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OPERAÇÃO MUTUM – O CATARINA

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(Episódio 24)
O Catarina
Num sitiozinho localizado ao pé da Serra do São Roque, distante alguns poucos quilômetros da Pedra Invejada, morava Beniamino, conhecido em Mutum como o “Catarina”, com a esposa Donata. O antigo dono lhe garantira que lá, ao pé da serra, poderia viver tranqüilo. Era tudo o que Seu Beniamino, o “Catarina” queria.
Ele era natural de Santa Catarina, de onde tinha saído ainda jovem para morar em São Paulo
, na Capital. Foi lá, na maior cidade do Brasil que as coisas aconteceram e fizeram Seu Belarmino, o “Catarina” acabar em um sitiozinho em Mutum, de onde podia ver a Invejada.
Em Pedras Grandes
, a cidadezinha onde nascera e morava, ao Sul de Santa Catarina, o jovem Beniamino Galleti Guzzo cresceu na simplicidade de uma família napolitana tradicional. Lá, em Pedras Grandes
, estudou até a conclusão do curso de técnico agrícola. 
Logo em seguida, meteu na cabeça que devia largar a família e mudou-se para São Paulo. Lá trabalhou, estudou e formou-se Engenheiro Agrícola.
Depois de formado foi trabalhar na cidade de  Sertãozinho, em uma fazenda modelo, onde tornou-se responsável pela criação de matrizes de suínos da raça Duroc, onde ficou até 1972. Foi quando conheceu Chico Falador, apelido de Francisco Matias Maia, um fazendeiro de Mutum que havia ido a Sertãozinho comprar uma remessa de porcos de raça, próprios para abate.
Beniamino foi o responsável pela venda, como representante da fazenda em que trabalhava, tendo sido encarregado de acompanhar Chico Falador até Mutum, devendo lá orientar a construção das instalações próprias para a criação dos bichos. Esse processo era previsto para acontecer em um prazo de noventa dias, quando deveriam ser entregues as primeiras matrizes.
Antes de noventa dias passados da chegada de Beniamino ele já decidira que nunca mais voltaria a Sertãozinho e que estava apaixonado pela Donata, filha do italiano Santino, dono da Fábrica de Lacticínios Santa Matilde, assim mesmo com “c” antes do “t”.
Quando Beniamino decidiu que ficaria em Mutum em definitivo, disse para Donata que iria a Pedras Grandes para informar aos pais da sua decisão de casar-se e convida-los para estarem presentes e que a levaria com ele. Foram para São Paulo no carro da companhia onde Beniamino ainda trabalhava. Lá, desligou-se do emprego   e, junto de Donata, tomou um avião para Florianópolis, de onde seguiram de ônibus para Pedras Grandes. Quando retornaram, Beniamino já se considerava mutuense.
Casaram-se ainda em 1972 e foram morar no sitiozinho que Beniamino comprou bem pertinho da Invejada, que segundo ele não o deixava esquecer de Pedras Grandes, ao Sul de Santa Catarina, cidadezinha onde havia nascido.
Foi Beniamino quem encontrou a primeira bomba e avisou ao pessoal do Exército onde ela se achava, numa pequena ravina ao norte das suas terras.
Ele a encontrou por acaso, numa tarde quase noite, quando estava indo verificar o motivo dos seus cães estarem latindo tanto, como se tivessem acuado algum animal estranho, perto da pequena lagoa nos fundos da ravina. O animal estranho era aquele objeto, aquela bomba que não deveria estar ali.
A noticia de que os militares haviam encontrado uma das bombas que procuravam teve, de imediato, dois efeitos práticos: o primeiro, o de confirmar que toda aquela história estranha, de que um avião tinha deixado cair suas bombas em Mutum, era verdadeira. Isso queria dizer a todos que, então, se haviam achado uma das bombas as outras também existiam e precisavam ser encontradas, com toda a certeza. O segundo efeito foi o de provocar, em cada um dos moradores da cidade, uma enorme e voluntariosa vontade de ajudar os militares na procura. Assim, principalmente os jovens estudantes em férias, formaram seus grupos de amigos e se propuseram a trocar a placidez dos dias frios de julho, em que ficavam sem fazer nada de importante, só agitando a cidade ao anoitecer, pela aventura de tornarem-se, quem sabe. Possíveis heróis. Como se fossem, eles próprios, Indiana Jones em busca das bombas perdidas.
Foi esse espírito de aventura, natural nas pessoas mais jovens, que facilitou os acontecimentos que envolveram Cristina Maria Dias.

Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – A PRIMEIRA BOMBA

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(Episódio 23)

A PRIMEIRA BOMBA

Devia ser umas onze horas e eu ainda não havia conversado com ninguém da cidade sobre as bombas. O encontro com Alice tinha mexido com minhas idéias, tirado o meu foco, me distraído. Preciso fazer alguma coisa, pensei. Foi naquele momento em que me decidi por sair e começar a conversar com alguém, que ouvi vozes alteradas. Fui até a porta do bar e vi algumas pessoas agitadas, correndo na direção da Praça da Igreja Matriz. Minha curiosidade levou-me até lá onde me deparei com um caminhão militar coberto por uma lona, cercado de soldados armados que impediam o acesso ao veículo. Quando perguntei o que acontecia informaram-me de que haviam encontrado a primeira bomba e que ela estava dentro daquele caminhão.

 Seria levada para o quartel general, no Estádio, onde ficaria guardada esperando pelas outras, assim que fossem encontradas. Segundo as informações deixadas vazar pelos militares, seria permitido que fosse vista, fotografada e filmada mais tarde, pelo comando geral da operação militar. Lá também seriam prestadas, naquela noite, mais informações sobre tudo o que acontecera até aquele momento.

Pelo resto daquela tarde o meu tempo foi todo direcionado ao que aconteceria à noite, no comando geral da operação de busca às bombas, quando seriam prestados os esclarecimentos que todos queríamos ter.

 A cidade ficou como que virada pelo avesso. Havia, nas ruas, uma agitação incomum. Pessoas iam e viam em todas as direções. Grupinhos se formavam e se dissolviam com a mesma rapidez. Veículos de imprensa se posicionavam de forma a cobrir com suas câmeras e microfones os melhores espaços na Praça Benedito Valadares e nas imediações do Quartel General do Comando Militar, no Estádio Municipal. Eu havia deixado de lado a idéia de conversar com os moradores. Achava melhor esperar pelos acontecimentos que viriam a partir das notícias que nos seriam dadas de forma oficial.

Naquela noite fomos então informados que as bombas deixadas cair sobre Mutum eram do tipo incendiárias. A que nos foi mostrada era uma BINC 200. Sua composição incendiária era o Napalm B, estocável. Segundo foi informado, eram quatro as bombas lançadas sobre Mutum. Uma já havia sido localizada. Restavam ainda três para serem encontradas.

A BINC 200 é uma bomba incendiária projetada para ser utilizada por aeronaves de alto desempenho. No caso de Mutum, um Bombardeiro B-26.

Construída em aço, possui áreas reforçadas capazes de suportar os esforços desenvolvidos durante o vôo. O seu tanque é hermeticamente fechado, o que possibilita o uso de composições incendiárias estocáveis.

Em geral é empregada contra alvos incendiáveis, tais como depósitos de combustíveis, munições e cereais; pátios de estacionamento de aeronaves, etc. Pode também ser empregada contra tropas, caracterizando-se dessa forma como arma antipessoal.

Esses dispositivos incendiários já tinham sido empregados pela FAB cinco anos antes, quando da realização da “Operação Registro” desenvolvida no Vale da Ribeira, em São Paulo, em 1970. Foi a maior mobilização da história do II Exército, quando foram empregados 2954 (dois mil novecentos e cinqüenta e quatro) homens, compostos por membros do Centro de Informações do Exército, regimentos de infantaria e pára-quedistas das forças especiais, policiais da Policia Militar e Rodoviária de São Paulo, DOPs, além da Marinha, com a missão de vasculhar e capturar 9 (nove) integrantes da organização VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) comandados pelo ex Capitão do Exército Carlos Lamarca, que havia instalado naquela região dois centros de treinamento de guerrilha.

A FAB participou ativamente da “Operação Registro” através da 1ª Força Aerotática, comandada pelo Brigadeiro Hipólito e empregando 4 helicópteros e 4 aviões T – 26, além de aviões Bombardeiros B -26.

Durante a “Operação Registro” no Vale da Ribeira foram lançadas pela FAB na região bombas incendiárias de Napalm, do tipo BINC 200. Iguais as que foram deixadas cair por acidente, em Mutum.

Com a intenção de obter informações sobre como tinha sido o achado da primeira BINC 200, dirigi-me ao Hotel Pálace, que hospedava a maioria dos membros da imprensa que tinham acorrido a Mutum, para a cobertura do caso. Lá inteirei-me então de como tudo acontecera.

A primeira bomba tinha sido encontrada por um sitiante chamado Beniamino.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – A “VOLANTE” / O POLICIAMENTO

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( Episódios 20 e 21)

03 de julho de 1975

                           Sexta-feira

                           A “Volante”

O dia nem tinha nascido direito e ainda estava escurão quando as tropas voltaram a se movimentar na direção do São Roque.

Era madrugada do dia 03 de julho, uma sexta-feira e começava o segundo dia das buscas pelas bombas.

A movimentação dos caminhões militares pela praça interrompeu o meu sono e, como não consegui mais voltar a dormir, fui até a janela da sala do sobrado da casa dos meus avós e fiquei observando a agitação provocada pelo comboio que se deslocava lentamente. De onde estava, no alto, pude observar a cidade que começava a despertar. Pareceu-me calma, pacata mesmo. Bem diferente daquela onde vivi os meus primeiros anos de vida. Era uma Mutum brava, como costumavam dizer aqueles que a conheceram naquela época. Meus pensamentos rapidamente voltaram no tempo. Lembrei-me, então de como ajudei o Rolinha a não ser preso.

