operação mutum – o luto e a festa

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(Episódio 27)

05 de julho de 1975

  O luto e a festa

O sábado prometia. Afinal, neste dia aconteceriam em Mutum dois eventos que iriam mexer com toda a cidade, embora representassem ao mesmo tempo, um grande paradoxo.

O primeiro ocorreria ao meio dia quando seria realizado o sepultamento de Moisés, O Gordo, que pelo tanto que todos gostavam dele, deveria ter um enterro muito concorrido. Era certo que quase toda a cidade estaria acompanhando o seu ultimo passeio pela cidade, da casa de dona Albertina, tia de Cristina, onde tinha sido feito o velório, durante toda a noite, até o cemitério local situado atrás da Igreja Matriz.

O segundo aconteceria a partir das vinte e duas horas, no Clube Esportivo Mutuense, quando toda a alta sociedade da cidade estaria participando do Baile de Overture das Férias, que ocorria todo primeiro sábado do mês de julho, anualmente, desde 1950. Neste ano estaria sendo comemorado os vinte e cinco anos do baile. Sua importância era tal que só podia ser comparado ao Baile da Despedida que acontecia no último dia de julho. Aos bailes compareciam, além das pessoas importantes de Mutum, representantes das cidades vizinhas. De dez da noite do primeiro sábado até as quatro da manhã do primeiro domingo de julho poucos dormiam na cidade. Exceção feita a Moisés, O Gordo, que pela primeira vez e para todo o sempre deixaria de comparecer ao Baile de Overture das Férias por não poder acordar de seu sono eterno. O que, segundo alguns amigos, bem que podia acontecer.

Seu velório foi, como todos esperavam, um sucesso de público. Durante toda a noite a casa de dona Albertina, tia de Cristina, sua namorada e com quem o Gordo iria casar, com certeza, se não tivesse morrido, ficou apinhada de gente. Seus pais, inconformados com a desgraça que lhes acontecera, lamentavam-se o tempo todo sentados em um quarto, onde eram confortados pelos amigos e parentes que os abraçavam dizendo palavras de apoio ou simplesmente choravam com eles. Cristina, por sua vez, estava inconsolável junto ao caixão exposto na sala, entre velas, de onde não arredou pé a noite toda. Ficou lá, olhando o seu amado, rezando baixinho e, vez por outra, espantando com um gesto de mão algum mosquito mais audacioso que insistia em pousar no coitado do Gordo. Assim transcorreu a noite de sexta-feira e amanheceu o dia de sábado. Como acontece em todo velório, durante toda a noite foram servidas fatias de bolo e café puro ou com leite, além de uma cachacinha para esquentar o povo que tinha ficado lá para velar o Moisés, o Gordo.

Ao sepultamento compareceu tanta gente que, da Rua das Goiabas até a Igreja, onde seria celebrada uma missa de corpo presente, a procissão do enterro demorou mais de duas horas para terminar. Marcado para descer à sepultura às doze horas o corpo do Gordo só foi sepultado quando já passava das quinze. Só então as pessoas desceram o Morro do Cemitério para retornar as suas casas onde, após um merecido descanso, se preparariam para o baile que aconteceria naquela noite. Sem o Gordo. O que era uma pena, diziam seus amigos.

Os bailes anteriores haviam sido um sucesso, com gente vindo de todas as cidades vizinhas e algumas até da Capital. Também, com a fama que a cidade tinha, de ser terra de mulheres bonitas, não era de se espantar.

Desde cedo, mesmo quando esperavam para sepultarem o Gordo, as ruas da cidade  já estavam movimentadas, com rapazes e moças combinando encontros, discutindo roupas e confirmando os pares que estariam rodopiando na pista do clube.

Da janela do sobrado da casa do meu avô eu observava aquele movimento enquanto me preparava para ir ao cemitério. Passara uma parte da noite velando e prestando minhas últimas homenagens ao Gordo, de quem fora amigo. Enquanto observava o ir e vir da rapaziada, pensava em como seria aquela noite. Embora não gostasse de dançar, ia algumas vezes ao clube quando havia bailes apenas para observar e conversar com amigos. Só que desta vez, com a história das bombas, resolvi que não iria ao baile e que ficaria apenas circulando, trocando idéias com quem pudesse conversar.

