enquanto estivesse na Praça, que tínhamos muito o que conversar. Assim, ficamos circulando ao redor do jardim, como a gente costumava fazer quando lá morávamos, tempos atrás. De vez em quando sentávamos em algum banco, quando achávamos algum vazio. Falamos sobre quase tudo. Menos sobre o que nos tinha acontecido. Mais tarde, ela reuniu-se com algumas amigas, eu fui para o Bar do Paulo, ela voltou para a casa dos seus pais e não nos vimos mais naquela noite de domingo.

(Continua na próxima semana)

operação mutum – o luto e a festa

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(Episódio 27)

05 de julho de 1975

  O luto e a festa

O sábado prometia. Afinal, neste dia aconteceriam em Mutum dois eventos que iriam mexer com toda a cidade, embora representassem ao mesmo tempo, um grande paradoxo.

O primeiro ocorreria ao meio dia quando seria realizado o sepultamento de Moisés, O Gordo, que pelo tanto que todos gostavam dele, deveria ter um enterro muito concorrido. Era certo que quase toda a cidade estaria acompanhando o seu ultimo passeio pela cidade, da casa de dona Albertina, tia de Cristina, onde tinha sido feito o velório, durante toda a noite, até o cemitério local situado atrás da Igreja Matriz.

O segundo aconteceria a partir das vinte e duas horas, no Clube Esportivo Mutuense, quando toda a alta sociedade da cidade estaria participando do Baile de Overture das Férias, que ocorria todo primeiro sábado do mês de julho, anualmente, desde 1950. Neste ano estaria sendo comemorado os vinte e cinco anos do baile. Sua importância era tal que só podia ser comparado ao Baile da Despedida que acontecia no último dia de julho. Aos bailes compareciam, além das pessoas importantes de Mutum, representantes das cidades vizinhas. De dez da noite do primeiro sábado até as quatro da manhã do primeiro domingo de julho poucos dormiam na cidade. Exceção feita a Moisés, O Gordo, que pela primeira vez e para todo o sempre deixaria de comparecer ao Baile de Overture das Férias por não poder acordar de seu sono eterno. O que, segundo alguns amigos, bem que podia acontecer.

Seu velório foi, como todos esperavam, um sucesso de público. Durante toda a noite a casa de dona Albertina, tia de Cristina, sua namorada e com quem o Gordo iria casar, com certeza, se não tivesse morrido, ficou apinhada de gente. Seus pais, inconformados com a desgraça que lhes acontecera, lamentavam-se o tempo todo sentados em um quarto, onde eram confortados pelos amigos e parentes que os abraçavam dizendo palavras de apoio ou simplesmente choravam com eles. Cristina, por sua vez, estava inconsolável junto ao caixão exposto na sala, entre velas, de onde não arredou pé a noite toda. Ficou lá, olhando o seu amado, rezando baixinho e, vez por outra, espantando com um gesto de mão algum mosquito mais audacioso que insistia em pousar no coitado do Gordo. Assim transcorreu a noite de sexta-feira e amanheceu o dia de sábado. Como acontece em todo velório, durante toda a noite foram servidas fatias de bolo e café puro ou com leite, além de uma cachacinha para esquentar o povo que tinha ficado lá para velar o Moisés, o Gordo.

Ao sepultamento compareceu tanta gente que, da Rua das Goiabas até a Igreja, onde seria celebrada uma missa de corpo presente, a procissão do enterro demorou mais de duas horas para terminar. Marcado para descer à sepultura às doze horas o corpo do Gordo só foi sepultado quando já passava das quinze. Só então as pessoas desceram o Morro do Cemitério para retornar as suas casas onde, após um merecido descanso, se preparariam para o baile que aconteceria naquela noite. Sem o Gordo. O que era uma pena, diziam seus amigos.

Os bailes anteriores haviam sido um sucesso, com gente vindo de todas as cidades vizinhas e algumas até da Capital. Também, com a fama que a cidade tinha, de ser terra de mulheres bonitas, não era de se espantar.

