A teoria incompreensível das marés

Arthur Martins Cecim

E dizia, entre os vestígios de areia sóbria:

Um conto de como as ondas nos  contam  seus  breves sonhos Um conto ou breve passagem das ondas…

Uma breve história no breve passar de uma onda…

As levas de pequenas ondas, misturadas a minúsculas e confusas flutuações. Flutuações da própria mágoa. Pequenos moinhos e re- moinhos que com véu dançavam ao léu e se criavam e descriavam na água, todos aqueles rebentos que vinham, juntos e como uma costa cega, quebravam na margem, e quebravam tão calmos, que a serenidade em mim acordava, doce, como uma criança acorda terna de um sonho tenro, distraído.

Vi a vida naquelas sagas eternas da água, os motins de raízes e frutos que boiavam aos bandos e que se traziam e balouçavam, vazios e solenes, a uma música eterna música das formas que acariciava os ouvidos e possuía lágrimas tão felizes, a brincar de brincar, que eu me sentia tocado e lembrado pela vida e ao mesmo tempo distraído por aquelas balanças de sons, é verdade que as águas são as sereias, que citam a vida, tão náufragas, que recitam a formação das coisas, são tão a cítara das causas.

Os vasos e taças das ondas vinham, e se brindavam, e quebra- vam, e elas davam aquela gargalhada pequena, e no desvario, retornavam ao velho jardim de suas infâncias, as ondas se plantavam e, ao correr lisas e despidas, se lançavam ao chão como se a vida nunca se gastasse, como se a vida nunca se odiasse, mas tão somente se comovesse. A maré vivia treinando sua morte, mas sua morte era a vida que queria se tentar várias vezes. Por vezes, uma brenha abria-se entre as vagas, e uma delas tomava a frente, vinha correndo como se tivesse rosa nos sorrisos, se intrometia entre as suas outras irmãs, e se jogava, valente, entre elas, e na bandejada das águas, na colheita da mãe, era trazida de volta, filha dos princípios líquidos.

Me lembro, lembro dos peixes que serenavam, estendidos sobre o lençol da areia, calados com o manto do sol, arrefecidos por uma ternura do meio-dia, aquela quando o tempo pára para que o mundo tenha tempo. Lembro bem de quando eu vagava entre os traços dos peixes, que faziam um quadro da vida ó no chão, os olhos deles esbugalhados e espelhando o céu das guelras, um lenço, lembro, que certa vez havi entre eles, que dizia algo de amores, esquecido naquelas ondas de tempo e pedra, o mar das pedras da praia e as ondas dos peixes mortos, bílis aos bilhões, e eu buscava por um chaveiro, só isso, porque vagava a procurar pequenas idades entre aquela eternidade. Sentia medo ao olhar de esgueira aqueles olhos de esgueira, me esmerava pelas pedras mais altas, descarrilhava com minhas sandálias de criança, lembrei das palavras pais que sempre ouvi e das nuvens mães que sempre me acompanharam, e do vento calmar que sempre me amaciou, e do sol que sempre se horizontou para mim. Os princípios primais da praia me acenavam a descer a encosta, a descer as arribanças, com um copo sem coisas, a catar os mortos da praia: uma pilha varrida, uma tampa de interiores da vida das casas, uma carta de primeiro amor borrada com o batom de um lábio infinito, suplicando ao eterno, a lata de uma pipa, com o cheiro necessário para a cera de uma criança, advertia-me com um peixe estranho que surgia baiúdo e boiúdo, cheio de ar, e com odor de antigas serenidades. O sol me tocava, ardia, rixava, no batismo alto dos dias e no calor dos esquemas das horas, até o meio-dia, quando s pescadores se retiravam, levando suas linhas como honrarias, levando as tarrafas com ares de inauguração, do mesmo modo e credo com que se chegavam de manso no coração da praia, pelos torneios certos das margens, aqueles torneios que insistiam-se tortos mas que os pescadores mesmos sempre sabiam daquelas insistências, e não conheciam mais tortuosidades não. Mas a cara de um ou outro deles vinha meio tortuosa, com as linhas de pesca em mão, talvez porque estivesse de missa com o dia, a levar a sério o vosso alimento, ó.

