08 de julho de 1975 – A SEREIA

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(EPISÓDIO 31)

Lá por volta do meio-dia o sol mostrou o seu rosto amarelo entre farrapos de nuvens e começou a avançar lentamente no céu, na direção do ocaso. Primeiro, foi como uma dissolução de estrelas no firmamento, que parecia até lavado e ensaboado pela chuva. Depois, uma mancha cobalto estendendo-se para o leste e, por fim, um resplendor rubro-amarelo brotando no horizonte.

 No céu de Mutum o sol mostrou a sua irradiante cara risonha e tudo mudou por completo, tornando-se ou marrom ou verde ou azul. Marrom da terra ainda enlameada. Verde das matas ainda molhadas pela chuva. Azul do céu agora livre das nuvens, relâmpagos e trovões.

O cessar da chuva permitiu que a cidade voltasse a ter o movimento normal dos dias normais de férias. As pessoas voltaram a andar pelas ruas e a praça foi novamente adquirindo vida.

No quartel improvisado no Estádio Municipal, naquele dia, surgiu uma nova preocupação além da principal, que era achar as bombas: o rio.

Com a quantidade de chuva nas cabeceiras dos rios São Manoel e Mutum, o volume de suas águas estava aumentando muito rapidamente e havia grandes chances de que houvesse uma enchente de grandes proporções na cidade. O que poderia se tornar um problema sério para os militares, já que o Estádio Municipal, onde estava instalado o quartel general das tropas, sempre era tomado pelas águas do Rio Mutum, quando enchia demais e saia de sua caixa.

Por determinação do comando geral das tropas, formado pelo Major Alfredo, do Exército, Major Lemos, da Aeronáutica e pelo Capitão de Fragata Coutinho, da Marinha, foram postados observadores às margens do rio para fazerem o monitoramento da elevação do seu nível e possibilitar, se fosse necessário, a movimentação das tropas para outro local mais seguro.

Sempre que havia ameaça de enchente, três locais específicos da cidade viravam atração turística e ficavam cheios de gente observando o rio. A Ponte que dava passagem para o Canto do Rio, a Cachoeira do Balé, na saída para Aimorés e a Rua da Praia, que se chamava realmente Rua Quintino Bocaiúva, onde ficava a casa em que meus pais moraram quando eu era criança. Era lá, na Rua da Praia, que ficava o estádio Municipal, transformado em quartel das tropas militares.

Quando correu a notícia de que o rio estava subindo fui até a Rua da Praia para também ver até onde já havia aumentado. Ao chegar à sua margem, fui invadido por lembranças do tempo em que ficava nadando e brincando em suas águas. Ali, sentindo o cheiro de mato, ouvindo o som borbulhante da correnteza e o frescor das águas, ao pensamento me vieram as inúmeras vezes, em minha infância, em que ajudei meus pais a retirarem de casa tudo o que tinham de valor, antes que o rio invadisse a rua com suas águas.

Nessas ocasiões, a casa dos meus avós, que era na verdade a minha casa, servia de pousada para os meus pais e meus irmãos e para mais duas ou três famílias de amigos deles.

Mesmo sem que houvesse uma combinação, a subida das águas era seguida de um verdadeiro ritual de mudança. Na medida em que o rio ia tomando conta da rua, os moradores iam abandonando as suas casas, um por um. Lembro-me de uma vez em que ninguém pôde continuar em casa. Todos precisaram se retirar. As águas subiram até a metade do morro que levava à Praça Benedito Valadares. De lá podíamos ver que algumas casas ficavam inteiramente debaixo d’água enquanto que de outras só se podia ver os telhados. Algumas pessoas mais experimentadas diziam que as águas, em algumas ocasiões, chegavam a subir até dez metros além do seu nível normal.

Ali, a mais forte das lembranças que me dominou, foi a da Sereia.

Ah, como era linda a Sereia. É claro que esse não era o seu nome real. Chamava-se Totonha ou Antonia, seu nome de verdade.

Morava em uma das ruas que, saindo da Praça Benedito Valadares, terminava na beira do rio, num lugar que chamávamos de prainha, ao lado da Rua Quintino Bocaiúva, que chamávamos de Rua da Praia. Era lá onde ficava o bote de madeira que fazia a travessia para o outro lado do rio, onde havia uma espécie de continuação da cidade. Um lugar com algumas poucas casas, que só podia ser alcançado através do rio, por canoa, já que não tinha nenhuma ponte. Uma fazenda de criação de gado, na realidade.

