OPERAÇÃO MUTUM – 07 de julho de1975 – O Damista

(Episódio 29)

A segunda-feira amanheceu com o céu encapotado e com fortes pancadas de chuva. Mais uma forte tormenta tropical se anunciava para a região. Eu sabia, por experiência própria, dos tempos que morava em Mutum, que aquele seria um dia para se ficar em casa.

 Em Mutum, quando chove forte, o dia fica muito feio. O melhor a fazer era não sair porque nenhum guarda-chuva iria segurar aquele temporal que estava para cair. Da janela da sala eu observava a praça vazia. Estava absorto, concentrado em meus próprios pensamentos, quando, ao ouvir passos no corredor, virei-me para ver quem estava vindo até onde eu estava e vi meu avô que virou-se e subiu as escadas para o sobrado. Foi ao virar-me de frente para o corredor que percebi, a um canto da sala, a mesa com o tabuleiro de xadrez e de damas. Foi nele que aprendi a jogar com meu tio Levy. Fiquei ali, parado, olhando a mesa, o tabuleiro e as lembranças da minha infância tomaram conta dos meus pensamentos.

Eu tinha naquela época doze anos e passava a maior parte do meu tempo no salão de barbeiro do Zequita, bem ao lado da casa dos meus avós, na Praça. Lá, eu engraxava os sapatos dos clientes da barbearia. O salão tinha uma cadeira de engraxate completa, alta, de metal, duas gavetas grandes onde ficava guardado todo o material necessário para um bom brilho em qualquer tipo de sapato.

Ganhava uma porcentagem por quantidade de pares de sapatos engraxados, o que representava um valor em dinheiro suficiente para os meus gastos com bobagens. E a garantia do ingresso nos domingos para assistir os jogos do Esporte.

Quando não tinha sapatos para engraxar, jogava damas com o Zequita ou com qualquer pessoa que por lá aparecesse e quisesse uma partidinha. Havia bons jogadores, e eu, embora com pouca idade, não fazia feio com nenhum deles. Além do salão do Zequita havia tabuleiros de xadrez e damas em outros locais, como o Clube Recreativo e o Tringolingo, clube que pertencia ao Independente, clube de futebol de rivalizava com o Esporte.

Os melhores jogos aconteciam aos sábados, quando o salão ficava cheio, com todas as cadeiras de barbeiro ocupadas, e nas manhãs de domingo, depois das missas e dos cultos, pois às tardes todos tinham compromisso com o Esporte, com sua camisa vermelha como a do América do Rio de Janeiro ou com o Tringolingo, com sua camisa amarela como a camisa da Seleção Brasileira. O salão sempre fechava as duas da tarde, no domingo, para dar tempo do Zequita ir ver o futebol.

Uma manhã, eu estava no salão quando chegou um senhor para cortar os cabelos e engraxar os sapatos. Enquanto eu engraxava, ele olhava os jogadores de dama com atenção. Era um senhor negro, de uns cinqüenta e poucos anos, risonho e simpático.

Terminou de engraxar e ficou ali por perto do tabuleiro, sapeando. Sapo era como chamávamos quem fica do lado assistindo os jogos quando a gente jogava, torcendo para um ou outro jogador e, às vezes, rindo de uma jogada errada ou até dando palpites quando pensava que havia alguma jogada que o jogador não havia percebido. Muito vezes o jogador adotava um procedimento de era conhecido como enganar o sapo, que era ver uma jogada clara e lógica e fazer uma outra, completamente inesperada, só para ver o sapo chiar e depois o jogador gozar com a sua frustração por não ter feito a jogada que o sapo esperava que fizesse. Era sempre um procedimento perigoso porque, no jogo de damas, não existem, para algumas jogadas, muitas possibilidades de variação sem que a gente se complique. Mas sempre valia a pena provocar o sapo.

Eu me lembro que o senhor cujos sapatos eu acabara de engraxar não demonstrou ser um sapo chato. Esteve durante todo o tempo apenas observando o jogo com um olhar atento, sem nem balançar a cabeça quando uma jogada ou outra provocava a agitação dos sapos.