Era junho de 1953 e ainda me lembro de que fazia frio, como sempre faz frio em Mutum nessa época do ano. Eu faria oito anos de idade em outubro, mas já me considerava grande e muito sabido. Gostava de conversar com meu avô, a quem eu chamava de pai, por ter sido criado por ele desde poucos dias após ter nascido. Minha avó era chamada por mim de mãe. Ambos me acostumaram a participar das refeições na sala de jantar, todos juntos, com lugares já determinados: Dr Bião na cadeira que ficava na cabeceira, meu avô à sua esquerda, minha avó ao lado do meu avô, tendo ao seu lado uma outra cadeira. Do lado direito de onde ficava o Dr. Bião ficavam três outras cadeiras disponíveis para as visitas que porventura chegassem no horário das refeições e, fechando a mesa, a minha cadeira que ficava de frente para o Dr. Bião. Nós dois tínhamos os lugares de mais destaque. Ele, por ser médico e já participar das refeições em nossa casa há mais de cinquenta anos, desde quando meus avós tinham hotel e eu, por ser o neto que meu avô considerava como se fosse o filho mais novo. Me chamava de Meu José. Ali, diariamente, no café da manhã, no almoço e durante o jantar, eu ouvia as conversas, embora delas não participasse a menos que me dirigissem alguma pergunta. O que raramente acontecia. De qualquer forma, só pelo fato de estar fazendo parte da mesa e ouvindo as conversas, eu ia acumulando conhecimentos que não eram comuns para crianças da minha idade. Política local, nacional e mesmo internacional e, principalmente, os casos de medicina comentados pelo Dr. Bião. Na época, a cidade era governada por um prefeito udenista, isto é, filiado a UDN, antiga União Democrática Nacional. Seus opositores eram os pessedistas, aqueles que eram filiados ao PSD, antigo Partido Social Democrático. Havia ainda um outro partido, o PR, Partido Republicano, que era naquela época aliado à UDN. O eleitor udenista era chamado de corta-goela e o pessedista de pica-pau. Eu, embora muito novo, já conhecia praticamente todos os políticos da cidade, identificando-os como udenistas ou pessedistas. Meu avô era udenista. Era também, naquela época, Adjunto de Promotor de Justiça, um cargo existente naquele tempo e que o colocava na respeitável condição de autoridade municipal. Assim, fazia parte do Governo local, junto do Prefeito, do Presidente da Câmara, do Juiz de Paz que substituía o inexistente Juiz de Direito e do Delegado Municipal de Polícia, que era civil e comandava o pequeno batalhão de policiais militares, cujo integrante de maior patente era um Cabo. A força policial era insuficiente para manter a ordem e, como consequência, Mutum tornou-se pouco a pouco uma cidade perigosa, cheia de jagunços, que impunham pela força das armas as suas vontades e as vontades dos fazendeiros que lhes pagassem melhor. Assassinatos eram cometidos sem que alguém fosse preso. A lei do silêncio não permitia denúncias. Famílias eram perseguidas e mudavam-se para outras regiões.

Os moradores da cidade passaram a conviver com indivíduos que andavam pelas ruas portando armas que podiam ser vistas, acintosamente, em coldres presos a cinturões em suas cinturas. Suas figuras nada perdiam em semelhança para as que hoje são vistas nos filmes de faroeste americano, como mocinhos e bandidos. A única diferença era a de que, em Mutum da época da qual estou falando, não havia mocinhos. Os crimes iam se sucedendo e a insegurança passou a ser constante. Nós, as crianças da minha idade, víamos, principalmente na Praça Benedito Valadares, aqueles jagunços e evitávamos ficar onde estivessem. Orientados por nossas famílias, naturalmente. Mas, vez por outra, ouvíamos de alguém os relatos de suas proezas.

Na mesa de jantar da minha casa, ouvindo as conversas de meu avô e de seus convivas, descobri que um dos jagunços, de nome Rolinha, era afilhado de batismo do meu avô. Por isso, eu o via vez ou outra indo lá em casa, tomar a bênção dos meus avós. Chegava sempre cabeça baixa, chapéu de boiadeiro na mão, conversava um pouco e logo se despedia e ia embora. Nessas ocasiões, nunca levava um revólver na cintura.

A situação na cidade tornou-se mais e mais perigosa até que um dia, ao sentar-me à mesa para o jantar, dei falta de meu avô à mesa. Não perguntei por ele mas estranhei sua falta. Quando o Dr. Bião perguntou a minha avó pelo meu avô, ela lhe disse, com a maior naturalidade, que ele tinha ido à tarde do dia anterior a Aimorés, onde ia esperar uma volante que estava vindo de Belo Horizonte para Mutum.

As volantes eram unidades móveis da força policial do Estado, compostas por policiais civis e militares, sob o comando de Delegados da Policia Civil ou Oficiais Militares, que combatiam a bandidagem no interior, em missões especiais, quando solicitados, por ordem direta do Governador, com plenos poderes sobre as autoridades locais, civis ou militares.

A volante havia partido de Belo Horizonte, por trem, com destino a Aimorés, onde fariam baldeação para um caminhão que a levaria ao destino final, que era Mutum. Tinha por missão capturar todos os jagunços que moravam na cidade que possuíssem mandados de prisão expedidos e que já haviam sido denunciados, formal e nominalmente.

É certo que uma operação dessa envergadura, naquela época, não tinha como ser feita totalmente em sigilo. Em algum momento, tinha que haver algum vazamento. Nem que fosse por alguma casualidade, como aconteceu.

 Eu estava brincando na sala da minha casa, bem cedinho, esperando a chegada do Dr. Bião para tomar o café da manhã, quando alguém bateu na porta. Levantei-me, fui ver e dei de cara com o Rolinha. Sorrindo, ele me perguntou: “Cadê o padrinho?” De pronto e sem pestanejar eu lhe disse “Foi pra Aimorés buscar a volante”. Nem entendi porque ele saiu tão depressa e nem entrou para cumprimentar a sua madrinha, minha avó. Quando a minha Madrinha Maria, que cuidava da casa junto com a Elvira, me perguntou quem tinha batido na porta, eu falei que era o Rolinha. Uma delas me perguntou o que ele queria, e, quando  contei a minha conversa com ele, ela só riu e falou “Ah, bem feito. Mas também ficam falando coisas sérias na frente de crianças”. Naquele dia, a volante ainda prendeu muita gente. Mas o Rolinha, e uns amigos mais chegados dele, ninguém entendeu como conseguiram fugir e não serem presos.

A lembrança de como, com a minha inocência dera fuga ao Rolinha e seus amigos, me fez sorrir sozinho. Eu não tive culpa, pensei. Apenas tinha repetido o que tinha ouvido em casa. Lembrei-me também do sermão que tinha ouvido do meu avô. E das recomendações que me fez de nunca, mas nunca mesmo, repetir para ninguém, nem estranho nem conhecido, o teor das conversas que eu vivia ouvindo dentro da nossa casa.

Ainda sorrindo desci do sobrado e fui tomar um banho antes de me dirigir ao Bar do Paulo para um café da manhã, que me deixaria no ponto para iniciar os trabalhos daquele que seria mais um dia de buscas, na região da Serra do São Roque.

O POLICIAMENTO

A ordem pública em Mutum, como na maioria das pequenas cidades do interior de Minas Gerais e do Brasil, era responsabilidade da Polícia Militar e da Polícia Civil. Embora as duas entidades atuem na garantia da segurança dos cidadãos, a Policia Militar e a Polícia Civil apresentam funções diferentes.

A Polícia Militar tem como principal atribuição o policiamento preventivo. Para tanto, atua de forma ostensiva, cuidando do patrulhamento dos locais públicos e da repressão aos danos do patrimônio. Utiliza-se de uniforme próprio, de forma a ser identificada facilmente. Para facilitar a sua ação preventiva, mostra-se presente aos cidadãos de forma a inibir ações criminosas.

A Polícia Civil, também conhecida como Polícia Judiciária é encarregada das investigações criminais, da busca de evidências e provas que possibilitem a solução e elucidação de crimes ou contravenções, com o apontamento dos seus responsáveis. Seus integrantes, na maioria das vezes, usam roupas comuns, sendo conhecidos como paisanos, isto é, aqueles que andam à paisana. A palavra tem sua origem no latim “paganus” que quer dizer “o que não é militar” ou pessoa que não está submetida à organização militar. A expressão “andar á paisana” se aplica ao militar quando não está usando o uniforme.

Em Mutum, em 1975, havia uma Delegacia de Polícia onde atuavam, sob a ordem de um Delegado de Polícia Civil, quatro detetives, que eram chamados de Investigadores. O Delegado era o Dr. Marcônio Carlos de Freitas, um advogado.

O Dr. Marcônio não era Delegado de Carreira, o que significava que não fora nomeado para o cargo após aprovação em Concurso Público. Sua indicação para a nomeação pelo Governador do Estado havia sido feita por políticos que representavam o partido que mandava na política local. Assim, o Dr. Marcônio, de uma maneira geral, agia de forma a não prejudicar aqueles que o haviam indicado, sendo cuidadoso quando de suas investigações para não melindrar os que detinham o poder.

A Polícia Militar em Mutum era composta por dois cabos e doze soldados, comandados pelo Sargento Souza. Todos estavam sob as ordens do Delegado de Polícia. Havia, ainda, um Escrivão de Polícia Civil, quatro carcereiros encarregados de cuidar da guarda dos presos na Cadeia Pública e um Subdelegado, o Senhor Praxedes, que, nas ausências do Dr. Marcônio, era o encarregado de substituí-lo se necessário.