Vadiei por entre aquelas pedras e rochas sem saber do mundo, a tocá-lo nos seus princípios, e fustiguei, busquei e investiguei os ossos deixados pela vida das causas ao longo do corpo da praia, ao longo da costa nua da praia, e pregos e martelos mortos dormiam, cândidos, entre as faces daquele jardim casto e vasto. Vi ovas, ventres abertos, casulos, pássaros, motes de maré a chegar, o fim da vaza dela, as marolas a se assanhar, os beiços das ondas a bater, abençoadas pelo sol nefasto e caloroso, e golar, em glupes de líquidos, a glamar, em seus passeios atrevidos, e rebatiam, de glórias em glórias, até elevar e ensaiar seus vestidos a uma altura sincera e respeitosa. Então era hora de eu me ir dali, e, sem achar o chaveiro que buscava, biscateei ao menos uma lata ralada que não tinha mais inscrição e cuja face era já só uma ruína cinza por causa da batição da água. Vi, de costas, os peixes lá atrás, em meio às vidas esquecidas dos objetos do papiro infinito da vida, enquanto o vento me soprou de contrário, meus cabelos passearam um pouco à larga da brisa, e senti a alma do   fim da tarde em parte me acompanhar até o início dos caminhos   da praia, em parte se despedir de mim ali, ali mesmo. Nunca mais iria ver aquela tarde. A cada dia eu me despedia dos dias. Cada dia era mais uma onda em minha vida. Uma pequena lágrima correu de meus olhos como se fosse um regato livre, feliz, quando me despedi daquela tarde e de todos os seus atores. Uma pequena infância correu de meus olhos feitos de infinito.

Vim para casa, batizado pelo tempo e pelo vento, mas o caminho era longo, torto, e ridículo, porque me perdia por querer. Tinha o odor de peixe na mão, cheirava sentidamente à escama, vinha pelo tráfego do caminho lendo os rizomas do chão. Eram mils os dias que via no chão, porque ali também lia coisas de pequena idade, um turbilhão de esquecidos, ah mas a praia, ali barranco abaixo, me encantava, porque por ela eu lia as infâncias e as velhices do mundo, o caminho do mundo, os caminhos eternos do mundo, perdido, a se buscar. Adorava ver com olhos sinceros os olhos sinceros dos peixes que pareciam borbulhar alguma sílaba esquisita, ouvia o latir rueiro de algum cachorro, de parque na praia, a latir de troco com outro cão, a remoer montanhas de impropriedades, pássaros a fazer céu sobre as carcaças, as carcaças tinham jeitos de inocência, porque não tinham mais a lei de poder dizer o não, mas entrediziam pergaminhos, palavras gloriosas, estufavam seus orgulhos, a aceitar de bom grado o fado de suas ruínas. Eu adorava vagar, vaguinho, menorzinho, entre aquelas marchas de pedras, suas colunas, seus amontoados, suas pontes sobre um morto que adormecia, orgulhoso, a suplicar pelas nuvens, seus olhos que ficavam com o raio dos olhos meio navegado, virado, vermelho, e como entumecia, crescia de bilioso a bilião.

Gaivotas calmas pastavam, e eu subia a ribeira,  astuto  e feliz, com um leve pesar nos olhos. Por fim, olhava para trás uma última, na derradeira mirada, e via o céu de espumas vermelhas a se massagearem, os fortes e fortalezas do sol a se retirar em júbilo, as profundidades alaranjadas a fazer castelos em torno daquele reino, as rajadas de amarelo e azul a contrair o ápice da Terra, os pássaros a cortar aquele quadro criador e genial, os enxáguo da maré a tomar sua antiga posição, a deposição do sol, se retirando para um retiro só imaginável em nossas imaginações, o milagre do céu tornado azul anil, escuro, profundo e belo como um mar inesquecível, apaixonante, viril, impressionante, cor de amplidão de alma.

A gralha das gaivotas molhava os sons, levantando e encerrando o véu das cavidades, elas eram o feixe do novo mundo, o fim da tarde abria suas alas e entrava a alma libertadora do anil. Então era o tempo no meu tempo que eu chegava à minha casa.

Agora, vejo a vinda das ondas baixas e rasteiras, vejo a expansão das ondas, sinto o rogar do vento como um assemelhar de palavras, um mar de ares a zonear e me rumar para o sono, sono do sonho.