Quando o tabuleiro ficou livre, ele sentou-se e perguntou com quem poderia jogar uma partidinha. Logo o Zequita olhou para a cadeira de engraxate e vendo que eu não estava engraxando, disse que eu sabia jogar bem e me fez um sinal para aceitar o jogo. 

Os sapos já tinham saído e começamos a jogar com o salão vazio. Nossas primeiras partidas foram pau a pau, sendo decididas sempre nas jogadas finais. Depois, comecei a perder sempre, de forma cada vez mais fácil. Por mais que eu tentasse resistir, não conseguia endurecer mais o jogo. Então eu disse que não tinha mais jeito, que eu não conseguia mais encarar. Então o senhor começou a falar, elogiando a minha forma de jogar e tentando me estimular. E se apresentou.

Ele se chamava Messias, era funcionário dos Correios e Telégrafos em Juiz de Fora, tinha ido a Mutum para um serviço especial de verificação de linhas e disputava, sempre, o Campeonato Brasileiro de Damas. Elogiou mais uma vez o meu jogo e, abrindo uma pasta de couro que levava consigo, nos mostrou alguns recortes de jornais com relatos de torneiro e campeonatos dos quais já participara em vários locais do Brasil, sempre com grande destaque. Ela era, disparado, muito melhor que todos nós, que jogávamos no salão do Zequita. Então, interessou-se em saber onde e como eu aprendera a jogar damas. Eu lhe disse que havia aprendido com o meu tio Levy, com quem jogava dama e xadrez quando ele vinha a Mutum, nos visitar.

O Senhor Messias deu uma risadinha e disse que não era isso que estava perguntando. Quando me mostrei desentendido, ele me explicou que, no início das nossas partidas, eu realmente havia jogado de uma forma atrevida e tão segura que ele ficara surpreso e teve que se esforçar para me vencer. Mas que depois, foi aos poucos estudando o meu jogo e logo, logo, não teve mais nenhuma dificuldade em me dominar. Depois, ele me perguntou se eu lia o Correio da Manhã. Eu disse que sim e ele me perguntou se eu conhecia O Damista e eu confirmei que conhecia.

O Damista era uma seção do jornal carioca Correio da Manhã que trazia o desenho de um tabuleiro de damas, com jogadas para serem estudadas e decoradas, sempre preparadas por alguns dos melhores jogadores do Brasil. Eu tinha me acostumado a recortar e colecionar essas jogadas e depois usá-las contra os meus adversários quando jogava no salão. O Senhor Messias me perguntou se eu tinha guardado alguns daqueles recortes e me pediu para vê-los. Eu, prontamente, corri para buscá-los em minha casa, que era bem ali, ao lado do salão. 

Ele deu-me então as explicações que eu não tinha para o meu desempenho tão irregular, forte no início das partidas e tão fraco ao final.

Dentre os meus recortes havia lances de partidas que eu usara e que tinha sido, para o meu espanto, preparadas e enviadas por alguém que assinava M alguma coisa, isto é Messias de tal, o próprio que estava ali e que tinha jogado comigo. E que passou a me dar uma incrível lavada no tabuleiro de damas assim que identificou, nas minhas jogadas, as suas dicas dadas no Damista. Que eu estudava, recortava, guardava e usava nas minhas partidas contra todo mundo que jogava comigo.

Para que eu não desanimasse por causa do passeio que tinha tomado no salão, o Senhor Messias deu-me de presente um tabuleiro de damas portátil, daqueles que as peças ficam presa ao tabuleiro por um imã e um conselho: “você é um menino inteligente. Continue jogando. E não pare de ler o Damista”.

Um relâmpago riscou o céu e um ensurdecedor trovão sacudiu a casa trazendo-me de volta à realidade daquela manhã chuvosa.

Dali de onde me encontrava, na sala da casa dos meus avós, pude ver quando o comboio militar passou pela praça e se dirigiu para a saída da cidade, na direção de Lajinha. “Vão recomeçar as buscas mesmo com toda essa chuvarada”, eu disse baixinho. “Povo mais doido”, completei.

(Continua na próxima semana)

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