O último pulsar

Schirlei Stock Ramos

O tiro havia atingido o meio do peito. A luz do sol cintilava o vermelho da carne e da sangria que se espalhava pela calçadaescorrendo pela rua e reunindo ainda mais curiosos. No chão, envoltoem sangue ele conseguia ouvir o burburinho das pessoas dizendo:

“bem feito, deixa ele aí”. “Aqui se faz, aqui se paga”. “Bandido, teve o

que mereceu.”

Ali, deitado com os braços estendidos, sofrendo à espera desocorro, o assaltante oscilava entre a vida e a morte, entre o céu eo inferno. Tudo acontecera tão rápido. Da decisão do assalto até a chegada da polícia. A troca de tiros, a adrenalina da fuga e por instantes a certeza de que a fuga era certa, mas foi interrompida pelo estampido, seguido da pressão da bala que lhe atravessou as costas,saindo no peito. Tudo tão rápido e agora aquele lapso temporal, quea alma turva já nem conseguia mensurar.

Os olhos pesados esforçavam-se para focalizar a luz, quem sabe veria um rosto conhecido, alguém para quem pudesse apelar. Mas os olhos pesados mal conseguiam ver o povo que zombava e falava coisas sobre o criminoso. E assim, além da humilhação daquela hemorragia fatal, naquela circunstância vexatória, sabia ainda que tinha que suportar o peso daquele estigma. Era ladrão e carregara esse peso por onde quer que tivesse andado.

Oscilante, sentiu que sua vida estava em declínio. Que as constantes escolhas criminosas ao longo dos anos teria seu tributo e o acerto seria ali, não haveria remissão. Sentia-se cansado, humilhado.

Já não tinha mais ilusões, desvaneceram-se os sonhos e isso já não era de agora, não era consequência daquela situação. A vergonha de estar ali, em condição de miséria humana e o medo do que estaria logo por vir, agora que seu corpo era um ancoradouro de morte o fez querer, por breve, entender como ficou desfigurado e arruinado daquela forma. Como chegou a isto? Como veio acabar assim…. Seu único leito a calçada e como companheiros somente aquelas pessoas que zombavam e julgavam justo seu sofrimento.

Não teria ele sido um dia uma criança para sua mãe?Não teria nunca tido brinquedos infantis?Não teria brincado com o barro, ou corrido nas ruas? No entanto, agora, jazia à beira do abismo, no limiar da vida, com a morte em seu encalço. Era, ali, um flagelo humano em uma calçada suja, onde inerte, desprovia-se de memórias do passado e de esperança para o futuro, restara-lhe apenas a tortura do presente, um pesadelo de enorme terror.

Não sabia mais quem fora, não sabia mais o quanto roubou, ou quantas vezes teria roubado. Não conhecia as pessoas lesadas, tampouco os motivos que o levaram a roubar, sabia apenas que era um ladrão. Conseguia, porém, lembrar-se da expressão de algumas vítimas, do medo expresso nos olhares e o quanto isso lhe foi, por tanto tempo indiferente. Conseguia lembrar-se de algumas mulheres, de quem a dignidade, por vezes, também ele lhes roubara.

Compreendeu em meio à oscilação e ao pensamento débil de quem já agoniza as zombarias e provocações do povo curioso que o cercava.

E mesmo seu coração de ladrão ressentia-se de estar ali, dilacerando-se, de alma faminta. Daria tudo por mudar sua condição.

Veio-lhe à mente, já perturbada pelo pavor do fim iminente, à expressão de sua mãe, que agora lhe parecia de olhar tristonho.

Será que sempre teria sido assim? Enquanto a mente rodava em devaneios, recordou-se também dos poucos anos que ficara na escola.

Sua infância fora por muitas vezes pisoteada e com isso sua parte sensível já morrera antes. Lembrava-se dos dias trocados por noites que nada teriam lhe rendido na vida. Lembrou-se de madrugadas de solidão nas ruas, que não voltou para casa por vergonha e desprezo por sua própria vida. Entre lampejos e lembranças desconexas, agora tinha a certeza de que um dia fora sim criança, fora jovem e que tivera em sua vaga existência momentos em que poderia ter feito outras escolhas. Agora, talvez, tardiamente se dava conta de que tudo sempre fora uma escolha.