Como os convites individuais já tinham sido esgotados vários meses antes e todas as mesas, de quatro lugares, haviam sido vendidas, o clube estaria cheio. Em compensação, muitos daqueles que gostariam de ir ao baile, e não poderiam, estariam disponíveis, com certeza, para um bom papo do lado de fora, na praça. 

À noite, fui primeiramente até a porta do clube antes de começar o baile e fiquei um tempo conversando com alguns conhecidos. A conversa quase sempre girava em torno das bombas ou da morte do Gordo.

O baile começou e as músicas executadas pelo conjunto chegava até onde estávamos.  Enquanto o tempo ia passando eu me distraía cada vez mais com as conversas.

O céu já estava se preparando para o amanhecer do domingo quando resolvi ir para a casa dos meus avós dormir um pouco.

O baile começou e as músicas executadas pelo conjunto chegava até onde estávamos.  Enquanto o tempo ia passando eu me distraía cada vez mais com as conversas.

Pouco depois das duas da manhã, quando eu já pensava em ir até o Bar do Paulo, percebi que alguém me chamava, na porta do clube. Fui até lá e me deparei com uma garota que eu conhecia de vista. Aproximei-me e ela perguntou se eu não me importava de acompanha-la até a sua casa, que o imbecil do namorado tinha ficado bêbado e estava dormindo na mesa, que ela estava muito puta da vida com ele e queria ir embora dali o mais rápido possível, antes que ele acordasse. Eu lhe disse que não me incomodava, que não tinha nenhum problema, que seria um prazer e saímos caminhando lado a lado.

Eu já a tinha visto algumas vezes, mas sempre na praça, durante o footing e não sabia onde morava. Apenas me dispus a acompanha-la.

Disse-me que sua casa ficava perto do antigo campo de futebol. Não era nada perto. Praticamente do outro lado da cidade, quase na saída para Lajinha. Perguntei como tinha ido até o clube e me disse que o “filho da puta do corno” do namorado a tinha levado de carro. Dei uma risada e fiz um comentário qualquer sobre o coitado do namorado, e ela ficou um bom tempo recitando todos os palavrões que conhecia. Vi que não o xingava por ela ter bebido muito. Pelo contrário, não se mostrava alta. Xingava o namorado por ter ele bebido demais e dormido em pleno baile. E lá fomos nós seguindo o caminho de sua casa, caminhando devagar e conversando. Pus a mão sobre o seu ombro e ela, encostando-se em mim, passou uma mão pela minha cintura.

Em determinada altura a rua se fez mais escura e com um leve aperto em seu ombro eu a fiz parar, virando-a de frente para mim. Olhou-me como se estivesse surpresa mas não fez nenhum gesto para se afastar. Aproximei o meu rosto e a beijei. A princípio, um beijo leve, discreto. Ela então me abraçou e beijou-me com vontade. Um beijo longo em que nossas línguas se procuraram e se enroscaram ali, no meio da rua onde estávamos parados. Sem nenhuma palavra nos afastamos da rua e nos encostamos em um muro. Ali ficamos abraçados nos beijando cada vez mais intensamente. Ela agarrou-se a mim e quando comecei a tirar sua calcinha me disse um “Não, não podemos. Hoje não. Depois. Outro dia”. Trocamos mais um longo e demorado beijo e voltamos a caminhar abraçados pelo meio da rua. Levei-a até sua casa e posso garantir que ela estava feliz. Tão feliz que já nem mais xingava o namorado. Quanto a mim, desisti de voltar ao clube e fui para o Bar do Paulo esperar terminar o baile. Enquanto caminhava de volta me veio à cabeça um ditado antigo que dizia que água morro abaixo, fogo morro acima e mulher quando quer dar, ninguém consegue segurar. Resolvi não ir ao Bar do Paulo e voltar para casa. Ainda dava para dormir um pouco e estava precisando de um banho depois da noite que tivera. O céu já estava se preparando para o amanhecer do domingo.       

      (Continua na próxima semana)

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