Desde cedo, mesmo quando esperavam para sepultarem o Gordo, as ruas da cidade  já estavam movimentadas, com rapazes e moças combinando encontros, discutindo roupas e confirmando os pares que estariam rodopiando na pista do clube.

Da janela do sobrado da casa do meu avô eu observava aquele movimento enquanto me preparava para ir ao cemitério. Passara uma parte da noite velando e prestando minhas últimas homenagens ao Gordo, de quem fora amigo. Enquanto observava o ir e vir da rapaziada, pensava em como seria aquela noite. Embora não gostasse de dançar, ia algumas vezes ao clube quando havia bailes apenas para observar e conversar com amigos. Só que desta vez, com a história das bombas, resolvi que não iria ao baile e que ficaria apenas circulando, trocando idéias com quem pudesse conversar.

Como os convites individuais já tinham sido esgotados vários meses antes e todas as mesas, de quatro lugares, haviam sido vendidas, o clube estaria cheio. Em compensação, muitos daqueles que gostariam de ir ao baile, e não poderiam, estariam disponíveis, com certeza, para um bom papo do lado de fora, na praça. 

À noite, fui primeiramente até a porta do clube antes de começar o baile e fiquei um tempo conversando com alguns conhecidos. A conversa quase sempre girava em torno das bombas ou da morte do Gordo.

O baile começou e as músicas executadas pelo conjunto chegava até onde estávamos.  Enquanto o tempo ia passando eu me distraía cada vez mais com as conversas.

O céu já estava se preparando para o amanhecer do domingo quando resolvi ir para a casa dos meus avós dormir um pouco.

O baile começou e as músicas executadas pelo conjunto chegava até onde estávamos.  Enquanto o tempo ia passando eu me distraía cada vez mais com as conversas.

Pouco depois das duas da manhã, quando eu já pensava em ir até o Bar do Paulo, percebi que alguém me chamava, na porta do clube. Fui até lá e me deparei com uma garota que eu conhecia de vista. Aproximei-me e ela perguntou se eu não me importava de acompanha-la até a sua casa, que o imbecil do namorado tinha ficado bêbado e estava dormindo na mesa, que ela estava muito puta da vida com ele e queria ir embora dali o mais rápido possível, antes que ele acordasse. Eu lhe disse que não me incomodava, que não tinha nenhum problema, que seria um prazer e saímos caminhando lado a lado.

Eu já a tinha visto algumas vezes, mas sempre na praça, durante o footing e não sabia onde morava. Apenas me dispus a acompanha-la.

Disse-me que sua casa ficava perto do antigo campo de futebol. Não era nada perto. Praticamente do outro lado da cidade, quase na saída para Lajinha. Perguntei como tinha ido até o clube e me disse que o “filho da puta do corno” do namorado a tinha levado de carro. Dei uma risada e fiz um comentário qualquer sobre o coitado do namorado, e ela ficou um bom tempo recitando todos os palavrões que conhecia. Vi que não o xingava por ela ter bebido muito. Pelo contrário, não se mostrava alta. Xingava o namorado por ter ele bebido demais e dormido em pleno baile. E lá fomos nós seguindo o caminho de sua casa, caminhando devagar e conversando. Pus a mão sobre o seu ombro e ela, encostando-se em mim, passou uma mão pela minha cintura.