As investigações criminais, transformadas em Inquéritos Policiais eram enviadas ao Ministério Público, representado pelo Promotor de Justiça Dr. Anacleto Peri da Silva, encarregado de proceder ao Processo Criminal e o respectivo envio ao Juiz de Direito, Dr. Altamiro Lages, para as medidas judiciais cabíveis.

Por sua natureza policial estadual e conforme determina a Constituição Federal, a Polícia Militar é uma força  auxiliar e reserva do Exército.

Com a chegada das tropas federais em Mutum e em cumprimento da hierarquia constitucional, o Sargento Souza apresentou-se ao Major Alfredo colocando todos os policiais militares sob o seu comando à disposição das Forças do Exército, recebendo ordens de continuar a fazer o policiamento urbano, reportando ao Comando Militar todas as ações policiais realizadas.

Em todo o tempo que estava em Mutum, o Sargento Souza não reclamava da vida que levava. O comando do policiamento era tranquilo, a cidade estava pacata, o povo era ordeiro. Pedir mais era exagerar na dose, dizia sempre. E ele conhecia bem até os elementos que em algumas ocasiões poderiam dar trabalho. Os maiores arruaceiros eram alguns pés-rapados que, com mínima ou nenhuma posse, enchiam a cara de cachaça nos finais de semana e de vez em quando arranjavam uma briguinha mais sem importância. Aí, tomavam sempre umas bolachas pela cara, de alguém mais sem paciência e nem queixa na Delegacia faziam. Quando alguém chegava a chamar a polícia era só para levar o malfadado, bêbado e com a cara quebrada, para um dos médicos que atendessem mais perto, dar nele uns pontos. Depois, era levado até a sua casa pra curar a bebedeira. Essas brigas de botequim nunca davam cadeia. E, como sempre acontecia, eram esquecidas no outro dia.

Também acontecia muita briga de família, quando marido e mulher se pegavam nos tapas e alguém chamava a polícia. Nesses casos, ele é que gostava de comparecer para dar nos dois brigões uma carrascana daquelas boas, em particular.

Na realidade o Sargento Souza sabia que todos respeitavam o policiamento porque aqueles tempos eram tempos bicudos e a lei era determinada pelos militares. Assim, a Polícia Militar podia muito bem até abusar do poder que ninguém iria reclamar. Ele, zeloso cumpridor da lei, não permitia que seus comandados cometessem nenhum abuso de autoridade. Mas o povo, de tanto acompanhar os acontecimentos pelos noticiários, preferia acreditar que todos os policiais seriam capazes de se excederem no uso da força. Então evitavam correr riscos. E olhavam com uma certa desconfiança e um muito de respeito para os policiais.

Para o Sargento Souza era até muito bom que os militares assumissem o comando da Polícia Militar. Sua responsabilidade diminuiria. O que de fato aconteceu, até o dia em que o Major Alfredo mandou chamá-lo em sua sala improvisada no quartel e lhe disse sem nenhum preâmbulo “Sargento, preciso que me faça um relatório sucinto contendo todas as informações, possíveis e imagináveis, sobre todos os elementos da cidade que possam ser considerados suspeitos de serem comunistas ou de serem simpáticos aos comunistas ou contra o governo revolucionário. Todos os que o possam ser subversivos. Quero esse relatório na minha mesa em doze horas, sem mais demora”.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – O FOOTING / A SEGUNDA BAIXA

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           (Episódios 18 e 19)

O FOOTING

As noites em Mutum sempre foram muito animadas, desde quando eu ainda morava lá, durante a minha infância e minha adolescência. Em minhas lembranças, me vejo parado na calçada que circundava os canteiros floridos da Praça Benedito Valadares, por onde circulam centenas de pessoas, todas as noites, do anoitecer até altas horas. Esse hábito de ficar horas e horas circulando pela praça era conhecido como fazer o footing, uma expressão que em inglês significa fazer uma caminhada ou um passeio informal. Era durante o footing que flertávamos com as garotas, batíamos papo com os amigos e discutíamos calorosamente futebol. Principalmente nos dias em que o Esporte ou o Tringolingo jogava, o que acontecia quase sempre nos finais de semana. Era só o tempo entre voltar do campo de futebol, que era como conhecíamos o Estádio Municipal, tomar um banho, trocar de roupa e correr para a praça. Hora de fazer o footing. Quem tinha namorada, ficava sentado nos bancos de cimento, colocados na parte interna, entre os canteiros sempre bem cuidados, cheios das mais variadas flores e de pequenos arvoredos, podados em formas geométricas ou de animais. Nos bancos podia-se ler o nome daqueles que os patrocinaram. A iluminação da praça era feita por pequenos postes decorativos, trabalhados artisticamente, dos quais pendiam as lâmpadas protegidas por luminárias ornamentais.  Aqueles que ficavam próximos aos bancos estavam sempre com suas lâmpadas apagadas, deixando um escurinho que era disputado pelos casais de namorados. Quanto mais cedo chegavam, maior a certeza de garantirem o espaço nos bancos escuros. Alguns amigos revezavam no uso dos bancos, um casal ficando lá por um tempo determinado e deixando, depois, que outro o ocupasse. Ali aconteciam os abraços, os beijos, entre um amasso e outro e os sarros.               

Durante o dia poucos eram os que se sentavam nos bancos do jardim da pracinha onde era feita o footing, à noite. O calor, provocado pelo sol muito quente no verão ou o frio, excessivo no inverno, afastavam naturalmente o povo da praça durante o dia. Fatores agravados pelo fato de lá só existirem pequenas árvores, incapazes de criarem grandes sombras.

O mesmo já não acontecia com a parte da praça que ficava bem em frente ao Hotel dos Viajantes, que sempre tinha seus bancos ocupados pelas manhãs, por alguns idosos que ali se sentavam, aproveitando  a sombras das árvores, para baterem papo.

Lá, também, ficavam a banca de revistas do Arnaldo e as três cadeiras de engraxates do Rui.

Nessa parte da praça, à noite, não havia footing e nenhum casal usava os bancos para namorar. À noite, eram ocupados por casais que moravam ao redor da praça e lá ficavam observando o movimento no jardim, até o movimento cessar.

Durante a permanência das tropas militares em Mutum, o footing passou a ter um interesse maior por parte das mulheres, já que os soldados, como eram chamados de uma forma genérica, passaram a frequentar a Praça Benedito Valadares quando não estavam de serviço. Consequentemente, em razão de serem estranhos, tornaram-se uma espécie de atração extra. Muitos namoros de alguns casais, até então considerados firmes, foram terminados tendo alguns “de fora”, como nós os chamávamos, como responsáveis.

Em Mutum, como ocorre em algumas cidades interioranas, havia algumas garotas que não gostavam de namorar os rapazes da cidade. Raramente aceitavam algum de nós como namorado. Mas, sempre que havia algum evento com a participação de alguém de fora, era certo que não ficavam sozinhas. Podiam ser vistas na pracinha, circulando abraçadinhas com os seus rapazes, sem se importarem com os olhares atravessados que lhes eram dirigidos. Na realidade, era tudo uma questão de bairrismo, porque quando a situação era inversa, e alguma garota de fora aparecia na cidade, acontecia uma verdadeira corrida entre nós, na tentativa de conquistá-la e partir para os encontros nos bancos escuros da praça. Só que, no caso dos militares que buscavam as bombas, nós estávamos correndo o risco de perder até as nossas namoradas firmes, porque eram muitos e todos de fora.

Foi assim que aconteceu com o meu amigo Clemente, filho da Dona Candinha Quitandeira e namorado da Marcília.

Nas minhas lembranças do meu tempo de criança, em Mutum, a figura de Dona Candinha Quitandeira tem um lugar especial.

    A segunda baixa

O Clemente era meu companheiro de futebol, desde o infantil do Esporte. Crescemos juntos, tínhamos a mesma idade e éramos amigos inseparáveis. Onde estivesse um o outro seria encontrado, com toda a certeza. Dona Candinha aceitava muito bem essa nossa amizade e ia além, afirmando que “se esses dois fossem irmãos, eu acho que não combinariam tanto como combinam, sendo amigos”.

Não passava sequer um dia sem que eu fosse a casa do Clemente. Lá, não importando a hora que chegasse, Dona Candinha fazia com que eu e o Clemente nos deliciássemos com alguns dos quitutes que fazia para atender os seus clientes. Enquanto comíamos, Dona Candinha estava sempre junto conosco, conversando e rindo das nossas brincadeiras. Assim o tempo ia passando enquanto crescíamos. Até que o Clemente começou a namorar com a Marcília, que era uma morena linda que morava em uma rua que ficava perto da caixa d’água, por onde eu e o Clemente passávamos quando íamos jogar futebol.

 De tanto nos ver passando e de tanto que o Clemente a olhava, Marcília acabou dando bola para o Clemente que, por sua vez e mesmo sendo muito tímido, não perdeu a chance. Começaram a namorar e a nossa rotina de amigos foi sendo deixada de lado, pouco a pouco.

Depois, naturalmente, minhas idas à casa do Clemente foram rareando, diminuindo até que se tornaram escassas. Nos dias de treinos eu já não passava mais pela rua da casa do Clemente. Ia direto da minha casa, na Praça Benedito Valadares para o campo, passando por outras ruas. Além de ser mais perto, eu sabia que o Clemente não estaria mais em casa, pois seu tempo de folga ele passava sempre em companhia da Marcília, na casa dela ou de alguma de suas amigas.

