OPERAÇÃO MUTUM – 09 de julho de 1975 – Palomares

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(Episódio 32)
Na quarta-feira, dia 09 de julho, o rio havia baixado de nível sinalizando que não haveria perigo de mais enchente. Um comboio militar seguiu para a região da Invejada, onde recomeçaria a busca das bombas e as máquinas pesadas que tinham chegado durante a noite foram movimentadas para o local onde fariam o trabalho de recuperação da estrada. Mutum agitava-se.
A bronca dada por Manfred Kurt quando da minha última ligação para o Jornal do Povo ainda soava na minha cabeça. Todos nós, do Jornal do Povo, sabíamos dos resultados das suas intuições: ele sempre acertava. Assim, resolvi fazer uma análise de tudo o que tinha acontecido em Mutum e tentar ver alguma coisa que tivesse passado despercebido.  Foi então que resolvi ler, de novo, os jornais que estavam guardados na estante do meu avô. “Alguma coisa não está certa”, pensei. “Cadê a notícia das bombas nos jornais? Não tem nenhuma em nenhum”. Folheei um por um, novamente. Nada. Quando comentei com meu avô ele me disse que estava achando todo aquele negócio das bombas muito estranho. E concluiu dizendo “Imagina se uma bomba dessas fosse atômica”. Aí foi que minha curiosidade despertou de vez. Corri para a estante e comecei a procurar o jornal que me interessava. Quando o achei, li a manchete estampada na primeira página “BRASIL INICIA SEU PROJETO NUCLEAR”.
A notícia tinha sido divulgada na Folha de São Paulo do dia 28 de junho, portanto, um dia antes das bombas serem “perdidas” sobre Mutum por um bombardeiro da Força Aérea Brasileira. “Muita coincidência” pensei. E lembrei-me logo de Manfred Kurt. “Aí tem coisas, com certeza aí tem coisas”. Apanhei uma tesoura e recortei o texto, que dizia:
“O Governo anunciou ontem ao Congresso Nacional e ao povo brasileiro o texto integral do acordo de Cooperação Nuclear assinado às 6 h 45 (hora de Brasília, em Bonn, com a República federal da Alemanha. A comunicação foi lida pelo Senador Virgílio Távora.
Basicamente, o acordo envolve entendimentos que deverão proporcionar ao Brasil a instalação de oito centrais nucleares, uma usina de enriquecimento de urânio, uma companhia de engenharia nuclear e uma companhia de componentes pesados. No conjunto, o programa envolverá investimentos de dez bilhões de dólares (mais de oitenta bilhões de cruzeiros).
Embora o texto oficial do acordo não mencione explicitamente o fato, os “subsídios sobre o acordo Brasil-Alemanha”, divulgados pelo Palácio do Planalto, revelam que o Brasil concordou em submeter suas atividades nucleares ao controle da Agência Internacional de Energia Atômica, órgão da ONU, com o qual nosso País deverá firmar outro acordo, antes de receber qualquer equipamento ou material alemão.
O Secretário de Estado Henry Kissinger enviou uma carta – cujo teor será possivelmente divulgado hoje – ao chanceler Azeredo da Silveira, explicando a posição oficial dos Estados Unidos. (Pág.15”).
Depois de ler e reler inúmeras vezes o que tinha sido divulgado sobre o acordo nuclear assinado entre o Brasil e a Alemanha, comecei a imaginar o que teria acontecido se fosse como disse o meu avô. E se fossem bombas nucleares?
Lembrei-me que já acontecera alguma coisa assim alguns anos antes, na Espanha. Liguei para o Jornal do Povo, em Belo Horizonte
e pedi ao Manfred Kurt que me enviasse informações sobre o que tinha acontecido de semelhante na Espanha. Ele me enviou, via fax da Prefeitura Municipal.
 O artigo que recebi havia sido publicado por Jonas Liasch em uma revista de cultura aeronáutica. O fato tinha acontecido em 1966, em Palomares, na região litorânea da Espanha.
“Durante as décadas de 1950 e 1960, auge da Guerra Fria, tanto as aeronaves soviéticas quanto as americanas carregavam regularmente armas nucleares a bordo, para poder entrar em combate de imediato para “revidar uma agressão”. Naturalmente, um medo era constante: e se uma aeronave armada com bombas nucleares sofresse um acidente?
Os cientistas que projetavam e construíam as bombas tinham essa preocupação e, já que os acidentes com os aviões eram tidos como praticamente inevitáveis, eles projetaram os artefatos de maneira a evitar, a qualquer custo, uma explosão nuclear acidental, que poderia ser catastrófica. De fato, embora tenham ocorrido acidentes, nenhuma bomba nuclear explodiu acidentalmente até hoje. Mesmo assim, é claro que um acidente envolvendo bombas nucleares é um evento dramático, e o que ocorreu em 17 de janeiro de 1966 na costa mediterrânea da Espanha, perto da localidade de Palomares, foi um dos piores.
O acidente envolveu um bombardeiro Boeing B-52G, que transportava quatro bombas termonucleares B28, de 1,5 megatons, e um avião-tanque KC-135, ambos da Força Aérea dos Estados Unidos, que carregava 110 mil litros de combustível. O B-52 tinha decolado da Turquia, junto com outras aeronaves do mesmo grupo, e voavam para sua base na Carolina do Norte, nos Estados Unidos.
As duas aeronaves voavam a cerca de 31 mil pés de altitude sobre o Mar Mediterrâneo, quando se aproximaram para iniciar a operação de reabastecimento, a segunda da missão, às 10 horas e 30 minutos de 17 de janeiro de 1966. O B-52 se aproximou demais, sendo atingido em cheio pelo boom de abastecimento, já estendido pelo operador do avião-tanque, e chocou-se com a barriga do KC-135, que explodiu em seguida, matando seus quatro ocupantes. O B-52 também explodiu, mas 4 dos 7 tripulantes conseguiram escapar, saltando de paraquedas antes da explosão, e não se feriram.
Das quatro bombas nucleares a bordo, três caíram em terra, no vilarejo pesqueiro de Palomares, e uma caiu no mar. Explosivos convencionais em duas das bombas que caíram em terra explodiram, espalhando pela área fragmentos de plutônio, o mais perigoso elemento químico conhecido. Felizmente, e para espanto dos tripulantes sobreviventes do B-52, não houve explosão nuclear.
A Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) rapidamente montou uma operação de guerra para resgatar as bombas nucleares e limpar a área. Três das bombas foram encontradas em menos de 24 horas após o acidente. Duas estavam destruídas e outra estava relativamente intacta. A quarta bomba não foi encontrada, e logo se concluiu que tinha caído no mar.
Os civis da área foram todos evacuados, devido ao perigo dos resíduos de plutônio espalhados pela explosão. As bombas e destroços em terra foram removidos, assim como uma grande quantidade do terreno próximo. Entretanto, 15 por cento do plutônio espalhado pela explosão, aproximadamente por 3 quilômetros
, nunca foi encontrado. O maior problema, entretanto, tinha sido localizar a bomba que caiu no mar.

