Arquivos da Categoria: Contos e Poemas

20 POEMAS QUASIDARKS

Salomão Rovedo

4

 “Mas é que não me lembro

 de teu rosto

 menino menino.”

Patrícia Blower

 Um fio de vida retém o corpo menino

na madrugada que encobriu a noite.

Migalha de pão foi um dia, fio de vida,

 detém derradeiras gotículas de lágrima.

Cheiro de barro molhado e terra preta,

 estrume, húmus aquoso, água de chuva.

 Últimos pingos de chuva e brisa e sal

morrem aqui e no chão do horizonte.

Só um piscar de vida mantém cálido

este corpo criança, criança, criança.

Fluídica, oleosa, carma inesperado,

 alma revestida de asas alça vôo e voa.

(Amaricanto)

Terminal 9 – Conto

Terminal 9 – Conto

Rafael F. Faiani

Desenho em computação gráfica do interior de um quarto no estilo de comodos espaciais, uma cama de solteiro com dois travesseiros e um lençol caindo, algumas fotos coladas na parede logo ao lado, e uma janela que mostra uma paisagem com prédios futuristicos e montanhas ao fundo.

Sobre os ombros, Larsson estudou a garota na fila de embarque.Tinha traços delicados, embora os cabelos estivessem pintados de branco e os lábios se destacassem com um roxo tão reluzente quanto neon. Desviou o olhar quando ela notou seu súbito interesse.

“Alguma coisa aconteceu”, pensou. “Era para ele já ter aparecido.”

Projetores passavam uma propaganda de adesivos de nicotina, onde uma ruiva com uma roupa preta colada ao corpo os exibia no pescoço. Larsson preferia fumar da maneira tradicional, mas isso passara a ser proibido devido ao excesso de poluição no ar. Uma grande piada, no final das contas, visto que não havia como monitorar todos os lugares e, nos becos mais escuros, ninguém se importava com as regras.

Os seguranças do espaçoporto se aproximavam, portando bastões atordoadores. Sem pressa, percorriam as fileiras do saguão de embarque, escolhendo aleatoriamente pessoas para serem revistadas.

— Você! — um segurança apontou para Larsson. — Venha até aqui.

Contrariado, saiu da fila. Tinha deixado a arma na moto. Não correria o risco de tê-la confiscada por um prazo indeterminado — o porte de arma era restrito, afinal, um disparo indevido em algum ponto da redoma poderia despressurizar o setor.

— Qual o motivo da viagem?

— Negócios — Larsson respondeu.

— Não vai mais voltar à Lua?

— É claro que vou. Meu visto na Terra só se estende por quatro semanas.

— Me mostre o passaporte.

— Está no bolso.

— Sem movimentos bruscos — o segurança segurou firme o bastão como se Larsson tivesse a intenção de atacá-lo.

— Na verdade, vou lhe mostrar um documento que… — parou de falar ao avistar o alvo atravessando o saguão. Deu-se conta que ele escaparia pelo portão de embarque VIP e não seria capaz de persegui-lo ali.

Larsson agiu instintivamente. Afastou-se do bastão do segurança e pressionou um ponto específico em seu pescoço. O homem perdeu os sentidos e desabou no chão. No mesmo instante, um grito de mulher fez com que perdesse o foco no alvo.

Três seguranças cercavam a garota. Um deles deu-lhe uma descarga elétrica com o bastão na perna. Pareciam se divertir com a situação. A maioria das pessoas não estava impressionada com aquela atitude. O espaçoporto era área da Federação e tinha regras próprias.

— Não façam isso! — Larsson pegou-se dizendo.

A garota aproveitou a distração para fugir. O segurança mais próximo puxou a arma, mas Larsson o nocauteou com um soco. Desarmou os outros dois em questão de segundos e foi atrás dela.

— Espere!

Ela era ágil, ultrapassava os obstáculos com uma habilidade fora do comum. Larsson não conseguia se aproximar. Resolveu então tomar um atalho. Só havia um ponto de saída no espaçoporto. Esperou, mas ela não apareceu. Logo se viu sob a mira dos seguranças. Deu um passo para trás com os braços no ar.

— Já estou fora da jurisdição de vocês. A propósito, sou da Polícia Lunar.