Sempre que via Dona Candinha, nas suas andanças pela cidade fazendo entrega de suas encomendas de quitandas, ela reclamava que eu tinha sumido, que devia aparecer, que eu não precisava ir lá na casa dela só quando o Clemente estivesse lá. Assim, vez por outra, eu dava uma chegada na casa de Dona Candinha. E sempre que o fazia, ouvia em algum momento ela dizer “Não gosto nada desse namoro do Clemente com essa tipa” e quando eu tentava argumentar em defesa dos dois, ela retrucava “essa menina não me parece boa pra ele”.

O meu amigo Clemente e sua namorada Marcília já estavam juntos há um bom tempo e todos nós, seus amigos, sabíamos que acabariam no altar da Matriz de São Manoel. Eles até já haviam me confidenciado que seria padrinho dos dois. Não falavam de datas, mas era certo que casariam. Ninguém era capaz de duvidar dessa realidade futura.

Quando as bombas caíram em Mutum eu já não morava mais lá e o Clemente e a Marcília eram noivos, planejando o casamento do qual eu seria padrinho. Ainda faziam o footing na pracinha.

 Foi lá uma noite que a Marcília, que estava aguardando a chegada do Clemente, percebeu que estava sendo observada por alguém quando caminhava com suas amigas. Curiosa, procurou de uma forma discreta e despistada identificar quem a observava. Seu olhar cruzou com o de um soldado da Marinha, que lhe deu um sorriso. A partir daí, durante um bom tempo os dois ficaram se procurando com os olhos, flertando de uma forma bem atrevida. Ele, o soldado, parado na calçada com outros soldados, e ela, Marcília, caminhando com suas amigas ao redor da pracinha. De tanto se olharem, as amigas de Marcília resolveram dar a ela uma cobertura, já que o Clemente demorava para chegar. Em determinado momento, fizeram uma parada junto do grupinho de soldados no qual fazia parte o que flertava com Marcília. Ninguém sabe o que conversaram. O certo é que pouco tempo depois da chegada de Clemente, Marcília lhe disse que não se sentia muito bem e ele a levou para casa. Pouco depois, Clemente se reuniu comigo e outros de seus amigos no salão de sinucas.

Como havia muito tempo que não nos víamos, aproveitamos para atualizar nossa conversa. O ponto principal, como não podia deixar de ser, foi o episódio das bombas perdidas, como ficaram conhecidas. Ficamos conversando e já era bem tarde quando o Clemente despediu-se dizendo que ia para casa porque precisaria acordar bem cedo no dia seguinte      .

 Ninguém se importou quando o Dino Maluco entrou no Bar do Paulo, encostou no balcão e começou a rir sozinho, como era do seu costume quando queria dar alguma noticia sobre alguma coisa que tinha visto de estranho nas suas andanças pela cidade. Ele ficava rindo sozinho até que alguém lhe perguntasse o que tinha acontecido. Aí, desfiava sua estória. E assim foi. Quando lhe perguntaram o que tinha acontecido, Dino Maluco contou que naquela noite, estava passando pela rua da Marcília, noiva do Clemente, quando viu a Marcília trocando abraços e beijos com alguém que não era o Clemente. Era um soldado. Eles estavam no beco da casa dela na maior safadeza. Ele disse que tinha visto tudo o que eles fizeram, mas que eles não tinham visto que ele tinha visto. Quando alguém falou que o que estava dizendo era um absurdo, e que ele devia tomar cuidado, pois o Clemente não ia gostar nada do que ele estava inventando, o Dino Maluco deu uma risada e falou que já tinha contado tudo pro Clemente, de manhãzinha, quando ele estava indo pro serviço. E que o Clemente nem tinha brigado com ele.

Naquela noite, na pracinha durante o footing, sem que alguém se desse conta ou pudesse impedir, Clemente deu dois tiros de garrucha 44 na barriga de um marinheiro chamado Charles. Clemente foi preso em flagrante e recolhido ao quartel do Comando Militar, onde ficaria detido até que a justiça determinasse o que fazer com ele. O marinheiro Charles, atendido emergencialmente, ainda na pracinha, foi removido de helicóptero para Vitória, onde foi internado em estado grave e no Hospital Naval.

Quando encontrei Dona Candinha, no outro dia, e a abracei, dizendo o quanto sentia pelo Clemente, ela me deu um sorriso tristonho dizendo apenas “eu não falei que aquela Marcília não era boa bisca? Ela não serve para o meu Clemente. Eu sabia que ela não prestava pra ele”. Quanto a Marcília, no mesmo dia viajou para Aimorés, de onde, segundo me disse uma de suas amigas, iria pegar o trem para Vitória. Onde ficava o Hospital Naval.

O marinheiro tornou-se a segunda baixa entre os militares encarregados da busca pelas bombas perdidas em Mutum. E ainda não tinha sido encontrada nenhuma das bombas.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – AS BUSCAS / A PRIMEIRA BAIXA

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(Episódios 17 e 18)

02 de julho de 1975

          

O dia 2 de julho, uma quinta-feira, terceiro após o lançamento involuntário das bombas sobre Mutum, foi, na realidade, o primeiro dia em que efetivamente começaram as buscas.

As tropas militares foram movimentadas bem cedo, pela madrugada, em direção a saída para Lajinha. Obtive informações de que as primeiras buscas seriam feitas na região do distrito de Ocidente, onde, supunha-se, poderiam estar as bombas e, após haver insistido muito e prometido solenemente não interferir em nenhum momento nas ações, fui autorizado a acompanhar as tropas, na condição de observador.

 O trabalho de buscas começou, realmente, na altura da Serra do São Roque.

 Ali, no sopé da serra, foi onde as tropas desceram dos veículos e se esparramaram pelos dois lados da estrada, já então demarcada como MG 108, ainda não totalmente encascalhada, mas já sendo preparada para receber o asfalto.

A Serra do São Roque sempre foi uma referência para os viajantes que iam de Mutum para Lajinha, por ser um trecho que, na época das chuvas, tornava-se praticamente intransitável em razão das quedas de barreiras e das pedras que, rolando da serra, impediam em alguns trechos a sua passagem.

Nós não estávamos em um período chuvoso, o que contava a favor dos militares empenhados na missão de recuperação das bombas, embora a temperatura se fizesse muito baixa na Serra do São Roque, com a presença de um forte nevoeiro, acompanhado de uma intensa neblina, comuns em regiões altas nas manhãs durante o inverno.

A região do Distrito de Ocidente, em Mutum, está situada em uma área montanhosa, com predominância de grandes pedras, como a Invejada, localizada a 20 quilômetros do centro da cidade, na Serra do São Roque. Trata-se de uma imponente elevação de puro granito, com altitude estimada em mais de 1000 metros.

 A Invejada é considerada como o maior bloco de granito puro do Estado de Minas Gerais e um dos maiores do Brasil.

Com toda a certeza, considerando a topografia da região, não seria fácil para as Forças Armadas localizarem as bombas, se tivessem mesmo caído naquela região.

 Essa era também a opinião de Manuel da Mota, um antigo morador de São Roque, profundo conhecedor daquela região e que tinha se oferecido como voluntário para ajudar nas buscas, já que, segundo ele, entendia também um pouco  de bombas.

“Nesta região – dizia ele fazendo cara de deboche –  existem buracos tão escondidos nas pedras, que não se consegue achar nada que tenha caído lá. Sem contar se tiver caído nas profundezas das grotas”.

Manuel da Mota tinha realmente experiência em operações militares do Exército Brasileiro. Fora integrante da Força Internacional de Emergência conhecida como III – 2º RI – Batalhão Suez.

 Esse contingente militar, composto de um Batalhão Independente, fora instituído pelo governo brasileiro através do Decreto Legislativo nº 61, de 22 de novembro de 1956, do Senado Federal, para atender a Resolução da Assembléia Geral das Nações Unidas, de 07 de novembro de 1956, com o objetivo de manter a paz e a segurança internacional na região compreendida entre o Canal de Suez e a linha de armistício entre Israel e o Egito, no continente africano.

 O Canal de Suez, com 163 quilômetros de extensão liga Port Said, no Mar Mediterrâneo a Suez, no Mar Vermelho, ambos no território egípcio. O Batalhão Suez,  do qual Manuel Mota fizera parte atuou na região do conflito entre árabes e israelenses de 1957 até 1967.

                              A PRIMEIRA BAIXA

O grupo de buscas na Serra do São Roque era formado por uma Companhia do Exército, composta por 150 homens, liderados pelo Primeiro Sargento Pereira e sob o comando do Tenente Coaracy, que reportava suas ações diretamente ao Capitão Peixoto.

O Sargento Pereira determinou que os seus soldados, que se encontravam espalhados pelas duas margens da estrada, formassem duplas e dessem inicio ao trabalho de buscas.

 Apenas Manuel Mota, do pessoal civil, foi autorizado a acompanhar a tropa. Eu e os demais representantes da imprensa, bem como os curiosos, que acompanhávamos a operação, tivemos que permanecer observando à distância.

O Sargento Pereira, munido de um rádio transmissor, escolhera um ponto mais alto, situado à nossa direita, para dali acompanhar a movimentação de seus comandados, enquanto o Tenente Coaracy e o Capitão Peixoto examinavam alguns mapas espalhados sobre o capô de um dos veículos de transporte da tropa.

De onde estava eu podia perceber quando o Sargento Pereira recebia informações ou ditava ordens pelo rádio.

O tempo passou sem nenhuma novidade sobre as bombas nessa manhã do primeiro dia de buscas. O sol indicava a metade do dia quando ficou alto no centro do céu. Eu, junto com alguns outros jornalistas, observadores da operação resolvemos nos dirigir para Ocidente à procura de um local para almoçar. Antes, no entanto, procuramos nos informar com o Capitão Peixoto sobre alguma novidade, sendo comunicados de que ninguém havia encontrado algum sinal que pudesse indicar a presença das bombas. Masque as buscas continuariam durante todo o resto do dia.