Em determinada altura a rua se fez mais escura e com um leve aperto em seu ombro eu a fiz parar, virando-a de frente para mim. Olhou-me como se estivesse surpresa mas não fez nenhum gesto para se afastar. Aproximei o meu rosto e a beijei. A princípio, um beijo leve, discreto. Ela então me abraçou e beijou-me com vontade. Um beijo longo em que nossas línguas se procuraram e se enroscaram ali, no meio da rua onde estávamos parados. Sem nenhuma palavra nos afastamos da rua e nos encostamos em um muro. Ali ficamos abraçados nos beijando cada vez mais intensamente. Ela agarrou-se a mim e quando comecei a tirar sua calcinha me disse um “Não, não podemos. Hoje não. Depois. Outro dia”. Trocamos mais um longo e demorado beijo e voltamos a caminhar abraçados pelo meio da rua. Levei-a até sua casa e posso garantir que ela estava feliz. Tão feliz que já nem mais xingava o namorado. Quanto a mim, desisti de voltar ao clube e fui para o Bar do Paulo esperar terminar o baile. Enquanto caminhava de volta me veio à cabeça um ditado antigo que dizia que água morro abaixo, fogo morro acima e mulher quando quer dar, ninguém consegue segurar. Resolvi não ir ao Bar do Paulo e voltar para casa. Ainda dava para dormir um pouco e estava precisando de um banho depois da noite que tivera. O céu já estava se preparando para o amanhecer do domingo.       

      (Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – O CATARINA

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(Episódio 24)
O Catarina
Num sitiozinho localizado ao pé da Serra do São Roque, distante alguns poucos quilômetros da Pedra Invejada, morava Beniamino, conhecido em Mutum como o “Catarina”, com a esposa Donata. O antigo dono lhe garantira que lá, ao pé da serra, poderia viver tranqüilo. Era tudo o que Seu Beniamino, o “Catarina” queria.
Ele era natural de Santa Catarina, de onde tinha saído ainda jovem para morar em São Paulo
, na Capital. Foi lá, na maior cidade do Brasil que as coisas aconteceram e fizeram Seu Belarmino, o “Catarina” acabar em um sitiozinho em Mutum, de onde podia ver a Invejada.
Em Pedras Grandes
, a cidadezinha onde nascera e morava, ao Sul de Santa Catarina, o jovem Beniamino Galleti Guzzo cresceu na simplicidade de uma família napolitana tradicional. Lá, em Pedras Grandes
, estudou até a conclusão do curso de técnico agrícola. 
Logo em seguida, meteu na cabeça que devia largar a família e mudou-se para São Paulo. Lá trabalhou, estudou e formou-se Engenheiro Agrícola.
Depois de formado foi trabalhar na cidade de  Sertãozinho, em uma fazenda modelo, onde tornou-se responsável pela criação de matrizes de suínos da raça Duroc, onde ficou até 1972. Foi quando conheceu Chico Falador, apelido de Francisco Matias Maia, um fazendeiro de Mutum que havia ido a Sertãozinho comprar uma remessa de porcos de raça, próprios para abate.
Beniamino foi o responsável pela venda, como representante da fazenda em que trabalhava, tendo sido encarregado de acompanhar Chico Falador até Mutum, devendo lá orientar a construção das instalações próprias para a criação dos bichos. Esse processo era previsto para acontecer em um prazo de noventa dias, quando deveriam ser entregues as primeiras matrizes.
Antes de noventa dias passados da chegada de Beniamino ele já decidira que nunca mais voltaria a Sertãozinho e que estava apaixonado pela Donata, filha do italiano Santino, dono da Fábrica de Lacticínios Santa Matilde, assim mesmo com “c” antes do “t”.
Quando Beniamino decidiu que ficaria em Mutum em definitivo, disse para Donata que iria a Pedras Grandes para informar aos pais da sua decisão de casar-se e convida-los para estarem presentes e que a levaria com ele. Foram para São Paulo no carro da companhia onde Beniamino ainda trabalhava. Lá, desligou-se do emprego   e, junto de Donata, tomou um avião para Florianópolis, de onde seguiram de ônibus para Pedras Grandes. Quando retornaram, Beniamino já se considerava mutuense.
Casaram-se ainda em 1972 e foram morar no sitiozinho que Beniamino comprou bem pertinho da Invejada, que segundo ele não o deixava esquecer de Pedras Grandes, ao Sul de Santa Catarina, cidadezinha onde havia nascido.
Foi Beniamino quem encontrou a primeira bomba e avisou ao pessoal do Exército onde ela se achava, numa pequena ravina ao norte das suas terras.
Ele a encontrou por acaso, numa tarde quase noite, quando estava indo verificar o motivo dos seus cães estarem latindo tanto, como se tivessem acuado algum animal estranho, perto da pequena lagoa nos fundos da ravina. O animal estranho era aquele objeto, aquela bomba que não deveria estar ali.
A noticia de que os militares haviam encontrado uma das bombas que procuravam teve, de imediato, dois efeitos práticos: o primeiro, o de confirmar que toda aquela história estranha, de que um avião tinha deixado cair suas bombas em Mutum, era verdadeira. Isso queria dizer a todos que, então, se haviam achado uma das bombas as outras também existiam e precisavam ser encontradas, com toda a certeza. O segundo efeito foi o de provocar, em cada um dos moradores da cidade, uma enorme e voluntariosa vontade de ajudar os militares na procura. Assim, principalmente os jovens estudantes em férias, formaram seus grupos de amigos e se propuseram a trocar a placidez dos dias frios de julho, em que ficavam sem fazer nada de importante, só agitando a cidade ao anoitecer, pela aventura de tornarem-se, quem sabe. Possíveis heróis. Como se fossem, eles próprios, Indiana Jones em busca das bombas perdidas.
Foi esse espírito de aventura, natural nas pessoas mais jovens, que facilitou os acontecimentos que envolveram Cristina Maria Dias.

Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – A PRIMEIRA BOMBA

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(Episódio 23)

A PRIMEIRA BOMBA

Devia ser umas onze horas e eu ainda não havia conversado com ninguém da cidade sobre as bombas. O encontro com Alice tinha mexido com minhas idéias, tirado o meu foco, me distraído. Preciso fazer alguma coisa, pensei. Foi naquele momento em que me decidi por sair e começar a conversar com alguém, que ouvi vozes alteradas. Fui até a porta do bar e vi algumas pessoas agitadas, correndo na direção da Praça da Igreja Matriz. Minha curiosidade levou-me até lá onde me deparei com um caminhão militar coberto por uma lona, cercado de soldados armados que impediam o acesso ao veículo. Quando perguntei o que acontecia informaram-me de que haviam encontrado a primeira bomba e que ela estava dentro daquele caminhão.

 Seria levada para o quartel general, no Estádio, onde ficaria guardada esperando pelas outras, assim que fossem encontradas. Segundo as informações deixadas vazar pelos militares, seria permitido que fosse vista, fotografada e filmada mais tarde, pelo comando geral da operação militar. Lá também seriam prestadas, naquela noite, mais informações sobre tudo o que acontecera até aquele momento.

Pelo resto daquela tarde o meu tempo foi todo direcionado ao que aconteceria à noite, no comando geral da operação de busca às bombas, quando seriam prestados os esclarecimentos que todos queríamos ter.

 A cidade ficou como que virada pelo avesso. Havia, nas ruas, uma agitação incomum. Pessoas iam e viam em todas as direções. Grupinhos se formavam e se dissolviam com a mesma rapidez. Veículos de imprensa se posicionavam de forma a cobrir com suas câmeras e microfones os melhores espaços na Praça Benedito Valadares e nas imediações do Quartel General do Comando Militar, no Estádio Municipal. Eu havia deixado de lado a idéia de conversar com os moradores. Achava melhor esperar pelos acontecimentos que viriam a partir das notícias que nos seriam dadas de forma oficial.

Naquela noite fomos então informados que as bombas deixadas cair sobre Mutum eram do tipo incendiárias. A que nos foi mostrada era uma BINC 200. Sua composição incendiária era o Napalm B, estocável. Segundo foi informado, eram quatro as bombas lançadas sobre Mutum. Uma já havia sido localizada. Restavam ainda três para serem encontradas.

A BINC 200 é uma bomba incendiária projetada para ser utilizada por aeronaves de alto desempenho. No caso de Mutum, um Bombardeiro B-26.

Construída em aço, possui áreas reforçadas capazes de suportar os esforços desenvolvidos durante o vôo. O seu tanque é hermeticamente fechado, o que possibilita o uso de composições incendiárias estocáveis.

