OPERAÇÃO MUTUM – A CRATERA

                     (Episódio 30)

           1

Sentado na cabine do pesado caminhão camuflado, o Capitão Peixoto não aparentava estar muito feliz. O dia estava frio e a chuva não aparentava querer diminuir. Pelo contrário, a tormenta descia sobre eles. Um relâmpago sulfúreo clareou o céu e as pesadas nuvens roncaram sinistramente, como enorme caixas de ressonância. Como se aquilo fosse algum tipo de sinal, um aguaceiro violento começou a cair.

O grande caminhão REO M-34 roncava o seu potente motor e seguia firme pela estrada de terra, agora puro lamaçal, sem se importar com o que encontrasse pela frente. Era valente e acostumado a terrenos difíceis.

O Exército Brasileiro havia começado a usar os caminhões REO em 1958, quando cerca de 270 foram adquiridos de segunda mão do exército dos Estados Unidos.

O REO M-34 era uma VTNE (Viatura de Transporte não Especializada de 2 ½ Tonelada, de origem americana, que já havia sido utilizado pelo exército brasileiro nas campanhas de apoio aos contingentes enviados pelo Brasil para compor as tropas empregadas na UNEF (United Nation Emergencial Force) nos esforços de pacificação do conflito entre Israel e Egito. No Brasil, os REO M-34 eram utilizados em missões de transporte de tropas, reboque de peças de artilharia e demais funções não especializadas de logística. Essa a razão para estarem ali em Mutum.

                                               2

Encolhido dentro do seu capote militar, o Capitão Peixoto observava o movimento de ir e vir dos limpadores de para-brisa à sua frente, enquanto seus pensamentos vagavam, distantes.

Foi no ano de 1972 que o Capitão Peixoto estivera pela primeira vez em Mutum. Naquela época, estava comandando uma tropa enviada de Juiz de Fora, encarregada de fazer a segurança da cidade durante as eleições municipais. Tinha ficado na cidade por uma semana inteira. Tudo havia transcorrido sem a ocorrência de algum incidente importante que pudesse ameaçar a tranqüilidade do pleito. Quando voltara ao quartel, tinha sido cumprimentado e recebido um elogio a ser acrescentado em sua folha de serviços. Agora, estava ali, novamente, com a missão de comandar os seus homens na procura das bombas perdidas por um avião. “Merda de missão”, pensou. “Só encontramos duas dessas porras de bombas e já tive duas baixas”. Olhando para fora, pela janela do caminhão, disse ao seu motorista, o Soldado Montanha “Vai com cuidado nessa subida, ô caralho. Só falta agora a gente rolar numa ribanceira dessas”. Quando recebera a missão no gabinete do Major Alfredo, este lhe informara que seria uma operação tranqüila e segura, para ser realizada em poucos dias e, com toda a certeza, sem nenhum risco para os seus homens. Agora, estavam ali debaixo de um verdadeiro dilúvio, deslizando na lama e, para piorar tudo, só tinham encontrado duas bombas. Irritado, virou-se e ia dizer alguma coisa ao Soldado Montanha, quando lhe pareceu que o mundo ia acabar.

                                                    3    

O Sargento Pereira destacava-se onde quer que estivesse. Alto, magro, feições angulosas, olhos escuros, jeito impávido e uma grande boca de lábios finos com expressão que até poderia demonstrar alguma simpatia. Mas não era nenhum anjinho o Sargento Pereira. Qualquer pessoa mais esperta saberia logo que ser seu amigo era bom, mas o ter como inimigo era uma coisa muito ruim. Por isso, seus subordinados nem sequer pestanejavam para cumprir todas suas ordens. Não importava quais fossem. Sentado na carroceria junto aos seus comandados o Sargento Pereira parecia absorto e desinteressado de tudo naquela manhã fria e úmida. No entanto, seu olhar acompanhava o que acontecia ao seu redor e os seus sentidos estavam aguçados. Tenso. Parecia pressentir que alguma coisa não ia bem e que algo estava por acontecer. Ninguém dizia uma palavra e o silencio só não era absoluto porque, vez por outra, era quebrado por um trovão que se seguia ao riscar de raios no céu. “Parece até que o mundo vai se acabar em água”, pensou o Sargento Pereira enquanto firmava a vista na abertura da capota, tentando enxergar a estrada. “Que estradinha perigosa essa estradinha de merda. Não consigo ver nada”

Foi quando simplesmente aconteceu.

