OPERAÇÃO MUTUM -O jogo

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(Episódio 33)
Naquela noite de quarta-feira, como aconteciam todas as noites de quarta e de quinta-feira e nas tardes de sábado e de domingo, um grupo de torcedores se reunia no Bar do Paulo e em outros locais onde havia algum aparelho de televisão exposto ao público, para assistirem a jogos de futebol do campeonato carioca ou paulista ou aos jogos da Seleção Brasileira. Em Mutum só eram captados os sinais da Rede Globo, Rede Tupi e Rede Bandeirantes. Todas com programações diretas do Rio de janeiro e de São Paulo. Os jogos de futebol do Campeonato Mineiro não eram transmitidos ao vivo para Mutum, como eram os campeonatos Carioca e Paulista.
As nove da noite, a Rede Tupi transmitiu o jogo entre Flamengo e Portuguesa, pelo Campeonato Carioca, direto do Maracanã. Ninguém ali, no Bar do Paulo, se preocupava com o que poderia estar acontecendo nas obras da estrada para Lajinha, na beira dos rios São Manoel e Mutum, no quartel dos militares no Estádio Municipal e nem com as bombas perdidas no São Roque.
O que era importante naquela noite para todos nós, eram apenas os lances que iam se desenrolando durante a partida e vistos ao vivo, pela televisão, em Mutum.
Quando o árbitro Arnaldo César Coelho apitou o final da partida,  o Flamengo tinha vencido por 3 a
0, com um gol do Zico, de pênalti e dois gols do Luiz Paulo. O Flamengo jogou com Cantarele, Júnior, Rondineli, Luiz Carlos, Rodrigues Neto, Liminha, Geraldo, Doval (que foi substituído por Toninho), Luisinho, Zico e Luiz Paulo.
O Técnico do Flamengo era Joubert.
A Portuguesa jogou com Íris, Calibé, Daniel, Fernando (que foi substituído por Niltinho), Jurandir, Carlinhos, Dinho, Jair, Carlos Magno, Russo e Filé (substituído por Nivaldo).
O Técnico da Portuguesa era Luis Mariano.
O Bar do Paulo, depois do jogo, foi ficando aos pouco vazio. Restaram apenas uns pobres gatos pingados, entre eles eu, em uma mesa. Enquanto a turma tomava cerveja eu, que não bebia nada que tivesse teor alcoólico, tomava suco e refrigerante enquanto conversávamos sobre assuntos variados. Pura filosofia de botequim. Sabedoria de mesa de bar. Conversa jogada fora. Fofocas, muitas fofocas. Essas, as mais recentes, eu fiquei sabendo através da Fê, que estava sempre muito bem informada. E que havia entrado no bar em determinado momento, me tomado pelo braço e levado com ela até a praça, onde nos sentamos em um banco do jardim.  Ali eu a ouvi.
Os pais da Fernanda, Fé para os amigos, como gostava de dizer, tinham mudado de Mutum para Goiânia quando ela ainda era criancinha, com cinco anos.
O pai, Seu Horácio, tinha sido aprovado em concurso para o INPS e nomeado para a Capital do Estado de Goiás.
A mãe, Dona Carlinha, acompanhou o marido como simples dona de casa. Mas, chegando em Goiânia, conseguiu um lugar como professora municipal. Moraram em Goiás por dezessete anos, até que Seu Horácio conseguiu uma transferência para o Posto do INPS em Ipanema. Mas
preferiram morar em Mutum, onde moravam todos os seus parentes. Seu Horácio trabalhava em Ipanema e passava os finais de semana e os feriados em casa, junto com Dona Carlinha e a Fé. Até que conseguisse transferir-se mais uma vez, esta para Mutum. Ou até que se aposentasse.
Aos vinte e dois anos Fé jurava com os pés juntos que ia fazer dezenove, na maior cara de pau. E fechava a cara se alguém dela duvidasse. Mas todo mundo gostava dela e ninguém queria que ela ficasse aborrecida. Principalmente porque, se ela não gostasse de uma pessoa, ai dela. Ela era viciada em mexerico. E
o vício do mexerico e da bisbilhotice aos olhos da maioria das pessoas mostrava ser muito pior que o pior de qualquer outro vício. Mas a Fé, sempre que ia falar de alguém, se desculpava e começava dizendo “Vão me desculpar, mas embora eu saiba muito pouco de…” e logo soltava a língua pelo tempo que fosse necessário para esgotar todo o assunto sobre aquela pessoa. Depois, reiniciava com outra. Para quem dizia saber muito pouco de um alguém, até que ela estava sempre maravilhosamente bem informada.