O distintivo brilhava na palma da sua mão.

***

— O que você estava pensando? — gritou Tudor.

Larsson ficou em silêncio. Era o melhor modo de agir com seu chefe. Se ficasse calado, talvez o velho não pegasse tão pesado com ele.

— Em primeiro lugar. O espaçoporto é zona dos terráqueos. Não está sob nossa alçada. Em segundo lugar, não agredimos pessoas sem motivo. Estou com várias denúncias aqui que…

— Mas eles…

Tudor ergueu a mão num gesto autoritário.

— Não terminei. Não há justificativa para o que você fez. Além de ter deixado escapar o suspeito.

— Estou suspenso?

— O que acha?

Larsson jogou o distintivo na mesa.

— A sua arma também.

Saiu da sala, batendo de propósito a porta do chefe. Apostava que vários dos seus colegas de trabalho tinham ouvido os gritos da discussão. Antes de deixar a delegacia, Galder, seu antigo parceiro, veio até ele.

— Foi tão ruim quanto penso que foi?

— Pior. Conseguiu o que lhe pedi?

— O cara está no Bar do Dock. Tenha cuidado, ele é perigoso.

— É? Eu também.

Larsson deixou Galder com seus temores e seguiu de moto até o Distrito 5. Não havia muito trânsito, as pessoas optavam por transportes públicos à noite. Fazia tempo que não ia àquele bar. Da última vez, ele não fora muito bem recepcionado. Puxou o capuz antes de chegar ao estabelecimento. Não queria ser reconhecido, por ora. Havia um porteiro marciano na entrada. Um maço de cigarros e teve a passagem garantida.

Encontrou o homem em um reservado, bebendo algum whisky barato. Ele fez cara de poucos amigos, claramente não querendo ser interrompido.

— Preciso de uma informação, Kron.

— Está com tanta vontade de morrer?

— Resposta errada.

Larsson golpeou o peito do homem com dois dedos e se sentou.

— Não consigo me mover. O que fez comigo?

— Pontos de pressão. Uma técnica que aprendi. Se cooperar, faço você voltar a se mexer. Quero encontrar uma pessoa. Uma garota de estatura baixa, cabelos brancos e…

— Você também?

Larsson puxou Kron pela jaqueta.

— O que quer dizer com isso?

— Costello está atrás da garota. Está pagando uma boa recompensa para quem localizá-la. Se eu soubesse o paradeiro dela, estaria rico agora… Aonde você vai? Vai me deixar assim?

— Vai melhorar dentro de alguns minutos – Larsson deu as costas e rumou para fora do bar.

Mesmo sendo um fantasma, Costello era o homem mais poderoso do submundo. “No que aquela mulher está metida?”, refletiu, ao subir na moto.

Um movimento despertou o seu interesse. Penetrou na penumbra do beco com cautela, mas foi rendido por uma faca no pescoço. Aquela garota era mesmo sorrateira.

— Estava à sua procura — ele falou.

— Por que me ajudou?

— Não gosto de verem ameaçar uma mulher indefesa.

— Não sou tão indefesa assim, detetive Larsson.

— Estava me seguindo? — esboçou um sorriso.

A garota concordou com a cabeça.

— Fiquei sabendo que pisou no calo do Costello. Sempre achei que ele fosse uma espécie de lenda. Ninguém jamais o viu e, se viu, não viveu para contar a história.

— Ele é real. Conheço bem o rosto dele.

— Por isso estava fugindo?

— Não, foi porque roubei os seus planos.

— Se incomoda de abaixar essa faca?

— Vai tentar alguma coisa contra mim?

— Só quero conversar. Pode me dizer o seu nome?

Ela retirou a faca, mas a manteve em mãos.

— Allana.

— Teve sorte de escapar do espaçoporto.

— Teria mesmo se tivesse conseguido fugir para a Terra. Aqueles seguranças estão na folha de pagamento de Costello. Ninguém deixa a Lua sem a permissão dele.

— Ele pode ser perigoso, mas não é tão poderoso assim.

— Você não faz ideia. Acreditaria na minha palavra se o conhecesse.

Larsson voltou-se para dois sujeitos que pararam na entrada do beco.