                                                         4

O Soldado Montanha conduzia o REO com todo o cuidado pela estrada enlameada e tortuosa, atento às grandes poças d’água, esperando sempre encontrar nelas algum buraco. Vez por outra, olhava ao seu lado, onde se encontrava o Capitão Peixoto. Percebera, logo no início da viagem, ainda dentro da cidade, que o capitão não estava bem “Amanheceu com o ovo virado”, pensou. “Vai ficar o tempo todo me enchendo o saco, com certeza”. O Soldado Montanha, no entanto, não podia ficar se preocupando com o que acontecia com o Capitão Peixoto. Tinha que preocupar-se era com a estrada, com a lama e com os buracos, com o Sargento Pereira e os soldados na carroceria.. E com as ribanceiras. Sem contar com as pedras. “Puta que pariu, que pedras mais filhas da puta de grandes” admirava-se ele, olhando aquele grandes blocos de granito, que pareciam pendurar sobre a estrada. “Ah se uma merda dessa rola”. Sentiu um arrepio passar pelo seu corpo. O pesado caminhão subia lentamente, em marcha reduzida, sem nenhuma pressa. O Soldado Montanha parecia também não ter nenhuma pressa em conduzir os seus passageiros ao final da rota traçada pelo Capitão Peixoto. “Vou bem devagar porque estou com muita pressa” disse baixinho despistando um sorriso. “Não adianta nenhuma pressa se a gente não conseguir chegar ao final”.

A chuva era intensa e os limpadores do para-brisa quase não conseguiam afastar a quantidade de água que escorriam, deixando o vidro embaçado. O Soldado Montanha já sentia alguma dificuldade em ver a estrada. Os limpadores estavam funcionando na velocidade máxima e embora fosse dia, os faróis estavam acesos lançando dois fachos de luz à frente do REO.

Ao ouvir o estrondo o Soldado Montanha sentiu que todo o caminhão se sacudiu e pisou instintivamente e violentamente no freio, segurando firmemente o volante. Então, viu que já não tinha mais controle de nada. 

                                               5

O Tenente Filogônio ia sentado na cabine do segundo caminhão que formava o comboio e era conduzido pelo  Soldado Carlúcio.

Por medida de segurança, cada veículo se posicionava a cerca de cinqüenta metros um do outro e, nessa distância, debaixo daquela verdadeira tormenta, só era possível seguir as lanternas traseiras do que ia na frente.

O Soldado Carlúcio ouviu o estrondo ao mesmo tempo em que viu que o Soldado Montanha tinha pisado fundo no freio do caminhão à sua frente. Fez o mesmo com o que estava conduzindo. Com a sua freada, o Tenente Filogônio, que estava cochilando, foi jogado violentamente para a frente, só não se chocando com o parabrisa porque foi impedido pelo cinto de segurança. Mas o seu corpo foi sacolejado violentamente. “Que porra é essa, soldado? Ficou doido?” gritou enquanto procurava se equilibrar. O pesado caminhão ainda patinou por alguns metros, antes de parar atravessado na estrada estreita. Na carroceria, o Sargento Colombo, assim como os soldados, que não esperavam pelo tranco, foram jogados para a frente, caindo uns sobre os outros. Aconteceu, então, com os outros três caminhões um efeito dominó, com cada um parando em seguida ao outro, de uma forma desordenada, na medida em que percebiam que o da frente freara.  

                                                          6

O Soldado Montanha e o Capitão Peixoto, no momento do estrondo, puderam ver, ao mesmo tempo, quando a grande pedra se moveu, no barranco à esquerda, uns cem metros a sua frente. A princípio, lentamente, fazendo descer sobre a estrada uma grande quantidade de barro. Depois, tudo desmoronou e um rio de lama desceu levando tudo o que encontrava pelo caminho. O caminhão, com os freios acionados pelo Soldado Montanha, foi sacudido violentamente e empurrado para trás. O deslizamento não durou mais que alguns poucos segundos. Mas quando terminou, não havia mais estrada por onde passou a lama. Ficara apenas um enorme buraco. Uma imensa cratera. Por pouco o REO 34, conduzido pelo Soldado Montanha, transportando o Capitão Peixoto, o Sargento Pereira e um punhado de soldados, não tinha sido engolido por aquela extraordinária cratera.

Recuperado do susto, o Capitão Peixoto fez uma rápida avaliação da situação de seus homens e, após constatar que nenhum se ferira, acionou por rádio o quartel, em Mutum, relatando os acontecimentos. A ligação pela estrada principal entre Mutum e Lajinha estava até não se sabia quando, interrompida. E terminou o seu comunicado afirmando “Nem a pé se consegue passar mais por aqui”.

Anoitecia quando o comboio retornou ao quartel. Nenhuma outra bomba tinha sido encontrada. A estrada para Lajinha estava interrompida. A chuva não deu tréguas. A Praça ficou vazia. O Bar do Paulo ficou quase sem nenhum movimento. Mas foi lá que me refugiei naquela noite, com um grupo de amigos que, assim como eu, tinham medo de ficar presos em casa quando chovia e corriam para a rua ao som do primeiro trovão. Enquanto houvesse assunto ficaríamos lá, sentados no Bar do Paulo, esperando o dia amanhecer. Quando me recolhi para dormir já passava de quatro horas da manhã e a chuva ainda caia insistente e fria.

(Continua na próxima semana)

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