Em Ocidente, embora fosse um distrito relativamente grande, não encontramos nenhum restaurante, mas fomos informados por alguns dos moradores de lá, que se encontravam também acompanhando o movimento das tropas, que poderíamos almoçar no Bar do Povo, do Seu Nonô, na Praça da Igreja.

O Bar do Povo não era mesmo nenhum restaurante, mas lá o Seu Nonô nos serviu uma deliciosa macarronada, com arroz, feijão, frango frito, angu e uma salada de tomate com folhas verdes que, segundo ele, colhia de sua própria horta, que cultivava nos fundos da casa. “Sem essa porcaria de agrotóxico”, nos falou todo orgulhoso.

Enquanto comíamos, Seu Nonô  nos relatou o que sabia sobre o avião e sobre as bombas. Segundo ele o avião passara muito alto, sobre Ocidente e não pareceu ser um avião dos comuns, que sempre sobrevoavam a região, pelo barulho que fez ao cruzar o céu. Era um barulho diferente, coisa que ele nunca tinha ouvido antes. Parecia com o barulho daqueles aviões que via nos filmes de guerra na televisão.

  Ele se lembrava de ter ido até a porta do Bar, para tentar ver o avião, mas não conseguiu, embora se lembrasse também de que o céu ainda estava bem claro, naquele início de noite. O avião já tinha passado e a única coisa que pôde ver foram as suas luzes piscando, muito alto. Quando perguntei se tinha visto as bombas caindo do céu ele disse que não, que ninguém em Ocidente tinha visto e que só ficaram sabendo delas depois que os soldados chegaram a Mutum.

Após o almoço, combinei com o Tião Fotógrafo, que morava em Ocidente, para que fizesse umas fotos do Distrito e da região da Serra do São Roque, onde estavam sendo feitas as buscas, para que eu as pudesse enviar ao jornal, junto com os primeiros relatos da viagem. Como era de costume, eu não levava nenhum fotógrafo do jornal comigo para cobrir reportagens feitas em outras cidades. Aproveitava sempre alguém do local, que conhecesse melhor a região. Assim, além das fotos recentes, tiradas durante a reportagem que estivesse fazendo, poderia usar outras, antigas, tiradas dos arquivos dos fotógrafos locais, que sempre enriqueciam o meu trabalho. Além de poder me aproveitar das dicas de quem conhecia melhor a região e que sempre eram bem-vindas.

 Assim, estava certo de que quando retornasse para a casa dos meus avós, em Mutum, estaria levando uma boa quantidade de fotos de Ocidente e da Serra do São Roque, para poder  escolher quais as que mandaria para a redação. Todas legendadas, naturalmente.

Ao retornarmos ao nosso ponto de observação, após o almoço, ficamos sabendo da primeira baixa entre as tropas do Exército.

Um soldado, identificado depois  como Laerte, ao se aproximar de um córrego, foi picado no braço por uma cobra.

A serpente foi morta pelo seu companheiro Soldado Marins e, por sorte do Soldado Laerte, identificada pelo Manuel da Mota, que estava próximo ao local do ataque, como sendo uma surucucu, ainda nova, considerando que media pouco mais de um metro e meio de tamanho.

A surucucu ou Lachesis muta é considerada a maior serpente venenosa de todo o continente americano e uma das maiores do mundo. É muito comum na região do Vale do Rio Doce, onde está situada Mutum, principalmente na divisa com o Espírito Santo, onde fica Ocidente e a Serra do São Roque. Pode alcançar, quando adulta, quatro metros e meio de comprimento e suas presas chegam a medir 3,5 centímetros. Os naturais da região a temem pela sua periculosidade e virulência, aprendendo, desde quando crianças, a identificarem a sua presença pelo som que emite ao se sentir incomodada quando o seu território é invadido. Ela não tem guizos em forma de chocalho na ponta da cauda para chacoalhar como a cascavel, mas emite um som perceptível por quem a conhece. Esse é o seu sinal de ataque. Com toda a certeza o Soldado Laerte não a conhecia, como afirmou Manuel da Mota. Aproximou-se muito e, ao movimentar o braço em sua direção, foi atacado e picado.

 A surucucu é uma cobra que tem um comportamento muito agressivo e pode, com seu bote, alcançar a distância correspondente a um terço do seu comprimento. O veneno de suas presas provoca, nas suas vítimas, um quadro de queda imediata da pressão arterial, inchaço e dor no local da picada, diminuição da frequência cardíaca, alteração da visão, sangramento na gengiva, pele e urina, diarreia, vômitos e insuficiência renal. De ação neurotóxica, a vítima de sua picada, para ter alguma chance de sobrevivência, precisa contar com ajuda médica imediata, com utilização de soro antilaquésico/antibotrópico laquésico.

Pela avaliação de Manuel da Mota a tropa militar que se deslocara para Mutum tinha muito conhecimento sobre a região, principalmente sobre os riscos que iriam correr durante toda a operação. Sua opinião era fundamentada no fato de que, logo após a identificação que ele fizera da serpente como sendo uma surucucu, o Soldado Marins, companheiro da vítima retirou da sua mochila um estojo de primeiros socorros e lhe aplicou, de imediato, o soro indicado para a picada daquele tipo de ofídio. O que demonstrava estar a tropa bem preparada para a busca das bombas em locais de risco de ataques de animais peçonhentos, como as pedreiras da região do São Roque.

Segundo Manuel da Mota, a situação dos soldados ali era idêntica a dos pracinhas brasileiros em ação de paz em Suez, no Egito, respeitadas, naturalmente, as devidas proporções. Encontrariam, segundo ele, muitas dificuldades pela frente antes de encontrarem as bombas perdidas. O terreno acidentado não seria o seu único e grande inimigo. Disso ele não tinha dúvidas. O relevo era representado por pedras, muitas pedras, mato serrado da Mata Atlântica compondo a Serra do Mar, vales profundos, nascentes de riachos e ribanceiras traiçoeiras. Mas havia também animais peçonhentos, animais selvagens como porco do mato, jaguatiricas e onças parda e pintada.

Manuel da Mota observava o lento avanço dos soldados pela região e torcia para que estivessem, realmente, preparados para aquele tipo de ação como ele próprio estava, quando partiu com a força de paz, para o Egito. Lembranças foram tomando formas em sua mente e Manuel da Mota deixou-se ficar quieto, imóvel, encostado a uma árvore, os olhos fixos no vazio. Via-se, novamente, segurando um binóculo, observando a imensidão do nada formado pelas areias do deserto da Península do Sinai. Aos poucos, saiu do estupor em que se encontrava, deu uma sacudidela na cabeça e falou baixinho, sem que alguém pudesse ouvir – “Ah, não vão encontrar porra nenhuma de bombas nessas pedras”.

Beirava dezoito horas quando o Tenente Coaracy, atendendo determinação do Capitão Peixoto, ordenou pelo rádio que o Sargento Pereira reunisse a sua tropa e retornasse ao seu ponto de apoio, onde se encontravam os veículos que os levariam de novo ao acampamento, em Mutum. Nenhuma bomba havia sido localizada na região do São Roque nesse primeiro dia de buscas. O Exército tivera sua primeira baixa oficial.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – O VATICÍNIO

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(Episódio 16)

Em 1941 o já famoso escritor austríaco Stefan Zweig, que escolhera o Brasil como local para viver ao lado de sua segunda esposa, Charlotte Elizabeth Altmann, masi conhecida como Lotte, ao fugir das atrocidades cometidas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, publicou o livro “Brasilien ein land der zukunft” – “Brasil, um País do Futuro”, no qual tecia rasgados elogios ao nosso país.  Moravam em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde suicidaram-se em 1942. Deixou o escritor uma declaração, na qual escreveu: Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite. Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes. Stefan Zweig”.

Zweig não viu a aurora surgir após o final da Segunda Guerra Mundial, com a derrota de Hitler, destruição e reconstrução da Alemanha, surgimento da Guerra Fria e divisão do mundo em dois blocos distintos: um capitalista, liderado pelos Estados Unidos da América do Norte e um comunista, sob a liderança da União Soviética. Nem viu, também, o cumprimento de sua profecia de que o Brasil era o País do Futuro.

A partir de 1964, com a Revolução, o Brasil havia se transformado, segundo os seus governantes militares, em um Brasil Novo.

Para reforçar essa afirmação, em 1975, quando ocorreu o incidente de Mutum, apresentavam as suas realizações, com destaque para as construções da Rodovia Transamazônica, Ponte Rio Niterói, Usinas Hidroelétricas de Itaipu, Tucuruí, Ilha Solteira, Jupiá,  Ferrovia do Aço, Usinas Nucleares de Angra I e Angra II, criação do Instituto Nacional de Previdência Social/INPS, FUNRURAL, construção do Porto do Maranhão, entre outras.

 Os governos militares apregoavam o que era conhecido então como o “Milagre Brasileiro”.

 Para confirmar tal ufanismo, em 1974 o Presidente  Richard  Milhous Nixon, 37º Presidente eleito dos EUA, pouco antes de ser tornar o primeiro presidente americano a renunciar ao seu mandato, afirmou ao Presidente Garrastazu Médici que, “para onde for o Brasil irá a América latina” procurando demonstrar que, para aquele País, Brasil deveria posicionar-se como líder entre os demais países da América Latina. Assim sendo, mantê-lo alinhado com os Estados Unidos era a principal pretensão do governo americano.

O Governo Militar procurou, de todas as formas, inclusive promovendo violenta repressão aos seus contrários, mostrar o Brasil como um país que dera um salto ao encontro do desenvolvimento.