Em geral é empregada contra alvos incendiáveis, tais como depósitos de combustíveis, munições e cereais; pátios de estacionamento de aeronaves, etc. Pode também ser empregada contra tropas, caracterizando-se dessa forma como arma antipessoal.

Esses dispositivos incendiários já tinham sido empregados pela FAB cinco anos antes, quando da realização da “Operação Registro” desenvolvida no Vale da Ribeira, em São Paulo, em 1970. Foi a maior mobilização da história do II Exército, quando foram empregados 2954 (dois mil novecentos e cinqüenta e quatro) homens, compostos por membros do Centro de Informações do Exército, regimentos de infantaria e pára-quedistas das forças especiais, policiais da Policia Militar e Rodoviária de São Paulo, DOPs, além da Marinha, com a missão de vasculhar e capturar 9 (nove) integrantes da organização VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) comandados pelo ex Capitão do Exército Carlos Lamarca, que havia instalado naquela região dois centros de treinamento de guerrilha.

A FAB participou ativamente da “Operação Registro” através da 1ª Força Aerotática, comandada pelo Brigadeiro Hipólito e empregando 4 helicópteros e 4 aviões T – 26, além de aviões Bombardeiros B -26.

Durante a “Operação Registro” no Vale da Ribeira foram lançadas pela FAB na região bombas incendiárias de Napalm, do tipo BINC 200. Iguais as que foram deixadas cair por acidente, em Mutum.

Com a intenção de obter informações sobre como tinha sido o achado da primeira BINC 200, dirigi-me ao Hotel Pálace, que hospedava a maioria dos membros da imprensa que tinham acorrido a Mutum, para a cobertura do caso. Lá inteirei-me então de como tudo acontecera.

A primeira bomba tinha sido encontrada por um sitiante chamado Beniamino.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – A “VOLANTE” / O POLICIAMENTO

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( Episódios 20 e 21)

03 de julho de 1975

                           Sexta-feira

                           A “Volante”

O dia nem tinha nascido direito e ainda estava escurão quando as tropas voltaram a se movimentar na direção do São Roque.

Era madrugada do dia 03 de julho, uma sexta-feira e começava o segundo dia das buscas pelas bombas.

A movimentação dos caminhões militares pela praça interrompeu o meu sono e, como não consegui mais voltar a dormir, fui até a janela da sala do sobrado da casa dos meus avós e fiquei observando a agitação provocada pelo comboio que se deslocava lentamente. De onde estava, no alto, pude observar a cidade que começava a despertar. Pareceu-me calma, pacata mesmo. Bem diferente daquela onde vivi os meus primeiros anos de vida. Era uma Mutum brava, como costumavam dizer aqueles que a conheceram naquela época. Meus pensamentos rapidamente voltaram no tempo. Lembrei-me, então de como ajudei o Rolinha a não ser preso.

