Sonho

Airton Ícaro Cantúaria Gonzaga

A gente aprende bem cedo que só querer não dá. Sonhos de astronauta quebraram aos nove (estuda muito, muito, e no final o espaço deixa os ossos fraquinhos). Sonhos de bailarina quebraram aos 11 (professora disse que se continuasse comendo daquele jeito, com aquelas fofuras saltando pela lycra rosa, nunca seria grande coisa; agora, prefiro padarias a teatros). Os de professora se machucaram bem feio aos 8 e meio (só de ver como as professoras começam o ano e vão ficando murchinhas  até perto do Natal vai doendo  forte no peito, e a gente desiste). Fora os quebrados dos sete anos, oito, oito e meio, nove e sete dias. Ser rica (aí a gente descobre que esse emprego já tem dona), ser dona de casa (até ver que isso nem sonho é), ser cantora (até dizerem que voz de criança chateia), ser cientista (e meu irmão gargalhava dizendo que isso não era coisa de criança, muito menos menina, muito menos de alguém que tivesse alguma coisa na cabeça). Eu não gargalhava. Ficava vermelha, meio vergonha, meio raiva. Virava, corria e ficava criança, sonhando com coisa fácil. De vez em quando, deixando de pensar. Matando sonhos, às vezes. E os anos iam, iam… me levando junto. Olhava pra trás, meio triste, meio cansada. Sem lágrima nenhuma, meio  que sem saber qual  era a da tristeza.  É difícil entender que as coisas morrem. Primeiro, a gente aprende que bichinhos acabam. Depois, pessoas, vovô, vovó, titios, todos eles terminam. Aí outras coisas vão morrendo, e ninguém repara muito. Ninguém prepara a gente. Meus sonhos se espatifaram com tanta vontade no chão da infância, e eu lá, deixando quebrar. Triste, olhando. Perdendo alguma coisa difícil de sentir. Perdia mesmo assim.Cê sabe o que acontece, né?

Hum?

O que acontece! Quando fica assim, sonhando à toa.

Ah. Hum… Não. Não sei.

A gente só quebra a cara, porque a vida continua enquanto você fica sonhando.

Não é que eu não soubesse. Mas assim, vindo de um cara grande, respeitado até, irmão da vida toda, não dava mais pra ignorar. Ele ria enquanto falava, isso incomodava quase todo mundo. Mesmo acostumada, eu sempre o escutava com bochechas vermelhas, enquanto as palavras gargalhadas ecoavam. Sempre escutava o que ele dizia, já que sempre parecia uma piada, mas era sério às vezes. Naquele dia, dia de coisa séria, decidi treinar. Para não sonhar. Ou para sonhar menos. Contei isso pra menina que sentava do meu lado, de segunda a sexta, pelas manhãs sonolentas do colégio. Ainda não era minha amiga, só que ficava perto e escutava, e isso já era meio caminho andado pra qualquer futuro entre a gente.

  • Não sonho mais.
  • É? E por quê?
  • Não dá. Nunca dá. Se eu não aprendo a viver, viver logo, as coisas vão doendo com o tempo, e aí eu perco minha vida e o sonho vai acabar indo junto mesmo. Então… deixa logo ir.
  • Coisa estranha! Nem sei como é que deve ser.
  • Nada demais. Tudo o que vem assim, na cabeça, eu deixo passar. O que tenta ficar, eu quebro com outro pensamento. E a vida segue, entendeu?

Sim. E aí você fica feliz, né?

Não sabia. E doía não saber. E mesmo doendo tanto, segurei, sabendo que essa sensação não me fazia rir sozinha ou pular do nada ou sentir gosto de chocolate enchendo a boca inteira. Ela só doía. E seguia doendo.

Em um dia estranho, um sonho velho, de ser caminhoneira, saiu correndo e cresceu. Quando acordei, pensava na rua, como nunca pensei antes. No asfalto, na bagunça, nas rodas, no calor. Pensei, e com o corpo leve, subi na bicicleta, a caminho da escola, sem café na barriga e sem fome também. Pilotando no equilíbrio, imaginei a bicicleta tão grande quanto cabia na imaginação, e desandei a pedalar meu caminhão de duas rodas, rápido. Suor e cansaço escorrendo, falando, sem parar pra respirar, com a menina da cadeira do lado.