Era também, na prainha, a parte do rio onde nós, crianças e adolescentes à época, nadávamos. Todos os dias algum de nós, na minha época, se lançava do barranco alto, num salto acrobático, mergulhava na água e seguia nadando até ao outro lado. Lá, na outra margem, uns trinta metros depois, onde havia um espaço largo, sem mato e cheio de areia, saíamos da água, descansávamos e fazíamos o caminho de volta até a margem de onde havíamos saído.

Ah, mas e a Sereia? Bom, a Sereia também usava esse mesmo espaço do rio para nadar. Só que ela o fazia de forma diferente. Não atravessava simplesmente o rio, como era o nosso costume. Ela se lançava na água, nadava até a metade do rio e ficava lá, brincando na correnteza. Mergulhava, sumindo no fundo e voltava, metros abaixo de onde afundara. Nadava contra a correnteza para logo depois deixar-se levar pelas águas, até determinado ponto. Aí, mergulhava de novo e recomeçava tudo outra vez. Ficava horas brincando. Sozinha. Mesmo quando havia alguém na margem, querendo também nadar, ela sempre continuava sozinha. Ninguém, mas ninguém mesmo, entrava na água quando ela estava lá. Uma espécie de respeito ou de acordo tácito, que nunca fora feito, de verdade, mas que todos respeitávamos.

Como ela era? Linda, simplesmente linda. Uma menina morena, queimada de sol, que devia ter, à época, uns dezesseis, dezessete anos, com os olhos muito azuis e sempre mostrando um sorriso, verdadeiramente lindo, no rosto. E o seu corpo era curvilíneo e gingava levemente, com alto chamado sensual, ao andar. A Sereia era uma linda mulher. Muito gostosa, a Sereia.

Vestia-se sempre com vestidos curtos, deixando que víssemos uma boa parte das suas pernas. Tinha coxas bem feitas, como se tivessem sido torneadas por algum artista. Nem finas nem grossas. Mas todos a desejávamos. E gostávamos de vê-la nadando na prainha.

A razão mesmo, para que gostássemos tanto de vê-la nadando no rio era o fato de que, para fazê-lo, usava sempre um vestido branco, fino, que deixava à mostra o seu corpo. Não usava sutiã. Apenas uma calcinha atrevida protegia sua intimidade. Seus peitinhos durinhos eram de uma beleza estonteante e pareciam querer saltar para fora do vestido. Todos adorávamos os peitinhos durinhos da Sereia.

Diziam as más línguas que o respeito que todos demonstravam por ela quando estava nadando, havia sido imposto pela Sereia quando, um dia, logo após ter chegado de mudança para a cidade, entrou pela primeira vez no rio para se banhar e foi assediada por um rapaz folgado, de uma família muito rica. Ele, logo quando a viu nadando, entrou na água atrás dela e tentou bolinar o seu corpo, primeiro de uma forma discreta, mas tornando-se mais abusado e violento quando ela o repeliu. Então, os que assistiam a cena disseram que ela, simplesmente, lhe deu uma tremenda surra que começou na água mesmo e terminou na beira do rio, na areia da praia. Bateu nele sem dó nem piedade até que o deixou quase desmaiado, no chão. Nunca mais ninguém entrou atrás dela, no rio, quando ia nadar. Nascera assim o respeito pelo banho da Sereia. E esse respeito aumentou ainda mais quando disse, mais tarde, que antes de se mudar do Rio de janeiro, onde morava, para Mutum, praticava o que na época era conhecido como artes marciais. Dominava com maestria algumas técnicas de lutas orientais, que envolviam manobras usadas por soldados quando em guerra, para defesa pessoal no corpo a corpo. A Sereia demonstrou, na prática, ser muito capaz de se defender. O rapaz nunca mais foi visto na beira do rio.

Eu a admirava muito e fazia parte do pequeno círculo dos seus amigos. Digo amigos, porque ela tinha muitas amigas que a cercavam de atenção, ouvindo suas histórias sobre o Rio de Janeiro, então recentemente transformado em Estado da Guanabara, mas tinha poucos amigos. Até pouco tempo antes, a cidade maravilhosa fora a Capital Federal. Cheia de encantamentos e de malandragem.

 Ela dizia que havia nascido e morado em um morro, numa das mais conhecidas favelas da cidade, a Favela do Vidigal. Lá, crescera e aprendera a se virar. Ninguém, mas ninguém mesmo, dizia ela, punha nela as mãos sem que ela deixasse. E, se forçasse a barra de forma que ela não gostasse, apanhava pra ver o que era bom.

Como seu amigo, ouvia suas histórias ora acreditando, ora desconfiando que inventava tudo, ora descrendo totalmente do que dizia pelos absurdos dos fatos. Mas nunca dizia a ela o que eu pensava. Respeito. Que era bom e ela gostava.