— Dêem o fora! — falou. Depois fitou Allana nos olhos. — Você disse planos? O que pode ser tão importante para colocarem uma recompensa pela sua cabeça?

— Costello pretende assassinar um importante político terráqueo. Nos planos constam detalhes do atentado e o itinerário do alvo.

Larsson cofiou a barba rala do queixo. Checaria depois se algum político da Terra visitaria a Lua nos próximos dias ou semanas. Não era tão incomum assim.

— Só uma coisa não se encaixa.

— O quê? — ela quis saber. Seus lábios cintilavam na escuridão.

— Como conseguiu esses planos?

— Foi muito fácil. Costello é meu pai.

***

“Devo estar louco em seguir com isso”, avaliou Larsson ao estacionar a moto. Allana puxou o binóculo e fiscalizou o lugar. Depois, passou para ele. Ao longe, dentro de uma cratera, era possível ver a instalação de perfuração e expansão.

Allana indicou um galpão de teto baixo. Lugar perfeito para um covil. Estavam tão afastados do centro que demoraram horas para chegar. Tiveram que percorrer caminhos sinuosos, estradas que Larsson jamais pensou existir. Já era dia, apesar de a cidade ser sempre iluminada. O sol não atravessava as redomas de proteção, então os lunares viviam dias perpétuos. Havia apenas um controle de intensidade de luz, o que possibilitava identificar quando anoitecia.

— Não conheço esse lugar.

— Aqui é o Terminal 9. É um dos pontos de expansão, mas não está mapeado. Costello não está preocupado em expandir. Ele está escavando, criando no subsolo uma cidade dentro de outra cidade.

— Como é possível um gângster dirigir esse centro de expansão?

— Já lhe disse para não subestimá-lo. Ele é uma pessoa pública, muito influente na prefeitura.

— Você ainda não me falou o verdadeiro nome dele.

— Saber irá colocá-lo em perigo.

— Estou acostumado. Vai me dizer ou não?

Allana hesitou por um instante, estudando a determinação do detetive.

— Ness Volmann — disse, por fim.

— O vice-prefeito? E o que ele ganha ao assassinar esse político terráqueo?

— Não sei.

Larsson voltou-se novamente para o terminal.

— São presidiários? — observou dezenas de pessoas saindo de um prédio e entrando no galpão. Todas vestiam as roupas amarelas do sistema penal. — Eles deveriam estar nas prisões de Marte, não aqui. Como nunca soubemos disso?

— A cidade está crescendo, detetive. Você sabe bem que a força policial não dá conta dos incidentes que ocorrem no centro e nas periferias, lutando dia a dia para impedir a disseminação do caos. Não é mais possível estender os olhares para todas as direções. Todos estão ocupados demais para sequer prestar atenção ao que acontece a duzentos quilômetros de distância do centro.

Larsson franziu a testa.

— É só descer por aquela rampa de acesso. Há alguns pontos com escadas que levam diretamente ao subsolo… O que foi?

O detetive se encaminhava lentamente para a moto. Ao se virar, disse:

— Eu sei farejar uma armadilha.

A garota foi mais rápida do que Larsson esperava. Acertou seu joelho, tirando o seu equilíbrio. Outro chute lhe atingiu a barriga e ele se retorceu, sem fôlego, no chão.

— Estou ficando velho — resmungou, buscando a arma na bota.

— Procurando isso?

Antes que pudesse pensar como ela havia tomado a sua arma, um veículo parou na estrada. Dois brutamontes desceram, escoltando um homem calvo. Não estava com a farda oficial da prefeitura, mas Larsson reconheceu imediatamente o rosto.

— Volmann — cuspiu no chão. — Vai passar o final dos seus dias quebrando pedras em Marte.

O vice-prefeito riu da afronta.

***

A água no rosto o despertou.

— Olhe para mim!

Larsson não identificou o interlocutor. Ainda estava atordoado,  mas o soco no estômago reavivou seus sentidos. Era um dos brutamontes. O detetive estava amarrado a uma cadeira e o vice-prefeito o observava. Allana permanecia indiferente ao seu lado.

Depois de um novo golpe, ouviu a voz de Volmann:

— Pode parar, Vox. Acho que o detetive Larsson vai prestar mais atenção agora em nossas palavras.