Era junho de 1953 e ainda me lembro de que fazia frio, como sempre faz frio em Mutum nessa época do ano. Eu faria oito anos de idade em outubro, mas já me considerava grande e muito sabido. Gostava de conversar com meu avô, a quem eu chamava de pai, por ter sido criado por ele desde poucos dias após ter nascido. Minha avó era chamada por mim de mãe. Ambos me acostumaram a participar das refeições na sala de jantar, todos juntos, com lugares já determinados: Dr Bião na cadeira que ficava na cabeceira, meu avô à sua esquerda, minha avó ao lado do meu avô, tendo ao seu lado uma outra cadeira. Do lado direito de onde ficava o Dr. Bião ficavam três outras cadeiras disponíveis para as visitas que porventura chegassem no horário das refeições e, fechando a mesa, a minha cadeira que ficava de frente para o Dr. Bião. Nós dois tínhamos os lugares de mais destaque. Ele, por ser médico e já participar das refeições em nossa casa há mais de cinquenta anos, desde quando meus avós tinham hotel e eu, por ser o neto que meu avô considerava como se fosse o filho mais novo. Me chamava de Meu José. Ali, diariamente, no café da manhã, no almoço e durante o jantar, eu ouvia as conversas, embora delas não participasse a menos que me dirigissem alguma pergunta. O que raramente acontecia. De qualquer forma, só pelo fato de estar fazendo parte da mesa e ouvindo as conversas, eu ia acumulando conhecimentos que não eram comuns para crianças da minha idade. Política local, nacional e mesmo internacional e, principalmente, os casos de medicina comentados pelo Dr. Bião. Na época, a cidade era governada por um prefeito udenista, isto é, filiado a UDN, antiga União Democrática Nacional. Seus opositores eram os pessedistas, aqueles que eram filiados ao PSD, antigo Partido Social Democrático. Havia ainda um outro partido, o PR, Partido Republicano, que era naquela época aliado à UDN. O eleitor udenista era chamado de corta-goela e o pessedista de pica-pau. Eu, embora muito novo, já conhecia praticamente todos os políticos da cidade, identificando-os como udenistas ou pessedistas. Meu avô era udenista. Era também, naquela época, Adjunto de Promotor de Justiça, um cargo existente naquele tempo e que o colocava na respeitável condição de autoridade municipal. Assim, fazia parte do Governo local, junto do Prefeito, do Presidente da Câmara, do Juiz de Paz que substituía o inexistente Juiz de Direito e do Delegado Municipal de Polícia, que era civil e comandava o pequeno batalhão de policiais militares, cujo integrante de maior patente era um Cabo. A força policial era insuficiente para manter a ordem e, como consequência, Mutum tornou-se pouco a pouco uma cidade perigosa, cheia de jagunços, que impunham pela força das armas as suas vontades e as vontades dos fazendeiros que lhes pagassem melhor. Assassinatos eram cometidos sem que alguém fosse preso. A lei do silêncio não permitia denúncias. Famílias eram perseguidas e mudavam-se para outras regiões.

Os moradores da cidade passaram a conviver com indivíduos que andavam pelas ruas portando armas que podiam ser vistas, acintosamente, em coldres presos a cinturões em suas cinturas. Suas figuras nada perdiam em semelhança para as que hoje são vistas nos filmes de faroeste americano, como mocinhos e bandidos. A única diferença era a de que, em Mutum da época da qual estou falando, não havia mocinhos. Os crimes iam se sucedendo e a insegurança passou a ser constante. Nós, as crianças da minha idade, víamos, principalmente na Praça Benedito Valadares, aqueles jagunços e evitávamos ficar onde estivessem. Orientados por nossas famílias, naturalmente. Mas, vez por outra, ouvíamos de alguém os relatos de suas proezas.

Na mesa de jantar da minha casa, ouvindo as conversas de meu avô e de seus convivas, descobri que um dos jagunços, de nome Rolinha, era afilhado de batismo do meu avô. Por isso, eu o via vez ou outra indo lá em casa, tomar a bênção dos meus avós. Chegava sempre cabeça baixa, chapéu de boiadeiro na mão, conversava um pouco e logo se despedia e ia embora. Nessas ocasiões, nunca levava um revólver na cintura.

A situação na cidade tornou-se mais e mais perigosa até que um dia, ao sentar-me à mesa para o jantar, dei falta de meu avô à mesa. Não perguntei por ele mas estranhei sua falta. Quando o Dr. Bião perguntou a minha avó pelo meu avô, ela lhe disse, com a maior naturalidade, que ele tinha ido à tarde do dia anterior a Aimorés, onde ia esperar uma volante que estava vindo de Belo Horizonte para Mutum.

As volantes eram unidades móveis da força policial do Estado, compostas por policiais civis e militares, sob o comando de Delegados da Policia Civil ou Oficiais Militares, que combatiam a bandidagem no interior, em missões especiais, quando solicitados, por ordem direta do Governador, com plenos poderes sobre as autoridades locais, civis ou militares.

