OPERAÇÃO MUTUM – OS AVENTUREIROS / A SEGUNDA BOMBA

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(Episódios 25 e 26)

A felicidade estava estampada na cara de Cristina para qualquer um ver, no seu sorriso aberto, largo e solto, que exibia a qualquer momento do dia ou da noite. Todos os que com ela conviviam sabiam o motivo de tanta felicidade. Chamava-se Moisés, “O Gordo” e podia ser visto todos os dias, atendendo no balcão de sua loja de variedades, na rua que começava na Praça Principal e terminava na estrada que levava de Roseiral a Mutum.

O Gordo era uma espécie de relações públicas de Roseiral, um distrito distante 18 quilômetros da sede da cidade, para onde se dirigia toda quinta-feira, quando anoitecia, acompanhado de Cristina, sua namorada e, com toda a certeza, futura esposa. Lá em Roseiral o Gordo recebia a todos em sua loja, sempre com um papo agradável, uma aguinha gelada, uma dose de pinga da boa e o sorriso aberto, feliz e solto da Cristina, que lhe fazia companhia quando recebia amigos. Em Mutum, nos finais de semana, O Gordo e Cristina ficavam hospedados ele, na pensão do seu Artur Vergílio e ela em casa de sua tia Albertina, que morava na Rua das Goiabas.

Naquela noite de 03 de julho, uma quinta feira, Moisés, O Gordo, depois de deixar Cristina na casa de dona Albertina, ficou até tarde sentado em um banco da praça, conversando com alguns amigos. Toda a conversa, como não podia deixar de ser, girava em torno das bombas e cada um emitia a sua opinião expondo o que pensava. Ao final, resolveram formar um grupo para também ajudarem na busca. Logo Cristovinho se ofereceu para levar a todos em sua camionete porque, conforme ele dizia “minha camionete tem tração nas quatro rodas e se for preciso sobe até em parede”. Combinaram que iriam descansar um pouco naquela noite e pelas sete da manhã da sexta-feira, sairiam para as bandas do Ocidente. Iriam o Cristovinho e o Aduvaldo, estudantes que passavam férias na casa dos pais, O Gordo e o Anatólio do Zé Maria, açougueiro.  Decidiram que lá na Serra do São Roque deixariam a estrada principal e se meteriam por umas trilhas que o Aduvaldo conhecia muito bem, porque já tinha ido caçar pacas praqueles lados e passara por lá.

A intenção dos quatro amigos era sair bem cedinho e seguir na camionete até onde pudessem ir. Depois, se fosse preciso, a deixariam na trilha e seguiriam a pé. Levariam as buscas até umas duas ou três horas da tarde. Depois, achando ou não achando alguma bomba, dariam meia-volta, entrariam na camionete e voltariam para a cidade. Queriam chegar ainda cedo, antes do anoitecer. 

Quando foram dormir, já tinham tudo bem preparado para o dia seguinte.

                  04 de julho de 1975

                         Sexta-feira

                    A segunda bomba

Quando Cristina acordou na manhã daquela sexta-feira, dia 04 de julho, sentiu-se invadida por uma inquietude que não lhe era comum. E nenhum sorriso apareceu em seu rosto. O que foi percebido imediatamente por dona Albertina. “Que bicho foi que te mordeu, criatura?” perguntou, logo que a viu entrar na cozinha, encher uma caneca de leite, colocar café e sentar-se à mesa. “Não sei não, tia. Acordei com uma coisa me incomodando. O peito tá apertado” respondeu. “Algum sonho ruim, um pesadelo?” insistiu dona Albertina. “Não, tia. Dormi tão bem que nem senti a noite passar. Tava muito cansada.” Dona Albertina levantou-se da mesa, recolheu as canecas, colocou na pia e perguntou “Algum problema com o Moisés? Brigaram?” Cristina olhou-a dizendo “Não, tia. De jeito nenhum. O Moisés nunca me deu motivos pra brigar com ele. Deus me livre. Sou muito feliz com ele. Graças a Deus.” E concluiu depois de deixar escapar um suspiro “Não sei o que está acontecendo comigo hoje, tia. Acho que estou com um pouco de medo, mas não sei de quê nem por quê”. Dito isto, vagueou o olhar pela sala. Só se pode ser feliz, pensou olhando pela janela para o quintal, enquanto não se sabe que se é feliz. Porque, tão logo a gente se dá conta de que é feliz, começa a ter medo de deixar de ser e, então, com certeza, já não é. Deixou escapar um ligeiro sorriso ao perceber que estava filosofando. Era só o que me faltava, falou baixinho pra sua tia não escutar. Levantou-se e foi trocar de roupa e preparar-se para sair e encontrar-se com as amigas na praça. Esperava estar melhor de espírito quando se reunisse com elas. E melhor ainda quando estivesse de mãos dadas com Moisés.

O Gordo, naquele mesmo momento, encontrava-se a caminho de São Roque, na carroceria de uma camionete que avançava por uma trilha por onde sacolejava violentamente, levantando poeira que ia deixando para trás, cobrindo tudo.

O capim que crescia na beirada da estrada ainda estava molhado do orvalho da manhã e juntava-se à poeira formando uma fina  camada de barro que grudava nas rodas na medida em que a camionete ia passando. O sol começava a esquentar quando, ao fazer uma curva, a paisagem mudou bruscamente. Frente a eles descortinava-se a imensa muralha formada pela Invejada, montanha tão alta que, de onde estavam, nuvens impediam a visão do seu topo. Cenário perfeito para aquela manhã. Todos se deslumbraram. O local era um lugar quente. Provavelmente milhões de anos de sol incrustaram o calor naquelas pedras. As noites lá eram curtas demais para faze-lo diminuir.