— Ele não parece estar intimidado — a garota falou.

— O que querem de mim?

Volmann se avizinhou e disse próximo ao ouvido de Larsson:

— Baruk Von Nitz. Por que você o estava vigiando?

— Assunto policial.

Desta vez, foi o próprio Volmann quem lhe golpeou.

— Podemos continuar por horas e horas, detetive. Vai chegar um momento que você vai implorar para contar.

— É melhor cooperar — aconselhou a garota.

Larsson analisou a situação e resolveu ceder. Não havia motivos para guardar segredo quanto a Nitz.

— Ele é suspeito do assassinato de pelo menos três mulheres. — A expressão de Volmann se suavizou. — Estava de olho nele há duas semanas, mas Nitz desapareceu. Obtive depois a informação, pela controladoria de registros de embarque, que deixaria a Lua.

— Entendo — Volmann assentiu.

— Não vou deixar que mate um dos políticos da Terra.

— Você acredita mesmo que eu teria algum interesse nisso? Acha que Allana é mesmo minha filha? — riu o vice-prefeito. — Ela executou bem o seu trabalho. Agora vamos dar uma volta pelo Terminal 9.

Os brutamontes escoltaram Larsson enquanto se aprofundavam por corredores, cada vez mais para o subsolo. A técnica de pressão do detetive não surtiria efeito contra a força bruta daqueles capangas. Mesmo se os derrotasse, ainda teria que lidar com Allana. Seguiu, assim, os passos do vice-prefeito, que se vangloriava da construção.

— Vou lhe apresentar um amigo — disse, batendo na porta.

O detetive não acreditou nos seus olhos.

— Como é possível?

Aquela pessoa era idêntica a ele.

— Milagres da cirurgia plástica — Allana respondeu. — Já troquei de rosto três vezes. Estamos de olho em você faz tempo, estudando todos seus movimentos.

— O que esperam se passando por mim?

— Instaurar uma nova ordem, é claro — Volmann falou com entusiasmo. — Depois que o chefe de polícia for morto na própria sala pelo seu sósia, convencerei o prefeito a criar uma milícia especial comandada por mim. Sou um visionário, detetive.

— Seu plano não vai dar certo.

Um dos brutamontes o ergueu pelo pescoço. Larsson resistiu à pressão do aperto até ficar sem ar e desmaiar.

***

Encontrava-se agora numa sala lacrada. Uma janela circular reforçada mostrava a superfície da Lua. Sempre desejara viajar pelo espaço, desbravar outros planetas. Se tivesse nascido na Terra haveria a oportunidade de se alistar na Academia da ONU e se tornar um dos tripulantes das naves exploratórias. Um sonho de criança que se perdera no tempo.

— Gostou da vista? — era a voz de Allana. Vinha de outro lugar, possivelmente da sala ao lado.

Larsson sabia o que aconteceria. Aquele era o lugar em que Volmann despejava suas vítimas. A porta se abriria e ele seria lançado na superfície.

— Você me enganou desde o princípio.

— Dei o nome real de Costello para que confiasse em mim — ela explicou. — Não se recrimine tanto.

— Na verdade, tenho que lhe agradecer. Eu sabia que Nitz tinha ligações com Costello. Só foi questão de ver onde essa insistência de persegui-lo me levava. A força-tarefa da polícia já deve estar tomando os setores do império de Costello. Desculpe, mas acho que enganei todos vocês.

A porta pressurizada se abriu com um chiado. Allana avançou com a faca na mão.

— Sabíamos até mesmo do infiltrado na polícia — ele continuou. — Só faltava descobrir a localização do Terminal 9 e a identidade de Costello.

A faca dela mirava o coração, mas ele bloqueou o ataque. A lâmina rasgou a carne e chegou a atravessar o braço. Com a proximidade, a guarda dela ficou exposta. O detetive a atingiu em um ponto abaixo da costela esquerda. Allana recuou, aturdida. Um fio de sangue escorreu pelo seu nariz. Ela levou a mão ao pescoço, sem ar. Quando ficou inconsciente, Larsson reativou sua respiração. Esperava que a garota não tivesse sequelas depois daquele golpe, mas não havia como saber até ela acordar.