A volante havia partido de Belo Horizonte, por trem, com destino a Aimorés, onde fariam baldeação para um caminhão que a levaria ao destino final, que era Mutum. Tinha por missão capturar todos os jagunços que moravam na cidade que possuíssem mandados de prisão expedidos e que já haviam sido denunciados, formal e nominalmente.

É certo que uma operação dessa envergadura, naquela época, não tinha como ser feita totalmente em sigilo. Em algum momento, tinha que haver algum vazamento. Nem que fosse por alguma casualidade, como aconteceu.

 Eu estava brincando na sala da minha casa, bem cedinho, esperando a chegada do Dr. Bião para tomar o café da manhã, quando alguém bateu na porta. Levantei-me, fui ver e dei de cara com o Rolinha. Sorrindo, ele me perguntou: “Cadê o padrinho?” De pronto e sem pestanejar eu lhe disse “Foi pra Aimorés buscar a volante”. Nem entendi porque ele saiu tão depressa e nem entrou para cumprimentar a sua madrinha, minha avó. Quando a minha Madrinha Maria, que cuidava da casa junto com a Elvira, me perguntou quem tinha batido na porta, eu falei que era o Rolinha. Uma delas me perguntou o que ele queria, e, quando  contei a minha conversa com ele, ela só riu e falou “Ah, bem feito. Mas também ficam falando coisas sérias na frente de crianças”. Naquele dia, a volante ainda prendeu muita gente. Mas o Rolinha, e uns amigos mais chegados dele, ninguém entendeu como conseguiram fugir e não serem presos.

A lembrança de como, com a minha inocência dera fuga ao Rolinha e seus amigos, me fez sorrir sozinho. Eu não tive culpa, pensei. Apenas tinha repetido o que tinha ouvido em casa. Lembrei-me também do sermão que tinha ouvido do meu avô. E das recomendações que me fez de nunca, mas nunca mesmo, repetir para ninguém, nem estranho nem conhecido, o teor das conversas que eu vivia ouvindo dentro da nossa casa.

Ainda sorrindo desci do sobrado e fui tomar um banho antes de me dirigir ao Bar do Paulo para um café da manhã, que me deixaria no ponto para iniciar os trabalhos daquele que seria mais um dia de buscas, na região da Serra do São Roque.

O POLICIAMENTO

A ordem pública em Mutum, como na maioria das pequenas cidades do interior de Minas Gerais e do Brasil, era responsabilidade da Polícia Militar e da Polícia Civil. Embora as duas entidades atuem na garantia da segurança dos cidadãos, a Policia Militar e a Polícia Civil apresentam funções diferentes.

A Polícia Militar tem como principal atribuição o policiamento preventivo. Para tanto, atua de forma ostensiva, cuidando do patrulhamento dos locais públicos e da repressão aos danos do patrimônio. Utiliza-se de uniforme próprio, de forma a ser identificada facilmente. Para facilitar a sua ação preventiva, mostra-se presente aos cidadãos de forma a inibir ações criminosas.

A Polícia Civil, também conhecida como Polícia Judiciária é encarregada das investigações criminais, da busca de evidências e provas que possibilitem a solução e elucidação de crimes ou contravenções, com o apontamento dos seus responsáveis. Seus integrantes, na maioria das vezes, usam roupas comuns, sendo conhecidos como paisanos, isto é, aqueles que andam à paisana. A palavra tem sua origem no latim “paganus” que quer dizer “o que não é militar” ou pessoa que não está submetida à organização militar. A expressão “andar á paisana” se aplica ao militar quando não está usando o uniforme.

Em Mutum, em 1975, havia uma Delegacia de Polícia onde atuavam, sob a ordem de um Delegado de Polícia Civil, quatro detetives, que eram chamados de Investigadores. O Delegado era o Dr. Marcônio Carlos de Freitas, um advogado.

O Dr. Marcônio não era Delegado de Carreira, o que significava que não fora nomeado para o cargo após aprovação em Concurso Público. Sua indicação para a nomeação pelo Governador do Estado havia sido feita por políticos que representavam o partido que mandava na política local. Assim, o Dr. Marcônio, de uma maneira geral, agia de forma a não prejudicar aqueles que o haviam indicado, sendo cuidadoso quando de suas investigações para não melindrar os que detinham o poder.

