OPERAÇÃO MUTUM – 11 de julho de 1975 – Os depoimentos

(Episódio 37)

Eram seis horas da manhã quando deixei Marta no ônibus que a levaria para Aimorés.

Tinha prometido a ela que não voltaria para Belo Horizonte antes dela voltar a Mutum “qualquer dia desses”, ela dissera.

Ali de pé, vendo o ônibus sumir na esquina da Pracinha da Padaria eu tentava colocar ordem nas ideais. Sabia que precisava afastar Marta dos meus pensamentos e voltar a me concentrar nos acontecimentos ligados à única bomba que ainda precisava ser encontrada e na prisão dos guerrilheiros. 

 Eu tinha a impressão de que estava faltando alguma coisa naquela história. Por quê, eu pensava, a noticia da prisão do Comandante Mário e dos cabos tinha sido divulgada tão depressa e nenhuma noticia era dada sobre as bombas? Lembrei-me do Manfredo Kurt dizendo “Aqui tem coisa”. Diziam que nunca sua intuição lhe falhara. E, pelo que eu estava comprovando desta vez em Mutum, mais uma vez Manfredo Kurt tivera uma intuição confirmada. O interesse do governo na região não estava apenas naquelas bombas perdidas. A presença dos guerrilheiros capturados era uma prova de que ali havia mais coisas.

Essa era uma das dúvidas que me intrigavam. Por que o Comandante Mário tinha ido parar em Mutum e como tinha chegado até lá? Restaria ainda alguém mais, ligado aos movimentos de resistência ao governo, na região? O que diriam os militares sobre isto?

Meus questionamentos foram feitos apenas mentalmente. Mas, embora não os tivesse feito em voz alta, não demoraram muito para começarem a ser respondidos.

Na tarde daquela sexta-feira, 11 de julho, sem que houvesse nenhuma ordem judicial e sem nenhum aviso prévio, algumas pessoas começaram a ser intimadas a comparecerem no quartel general do Comando Militar, no Estádio Municipal.

Sô Neca foi o primeiro a ser intimado e o primeiro a ir prestar declarações aos militares. Até que já era esperado que tivesse que dar explicações, afinal, ele é quem tinha vendido a fazenda no Imbiriçu para o Paulo Otávio, nome falso do Sargento Flores, de codinome Comandante Mário.

Sô Neca prestou depoimentos perante o Major Fortunato, do Exército, durante quatro horas ininterruptas. Quando deixou o quartel, ao ser perguntado sobre o que tinha sido perguntado e sobre o que tinha falado, apenas disse “Não posso dizer nada”.

Em seguida, foram ouvidos o Zeca da Guia e o Miguel do Boqueirão.

O Zeca da Guia, como próprio apelido indicava, era filho da Dona Guia, viúva do fazendeiro Procópio Martins. Morava em uma fazenda no Córrego Rico.

Era Engenheiro Agrônomo e tinha estudado e formado na Universidade Federal Rural, em Campo Grande, no Rio de Janeiro.

Fizera parte do grupo de estudantes que participou, no ano de 1963, da excursão feita a Mutum para difundir o ideário comunista no Brasil, patrocinados pelo sindicalista Paulo de Sá, irmão do Professor Carlos de Sá, e seus amigos do Partido Comunista Brasileiro – PC do B.

Miguel do Boqueirão também havia estudado na Universidade Federal Rural, em Campo Grande, no Rio de Janeiro, na mesma época de Zéca da Guia e, como ele, também fizera parte da excursão a Mutum, em 1963. Era formado em Economia Rural. Administrava a fazenda Águia Dourada, em Remanso, de propriedade de seus pais, Virgílio Pontes de Castro e Dona Rosenilda.

Zéca da Guia e Miguel do Boqueirão depuseram ao mesmo tempo. Zéca perante o Major Fortunato, o mesmo que tinha ouvido o depoimento de Sô Neca e Miguel perante o Major Cristiano, também do Exército.

Ao terminarem seus depoimentos já havia anoitecido. Ao deixarem o quartel também disseram, cada um, ao serem perguntados sobre como foram os depoimentos, um “não posso falar”.

Por ordem do Comando Militar naquela noite foi decretado um toque de recolher. Todos os civis, naquela noite, deveriam ficar em suas casas e estavam proibidos de circular pelas ruas após as 22 horas, a menos que portasse um salvo-conduto emitido pelo Comando Militar de Buscas. Ninguém se opôs. Afinal, o País estava sob os efeitos práticos do Ato Institucional Nº 5 – AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, pelo então Presidente Arthur da Costa e Silva, que marcava o endurecimento da ditadura militar responsável pelo Golpe de 1964.

O AI-5 deu ao governo uma série de poderes para reprimir a oposição que se esboçava em várias regiões, tais como fechar o Congresso Nacional e outras casas legislativas  (medida regulamentada pelo Ato Complementar nº 38, de 13 de dezembro de 1968), cassar mandatos eletivos, suspender os direitos políticos de qualquer cidadão por dez anos, intervir em Estados e Municípios, decretar confisco de bens por enriquecimento ilícito e suspender o direito de hábeas corpus para crimes políticos.

Três meses após a edição do AI-5, encarregados de inquéritos políticos passaram a poder determinar a prisão de qualquer cidadão civil, por sessenta dias, dez dos quais o detido permaneceria incomunicável onde estivesse detido.

Em Mutum eu já tinha absoluta certeza de que, além da busca pelas bombas, estava acontecendo na cidade alguma coisa mais séria.

A noite foi cheia de mistérios e de expectativas sobre como seria o dia seguinte.

(Continua na próxima semana)

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