O País começou a ser apresentado ao mundo, pelos governistas, como uma nação progressista, desenvolvimentista, a caminho de tornar-se uma grande potência. Na economia, estimulava-se o consumismo da classe média, que despontava como nova força social. O progresso e o desenvolvimento apregoado por todos, fazia com que houvesse uma corrida em busca de melhoria de vida e ascensão social. Paralelamente, o governo também fortaleceu todo o seu aparato repressivo e, com base na sua Doutrina de Segurança Nacional, procurou internacionalizar todo o processo econômico brasileiro e, ao mesmo tempo, eliminar focos internos de resistência. Resistência, essa, que já estava sendo disseminada para o interior do País e para alguns outros países sul-americanos, como os nossos vizinhos fronteiriços Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Venezuela e Colômbia, além do Chile e do Equador, na costa do Pacífico.

 Em alguns desses países os regimes democráticos também sofreram interrupção no mesmo período em que o poder militar se impunha no Brasil, sendo substituídos por ditaduras, civis ou militares.

 A preocupação com a Segurança Nacional era justificada pelo governo brasileiro como necessária para assegurar ao País continuar seu crescimento de forma segura, impedindo o avanço sistemático do comunismo.

Nesse sentido, o General Breno Borges Fortes, então comandante do Estado Maior do Exército, ao proferir discurso em Caracas, na Venezuela, durante a 10ª Conferência dos Exércitos Americanos, publicado no Jornal da Tarde de 10 de setembro de 1973, afirmou, referindo-se aos que se opunham ao governo que “O inimigo usa mimetismo, se adapta a qualquer ambiente e usa todos os meios, lícitos e ilícitos, para lograr seus objetivos. Ele se disfarça de sacerdote ou professor, de aluno ou de camponês, de vigilante defensor da democracia ou de intelectual avançado; vai ao campo e às escolas, às fábricas e às igrejas, à cátedra e à magistratura; enfim, desempenhará qualquer papel que considerar conveniente para enganar, mentir e conquistar a boa fé dos povos ocidentais.Daí porquê a preocupação dos Exércitos em termos de segurança do continente  deve consistir na manutenção da segurança interna frente ao inimigo principal; este inimigo, para o Brasil, continua sendo a subversão provocada e alimentada pelo movimento comunista internacional.”

Para adequar-se à Doutrina de Segurança Nacional, o governo revolucionário além de criar organismos militares como o Serviço Nacional de Informações/SNI, o Centro de Informações do Exército/ CIE, o Centro de Informações da Aeronáutica/CISA e a reformulação do Centro de Informações da Marinha/CENIMAR, que já funcionava desde 1964, criou a Operação Bandeirantes/OBAN, em São Paulo, financiada com verbas de empresas nacionais e internacionais, dividida em três tipos de operações efetuadas durante 24 horas por dia: de buscas, de interrogatório e de análises. A Operação OBAN, como ficou conhecida, contava como elementos militares das três armas das Forças Armadas, da Polícia Federal, das Polícias Estaduais e até do Corpo de Bombeiros. Seu custo operacional era muito elevado, em razão das operações que realizava, tendo sido necessário, para o seu financiamento, um sistema de arrecadação permanente de recursos entre empresários nacionais e estrangeiros com atuação no Brasil, que apoiavam o golpe militar e temiam o aumento da influência comunista na América Latina, via Cuba.

A presença do Brasil na região passou a ser vista como de tal importância, que alguns setores militares mais duros brasileiros e americanos passaram a discutir a necessidade de tornar o País, no menor prazo possível, uma potência atômica.

 Assim, poderiam contrabalançar a ofensiva da URSS ao tentar usar a ilha caribenha de Cuba como ponta de lança avançada, colocando nela algumas ogivas nucleares, considerando estar situada tão perto dos americanos, como se fizesse parte do seu próprio quintal.

O sonho nuclear brasileiro remonta aos longínquos anos 30, com o início das pesquisas relativas à física nuclear sendo feito na Universidade de São Paulo. Estenderam-se, depois, pouco a pouco a outras Universidades, espalhadas pelo País, como em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.

 Aqueles cientistas que sonhavam com o Brasil como uma potência atômica contavam, já na década de 50, com institutos de pesquisas equipados com reatores atômicos experimentais e grupos próprios de pesquisadores atuando em sofisticados laboratórios.

Mais precisamente em 15 de Janeiro de 1951 foi criado pelo governo o Centro Nacional de Pesquisas – CNPq, encarregado da coordenação e orientação de toda a  produção científica, e do desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Brasil. Era, com toda a certeza, um grande passo dado pelo País em direção ao desenvolvimento que levaria a busca de uma política nuclear. Acordos e parcerias de troca de informações já vinham sendo firmados entre os Governos  do Brasil e dos Estados Unidos, desde a partir da década de 40.

 Através desses acordos, o Brasil pretendia ter acesso às tecnologias que possibilitavam o domínio da energia atômica. Aos Estados Unidos interessava também, além do alinhamento do Brasil com suas políticas anticomunistas, ter acesso aos minérios atômicos existentes em algumas áreas do  nosso território, principalmente o Urânio.

Em 04 de Outubro de 1967 o Presidente Arthur da Costa e Silva, em reunião ministerial realizada no Palácio do Planalto, em Brasília, lançou oficialmente o programa brasileiro de energia nuclear, denominado como Política Nacional de Energia Nuclear.

Em 1º de Junho de 1968, em Nova York, nos Estados Unidos, foi assinado por 190 países o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que começou a vigorar em 05 de março de 1970. O governo brasileiro não assinou o Tratado e, em 1971, adquiriu da empresa americana Westinghouse o seu primeiro reator nuclear, que foi instalado na Usina Nuclear de Angra I, situada em Angra dos Reis, cidade do litoral fluminense, cujas obras de construção tiveram seu início em Março de 1972.

O Brasil, País do Futuro, imaginado pelo escritor austríaco Stefan Zweig na década de 1940, tornava-se agora nuclear, na década de 1970. Começava, na visão do Governo, o Brasil Novo.                    

OPERAÇÃO MUTUM / O COMUNICADO / A PESQUISA

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(Episódios 14 e 15)

Eu havia acabado de tomar o café da manhã, com meus avós, quando fui informado por um primo, que trabalhava na Prefeitura, de que estaria acontecendo a porta fechadas, no salão solene da Prefeitura Municipal, uma reunião da qual participavam o Prefeito, Dr. Arquimedes de Souza, os três comandantes militares, Major Alfredo, do Exército, Major Lemos, da Aeronáutica e Capitão-de-Fragata Coutinho, o Juiz de Direito Dr. Altamiro Lages, o Presidente da Câmara Municipal Pastor Freitas e outras pessoas de influência na cidade.

Como não podia deixar de ser, a intensa movimentação de tropas militares na região havia despertado a atenção da imprensa regional e, consequentemente, acorreram para Mutum jornalistas de diversas partes, inclusive de emissoras de TV afiliadas às grandes Redes Nacionais de Televisão.

 A Praça Benedito Valadares estava atulhada de gente e de carros, alguns equipados com aparelhagens especiais que os transformavam em verdadeiras estações móveis de Rádio e Televisão. Fios e cabos de todos os tipos, dimensões e tamanhos se espalhavam pelo chão, em várias direções.

Todos da imprensa foram autorizados a assistir a reunião, mas advertidos de que fazer gravações, fazer fotos, bem como filmar não seria permitido.

Durante a reunião, que decorreu em um clima tranquilo, mas cercado de muitos mistérios, foram fornecidas as informações oficiais do Governo sobre o que estava, na realidade, acontecendo naqueles dias em Mutum. Em nome das Forças Armadas falou o Major Alfredo, representante do Exército.

Primeiramente, informou que as Forças Armadas Brasileiras, ali representadas por tropas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, em cumprimento de determinação do Gabinete Militar da Presidência da República, estava assumindo militarmente o comando da cidade, pelo prazo que se fizesse necessário. Tinham como missão efetuar buscas e localização de bombas que tinham sido, acidentalmente, deixadas cair por um avião militar, sobre a cidade.

Explicou então que tropas de combate do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, sediadas no Rio de Janeiro, estavam participando de manobras militares conjuntas de defesa marítima, no litoral do Espírito Santo, juntamente com tropas militares dos Estados Unidos da América do Norte e do Canadá. E que um dos aviões bombardeiros B-26 da FAB, que iria se incorporar às tropas, ao sobrevoar Mutum, sofreu uma pane, e, precisando livrar-se das bombas que transportava, deixou-as cair na região.

Infelizmente, explicou o Major, a localização exata de onde caíram não foi registrada em mapa, como deveria ter ocorrido, em virtude da pane nos aparelhos de registro do vôo. Mesmo assim, podia garantir e garantia que, para a localização e recuperação de todas as bombas, seriam empregados todos os recursos de que dispunham e que esses recursos eram os mais modernos existentes. Assegurou que as bombas eram seguras e seriam encontradas, com certeza, antes que pudessem se tornar um perigo para a população.

 Terminou dizendo que as Forças Armadas brasileiras contavam com a ajuda de toda a população de Mutum, que todos deveriam manter a tranquilidade, bem como evitar situações que pudessem atrapalhar as buscas e a recuperação dos artefatos militares. Terminou sua fala garantindo que, findada a missão com a localização e o recolhimento das bombas, o comando da cidade seria devolvido imediatamente aos civis que a governavam.

Acabada a reunião, tudo o que havia sido nela informado pelo Major Alfredo foi emitido um boletim e distribuído para a imprensa que se incumbiria de divulgar os fatos e a as medidas adotadas pelas autoridades para toda a população. Carros militares, equipados com alto-falantes passaram a percorrer as ruas, em todas as direções, transmitindo de maneira bem clara as informações oficiais.

Agora, sim, eu tinha toda a certeza de que ali havia coisas. A meu ver, não tinha muita lógica o que estava acontecendo.     

