Jurupari

 
 
 
 

Franciorlis Freitas Viana

O moço vai passando por trás da cadeira de balanço do avô, mas este percebe e chamando-o quer saber para onde o neto pretende ir parecendo um papagaio. O neto explica que a indumentária colorida está na moda. O idoso não entende como uma camisa lilás, um tênis branco com cadarço verde e solado róseo pode agradar os jovens  de hoje em dia. Sem falar na calça jeans apertadíssima “isso deve machucar o saco!” pensa o avô. Quando começa a pronunciar a frase “no meu tempo…” o neto interrompe o velhote.

– Qualé vô, corta esse papo de velho, pô! Seu netinho vai é arrombar uns xirizinhos essa noite…

A mãe lá do quarto, na máquina de costura, ouve o jovem e grita: – Isso é jeito de falar com seu avô? Respeita os mais velhos, se não vou aí e te dou umas boas palmadas na bunda!

Na sala neto e avô riem da irritação da costureira. São cúmplices mórbidos. O idoso sente sua alma pulsando na veia indômita dos vinte anos do jovem. Está cansado de liberar uns trocados para o neto comprar camisinhas ou pagar um motel para levar as piriguetes. No fundo, bem no fundo há nele uma filosofia (daquelas que devido à ausência de requinte, não constam nos tomos catedráticos) que afirma “quando ele as come, é como se eu as comesse também”. Esse sentimento rudimentar de macho é sagrado.

O avô quer saber onde ocorrerá o festejo. O neto o corrige, esclarecendo que hoje se chama “Rave”. Responde que será  na sede do Villa Nueva; conhecida casa dançante do município. A única remanescente dos dias aurorais do idoso. Agora repaginada e adequada aos novos tempos. A menção à sede deixa o ancião bastante assustado. O neto percebe e pergunta “O que tá rolando?” O avô pigarreia, deixa de balançar-se. Compenetrado inclina o peito para frente, encara o neto e diz:

  • Vila Nueva? Foi lá que um dia eu vi o jurupari.
  • Jurupari? Que é isso velho? É de comer? – e o jovem caiu na risada.
  • Jurupari é o nome que tomei do Guarani para me referir ao demônio.
  • Ah, tá! Que dizer que o senhor quer que eu acredite que     o demônio – o neto de puro desdém fez questão de espichar na pronúncia a vogal “o” – apareceu para o senhor, no Villa Nueva?!
  • Quando eu tinha a sua idade. Em um baile temático, patrocinado pelo saudoso Prefeito Antero Dias (que Deus o tenha em um bom lugar!). O Villa Nueva estava ornamentado com características ribeirinhas. Se não me falha a memória o tema era justamente sobre os mitos e lendas da Amazônia. O prefeito escolheu essa temática, não porque se importasse com o folclore nortista, mas porque sua filha Eliane, que era professora formada, garantiu que isso daria um ar culto ao mandatário do município… O jovem percebeu que estava prestes a ouvir mais uma daquelas histórias mirabolantes do avô. Admiráveis dos seis anos aos dez, interessantes dos onze aos catorze, toleráveis dos quinze aos dezesseis, chatas dos dezessete até a idade atual. Não é que necessariamente os causos tenham ficado prolixos. É que os adultos na sua adultice sempre buscam a verossimilhança nos contos que lhes são contados. Quando não as

encontram, reputam as palavras por falácias e as desprezam. Bom será o dia em que for desvendado que se tem buscado algo em uma procura invertida. Dever-se-ia olhar a vida e em não encontrando verossimilhança com a ficção, execrar a realidade por não se ter elevado ao patamar dos romances, fábulas e crônicas. O neto, que antes de ser parado pelo avô pretendia esperar os amigos no pátio da casa, olhou o relógio e pensou “acho que a galera não deve demorar muito. O vô vai começar a lorota dele, vou fingir que estou gostando, logo meus amigos chegam, eu corto o papo e zarpo fora!” plano devidamente ponderado, voltou à atenção ao idoso que continuava sua falação.

– Estava vestido com extrema elegância – o avô parou um pouco, puxou na memória e prosseguiu – na cabeça um topete feito com o melhor óleo de mutamba  do  boteco  –  e  riu. Seu avô era um  bom pé  de  valsa! Os  brotos brigavam para que eu  as puxasse para uma contradança. Naquela noite, porém, estava cansado. Dancei com as irmãs Sara e Selma (as irmãs frenéticas, como eram conhecidas), depois fui sentar a um canto, solitário. Tapava-me a  vista os  casais de  namorados que  dançavam logo à frente. Ouvia-se na caixa de som uma música da ternurinha Wanderléa. Ah – exultou o idoso – era o auge da Jovem Guarda! Se não me falha a memória, estava justamente pensando  em como o Roberto Carlos era sortudo de conviver com aquela mulher, que na época era muito gostosa “Papai, olha os modos!

  • berrou a filha lá do quarto” quando uma moça belíssima surgiu entrecortando a chusma de dançantes.  Nunca  nesses  setenta anos de vida, encontrei uma garota tão bonita como aquela. Era simplesmente estonteante. Como toda aquela abundância de carnes coube dentro daquele vestidinho rubro? Tinha as madeixas louras. Não um louro oxigenado. Um louro puro, quase dourado.