Sentado ali naquela quarta-feira, depois de assistir a vitória do meu Flamengo sobre a Portuguesa eu fui sendo atualizado pela minha amiga Fernanda, a Fê, sobre tudo o que eu ainda não sabia de Mutum. No geral, fui me informando dos namoricos escondidos, quem traía quem com quem, quem estava brigado com o marido a ponto de não se falarem mais, mas procurava manter as aparências para que não houvesse escândalos, essas coisas assim. Mexericos.
Em determinado momento me perguntou se eu estava dormindo bem nesses dias que estava passando na casa dos meus avós. Eu lhe disse que sim, que tinha um sono pesado, que quase nunca acordava durante a noite. E que sempre ia me deitar muito tarde, o que me ajudava a pegar no sono logo quando deitava. Ela deu uma gargalhada gostosa e me disse que era muito bom que eu tivesse um sono profundo, por que as noites no quintal da casa do meu avô às vezes eram muito animadas. E que o cachorro que ficava solto lá, o Tigre, que era muito bravo, costumava passar latindo a noite toda. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa ela me explicou.
 O quintal da casa dos meus avós era muito grande, imenso mesmo. Começava na varanda da cozinha e terminava na rua que ficava às margens do rio. Para a proteção do quintal, sempre cheio de galinhas, patos, marrecos, perus, galinhas d’angola, cabritos e um chiqueiro para a criação de porcos, meu avô sempre deixou lá, solto, um cachorro bravo, desses que só ficavam preso, sem ver muita gente estranha. E quando via alguém que não fosse conhecido, quase endoidava. Para evitar problemas com as pessoas que frequentavam a nossa casa, que estava sempre cheia de parentes e de amigos, o quintal era dividido em três partes, separadas por portões. Um, pequeno, que saía da cozinha e, pelo lado esquerdo dava numa horta onde ficava um coqueiro gigantesco, outro, onde ficava a parreira de uvas e o maior, onde ficavam as árvores frutíferas exóticas como carambola, peludinha, manga, graviola, goiaba, bananeiras, cajá-manga e outras.
 Durante o dia o Tigre ficava na parte de baixo do quintal, que era a maior parte. Sempre solto, ele era o rei do pedaço. Muito bravo. Violento, mesmo, reinava absoluto entre os outros animais. Vez por outra matava gatos, gambás e até cobras tapete, que às vezes apareciam no quintal. De noite os portões eram abertos e os quintais ficavam ligados, sem nada que pudesse impedir o Tigre de vigiar desde a porta da cozinha até o final do quintal, lá embaixo.
Segundo me contou a Fê, em algumas noites alguém esperava o Tigre subir para o quintal menor, onde ficava a parreira de uvas, na porta da cozinha, e fechava o portão isolando o quintal de baixo. Aí, então, o quintal da casa dos meus avós passava a ser um local de putaria, da mais pura putaria, com muita foda rolando lá. Uma verdadeira zona.
Quando eu quis saber quem frequentava o quintal ela me disse sorrindo que “eu falo o milagre sem problemas. Só não conto o nome do santo” e riu da minha cara de espanto. E me disse que o coitado do Tigre quase não deixava ninguém dormir de tanto latir e pular feito doido no portão, tentando “pegar o sem vergonha do ladrão de galinhas” que toda semana ia lá e trancava o portão, como diziam a Madrinha Maria e a Elvira, prendendo o Tigre no quintal menor, da cozinha. Foi então me lembrei de um dia em que, numa das minhas idas em férias a Mutum, estava andando pelo quintal quando, no chão, vi uma camisinha usada. Na hora pensei “Mas como essa porcaria veio parar aqui?” e ficara imaginando que alguém a devia ter jogado por cima da cerca. Agora, a Fé acabava de me contar como a camisinha foi parar no quintal da casa dos meus avós.