As manobras conjuntas envolvendo forças militares brasileiras e estrangeiras remontavam aos tempos da Segunda Guerra Mundial, quando o Presidente Getúlio Vargas assinou uma aliança formal com os Estados Unidos, em 1942. No entanto, aeronaves de guerra americanas, desde maio de 1941, já atravessavam o Atlântico e utilizavam-se das bases aéreas situadas em terras brasileiras para as suas ações.

 É certo que o Alto Comando do Exército brasileiro se posicionava contrário à presença das tropas americanas no território brasileiro. Mas a Marinha de Guerra dos Estados Unidos já estava autorizada pelo Governo do Brasil a utilizar-se dos portos de Recife, em Pernambuco e de Salvador, na Bahia, e o fazia desde 1941. Portanto, os dois Países já mantinham ações militares conjuntas mesmo antes da assinatura oficial da aliança.

Em 1942 o Brasil abriu em definitivo todos os portos e as bases aéreas e navais no seu território para as operações militares das forças do Vice-Almirante Jonas Ingram, Comandante Norte-Americano das tropas do Atlântico Sul.

 Por decisão do Presidente Vargas, o comandante Ingram assumiu também, de maneira informal, o comando de todas as forças aéreas e navais do Brasil, tornando-se, à partir daí, o verdadeiro responsável pela defesa marítima de todo o território  nacional.

 Nesse mesmo ano de 1942, em agosto, o nosso País sofreu as primeiras agressões dos alemães, com o bombardeio de navios brasileiros, no litoral da Bahia e de Sergipe, com centenas de mortos. Reagindo, o Presidente Getúlio Vargas  declarou solenemente  guerra à Alemanha e à Itália. Mas, hoje, ali em Mutum, não estávamos em guerra com ninguém.

            A PESQUISA

Por que as bombas ainda não estavam sendo procuradas, dois dias após terem caído? Por que o Major havia dito que seriam encontradas antes que se tornassem um perigo para a população? A que tipo de perigo ele estava se referindo? Que tipo de bombas eram as que caíram em Mutum? Quantas eram?

Durante o restante do dia dediquei-me a buscar respostas para essas e outras perguntas que não saíam da minha cabeça. Não obtive nenhum resultado satisfatório. Apenas consegui confirmar que estava acontecendo, no litoral capixada, uma manobra conjunta das Forças Armadas brasileiras e americanas, podendo-se, do litoral, observar vários navios de guerra e alguns submarinos em alto mar.

 A informação do Major Alfredo procedia. Ali, no litoral do Espírito Santo estava o início de tudo o que acontecia em Mutum. A operação militar conjunta fora causa de um avião bombardeiro desgarrado da sua esquadrilha lançar bombas sobre a cidade. Mas, que bombas seriam aquelas?

Para entender melhor os fatos e tirar algumas dúvidas e preocupações que insistiam em não me deixar sossegado, fiz contato com a redação do Jornal do Povo, em Belo Horizonte, solicitando a Manfredo Kurt que me enviasse, por fax, todas as informações possíveis sobre o que pensavam os governantes militares sobre a política de segurança nacional.

 A pesquisa foi feita e as informações me foram enviadas, como havia solicitado.

Já fiz alusão antes a momentos da política brasileira em que presenciamos manifestações de grupos favoráveis a que o Brasil, através de sua política externa, se afastasse do capitalismo, representado pelos Estados Unidos da América do Norte e se aproximasse do comunismo, representado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS. Essas manifestações ao se tornarem públicas, em nosso País, começaram a ser vistas por algumas correntes militares, como sendo uma ameaça à soberania nacional.

 A discussão que se impunha, ainda no campo das idéias, fazia-se, em princípio, apenas e tão somente em torno da soberania nacional.

A soberania, para que tenhamos uma melhor compreensão do termo, é una, integral e universal. O que significa que não pode ser relativa, nem condicionada por um poder normativo dominante que a impeça de ser plena.

 As únicas exceções possíveis de aceitação são aquelas que dizem respeito às exigências relativas à convivência pacífica das nações soberanas, previstas no Direito Internacional, regulamentadas pela Organização das Nações Unidas – ONU. Assim, consideravam os nacionalistas que os Estados Unidos, embora representassem o capitalismo em todo o mundo, respeitavam a soberania dos países sob a sua influência, uma vez que essa influência era sentida apenas no campo econômico. Os países do bloco capitalista eram soberanos.

A URSS, pelo contrário, país de dimensão continental criado em 1922, como resultado da Revolução Russa de 1917, formado pela união das repúblicas da Rússia, Ucrânia, Bielorússia, Transcaucásia, Estônia, Lituânia, Letônia, Moldávia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Quirguistão e Tadjiquistão, tinha apenas um Governo Central, localizado em Moscou, na Rússia, conhecido como Soviete Supremo.  Então, logicamente, concluíam os mesmos nacionalistas que os países que compunham o bloco soviético não possuíam soberania.

O Brasil, em todas as vezes em que precisou alinhar-se a um dos blocos de influência no mundo, sempre o fez para figurar ao lado dos Estados Unidos. Como nas ocasiões da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais.

Quando aconteceu a Primeira Guerra Mundial, o Brasil, inicialmente respaldado pela Convenção de Haia, declarou oficialmente sua neutralidade em 4 de agosto de 1914.

 Em 1917, a 11 de abril o Brasil declarou guerra à Alemanha após o navio brasileiro “Paraná”, um dos maiores da marinha mercante brasileira, carregado de café, ser afundado pelos alemães. Três brasileiros foram mortos.

 O Brasil foi o único país latino-americano a participar da Primeira Guerra mundial. Sua participação se deu mediante o envio de alguns pilotos de aviões, navios de guerra e apoio médico. Os brasileiros foram incumbidos do patrulhamento do Atlântico Sul, como forma de impedir o ataque de submarinos alemães.

 Durante a guerra o Brasil aumentou suas exportações para os países beligerantes, principalmente de borracha, cacau, café e açúcar.

Durante a Segunda Guerra Mundial a Força Expedicionária Brasileira – FEB participou da retomada e libertação da Itália pelas tropas aliadas.

A campanha das Forças Armadas Brasileiras – FEB na Europa previa o envio de até 100.000 brasileiros para os campos de batalha. No entanto, envolveu de 1943 até 1945, 25.834 homens e mulheres, divididos em uma Divisão de Infantaria, uma Esquadrilha de Reconhecimento e um Esquadrão de Caças.

MUTUM संचालन

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ट्रॉप्स
(एपिसोड 12 और 13)


जब पहला हेलीकॉप्टर शहर के ऊपर से गुजरा, तो वह लगभग उन्नीस का रहा होगा। वह नगर स्टेडियम गया, जहाँ वह उतरा। इसके तुरंत बाद, और अधिकांश रात के लिए, अन्य लोग पहुंचे। मैंने दस गिने। इनमें से सात बड़े थे, सैनिकों के परिवहन के लिए। बस तीन छोटी, गिलहरी जैसी। सभी ब्राजील के प्रतीक के साथ।
उनमें आप ब्राज़ीलियाई वायु सेना – FAB पढ़ सकते हैं, जिसकी सशस्त्र शाखा एयर ऑपरेशंस कमांड (COMGAR) है, जिसमें सभी वायु इकाइयाँ, हवाई ठिकाने और इसी तरह के निकाय अधीनस्थ हैं।
मुटुम में चलने वाले हेलीकॉप्टर 2 डी वायु सेना या द्वितीय एफए से संबंधित थे, जिसका मुख्यालय रियो डी जेनेरियो शहर में है, जिसमें रोटरी विंग इकाइयां (हेलीकॉप्टर) और खोज और बचाव इकाइयां, समुद्री गश्त और सामान्य रूप से नौसेना का समर्थन शामिल है। , रियो डी जनेरियो में मुख्यालय और रियो डी जनेरियो, मिनस गेरैस और एस्पिरिटो सेंटो के राज्यों पर अधिकार क्षेत्र के साथ III क्षेत्रीय वायु कमान एल – COMAR के अधीनस्थ।
जब मुटुम में चीजें हो रही थीं, उस दिन जब सैन्य विमान द्वारा बम गिराए जाने के बाद, सबसे मजबूत बात सच हो गई, मेरे दिमाग में, मेरे मुख्य संपादक का भाषण, कि वहां चीजें थीं।
जो बात मुझे सबसे ज्यादा असहज कर रही थी, वह यह थी कि बमबारी की घटना के बारे में खबरें आना बंद हो गई थीं, रेडियो और टेलीविजन दोनों पर। वे क्यों बंद हो गए थे? केवल रविवार को दी गई खबर जारी की गई थी। अब और नहीं। कुछ भी नहीं। क्या बम गिराना महत्वपूर्ण नहीं होगा? यदि नहीं, तो संघीय सैनिकों को वहां क्यों भेजा जाए? उस रात की बातचीत में, मुटुम में, ये ऐसे सवाल थे जो बिना किसी को पता चले कि कैसे जवाब दिया जाए।
शहर सोता नहीं था। स्टेडियम, जो सेना के शिविर और वायु सेना के हेलीकॉप्टर स्थित थे, तक पहुँच प्रदान करने के लिए निवासियों को मना किया गया था। भौतिक बाधाओं को रखा गया था, कंटीले तारों के रोल द्वारा प्रबलित और उनके छोर पर सशस्त्र संतरी तैनात थे। क्षेत्र अलग-थलग पड़ गया।
हेलीकॉप्टरों को पास से गुजरते हुए निवासियों की जिज्ञासा बढ़ गई और कई सारी रात रुक गए। इस तरह 30 जून, 1975 को समाप्त हुआ, सोमवार, मुतम में बम गिरने के बाद पहला दिन।