O comprimento batia nas nádegas. Unhas pintadas de esmalte preto. Boca carnuda. Dentes branquinhos. Peitos que soltavam aos olhos. Coxas que deixavam qualquer mulher-fruta no chinelo. O mais impressionante, entretanto, é que ela veio em minha direção. Sim na direção do seu avô. Estendeu-me as mãos, convidando- me para o salão. Abismado que estava nem atentei para o fato de que não era usual uma mulher arrastar um homem para dançar. Emendamos treze músicas seguidas. Quando olhava a mulher, parecia-me um anjo. Quando encostava meu corpo ao dela, enrijecia-me até o grelinho do c… “papai! – berrou novamente a filha em reprimenda” Nesse ritmo levamos até as cinco horas da manhã. Quando então me dei conta de que até ali não pronunciara um palavra sequer com a desconhecida. Resolvi arriscar:

  • Qual é o seu nome? – A mulher me fitou. Vi suas retinas  de um vermelho mais forte que seu vestido; como vinho em taça  de cristal. Ela abriu um sorriso insinuante. Riu de canto de boca. Respondeu:
    • Me chamo Luiza.

Nesse instante a noite  realmente  começou  a  se  recolher  no horizonte. Notei que após me dizer o nome, ela olhou para o firmamento e fez uma expressão de preocupação. Desapegou-se das minhas mãos e sem me olhar uma última vez, virou-se e se entremeteu na multidão, às carreiras. Sumiu. Demorei minutos esperando que ela voltasse; como percebesse que não, saí a sua procura em todos os cantos do Villa Nueva, sem, no entanto, achá-la. Perguntei aos meus amigos se a tinham visto, mas eles responderam que não tinham visto ninguém comigo naquela noite. Que estive sozinho o tempo todo. Certo de que não estava pirado. Continuei procurando a mulher, da

qual conhecia apenas o prenome: Luiza. – que partira sem nem sequer me deixar, a símile daquele famoso conto de fadas, o sapatinho de cristal como pista. Um prenome e nada mais. Quantas Luizas devem existir no mundo?

Após rodar toda a sede, veio a mente o lugar óbvio onde ela deveria estar: o toalete “lógico, idiota! Ela sentiu vontade de urinar, não deu para segurar e por isso saiu correndo. Se bem que faz tempo… Terá sido o número dois?” dirigi-me rapidamente para o lado onde ficava o banheiro. Estava fechado. Sorte que a porta era de madeira. Bati repetidas vezes. Chamei: – Luiza! Luiza! Ninguém respondeu. Fiquei preocupado, e como os seguranças da Villa Nueva estavam ocupados demais para me socorrerem “quem sabe, Luiza não passou mal e está desmaiada aí dentro” resolvi arrombar a porta. Com um chute o fiz. Foi então que vi Luiza por um instante, não mais que um instante. Ela estava de costas para mim. De repente seu cabelo louro começou a se transformar em um longo rabo. Na cabeça surgiram chifres. Braços, pernas e pescoço foram recobertos de pelo. A mulher ficou com a aparência de um bode. O ar se encheu de um odor insuportável de enxofre. Ela (ele) se virou para mim com um aspecto horrível. Olhos esbugalhados. Soltava fumaça pela narina. Rinchava como cavalo. Fiquei apavorado. Juro que me urinei todinho! Comecei a clamar pelo sangue de Nosso Senhor. Congelado de pavor, espiei nos olhos da criatura. Ele (ela) me reparou. Deu um berro de agonia, um pulo para o alto e evaporou no ar. Só depois disso consegui me mexer do lugar. O bicho que vi era o cramulhão em pessoa.

Após terminar o relato, o neto estava sobressaltado,  mas para não dar o braço a torcer gracejou: – Cramulhão, é?- e caiu na gargalhada – então, além da Jovem Guarda será que o diabo também é chegado em um tecnomelody? E gargalhou mais alto ainda sob a advertência do avô que o mandava ter cautela com o assunto. Lá fora

um carro buzinou. Os amigos do jovem haviam chegado. O neto deu um beijo na mãe (que lhe rogou que retornasse cedo) e outro no avô. A este disse o moço: – se preocupa não vô, se o capeta/cramulhão/ demônio/ jurupari me aparecer hoje eu traço também…

Na festa, tarde da noite, o jovem depois de exagerar na bebida, sentindo-se nauseabundo deixou a companheira dançando com um amigo e foi se sentar a um canto. Cinco minutos depois, uma mão de unhas esmaltadas de preto o convidava para dançar. Vendo tudo trêmulo, distinguiu levemente uma matiz vermelha no vestido da pessoa que lhe arrastava para o salão. Ouvia-se na aparelhagem a música Closer to Heaven, do DJ israelense Astrix. Em dado momento o jovem ao enrolar seus dedos nas madeixas da moça, percebeu que eram louros. Resolveu perguntar: – Gata, qual é mesmo o teu nome? Foi então que ela abriu um sorriso insinuante. Riu de canto de boca. Respondeu: – Me chamo Luiza.

 
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