Relances vindos da floresta

Marilia de Nazaré de Oliveira Ferreira

Ainda estava escuro quando ele acendeu o cigarro. A fogueira liberava faíscas enquanto nos aquecia. Estávamos no coração da floresta amazônica, tropical e úmida, com seus sons e imagens, cheiros e mistérios.

Ele começou a falar: – Quando um povo estava todo vivo aqui, numa hora dessa, todo mundo se banhava no rio, crianças, jovem, velho, casal, todos. Depois pintavam o corpo com urucum e o dia começava. Ninguém usava roupa. Isso não existia. Eu não esqueço

nem um dia do meu povo. Eles estão comigo. Lembro dos olhos, dos rostos, das mãos, dos pés, das costas deles.

Passei o dia refletindo sobre aquela conversa. Quanta saudade havia naquela voz, quanto lamento também! Não poderia ser tudo diferente?

Aquele lugar estava impregnado dos ecos da tradição de muitos milhares de anos. Suas lendas claramente relacionavam-se a eventos geológicos que haviam ocorrido há muito tempo. Suas histórias, lugares, cerimônias, cantos estavam cravados ali.

Difícil era lembrar o mundo que eu havia deixado para trás.

O mundo da sofisticação acadêmica, da confrontação e da intriga.

“-Imã kaprã! Licença! Boa noite! Qual é a janta aí?” Comer junto era sempre uma boa ocasião para aprender. Me perguntou: “-Quantos irmãos teu marido tem?” Respondi: “-Três.” “- Então está bom, quando marido sai, não fica só, eles ficam contigo e cuidam de

ti.” Assustei-me com aquela declaração e fiz meu discurso: “-Não. Não posso deitar com os irmãos do meu marido.” Ele me olhava assustado sem acreditar no que ouvia. Na cultura dele era assim.

E ali estávamos mais uma vez, empacados pela diferença cultural. Não havia o certo ou o errado. Havia a diferença apenas!

Mais uma vez meus pensamentos me conduziam para distante dali confrontando a minha verdade com a verdade daquele povo.

Tohina! A diferença era patente no sabor da culinária, na poesia, nas danças, na concepção do mundo e da vida. E eu representava o colonizador que contribuiu para a destruição da floresta e daquele povo! Será que era por isso que eu não parava de pensar e de me maravilhar com as recentes descobertas? A necessidade de um povo dominar o outro explicaria os tantos problemas existentes entre esses povos como a luta pela terra, pelos direitos de preservarem seu espaço sem inundação? A dominação, na verdade, operava em todos os sentidos. Afinal eles eram a minoria política. Será que precisavam desaparecer só por isso? Ou essa era a ordem natural das coisas?

Não, não podia ser. Ali havia sonhos, cultura, riquezas, conhecimentos. Não poderíamos simplesmente ignorar tudo isso e admitir que o espírito colonialista sobrepujasse a vida! Era preciso fazer jus ao espírito da união de todos os povos face à Mãe Terra.

Havia tanto a aprender, tanto a absorver e tanto a trocar com eles. Por que preferir o etnocentrismo, a vida sem alteridade, sem admitir o diferente?

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