1 जुलाई, 1975
छुट्टी शुरू

अगले दिन, मंगलवार, 1 जुलाई की सुबह व्यस्त हो गई। दो बहुत विशिष्ट कारणों के लिए। कि उनका एक-दूसरे से कोई लेना-देना नहीं था।
पहला, जब कुछ लोगों ने रात बिताई थी, जो छोटे समूहों का निर्माण कर रहे थे, वर्ग की स्थिति के बारे में बात करते हुए, सुबह में सूचना दी कि सुबह के दौरान एक और सैन्य काफिला आया था। इस बार, सेना और वायु सेना में शामिल होने वाले नौसेना के सैनिकों को परिवहन, कार्रवाई में सैन्य कर्मियों की संख्या में वृद्धि और नगर स्टेडियम के सामने चौक को निश्चित रूप से युद्ध चौक में बदलना।
मूटम में तैनात नौसेना की टुकड़ी, जैसा कि मैंने बाद में सीखा, रियो नौसेना के जनेरियो स्थित, दक्षिणपूर्व नौसेना गश्ती दल के अधीनस्थ मरीन कॉर्प्स ग्रुप ऑफ द ईस्ट नेवल जिले के थे, जिसका मिशन समुद्री बचाव और बचाव करना है। , नौसैनिक, तटीय संचालन और नौसैनिक निरीक्षण, मानव जीवन की सुरक्षा और समुद्र में ब्राजील के हितों की सुरक्षा और नियंत्रण के लिए योगदान करने और सुनिश्चित करने के लिए।
ब्राजीलियन नेवी के ब्राजीलियन मरीन कॉर्प्स (CFN) अपनी तत्परता दिखाने के लिए एक लैटिन शब्द – Adsumus – का उपयोग करते हैं। सीएफएन कमांड के अनुसार इसका अर्थ है: “यहां हम हैं”, इस पेशेवर टुकड़ी की तत्परता और स्थायी स्थिति की तत्परता को दर्शाता है।
मुटुम में अपनी उपस्थिति के विशिष्ट मामले में, इसका मिशन सेना और वायु सेना की सैन्य कार्रवाइयों को पूरा समर्थन देना था।
बम गिरने के बाद दूसरे दिन उस सुबह के आंदोलन का दूसरा कारण, छुट्टी पर छात्रों के एक शोर समूह का आगमन था, वायाको मेलो बस पर दो में आना, एक जो रात में रवाना हुआ, मनहुमिरिम से और दूसरा जो चला गया सुबह जल्दी उठना। आखिरकार, स्कूल की छुट्टियां शुरू हुईं और हमेशा की तरह, शहर को महीने भर में बड़ी संख्या में आगंतुकों को प्राप्त करना चाहिए, भूमि के बच्चों के अलावा, जिन्होंने विदेश में अध्ययन किया और प्रत्येक वर्ष जुलाई में अपने परिवारों का आनंद लेने के लिए लौट आए। , मटुम में।
जैसा कि अपेक्षित था, शहर बदल गया था, सरगर्मी और अपनी मुख्य विशेषता खो रही थी, जो कि यह एक शांत शहर था, खाली और शांत सड़कों के साथ। सेना की उपस्थिति और छात्रों के आगमन ने शहर के हर हिस्से में अशांति पैदा कर दी।
(अगले सप्ताह जारी रखने के लिए)

OPERAÇÃO MUTUM – O QUARTEL MILITAR

(Episódio 11)

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Pouco antes de entrarmos em Mutum, nas imediações da encruzilhada que levava ao Distrito de  Ocidente, nos deparamos com um comboio do Exército Brasileiro, formado por três caminhões de transporte de tropas, precedidos por um jipe onde deveria levar, eu supus, algum oficial comandante. Deduzi que deveriam estar se deslocando desde Juiz de Fora, onde estava sediada a IV Divisão de Infantaria da IV Região Militar do Exército, e que a razão para a presença ali, daquela tropa, não seria outra senão a mesma que me fizera viajar tanto, desde Belo Horizonte: a queda as bombas.

Como tínhamos feito apenas uma parada rápida durante toda a viagem, para reabastecer, em Realeza, chegamos à casa dos meus avós pouco depois das dezesseis horas, com o sol ainda alto no céu.

Eu estava ansioso para sair andando pela cidade em busca de informações. Mas não antes de saber, pelo meu avô, que todos na cidade estavam apreensivos, que ninguém sabia direito o que tinha acontecido, que haviam, sim, ouvido o som de um avião sobrevoando Mutum por umas três vezes, no dia anterior, devia ser umas sete horas da noite e que algumas pessoas viram que ele deixava cair alguma coisa sobre a cidade. Mas ninguém identificou o que era nem onde tinha caído.

Só mais tarde, quando a noticia foi divulgada nos rádios e nas TVs ficaram sabendo que se tratava de um avião militar e de bombas.

Minha avó, que estava sentada na varanda da entrada da casa, enquanto meu avô e eu conversávamos na sala, irrompeu ao nosso encontro, dizendo que caminhões cheios de soldados estavam chegando na Praça. Expliquei que já os tinha visto na estrada na chegada e que iria até lá, para saber o que tinham ido fazer em Mutum.

A tropa do exército passou pela Praça Benedito Valadares e dirigiu-se para o espaço existente na frente do Estádio Municipal, na beira do rio, onde montaram acampamento e aquartelaram-se. Fui até lá e consegui, sem muitas dificuldades,  falar com o Major Alfredo, que estava no comando da tropa.

 Ouvi dele a informação de que, por ordens superiores recebidas do Comando do Exército, em Brasília, estavam ali para manter a ordem e prepararem o caminho para uma operação militar que seria realizada, a partir daquela noite.

Nada disse sobre as bombas e quando perguntei delas, virou-me simplesmente as costas sem responder.

(Continua na próxima semana)

OPERAÇÃO MUTUM – OS FATOS

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(Episódio 10)

Antes de acontecer no Brasil o Golpe Militar que ficou conhecido como Revolução de 1964, assistíamos o surgimento de movimentos populares que questionavam a situação interna do País. Indo além, criticavam a nossa dependência externa, exigindo um rompimento político do governo com os Estados Unidos da América, então considerados opressores pelos líderes nacionalistas, principalmente os estudantes, representados nacional e politicamente pela União Nacional dos Estudantes – UNE, com sede no Rio de Janeiro.

 Ao mesmo tempo, esses mesmos grupos populares reivindicavam fosse feita uma maior inclusão social das camadas mais pobres e trabalhadoras.

 A rejeição declarada aos americanos, chamados pelos estudantes e esquerdistas de “ianques”, era manifestada através da expressão “yanques go home”, que podia ser lida nos muros ao longo do País e ouvida como palavra de ordem nas passeatas de estudantes e trabalhadores, que já se tinham tornavam um fato comum no Governo João Goulart.  Significava “ianques vão para casa”.

A palavra iankee, para pessoas que não são americanas indica qualquer americano. Para um americano, no entanto, um yankee é uma pessoa que vive em um Estado do Norte do País. Para pessoas que vivem no Leste dos Estados Unidos, um yankee é uma pessoa que tem origem ou reside em Nova Inglaterra, região localizada no Nordeste dos Estados Unidos, composta por seis estados – Connecticut, Maine, Massachusetts, Nova Hampshire, Rhode Island, Vermont.

Durante a Guerra de Secessão, entre 1861 e 1865, a palavra yankee foi popularizada pelos sulistas, quando foi usada para referir-se aos soldados nortistas, vitoriosos, e, de uma maneira geral às pessoas que viviam no Norte dos Estados Unidos.

Esses anseios democráticos, no Brasil, tiveram origem na década de 50 avançando pelo inicio dos anos 60 até o advento da Revolução.         

Como não poderia deixar de acontecer, o Governo Militar, após a Revolução de 1964, procurou criar uma Doutrina de Segurança Nacional, que fosse capaz de identificar, apontar e eliminar os possíveis inimigos internos, incluindo-se, aí, naturalmente, todos aqueles que questionassem e criticassem o novo regime, com especial destaque para os reconhecidamente partidários do comunismo.

Para tornar reais as ações que se fariam necessárias para o alcance dos objetivos propostos, foram criados alguns órgãos governamentais especiais, com destaque para o Serviço Nacional de Informações – SNI. Responsável por toda a rede de informações e contra-informações do Governo, o SNI, criado em 1964 e dirigido pelo General Golbery do Couto e Silva, passou a direcionar todas as informações recebidas, diretamente para o Poder Executivo, ou seja, para o Presidente da República.

Ao terminar esta primeira análise sobre o que ocorrera em Mutum, naquele Domingo 29 de Junho de 1975, conclui que, embora a Aeronáutica, responsável pelo avião que sofrera a pane e lançara sobre a cidade as quatro bombas, não tivesse soltado nenhuma nota oficial, com certeza o General Ernesto Geisel, Presidente do Brasil, já estaria a par de tudo. Com certeza o Serviço Nacional de Informações/SNI já o havia informado.

Por que será então que ninguém falava oficialmente? Sendo assim, era muito provável que Manfredo Kurt, o Redator-chefe do Jornal do Povo estivesse certo. “Aí tem coisas” conclui.

 Com os olhos fechados, perguntei ao Francisco Neto em tom de brincadeira –  E aí, Chicão, vamos chegar em Mutum ainda esse mês? – enquanto me ajeitava no banco para tentar cochilar um pouco. Com os olhos semicerrados, deixei o pensamento voar solto em direção a Mutum. Uma lassidão foi tomando conta de meu corpo enquanto o sono se apossava de mim. Francisco Neto não deve ter entendido porque eu estava sorrindo enquanto cochilava no banco do passageiro do fusca.

(Continua na próxima semana)

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