OPERAÇÃO MUTUM – O ARSENAL

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(Episódio 36)

Em Mutum, a prisão de Paulo Otávio, identificado nos noticiários como Sargento Flores, de codinome Comandante Mário e de seus subordinados, Cabos Hélio e César, conhecidos lá como seus empregados Liberato e Douglas, deixou a todos os moradores atônitos. E assustados. Tratava-se, afinal, de guerrilheiros.  E de guerrilheiros considerados pelo governo como sendo perigosos.

Na lembrança de todos ainda estavam recentes os acontecimentos do Caparaó, quando no final dos anos 60 foram presos subversivos que tencionavam, segundo diziam os moradores mais antigos, tomar toda aquela  região para iniciar uma revolução comunista e derrubar o governo federal.

Mas o que deixou os mutuenses ainda mais assustados foi quando os militares exibiram, no Salão Nobre da Prefeitura, o verdadeiro arsenal bélico apreendido como resultado das buscas feitas na Fazenda Nova Esperança, comprada por Paulo Otávio ao Sô Neca, no Imbiruçu, de porteira fechada e no dinheiro.

Em um local escondido e protegido por uma camuflagem, foi encontrada uma grande quantidade de caixotes com munição de variados calibres, além de outros contendo desde facas, punhais, facões, revólveres, espingardas, rifles, carabinas, fuzis, granadas, metralhadoras e até uma bazuca que, segundo informou um militar, era capaz de derrubar qualquer um daqueles helicópteros que estavam em Mutum ou até mesmo um avião de grande porte.

Aqueles que viram todo aquele armamento tinham, realmente, razão para ficarem bem assustados.

Quando retornei à casa dos meus avós, no começo daquela noite, confesso que eu era quem mais estava espantado com todos os acontecimentos daquele dia.

No entanto, quem teve a maior das surpresas naquele dia fui eu.

Quando empurrei a porta da sala e entrei, percebi que estava acesa a luz do quarto escuro do corredor que ligava a sala de visitas com a sala de jantar. Como ia mesmo para a cozinha, ao passar dei uma olhada e dei de cara com a Marta.

Meu coração deu um salto enquanto eu parava, olhando para ela. “Meu Deus. Você é a Marta” eu disse. Ao que ela, que se encontrava de costas arrumando alguma coisa na cama, virou-se respondendo. “Claro que sou a Marta. Achei que já tinha me esquecido”. Caminhou até onde eu estava parado, na porta, estendeu os braços e nos abraçamos.

“Como eu poderia esquecer você”, eu lhe disse enquanto a olhava passeando o olhar bem devagar por todo o seu corpo. “Está linda”, disse. Ela apenas me dirigiu um olhar e sorriu dizendo “O Tio Olívio já tinha me falado que você estava em Mutum” acrescentando “Mas parece que só tem tempo para o trabalho. Achei que nem fosse ver você. Viajo amanhã pra Aimorés”, concluiu.

Eu lhe assegurei que lhe daria toda a atenção do mundo, que não ia deixá-la sozinha até embarcar no ônibus e que iríamos conversar muito ainda. Ela me disse que era isso mesmo que esperava que eu fizesse. Ambos sorrimos.

Aquele quarto sempre foi cercado de mistérios. Pelo menos para mim, que crescera naquela casa, desde muito cedo ouvindo falar no quarto escuro, onde, olhando do  corredor que ligava a sala de jantar à sala de visitas, dava para ver uma cama de casal, sempre arrumada. Mas só era possível vê-la quando a pequena lâmpada pendente sobre a cama estava acesa. Apagada, o quarto era escuro até de dia.

Hoje, já passado tanto tempo da minha infância, entendo a razão de tanta escuridão. Havia, no quarto, uma janela lateral que tinha sido vedada, lacrada mesmo. Se aberta, daria para a varanda de dentro, como conhecíamos o espaço de passagem da sala de jantar para a despensa, onde ficavam estocados os mantimentos e que, por uma passagem estreita, levava à uma rua lateral, de pouco movimento.

 A janela havia sido fechada para que lá, na varanda, fosse possível colocar um enorme armário, onde ficavam guardadas as ferramentas de trabalho da casa. O quarto escuro, sem o armário colocado em sua única janela poderia ser um quarto comum.

A sua destinação era receber hóspedes, visitas, já que a casa sempre estava cheia de parentes vindos da roça ou amigos de meus avós, de passagem pela cidade.

 Os parentes mais próximos, como os meus tios e primos, ficavam alojados nos outros oito quartos da casa, quando lá passavam suas férias, temporadas de descanso ou quando precisavam estar em Mutum para fazer exames ou tratamentos médicos.

Mas o mistério maior em torno do quarto escuro estava relacionado, quando eu ainda era criança, a crença de ser mal assombrado.

 Escutávamos, em algumas noites, barulhos estranhos vindos de lá. E é claro que não tínhamos, eu e as outras crianças que perambulávamos pela casa, coragem de ir  verificar o que acontecia, quais as causas dos barulhos.

Na tarde do dia em que  completei dezesseis anos, quando  entrei em casa, voltando do colégio, logo percebi que havia visita. Ouvi gente conversando e uma daquelas vozes me era estranha.

 Ao entrar no corredor, percebi que o quarto escuro estava iluminado e, sobre a cama, uma mala aberta e algumas peças de roupas.

 Na sala, uma agradável surpresa. Uma garota que me pareceu ter uns vinte anos, conversava com minha avó.

Ao me ver, sorriu, chamou-me pelo meu nome e veio em minha direção. Abriu os braços e me disse que queria me dar um abraço de aniversário, explicando que minha avó havia dito que eu estava aniversariando. Eu recebi o seu abraço e pude sentir os seus peitinhos durinhos apertados contra mim.