Rasgou um pedaço do tecido da calça e improvisou um torniquete. Minutos depois, Tudor apareceu na porta.

— Galder era o informante, como você suspeitava.

— Prenderam todos?

— Toda a gangue. O prefeito não vai acreditar quando descobrir que Volmann estava por trás de tudo.

— Avise pelo rádio para procurarem um sujeito idêntico a mim. Torça para que ele não tenha escapado. Não quero minha foto estampada em todos os muros da cidade.

O chefe de polícia concordou.

— Mais uma coisa, Tudor. Preciso de férias.

— Férias? Certo, vou lhe dar dois dias.

— Dois dias? Prefiro sangrar aqui até a morte.

— Não posso deixar que faça isso. O prefeito vai querer cumprimentá-lo pessoalmente. Mas não se preocupe. Vou chamar um médico antes que morra — disse Tudor, saindo da sala.

Larsson observou o espaço mais uma vez, encostado no aço frio. As estrelas estavam mais brilhantes que nunca. Fechou os olhos, sentindo-se cansado e vazio por dentro. Uma garrafa de whisky resolveria seu problema até o próximo caso. Sempre resolvia.


Rafael F. Faiani é escritor, engenheiro e cinéfilo. Nasceu no dia da mentira em Cravinhos, estado de São Paulo. Apesar de não ser mentiroso, inventa histórias o tempo todo. Tem contos espalhados pela Internet e em antologias no Brasil e Portugal.

https://go.hotmart.com/C45012354L

20 POEMAS QUASIDARKS

Salomão Rovedo

3

“El alma vuela y vuela.”

 Nicolás Guillén

 Pega minhas mãos frias e beija.

 Meu peito sem hálito acaricia.

 Fixa meus olhos baços lacrimejantes.

 Exaure-me todo, toda a resistência.

 Totalmente desequilibrado em pênsil arame.

 Deforma-me com tuas mãos quentes de barro.

 Quebra-me os ossos, guarda-os para ti.

Elabora um brinquedo desmontável.

Traz o brilho nauseante dos teus olhos.

Baixa minhas pálpebras deslustradas.

Apaga minha penúltima Luz!

(Amaricanto)

https://go.hotmart.com/C45012354L

TRIGÉSIMO DIA

José Araujo de Souza

Trinta dias depois,

é como se aquela dor estivesse iniciando

sua caminhada no meu peito.

Trinta dias depois,

contados da dor permanente,

da tristeza diária,

cada vez maior.

Trinta dias, hoje,

e nada se modifica na lembrança

que carrego comigo.

Eu a vejo a cada instante

e não a encontro em nenhum canto

para onde eu corra,

em nenhum lugar onde me escore.

Há trinta dias

começamos  a nossa morte,

gradativa, inevitável

e irreversível.

Só que ela foi retirada

do campo de batalha

primeiro.

Eu,

ainda aguardo…

https://go.hotmart.com/N44651312R

https://go.hotmart.com/N44651312R?dp=1

COMPANHEIRA FIEL

José Araujo de Souza

Esta saudade, amor,

é companheira fiel na solidão

das minhas noites, quando não estás.

Esta saudade, amor,

toma conta de mim a teu mando,

para que eu  não me esqueça

de ti, quando não estás.

Esta saudade, amor,

eu a amo como amo a ti,

 quando não estás.

Ah, amor,

se não houvesse a saudade,

comigo, quando não estás,

eu morreria, por certo,

desesperado e só.