Em 22 de janeiro, a USAF pediu ajuda ao Secretário da Marinha, e a Marinha despachou para o local nada menos que 19 navios de guerra, para localizar o artefato. Não foi fácil encontrar a bomba.
 Oitenta dias de busca foram necessários até que a mesma foi encontrada por um mini-submarino Alvin, a 869 metros
de profundidade e 5 milhas
náuticas da costa. A bomba foi finalmente recuperada, graças a um aparelho denominado “CURV”, projetado para recuperar torpedos do fundo do mar.”

Terminei a leitura do artigo com a impressão de que os dois fatos estavam muito parecidos, entre si. Era coincidência demais. Tinha alguma coisa que não estava batendo bem na história toda.
Comecei a pensar nas duas situações e algumas coisas pareceram ficar mais claras. “Se o avião chegou a ser visto por algumas pessoas isso quer dizer que estava mais baixo do que os do acidente de Palomares. Os de lá estavam a 31.000 pés o que representa em metros 9.448 mais ou menos. É muita altura para se enxergar a olho vivo. Então o daqui devia estar bem mais baixo. Mas porque será que voava baixo se ainda estava tão longe de Vitória?”
Ao anoitecer o comboio militar não havia retornado e soubemos, por meio de um morador da região onde estava os militares, que tinham montado barracas e passariam a noite acampados perto da Invejada, de onde recomeçariam as buscas pela manhã.
 Os trabalhos estavam sendo dificultados em virtude do lamaçal deixado pela chuvarada e porque alguns pequenos córregos, que eram normalmente mínimos, tinham se transformado em quase rios com corredeiras perigosas, tanto era o volume das águas que tinham adquirido.
Com a queda da barreira na estrada de Lajinha,  a cratera que tinha sido formada e os córregos da região transformados em rios, os caminhões tiveram que ficar muito longe de onde os soldados estavam. Assim, o comando das buscas decidiu que seria melhor acamparem ali mesmo, para continuarem a procurar no outro dia.
Perto de onde estavam acampados os soldados, o trabalho de aterro e recuperação da estrada que havia sido destruída pelo deslizamento da enorme pedra, continuava noite adentro. Enormes refletores tinham sido instalados de forma a permitir que o trabalho não fosse interrompido por falta de iluminação.
Caminhões-caçambas iam e vinham transportando terra vermelha enlameada, que eram retiradas por grandes retro-escavadeiras e tratores de esteira, de um local situado a uns três quilômetros abaixo e despejadas na cratera, onde trabalhavam uma moto niveladora e um rolo compactador.
A estrada não demoraria muito a ser usada novamente.
(Continua na próxima semana)
 
 
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