 Seu abraço foi mais demorado que um abraço normal. Disse-me que se chamava  Marta e que era filha de um amigo do meu avô. Na realidade, ela dizia, o seu pai era mais que um amigo porque, quando criança, tinha morado, também, na casa dos meus avós para estudar. Quando ela disse que o nome do seu pai era Matias eu lhe disse que me lembrava de já ter ouvido o meu avô falar dele.

 Ela, ainda sorrindo, disse que com certeza seríamos amigos e que ela queria que eu ficasse sendo a sua companhia na cidade, já que não conhecia quase nada de Mutum ainda. Eu lhe disse que sim, que seria um prazer e fui guardar as minhas coisas da escola no meu quarto, que era na parte de cima da casa, em um segundo andar que chamávamos de sobrado.

Quando desci para almoçar, Marta já estava sentada à mesa, almoçando.

Depois do almoço saímos para que ela pudesse comprar algumas coisas que disse que precisava.

 Levei-a à farmácia, ao supermercado e a uma papelaria. Ela, durante todo o percurso, falou, falou e falou. Como gostava de falar. E olhava para tudo e para todos. Vi como olhava para os rapazes, meus colegas que depois, com toda a certeza, eu sabia que iam encher o meu saco. Ela me pareceu uma boleira descarada. Ela olhava pros caras e olhava logo em seguida pra mim pra perguntar quem era, o que fazia. Eu ia lhe dando os nomes ou os apelidos. Em momento algum ela me pediu para apresentá-la a alguém, para a minha sorte, porque já estava ficando aborrecido com seu interesse pelos caras.

Na volta, como tinha entregue alguns embrulhos para que eu os carregasse, acompanhei-a  até o quarto escuro, onde me fez entrar para deixar os pacotes. Lá, comentei sobre o quarto ser muito escuro e ela me disse que não se importava e que até achava bom, porque assim poderia dormir melhor. Ainda mais, me disse, gostava de dormir completamente nua e não corria o risco de alguém vê-la pelada por algum buraco, de fora. “Você não vai me olhar, não é?” disse e ficou rindo me olhando enquanto eu sentia que ia ficando vermelho como um tomate maduro.

Enquanto eu ia colocando os pacotes, um por um, na cama, ela sem me dizer nada apagou a lâmpada que estava acesa. Logo o quarto escureceu, deixando apenas um rastro de luz onde estava a porta, já que a lâmpada  do corredor também estava apagada e já era de tarde. Ficamos os dois na parte escura do quarto e ela deu um risinho baixo me perguntando se a estava vendo. Eu lhe disse que sim, mas que não a via direito. Ela me disse que também me via apenas como se fosse um fantasma, e riu mais. Estiquei o braço e a toquei no ombro. Ela segurou a minha mão, levou-a aos lábios e a beijou. Apertou mais forte e deslizou a minha mão pelo seu rosto me dizendo “agora vai, antes que alguém chegue aqui. Antes de soltar a minha mão colocou-a no seu peitinho e apertou para que eu o sentisse, durinho. Ela aproximou-se, me deu um beijo rápido na boca e eu saí bem de mansinho, completamente desorientado. E, pela primeira vez, apaixonado.

No outro dia Marta começou a namorar o filho do dono da farmácia, o Juquinha, um dos meus amigos.

Agora, passado alguns anos eis que me encontro novamente com a Marta. “Esse mundo é mesmo muito pequeno”, pensei.

Como já tinha passado o horário do jantar, fui até a cozinha e preparei eu mesmo um prato e me sentei à mesa da sala de jantar, onde fiquei sozinho, jantando. Alguns minutos depois ela chegou, perguntou se podia sentar-se lá, para me fazer companhia. Fiz um sinal para que se sentasse. Ficamos conversando até que eu terminei de jantar. Depois, nos sentamos na calçada da frente da casa onde já estavam, como sempre faziam, os meus avós. Ali ficamos jogando conversa fora e observando o movimento de vai e vem das pessoas no jardim da praça.

Eu lhe falei da minha ida para Belo Horizonte, dos meus estudos, do meu trabalho e a razão para estar ali, em Mutum, a serviço.

Ela me disse que tinha se formado em Pedagogia em Caratinga, casado com um rapaz de lá e que enviuvara há três anos. Estava morando em Aimorés e não tinha filhos. Num tom meio triste afirmou que não podia ter filhos e que estava pensando em arranjar alguma criança para criar, para ter a presença de mais alguém como companhia, em casa.

Tinha ido a Mutum exatamente para conversar com uma família de Santa Elisa que queria deixar uma filha, com dez anos, morar com ela em Aimorés para estudar.

Quando eu lhe disse que estava gostando de a ter encontrado, disse-me que tinha a intenção de ir para Aimorés naquele mesmo dia, mas quando soube pelos avós que eu estava em Mutum, tinha resolvido dormir lá e só viajar no dia seguinte. Pondo a mão sobre a minha mão me disse baixinho “Eu já sonhei tanto com aquele nosso quartinho escuro. Vai ser muito gostoso dormir lá de novo”.

Mais tarde naquela noite, quando o silêncio tomou conta da casa eu fui pisando de levinho até a porta do seu quarto, que estava destrancada, a abri sem fazer nenhum barulho e entrei. Fiquei alguns segundos observando na escuridão até que, com os meus olhos já acostumados ao escuro a vi deitada na cama de casal completamente nua, com as mãos estendidas ao lado do corpo, me sorrindo. Estava linda.

(Continua na próxima semana)

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