Um dia, ela me disse que iria receber a visita de um primo, que viria do Rio de janeiro passar uns dias em sua casa e que queria que eu o conhecesse. “Vai conhecer um pouco mais de mim, conhecendo ele”, me disse. Dito e feito.

O primo da Sereia chamava-se Carlos, mas ela o chamava de Carlinhos Maioral. E ele só a chamava de Totonha.

Era um sujeito diferente das pessoas com as quais convivíamos. Tinha uma acentuada preocupação com segurança, ao ponto de não se sentar em nenhum lugar  com as costas viradas para a entrada. Ficava sempre de frente. Gingava muito o corpo ao andar, os braços balançando soltos junto ao corpo, num caminhar típico dos malandros que víamos no cinema. Muito queimado, nos dizia que vivia na praia, na areia, no sol. Que era ali que trabalhava. Junto do povão que gostava do mar. Tudo nele, desde a sua fala até o modo de caminhar e o jeito esquisito de se mostrar assustado com tudo, indicava, sem nenhuma dúvida, que era um tremendo malandro. Era exímio jogador de sinuca. Só perdia quando queria. E só jogava apostando qualquer coisa. Bebida, cigarros, dinheiro. E nunca saia para onde quer que fosse sem levar consigo uma navalha que ficava em um dos seus bolsos. Em suma, Carlinhos parecia perigoso. E era perigoso. Mas me dizia ser meu amigo, que tinha ido com a minha cara, que os nossos santos tinham batido. Mas eu confesso que tinha um pouco de medo dele. O medo é algo que levamos no nosso íntimo, que existe dentro de nós desde que fomos criados. Ter medo é a coisa mais normal do mundo. O importante é não permitir que ele seja maior do que a nossa vontade. Devemos prendê-lo. Não permitir que escape ao nosso controle. Do contrário, será ele quem passará a dominar-nos. Transforma-se em senhor e já nada podemos contra ele. Por isso, eu nunca deixei que o Carlinhos nem a Sereia percebessem o meu temor. “Bom, se ele quer ser meu amigo, que seja”, eu pensava.

Uma noite, o calor insuportável não me deixava dormir e resolvi sair um pouco e fui caminhando pela praça, já vazia. Ao olhar para a rua do rio eu a vi a Sereia caminhando em direção a prainha. Não sei porque alguma coisa me fez segui-la, sem que a deixasse perceber. Vi quando chegou na areia, tirou toda a roupa, jogou de lado e entrou na água. A luz da luz era suficiente para que eu a visse indo ao encontro do Carlinhos, que lá estava, parado, firme, nu, no meio da correnteza. Enquanto eles se abraçavam eu saí rápido de lá, antes que pudessem notar a minha presença.  Depois, uns dois anos depois, a Sereia virou puta na Casa da Dulce, em Governador Valadares.    

Desta vez, embora os rios tivessem ficado muito cheios, não provocaram enchente na Rua da Praia, embora alagassem outras áreas da cidade, em seus arredores.

De qualquer forma, os rios se tornaram uma atração durante todo o tempo em que estiveram recebendo o excesso de águas das chuvas.

Embora a situação na cidade ainda não fosse de todo tranquila, o Comando Militar sediado em Mutum recebeu ordens para realizar o trabalho de recuperação do trecho destruído da estrada que ligava a cidade a Lajinha. Para fazer o trabalho chegaram, logo no começo da tarde, de helicóptero, engenheiros militares especializados na construção e reparação de estradas. Assim, a cidade ganhou novas distrações: a observação da cheia dos rios, a busca pelas bombas e o aterro da cratera aberta na estrada de Lajinha. Eu já me sentia como se estivesse em férias.

Embora alimentando de notícias o Jornal do Povo, em Belo Horizonte, o motivo maior da minha ida a Mutum, que era acompanhar as buscas das bombas perdidas por um avião militar, não evoluía. Apenas duas bombas tinham sido encontradas e as buscas às outras duas estava ficando cada dia mais difícil. Eu sentia, nas vezes em que ligava para a redação, pelo tom de voz empregado por Manfred Kurt, que ele estava ficando cada hora mais irritado com a situação. “Porra, cara, sei que aí tem coisas e você não descobre porra nenhuma, sô. Se vira” dizia ao final de cada conversa.

Já era noite alta quando os caminhões transportando as máquinas que seriam usadas no trabalho de aterro e recuperação da estrada começaram a chegar a Mutum, vindas de Aimorés, para onde tinham sido trazidos de Vitória, por trem. Todos os caminhões e todas as máquinas eram militares.

(Continua na proxima semana)

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