https://go.hotmart.com/N44651312R

https://go.hotmart.com/N44651312R?dp=1

Voltar é sempre partir





 
Maria de Nazaré Barreto Trindade
 
Vinha caminhando pela rua sob um sol de 40 graus. Nenhum espaço a sua frente tinha sabor de saudade. Esperava contar com sorrisos e lágrimas. A volta é sempre partida. Num ínfimo tempo, aporta à janela de Maria. Está só. Vasculha galerias das lembranças em busca de  uma sentimentalidade que está perdida. No escuro, no frio e escuro porão sombrio de sua memória. Vê um rosto. Cabelos soltos ao vento.
Espaço desdobrado em cores de antes.
Perde o sorriso. Sob lentes desfocadas aguarda a primavera.
O outono já chegou. E trouxe consigo certezas do cinza. Ri-se da agonia, ri-se do medo. O asfalto parece queimar-lhe os pés descalços.
A agonia prevalece sobre a dor. Onde foi Maria? Qual estrela que se findou. Procura entre pedaços de guardados, cheiros, fantasias, sabores de noites mal dormidas, exalantes perfumes sobre a esteira de vime. Candelabros sufocantes que amaciavam a noite com finas luzes.
Passa a mão na tez reluzente de uma foto amarelada. Descaminhos.
Sobrou nada. O vago silêncio de outrora, quebrado pelo murmúrio da rua. O escaldante rei que toma todo o espaço e finca sua espada de raios na face macia. Caminha em direção da porta.
Quebrada e suja.
Não é entrada, é saída. É caminho que não se deve fazer. Entra.
O sofá da sala está banhado em mofo. Outrora divã de sussurros, cúmplice de beijos e de esperas. Agora, vazio. A parede guarda pedaços dos que se foram. Papéis amassados sobre a escrivaninha denunciam dúvidas, incertezas, amores findos, amores idos. Aguça os sentidos. Inspira fundo na direção da janela aberta.
O porto traz um cheiro de solidão e de mar. Logo o ar se enche de uma brisa morna que o invade até o mais profundo da alma.
Maria se foi… Deixou o rastro de um amor. Deixou pedaços de bem amar. Cantigas perdidas no espaldar do dia. E agora, sobressaem-lhe as marcas da vida. Olha para o vazio. Vê o mato, erva daninha que toma rasteiro cada pedaço do jardim de outrora. As onze horas
fenecem, as margaridas desmancham-se. O girassol teimoso gira em busca… da luz. Procura vestígios. Pergunta a rua: onde foi Maria. O vento responde sussurrando-lhe ao ouvido: partiu, sem medo, sem demora. Levou consigo a alegria de outrora. A rua ficou pra trás. O
porto ficou pra trás. O amor, já tinha partido. Agora, flutuava.
 