Aqui me sento, a ver uma família feliz brincar adiante de meus

olhos, os músculos da água, que trocavam seus tecidos, e um brilho laminante refletia-se, elas caíam, todas de mãos agarradas, no jardim da margem, os sons bucólicos, os risos líquidos, o balbuciar daquelas tensões, agoniadas, cada uma tentando entrar no túnel, e os caldos que se engolfavam, e assim, uma vida de onda mestra, imponente,   a desfilar com gama até se desfazer e revezar seu caminho para o meio dos chaqualhos, os músculos e os corpos das ondas vagas se contorciam, cegos, numa brincadeira de infâncias. Os pássaros passeavam pelos meios e véus do céu. O mar cadenciava suas mãos. E as cristas dos líquidos avançavam como coroas.

Vi, à margem da praia, chegando a mim feito uma mensagem dos séculos das ondas mundiais e eternas, que trazia areias e pensa- mentos da maré, uma carta, carcomida, de vidas:

E dizia, entre os vestígios e a areia sóbria:

Fui                            de casa o irmão isse que o tempo n tava bom fomos  mas a chuva                       por isso ficamos na nossa casinha pra ver a lua     ver

se ela ia ficar                   a noite fez frio mas o que importa é o sabor de viver e bem e

brincamos na bei            ar de contar quantos passos as ondas davam e quantos anos se passariam em um minu                               u e meus irmãos adoramos catamos tudo qu    ia na praia e

voltamos de sorriso infinito pra casa naquela noite de lua e areia eijo

Bebéia

Os pedaços daquela mensagem, secretamente rasgados pela mão da água, deixavam eternidades silenciosas entre aquelas palavras viajantes, havia um brilho decantado de areia nas beiras do papel, parecia-me que tinha a vida de um mundo naqueles enunciados.

Enquanto isso, avarias da água, passagens dela, me tocavam na margem, tocavam meus pés, e se iam de volta, tão acariciosas, tão de toque de pétalas, que senti um desejo terreno de dormir. A lua começava a se abrir, O, abria o céu como um animal. O ruído dos regatos da água, ruídos líquidos, ruídos familiares, hipnotizam. Pequenos animais começavam a surgir, naquela selva de areias, pás- saros noturnos, peixes, lagartos, e o corpo em crise do mar, sob o abismo do céu escuro, vasculhava suas mensagens entre as cordas da água, que se teciam e avariavam, à busca de mensagens.

Tenho certeza que outras mensagens podem estar secretamente atravessando as passagens do mar, passeando pelas vidas da água, enquanto a marola ficava de parábola, com suas sílabas líquidas inconstantes ou permanentes, as vidas passageiravam por ali pelas mensagens, e eram trazidas com tal honra pelas ondas, eram trazidas com tal seriedade e amor pelo universo das ondas, com tanto anseio e ao mesmo tempo, calma e calor, que achei que aquele universo infinito do mar as trazia para nós, eu, as lermos com calma e ávida paixão pela vida vivida daquelas idas, para lermos com ardor e amor aqueles cantos de vida secreta, as traziam de passos em passos, pelos banhos e bandejas da água, pequenos cosmos de palavras, para as ler com arvor e pureza, iam elas, de rebordo, corrigir seus destinos para outras mãos mais tenras e sensatas, elas as mensagens, sinceras como quem as trazia, as forcinhas das vagas. Principalmente, elas as traziam com uma sinceridade ansiosa.

O ruído incomodava. De glope e glope da água, em suas sílabas nervosas, os nervos da água se contraíam, como mensagens eternas pelos longos e vastos caminhos mansos, a marullha batia, com toque de chegar, no fundo das casas de madeira, e seu molho  e banho ali naquele rumo sem rumo era só uma dança valente das marias, mariações da água, que rebelavam seus cabelos, e freavam suas rampas e pulavam pelos lados. Quem ali dormisse ai ia, isto sim, sentir como se um canto de sereia fosse lhe lançar em profundo e delicioso sono. As janelas abertas daquela casa na margem, elas convidavam a estranha lua a iluminar os campos retos e altos do mar, que se escureciam quanto mais a distância se eternizava. As lamparinas, lembretes entre as noites, a bailar com leves remissas do vento a largo, se entreolhavam, e batizavam a água com seus fachos, como se abrissem fendas infantis no escuro animal da água. Também vinham, me lembro com lucidez, mentiras pelas veredas da água, almas mortas, contadoras das histórias das ilhas longínquas e cósmicas, veredas… veredas… vadiavam de acaso… os breves contos das ondas… os breves contos das ondas… os breves cantos das ondas…

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