TEMOR

José Araujo de Souza

Eu tenho medo. Temo

que não existam mais meios reais

de resgatar, do  poço profundo,

o valor histórico dos desaparecidos.

Que se tornem mentiras,

como as que se contam

ao redor das fogueiras, no sertão,

onde estão sepultados.

Ou que se façam estátuas

e placas comemorativas,

que nunca são vistas

por desconhecimentos

 dos seus nomes,

filiação ou da ta de nascimento.

Eu tenho medo de que nada,

nada mesmo, nenhum esforço,

possa resgatar do passado

as vitórias não comemoradas,

ou passagens gloriosas

dos muitos deixados

à mercê da sorte,

que por ser pouca

e mais fraca, se fez morte.

Eu tenho medo. Temo

que nunca mais, mesmo,

sejam chorados.

Pois o momento atual é de incertezas.

E não parece haver mais

nenhum lugar

para prantos.

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