https://go.hotmart.com/N44651312R
 
https://go.hotmart.com/N44651312R?dp=1
 

Uma solução imaginável





 
Adriana Cunha de Morais Santos
 
Arrumando os jornais velhos da estante, deparei-me com inúmeras notícias no caderno de política sobre as pilantragens de nossos representantes do Executivo e Legislativo, entre elas, uma mostrando um prefeito de um município do Pará, flagrado com “a meia na mão”; expressão que eu inventei, pois pedem esmolas (propinas), e guardam na meia (a cueca está fora de moda). Folheei sem prestar muita atenção aos detalhes. Sabemos que se tornou
rotineiro a esperteza desses político e o que nos parece é que nada vai mudar.
De repente, cansada de dobrar os vários jornais, sentei no sofá da sala e fechei os olhos. Era como se estivesse sonhando, imaginei uma solução de acabar com esta escancarada roubalheira. “Vi os políticos sendo convidados para um safári na África, cada um recebendo das mãos de um de seus inúmeros assessores um envelope com o convite e as condições da viagem. Teriam que levar seus suplentes também.
Eles não poderiam, por hipótese nenhuma, desviar as passagens de avião para os parentes, sob pena de multa e o não comparecimento à viagem significaria execução sumária, quero dizer, exoneração do seu cargo. Fiquei imaginando a preocupação deles em chamar seus
marqueteiros para poder exibir seus melhores personagens. Uns representariam os ursos selvagens, na verdade queriam ser os pandas porque são mais carismáticos, mas estes são chineses, Outros, os elefantes, com todo aquele porte, representando força e poder. Alguns
se contentariam em representar os alces com toda sua magnitude, pose e aparente inocência; na verdade são espertos apesar da frágil aparência, e têm aqueles que preferem os veados, afinal lembra o Bambi, um personagem cheio de beleza e majestade. Os suplentes, loucos para destruir a imagens de seus colegas, levam, na maior, malas e botas de couro de jacaré. Falsos ambientalistas! Está bem, o que importava mesmo era reuni-los em um só lugar.
Chegando na África, um chefe de cerimônias, exibindo um olhar irônico, os acompanharia até um hotel, um tanto luxuoso. Sorrindo, meio amarelado, explicaria:
– Sejam bem-vindos, se instalem e almocem. Às quatro horas iremos para um passeio, conhecer os animais… selvagens.
Às quatro, todos a bordo de jipes alugados seguiriam até o lugar onde encontrariam com os selvagens animais. Na reserva dos leões seriam convidados a descer, prometeriam segurança, mas numa distração os guias e motorista se retiravam deixando aquelas carnes podres como banquete para os pobres leões. Imagino a cena: Os representantes dos ursos tentariam correr, mas de tão lentos e pesados acabariam sendo os primeiros a ser abocanhados.
Os que representavam os elefantes, pesados e sugadores, correriam balançando suas trombas, mas sua força e poder não seriam páreo à desenvoltura sangrenta dos esfomeados leões. Os alces tentariam se proteger com seus enormes chifres, tanta pose e magnitude, tentariam em vão subornar os seus algozes:
– Prometemos a vocês que será proibida a caça de animais, não poderão guardá-los em jaulas.
Acabariam sendo destroçados pelas garras e dentes afiados das feras. Então aqueles que escolheram os veados dançariam exibindo um balé magnífico, tanta delicadeza e beleza terminariam no último ato: boca dos leões.
Enfim, eu voltaria para o Brasil e encontraria o país todo desorganizado. Exigiria uma nova eleição, só que nenhum político ficha suja participaria, e muito menos os que estivessem respondendo algum processo, pois nenhum político é condenado aqui porque a Justiça é lenta, cega, muda e aleijada, pior é mendiga, vive de esmolas.
Quem dera ganhar tanta esmola… Mas no final da eleição voltariam os políticos “olha para o umbigo” e nada fariam para consertar o Brasil. Iriam utilizar a meia soquete para carregar as propinas, afinal ela é mais discreta. De nada adiantaria tentar dar fim aos políticos ladrões se não educar o povo, ele não sabe votar. Passam a vida toda em filas de hospital, sem pelo menos um lugar decente para morrer (morrem nos corredores ou na porta dos hospitais). Vivem utilizando-se de jornais, rádios e televisões agora até internet para reclamar da violência nas ruas, dos alagamentos e buracos. Fazem passeatas, trancam as ruas queimando pneus atrapalhando o pobre de trabalhar (porque os políticos têm helicóptero) e esquecem que foram eles que colocaram seus representantes no governo. Outra eleição, voto errado, dinheiro na meia, povo reclama e fica tudo na mesma.
Abri os olhos e concluí que de nada adiantaria alimentar leão com a carne estragada dos governantes e representantes do Planalto, talvez não exista solução. Recomecei a dobrar os velhos jornais

https://go.hotmart.com/N44651312R

https://go.hotmart.com/N44651312R?dp=1

DIA COMUM

José Araujo de Souza

O poeta, feliz,

concluiu o poema

e não viu no jornal da TV

a notícia da guerra mundial,

reiniciada.

Tomou seu café

com biscoitos

olhando o horizonte da janela

de frente para o mar,

sem saber que na rua,

oito andares abaixo,

um mendigo qualquer morrera

de fome e de frio

na noite recém acabada.

O poeta é feliz

porque pode viver isolado

de toda a verdade da vida

diária.

O poeta é feliz

porque pode fazer

da tristeza que sente

o seu mais lindo dia.

E uma noite encantada.

https://go.hotmart.com/P44458007I

SEM VOCÊ

José Araujo de Souza

Sem o seu sorriso,

não há sol no céu, se é dia,

nem luar, nem estrelas e nem noite,

quando tudo escurece.

Não há rumor de ondas

e o mar, raso ou profundo,

para imóvel, sem o seu sorriso.

Nenhum pássaro canta nos arvoredos

e as flores, nascidas na primavera,

perdem todo o perfume e toda a cor

e ficam sem graça e sem brilho,

sem o seu sorriso.

Quando chega a manhã,

o melhor momento do dia e o mais puro,

não há nenhum som, nem vento,

não há nada que possa alegrar a vida

quando não há o seu sorriso.

E eu, que não sei viver

sem ter comigo a vida que há na natureza,

fico meio perdido, entre morto e vivo,

e sem sorrir, sem o seu sorriso.

https://go.hotmart.com/P44458007I

« Entradas mais Antigas