OPERAÇÃO MUTUM – A PARADEIRA

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     (Episódio 28)

06 de julho de 1975

Naquela manhã de domingo o sol apareceu forte e brilhante, prometendo esquentar ainda mais, e já passava de meio-dia quando saí do meu quarto e desci para começar a agir. Na sala de visitas da casa dos meus avós, depois de ter tomado um café reforçado na cozinha, apanhei um jornal para ver o que havia de interessante. Era a Folha de São Paulo de Sexta-feira, dia 04.

Em Mutum os jornais não chegavam no mesmo dia em que eram editados. Os exemplares de assinantes eram enviados através dos Correios e podiam demorar até três dias para chegar. Os pacotes avulsos, que se destinavam à venda, chegavam em dois dias. Assim, as notícias mais atuais tinham acontecido há, no mínimo, dois dias. Assim, as pessoas quando liam o jornal, já sabiam de antemão quais eram as principais notícias porque já haviam sido divulgadas nos rádios e pela televisão. No jornal buscavam apenas a confirmação dos fatos com uma maior profundidade. E os comentários dos analistas. Além daquelas notícias que, importantes ou não, por não merecerem maiores destaques, não tinham sido  divulgadas, por outros meios, além do jornal. Para a maioria, no entanto, o jornal servia, mesmo, era para fazer embrulho. Para esse fim era vendido, aos quilos, para os donos de todo o tipo de comércio.

Como sempre fiz, apanhei o jornal, coloquei debaixo do braço e fui ler no banheiro, sentado no vaso. Ali, com certeza, não seria incomodado por ninguém durante a leitura.

Ao ler a data da Folha, comentei baixinho “Vamos ver o que mais aconteceu de importante no mundo na sexta além da morte do Gordo”.

Em Buenos Aires, na Argentina, policiais armados com rifles de grosso calibre tinham cercado a sede da CGT para impedir manifestação contra a política econômica do Governo de María Estela Martínez de Perón, Isabelita, que havia prestado juramento em 29 de junho de 1974 e assumido a Presidência na Casa Rosada, em substituição ao seu marido Juan Domingo Perón, falecido em 1º de julho de 1974, vitimado por um enfarte. Houve um confronto entre manifestantes e militares nas ruas com dezenas de feridos a bala.

Em Portugal o Governo de António Sebastião Ribeiro de Spínola decidiu estatizar todas as emissoras de rádio do País, como forma de controlar os seus opositores.

Na Inglaterra, o Primeiro-Ministro Harold Wilson afirmou que o seu governo trabalhista iria cumprir a meta de não permitir que a inflação ultrapasse os dez por cento, ao defender-se de acusações da líder da oposição conservadora  Margaret Tatcher.

Nos Estados Unidos aconteceram as comemorações pelo 199º aniversário da Independência americana.

Em Nairobi, Uganda, o Presidente Idi Amin comutou as penas de morte de prisioneiros políticos para seis meses de prisão.

Em Londres, na Inglaterra, a polícia intensificou a busca por Ilich Ramírez Sanches, nome verdadeiro de  Carlos “O Chacal” e prendeu três suspeitos de estarem envolvidos com o terrorista venezuelano.

Ao terminar, lembrei-me do Gordo.

Pelo pouco que conhecia do Gordo, pensei comigo, todos esses assuntos seriam excelentes motivos para uma baita discussão.

O Gordo tinha um nível cultural bastante elevado, bem acima da maioria dos amigos que conviviam com ele. Fruto, naturalmente, das leituras feitas dos jornais e das revistas que assinava e que lia, diariamente, na sua loja, quando não estava atendendo a algum freguês. Em Roseiral o Gordo era considerado intelectual. A vila perdia muito culturalmente com a sua morte.

O resto da manhã passou sem que eu percebesse, já que ficara em casa lendo as notícias da Folha.

O Esporte Clube Mutum não jogaria em casa naquele domingo, porque o seu Estádio Municipal estava servindo de Quartel General para as tropas encarregadas de resgatarem as bombas lançadas sobre a cidade. Jogariam em Afonso Cláudio, no Espírito Santo, para onde o time já tinha viajado de madrugada, logo após o fim do baile.

Como também não houve movimentação das tropas militares, o domingo foi de uma completa paradeira. Só as missas nas igrejas católicas e os cultos nas igrejas crentes provocaram algum movimento de pessoas pelas ruas. No mais, o sol, com seus raios fortíssimos cuidou de manter aquela gente da cidade no interior de suas casas, onde a temperatura era mais agradável. Só voltariam a sair quando chegasse a noite, para o footing na praça e as rodas de papo nos bares.

Tinha acabado de almoçar com os meus avós quando ouvi me chamarem na porta da sala. Fui ver quem era e dei de cara com a Alice. “Você prometeu que ia me ver e não foi até agora” me disse sorrindo. “Então, vim ver se ainda estava aqui ou se já tinha voltado pra BH”. Eu a convidei a entrar e ela foi comigo ver meus avós. Ficou lá conversando um pouco com eles enquanto eu trocava de roupa. Depois, saímos.

Fui com Alice a casa dos seus pais e ficamos lá, conversando e tomando café com bolo e broa uma boa parte da tarde.

Estar em companhia da Alice provocava em mim muito  boas lembranças. Mas não tocamos no assunto em nenhum momento, como se tivéssemos combinado que seria assim. O passado era passado. E deveria permanecer no passado. Ou não?

Quando começou a anoitecer deixamos a sua casa e nos dirigimos à Praça. Alice me disse que não me deixaria sair de perto dela enquanto estivesse na Praça, que tínhamos muito o que conversar. Assim, ficamos circulando ao redor do jardim, como a gente costumava fazer quando lá morávamos, tempos atrás. De vez em quando sentávamos em algum banco, quando achávamos algum vazio. Falamos sobre quase tudo. Menos sobre o que nos tinha acontecido. Mais tarde, ela reuniu-se com algumas amigas, eu fui para o Bar do Paulo, ela voltou para a casa dos seus pais e não nos vimos mais naquela noite de domingo.

(Continua na próxima semana)

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