O último romântico

Tércio Heitor de Sousa Moreira

Guardo parte do meu romantismo em um pote de manteiga, e todas as manhãs ele corriqueira na ausência ou na presença cafeína.

Mas não se engane; esse não é o início da história. No início, o romantismo era levado na aba do chapéu, e por vezes me caiu na tentativa de um voo inesperado. Eu era novo, ele, malcriado.

Achei melhor, portanto, levá-lo no bolso e lá e cá em um tempo ameno apresentava-o. E por vezes foi medrosamente exibido.

E quem com interesse o olhou não tardou logo a esquecê-lo. Então o guardei em uma caixa de sapatos no fundo do armário.

Vieram pessoas e me disseram – é frio e cafajeste. Tempos a fio conheci ao meu redor pessoas que andavam descalças por natureza, outras que também guardavam caixas no fundo do armário, embaixo da cama ou no sótão, e ainda outras que há muito já haviam se desfeito do paralelepípedo de papelão. E vivi por muito tempo acreditando saber o propósito de se ter uma caixa de sapatos.

Até que um dia veio alguém de longe e, sem que eu visse, vasculhou meu armário, abriu a caixa de sapatos e, vislumbrada, cuidou do que estava dentro. De fato, por meses isso se repetiu até que ela voltou de onde veio e levou consigo o que guardava o papelão em prisma do fundo do armário. Pouco tempo depois foi minha vez de arrumar minhas malas. Mudei-me sem caixa alguma.

Conheci novos lugares, novas pessoas. Até que um belo dia começo a receber cartas. Leio-as. São como instruções. Sigo-as e renovo a essência que antes guardava no fundo do armário. Porém, nem o destinatário e nem a remetente souberam onde e como guardar o tal conteúdo.

A essa altura, eu já tinha uma caixa e também um armário quando resolvi abandonar tal conteúdo próximo de uma escada.

Ouço passos desajeitados pelos degraus, não tarda muito para que a pessoa de passos curtos desça. Então um tropeço acontece. A essência é espalhada por todo lugar, por toda a conversa, em qualquer bom dia.

Ao correr dos dias, das conversas, dos meses, eu percebo que ela realmente sabe o que fazer com o que outrora esteve no fundo do meu armário. Eu o espalho pelos cantos da minha casa, pelas minhas roupas, pelas minhas palavras e ela traz sua essência e a divide comigo. Mas parte do romantismo eu guardo em um pote de goiabada. Pois agora eu sei que caixas de sapatos só servem para sapatos

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