Também foi pela Fé que fiquei sabendo da história da Mirtes, que morava na Rua da Beira do Rio, onde terminava o nosso quintal.
Quando a Mirtes mudou da roça para a cidade, vieram ela, sua mãe Dona Armênia e um irmão menor, Francisco. Mirtes tinha 12 anos. Seu pai havia sido assassinado em uma tocaia e quem o matara não havia sido encontrado nem descoberto. Os motivos do crime também não eram conhecidos.
Na cidade, Dona Armênia trabalhava como costureira e Mirtes, ainda novinha, já ajudava a mãe vendendo ovos caipira e bolos feitos em casa, de porta em porta. Francisco
tinha uma caixa de engraxate e ficava na praça, engraxando sapatos. Estudavam, os dois, e eram bons alunos. A família de Dona Armênia era respeitada e admirada por todos pelo tanto que trabalhavam. Todos trabalhavam. Essa era a história que todos conheciam. Segundo me disse a Fé, à medida em que crescia, Mirtes ia sendo observada por alguém, uma pessoa com muito poder econômico, que passou a ter por ela um interesse especial. Esse interesse começou em um dia que Mirtes passou por essa pessoa na rua e a cumprimentou, como fazia com todos. Mas o jeito como ela olhou deixou a pessoa agitada. Mirtes tinha, então, quatorze anos. Tinha um corpo bem desenvolvido e estava se tornando uma admirável mulher. Quem não a conhecesse pensaria que ela tivesse uns dezoito a vinte anos. Mas ainda ia fazer quinze. Naquele dia, a pessoa a chamou e perguntou-lhe se sabia fazer unhas. Ela disse que fazia as suas próprias unhas e as da sua mãe. Mas que nunca tinha estudado para isso. A pessoa, então, lhe disse que mais tarde fosse até a sua casa e procurasse a sua esposa. Que ela iria lhe ensinar a fazer unhas direito. Assim começou a história de  Mirtes como manicure e pedicure .
Todos os dias ela ia até a casa da esposa da pessoa – Fê insistia em não dizer o nome “Falo o milagre, mas não conto o nome do santo” – onde ia treinando as técnicas de cuidar das unhas. Das mãos e dos pés. Sempre quando chegava, tinha alguém diferente para lhe servir de cobaia. Em pouco tempo suas habilidades já eram reconhecidas e já era uma profissional. Em uma maleta guardava todo o material que usava para o seu trabalho e logo espalhou pela cidade a notícia de que fazia unhas a domicilio. A maleta, havia sido trazida de São Paulo pela esposa da pessoa, que lhe disse, quando quis saber como faria para pagar “É um presente para você começar a sua carreira” e concluiu “Só quero que venha fazer as minhas unhas todo sábado”. Assim ficaram combinadas.
Quando perguntei a Fê como ela sabia dessa história, ela me disse que a própria Mirtes lhe havia contado. Mas que a maior parte da história só ela sabia. E que muito se falava mas pouco havia de verdade no que os outros diziam. “Maledicências, você sabe como é”, disse sorrindo.
Mirtes não tardou muito para ter um grande número de mulheres que se tornaram suas clientes, para fazer unhas em suas casas, durante toda a semana . Ficava o dia inteiro percorrendo a cidade, de um lado para o outro, trabalhando. Montava os roteiros conforme o agendamento que fazia. Estava começando a ganhar um dinheirinho que já a fizera recuperar a confiança em seu futuro. Pensava em ajudar a mãe e dar uma arrumada na casa.
Tinha quinze anos quando, numa tarde de sábado, estava na casa daquela pessoa, quando começou a cair um temporal daqueles de arrasar o mundo. As duas, ela e a esposa da pessoa, estavam sentadas na varanda interna da casa, fazendo as unhas e conversando animadamente. Na televisão que ficava na sala passava um filme que as duas acompanhavam pela janela que dava da varanda para a sala. Em determinado momento, no filme, dois personagens se beijaram. Ambas, mulheres. Fez-se um estranho silêncio na varanda. As duas olharam-se meio sem jeito. A esposa da pessoa forçou um sorriso e disse a Mirtes que aquela não era a hora apropriada para um beijo daqueles. Mirtes, na sua inocência, respondeu que não via nada demais. Que achava que não precisava ter hora certa para duas pessoas se beijarem. Então a esposa da pessoa perguntou se ela achava normal duas mulheres se beijarem e Mirtes lhe disse que sim, que achava, que até achava bonito. E quando a esposa da pessoa lhe perguntou se teria coragem de beijar outra mulher, Mirtes simplesmente levantou-se do banquinho em que estava sentada, caminhou até onde a esposa da pessoa estava, curvou-se e a beijou na boca, de leve. Foi um beijo rápido, que nem deixou sabor. Depois voltou para o seu banco e continuou a cuidar das unhas da esposa da pessoa.