A Polícia Militar em Mutum era composta por dois cabos e doze soldados, comandados pelo Sargento Souza. Todos estavam sob as ordens do Delegado de Polícia. Havia, ainda, um Escrivão de Polícia Civil, quatro carcereiros encarregados de cuidar da guarda dos presos na Cadeia Pública e um Subdelegado, o Senhor Praxedes, que, nas ausências do Dr. Marcônio, era o encarregado de substituí-lo se necessário.

As investigações criminais, transformadas em Inquéritos Policiais eram enviadas ao Ministério Público, representado pelo Promotor de Justiça Dr. Anacleto Peri da Silva, encarregado de proceder ao Processo Criminal e o respectivo envio ao Juiz de Direito, Dr. Altamiro Lages, para as medidas judiciais cabíveis.

Por sua natureza policial estadual e conforme determina a Constituição Federal, a Polícia Militar é uma força  auxiliar e reserva do Exército.

Com a chegada das tropas federais em Mutum e em cumprimento da hierarquia constitucional, o Sargento Souza apresentou-se ao Major Alfredo colocando todos os policiais militares sob o seu comando à disposição das Forças do Exército, recebendo ordens de continuar a fazer o policiamento urbano, reportando ao Comando Militar todas as ações policiais realizadas.

Em todo o tempo que estava em Mutum, o Sargento Souza não reclamava da vida que levava. O comando do policiamento era tranquilo, a cidade estava pacata, o povo era ordeiro. Pedir mais era exagerar na dose, dizia sempre. E ele conhecia bem até os elementos que em algumas ocasiões poderiam dar trabalho. Os maiores arruaceiros eram alguns pés-rapados que, com mínima ou nenhuma posse, enchiam a cara de cachaça nos finais de semana e de vez em quando arranjavam uma briguinha mais sem importância. Aí, tomavam sempre umas bolachas pela cara, de alguém mais sem paciência e nem queixa na Delegacia faziam. Quando alguém chegava a chamar a polícia era só para levar o malfadado, bêbado e com a cara quebrada, para um dos médicos que atendessem mais perto, dar nele uns pontos. Depois, era levado até a sua casa pra curar a bebedeira. Essas brigas de botequim nunca davam cadeia. E, como sempre acontecia, eram esquecidas no outro dia.

Também acontecia muita briga de família, quando marido e mulher se pegavam nos tapas e alguém chamava a polícia. Nesses casos, ele é que gostava de comparecer para dar nos dois brigões uma carrascana daquelas boas, em particular.

Na realidade o Sargento Souza sabia que todos respeitavam o policiamento porque aqueles tempos eram tempos bicudos e a lei era determinada pelos militares. Assim, a Polícia Militar podia muito bem até abusar do poder que ninguém iria reclamar. Ele, zeloso cumpridor da lei, não permitia que seus comandados cometessem nenhum abuso de autoridade. Mas o povo, de tanto acompanhar os acontecimentos pelos noticiários, preferia acreditar que todos os policiais seriam capazes de se excederem no uso da força. Então evitavam correr riscos. E olhavam com uma certa desconfiança e um muito de respeito para os policiais.

Para o Sargento Souza era até muito bom que os militares assumissem o comando da Polícia Militar. Sua responsabilidade diminuiria. O que de fato aconteceu, até o dia em que o Major Alfredo mandou chamá-lo em sua sala improvisada no quartel e lhe disse sem nenhum preâmbulo “Sargento, preciso que me faça um relatório sucinto contendo todas as informações, possíveis e imagináveis, sobre todos os elementos da cidade que possam ser considerados suspeitos de serem comunistas ou de serem simpáticos aos comunistas ou contra o governo revolucionário. Todos os que o possam ser subversivos. Quero esse relatório na minha mesa em doze horas, sem mais demora”.

(Continua na próxima semana)

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