Com um último recurso de autonomia humana, tentou mexer o corpo, que imóvel já quase sem utilidade, tentava ainda resguardar a alma que já tentava desprender-se dele. Com o corpo insensível, lembrou-se então de um afago, sabia bem como era, já havia sido acariciado, mesmo sendo um bandido também, um dia gostara de alguém e de coisas que lhe pareciam melhores das que ele havia escolhido para si até agora.

Ao ter consciência de sua condição, lhe custava agora mais dor lembrar-se do passado. Não importava mais a digressão ao ponto de onde teria partido até chegar ali, naquela condição degradante de homem frustrado, ferido, zombado por estranhos, pois sabia que qualquer balanço de sua vida não seria bom. Atrás das barreiras que ele havia criado ao redor do coração, irrompeu uma onda de arrependimento. Queria poder voltar atrás. Daria tudo por refazer a vida, por recobrar as forças de seu corpo já inútil, mas sabia que somente a dor que sentia, ali naquele momento, não seria suficiente para cancelar o débito moral de uma vida inteira desperdiçada.

A tristeza de externalizar todas as suas emoções, ali, sob os olhares dos curiosos, o deixava com uma expressão contorcida de dor, o corpo, porém, era inerte, insensível, anestesiado. Corria-lhe uma lágrima amarga que lhe turvava mais a vista. Desmanchava-se em choro solitário, convulsivo, um choro de quem falhou tão miseravelmente. Nas poças de lágrimas ainda nadavam algumas recordações. Chorava por sua vida. Chorava por si mesmo.

Por um momento, sentiu os lábios ressecados, teve sede e o corpo, antes nulo agora parecia pesado ainda que estivesse estirado no chão. Nessa hora ouviu o barulho da sirene da ambulância que se aproximava. Novamente seus olhos se turvaram. Mais lembranças vieram à tona. Recordara-se de que quando menino gostava de ajudar sua mãe com os afazeres de casa. Porque parou de gostar?

Sente espasmos no peito e estão cada vez mais frequentes, o sangue escorre molhando a sujeira da calçada. A ambulância chega.

– Consegue me ouvir, senhor? Foram as últimas gentis palavras que ele conseguiu ouvir, pronunciadas não por alguém que ele amava, mas por um estranho, ainda que solidário, um estranho do qual suas vistas já não podiam enxergar. Queria responder, mas a força lhe faltava e as palavras não rompiam a inércia dos lábios pálidos.

Sentiu o corpo ser arrastado, por entre as pessoas que assistiam a cena. Queria abrir os olhos ver a luz do mundo, tentou respirar profundamente, mais uma vez, mas seu corpo já não lhe respondia, e a luz derradeiramente se apagava.

As pessoas que ali estavam nada sabiam acerca daquele criminoso. Não sabiam quantos crimes ou a carga de culpa levava consigo. Era um criminoso como tantos. O ladrão, mesmo quando os olhos já estavam esmorecidos pelo horizonte febril de morte, apenas sabia de si, que era um filho obstinado, cuja mãe teria o coração partido e cujo pai há muito já teria perdido as esperanças nele depositadas. E antes que seu coração desse o último pulsar quis ainda resgatar na essência de seu caráter, ideais de amor e justiça, ensinados em algum momento de sua jornada desastrosa.

Quando a ambulância partiu, os curiosos começaram a se dispersar e a rua, aos poucos, foi ganhando ares de normalidade. Um homem que trabalhava em frente à calçada, jogou um balde d’água no sangue ainda morno, dissipando vestígios de qualquer agonia ou dilaceração. Enquanto a água lavava a calçada, tornando a rua novamente um cenário tranquilo, no ar ainda pairava uma sensação de que para aquele homem, ali, naquele momento, pilares de amor e justiça projetavam-se abstratos entre o céu e a terra, um lugar onde fatalmente toda a humanidade será, um dia, confrontada.

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