De onde estavam, depararam com uma garganta estreita por onde passariam, quando muito, dois a quatro homens de uma vez. Um colosso inexpugnável que dispensava guardas em sua entrada principal, caso houvesse ali alguma guerra. Uma vez lá dentro, bastaria fechar uma das saídas e um possível inimigo ficaria encurralado e emparedado para sempre.

Tiveram que deixar ali a camionete e continuarem a pé, seguindo uma pequena trilha que parecia descer até o centro do vale, que podiam ver lá embaixo. À medida em que desciam, a sombra da Invejada ia aumentando o seu alcance e diminuindo o calor do sol sobre as suas cabeças. E o sol, como um disco sangrento, perdia luminosidade a cada segundo, como se a terra o estivesse engolindo.

Durante a caminhada iam conversando animadamente. Cristovinho falou da vontade que tinha de se formar logo veterinário, faltavam só mais dois anos, para voltar a Mutum e assumir o comando dos negócios do pai. Pensava em expandir as fazendas, eram quatro, duas em Mutum, uma em Aimorés e outra em Ipanema. Seria veterinário apenas dos seus próprios animais. Não pretendia abrir nenhuma clínica. “Só com os meus animais já vou ter trabalho que chega”, disse entressorrindo.

Aduvaldo já cursava o penúltimo ano de engenharia civil e tinha como intenção desenvolver um projeto antigo de criar um condomínio fechado nas terras da sua família, no alto de uma colina do outro lado do rio. “Só casas confortáveis, sem muito luxo para não saírem muito caras”, dizia. De lá poderiam à noite ver quase toda a cidade.

Anatólio não tinha muitas pretensões. Não havia terminado o segundo grau e tivera que ajudar o pai nos açougues, quando este adoecera. Eram três açougues. Todos eram dirigidos pelo seu Zé Maria. Um dia, sem nenhum aviso, sentiu-se mal e precisou afastar-se da direção dos açougues por recomendação médica. Fez com que Anatólio assumisse o comando dos negócios e, para isso, foi preciso que parasse seus estudos. Havia já quatro anos que virara administrador de açougues e açougueiro. Como seu pai não parecia ter mais condições de voltar a ser o cabeça dos negócios, Anatólio não se iludia quando ao seu futuro. “Acho que só me resta guardar um dinheirinho e depois comprar uma casinha no condomínio do Aduvaldo”, dizia sorrindo. “Pelo menos vou poder pegar uma piscininha em casa nos finais de semana”.

Para Moisés, O Gordo, o futuro e a felicidade resumiam-se em apenas um nome: Cristina. Queria casar-se com ela em alguns meses e não queria mais nada. “Se querem mesmo saber o que penso do futuro, eu só posso dizer uma coisa: sou tão feliz com Cristina que tenho até medo de tanta felicidade”, disse aos amigos, quando pararam um pouco para um descanso. Fazia mais de uma hora que estavam caminhando. Meia hora depois reiniciaram a descida.

Não haviam ainda alcançado o fundo do vale quando encontraram a bomba. De longe viram o seu brilho refletido ao sol. Começaram a gritar de alegria e correram morro abaixo, ao seu encontro. Sim, era uma das bombas perdidas. Eles a tinham encontrado de verdade. Mas não tocaram nela. Tinham lido as instruções que tinham sido dadas pelos militares a todos os moradores da cidade. Caso achassem alguma das bombas, não tocassem nela. Deviam assinalar o local e avisar de imediato às autoridades militares, que estavam preparadas para cuidar delas. Deviam lembrar sempre que elas eram perigosas se manuseadas por quem não soubesse como fazer esse manejo.

Terminada a euforia do achado, os amigos resolveram que voltariam ao encontro dos militares para os avisar e que um deles deveria ficar ali, para cuidar que a bomba estivesse em segurança. O Gordo ofereceu-se para ficar. Disse que estava muito mais cansado que todos os outros e que a subida de volta seria mais difícil e demorada se fosse junto. Assim ficaram combinados e assim fizeram.

 Cristovinho, Aduvaldo e Anatólio retornaram trilha acima enquanto Moisés, O Gordo, ajeitou-se em uma pedra perto da bomba e se dispôs a descansar enquanto esperava pela volta dos amigos com os militares. Olhou o relógio e viu que eram quinze para meio-dia.

Passava uns poucos minutos das dezesseis horas quando um comboio militar entrou na cidade, vindo da direção de Lajinha e parando frente ao Hospital, na Praça da Igreja Matriz.

De uma camionete desceram Cristovinho, Aduvaldo e Anatólio, enquanto de uma ambulância militar alguém era retirado por enfermeiros militares e levado rapidamente em uma maca para o interior do Hospital. Enquanto o comboio continuava o seu caminho em direção ao quartel general improvisado no Estádio Municipal, os três amigos explicaram aos presentes o que havia acontecido. Disseram do encontro da bomba que estava sendo levada agora para o quartel em um carro especial, protegida pelo comboio. E falaram de Moisés, O Gordo, encontrado por eles desmaiado ao lado da bomba, quando voltaram com os militares, no pé da Invejada. Tinha tido um enfarte. Estava vivo, mas estava muito mal. Ninguém soube explicar quando acontecera.

Cristina, que estava na praça com suas amigas, logo que soube do acontecido correu como uma louca para o hospital, onde encontrou Moisés, O Gordo, no CTI. À noite, exatamente às vinte horas deu-se o óbito.

Era sexta-feira, dia 04 de julho de 1975 e a segunda bomba havia sido encontrada. Faltavam outras duas.

(Continua na próxima semana)

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