Segundo a Fê, aquele beijo foi apenas o começo de uma série de beijos que se seguiram ainda naquele dia, na varanda, na sala e, finalmente, no quarto do casal, onde a esposa da pessoa iniciou Mirtes nas coisas de sexo.
Aos quinze anos ela era virgem. Já tinha corpo de mulher, mas nunca tivera namorado. Só havia sido beijada umas poucas vezes, por um rapaz mais audacioso, de Pocrane, que tinha ido jogar futebol em Mutum, num domingo. Mas nem tinha sido beijo direito. Agora, soubera o que era beijar de verdade. Com língua na língua, sendo apertada por outra mulher, sentindo o corpo sendo percorrido por uma boca ávida que a beijava todinha. Ficou sabendo o que é ter tesão, ficar com o meio das pernas pegando fogo, sentir um langor gostoso quando a língua da esposa da pessoa percorreu sua nuca. Pela primeira vez foi desnudada por alguém. E para cada peça de roupa que lhe era tirada do corpo, mais beijos, mais abraços, mais apertos, mas língua a deixa-la inebriada.
Mirtes disse para a Fé que simplesmente, naquele dia, enlouqueceu de prazer, de amor e de paixão. Como a pessoa estava viajando e sua esposa tinha ficado sozinha em casa, Mirtes resolveu ficar para dormir na casa da pessoa, mesmo sem avisar sua mãe. Sabia que ela não se importaria porque ia imaginar que Mirtes estava se abrigando da tempestade na casa de alguma de suas clientes.
Nessa noite fizeram amor, ela e a esposa da pessoa, até se exaurirem. Mirtes nunca mais se esqueceu de tudo o que aconteceu naquele sábado.
Fé me disse que foi a pessoa o primeiro homem a possuir Mirtes. E que acontecera no sábado seguinte àquele em que ela fora iniciada pela sua esposa. Sem nenhum trauma, sem nenhuma traição sem nenhum problema.
Depois de ficar um tempo calada a Fé me disse que qualquer coisa que eu ouvisse ser falado da Mirtes era, na verdade, invenção. Principalmente quando a chamavam de sapatão. Ela não era sapatão. Nem era puta. Nunca tinha feito amor com outra mulher além da esposa da pessoa. E nunca tinha dado para nenhum outro homem a não ser aquela pessoa. Eles simplesmente se amavam. Os três se amavam. Qualquer coisa que eu ouvisse além disso, era a mais pura e deslavada mentira.
Eu fingia estar cada vez mais interessado e ia deixando a Fé falar mais e mais, na empolgação. Foi bem no meio dos fatos mais escabrosos que a Fé deixou escapar uma informação que me fez arregalar os olhos e pedir que repetisse o que dissera. Ela então repetiu que tinha ouvido, segundo ela, de uma autoridade da cidade, que ela não podia dizer quem era, que estavam para acontecer em Mutum algumas prisões que deixariam a todos surpresos e assustados. Quando eu insisti para que ela me esclarecesse melhor, ela simplesmente me disse que era muito discreta e que, embora pudesse me contar os fatos, desta vez ela mesma não sabia quem eram os santos. E, sorrindo, me deu um beijo de boa-noite no rosto e me deixou lá, em um banco da praça, tentando entender sobre o que a Fé estaria falando.
Passava de duas horas da manhã quando deixei a Fé na porta de sua casa e voltei para a casa dos meus avós, ainda pensando naquela história de que haveria algumas prisões na cidade, que a Fé tinha me contado.

(Continua na próxima semana)

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