  • Ei, ei, entende de caminhão?
  • Olha, sei que é grande e cabe muita coisa. E é coisa de homem. Calei a boca. Já tinha escutado aquilo antes e a conversa acabou tão rápido que a outra arregalou os olhos, pensando ter dito uma besteira tipo grande. E tinha. Mas nem ligava. Nem eu. A gente aceitava, o tempo passava e a gente ficava de boa. É. De boa.

Uma dor nova todo dia. Essa não era nova, mas minha coleção aceitava figurinha repetida. Algumas já faziam pilhas largas e pesadas, pressionando bem no peito.

“Coisa de homem”. Isso ecoava, enquanto eu arrastava a bicicleta de volta pra casa, sem pilotar, só trazendo do meu lado, bem perto, tentando dividir a tristeza. Ela rodava lenta, como que parando pra chorar. Ainda bem. Sem minha imaginação, eu ia estar numa pior.

A frase da menina da cadeira do lado ficou até de noite. Eu, com raiva, pensando em tudo que as três palavras já tinham me roubado. O que é de homem? Barba, bigode, sair tarde, chegar tarde, ou só chegar e sair e pronto, roupa fácil, coisas legais pra fazer. Eu podia viver sem quase tudo aquilo, mas e as coisas legais? O que sobrava pra mim? E pras outras meninas nas outras cadeiras? Depois de um tempo, saquei que caminhão não dava pra mim. Mas tinha tanta coisa, além disso, que tive que esquecer, porque as palavras, as três, surgiam de algum lugar escuro e com língua, destruindo tudo. Só que, se eu quisesse aprender a não sonhar, tinha que treinar mais. E pra treinar, essas palavras eram boas, matavam um monte de sonhos. Aí segui quebrando sonhos, e enquanto eles morriam, outros vinham alagando os pensamentos. E apesar de querer me afogar ali, feliz da vida, fingia que não ligava, pra quebrar esses novos que vinham. Às vezes, os pedaços de uns se juntavam com outros e formavam coisas tão legais de ver que quando ia quebrar, eu tremia sem ar. Tanto que eu queria respirar…

Foi então que um dia, indo com pedaladas lentas pra escola, a mulher da esquina me fez parar. Cantava, com um violão velho no colo. Mas os dois tão afinados, tão bonitos, deslizavam pelo vento. Música velha e uma emoção que nem tinha nome ainda. Eu chorei depois de muito tempo. Acho que ela nem viu. Mas  tudo bem. Uma caixinha na frente dela se enchia de moedas, de umas pessoas sorridentes próximas. Quis pôr, mas meu dinheiro contado do lanche ia fazer falta. Pensei melhor. Pus mesmo assim. Se ela viu as lágrimas caindo junto com as moedas, não parou de cantar pra ficar olhando. Cheguei tarde na escola, perdi uma aula, não me importei. A menina da cadeira ao meu lado perguntava o que tinha acontecido, se tudo ia bem. Eu segui direto pra cadeira com respostas lentas, ritmadas com meus dedos, como a mulher fazia no violão.

  • Ei, você tá bem? Chegou tarde.
  • Tô bem, tô bem. Tô sim.
  • Certeza?

– Absoluta, na boa. Tranquila, tranquila.

Viramos pra aula. Ela, pelo menos. Eu, eu tava longe. Mexendo os dedos, no ritmo da professora, no ritmo do vento batendo na janela, no ritmo errado. Meu ritmo.

Então, beleza.

Nem fome deu. Quase não lembrei que tinha que sair, voltar pra casa. Lembrei do meu irmão e da única coisa ruim na música: minha voz de criança. “Vozes crescem”, pensei, feliz. Entre tantos pedaços arrebentados de outros sonhos, o que mais tinha era espaço pra música crescer. E ela cresceu. Discos velhos do papai. Os dedos batiam. Nunca mais vi a mulher, mas tudo bem. Meu ritmo. Mamãe cozinhando e cantando. As pernas se movendo e eu seguindo. E eu cantando também, em silêncio. Sonhando canção, dedos batendo. Ouvindo, sozinha. Dentes batiam, língua fazendo melodias pequenas, e os dedos dentro do bolso. Parados. Sempre marcando o ritmo.

E aí, mesmo nos dias que só me sobrava a música, eu não ficava mais sozinha. Pelo menos, largava rápido da solidão. Mesmo quando me sentava quieta, no quarto escuro, com uma gotinha querendo vir dos olhos por causa de um dia ruim, músicas me tiravam pra dançar. Então, beleza.

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