O décimo terceiro cigarro






Rayane Clícia Ataíde
 
Peguei mais um cigarro na carteira esfumaçada. Era o meu décimo segundo daquela noite. Saboreava cada tragada com a leveza de minha insana juventude.
Meu celular vibrava de vez em quando anunciando uma chamada continuamente rejeitada aquela noite. A mesinha de centro da sala estava cheia de cinzas de cigarro e de um pouco de vinho que derramei.
Ouvia músicas que tilintavam na minha cabeça misturadas a lembranças ininterruptas. Tentei formar letras com a fumaça do cigarro como a lagarta de Alice, mas apenas via formas indefinidas que saíam pela janela de onde vinha o vento frio do inverno.
Nevava. E eu estava vestida apenas com um moletom velho e uma calça de algodão. Todavia, me sentia segura com o frio, como se absolutamente nada me pudesse atingir naquele momento.
Minha taça de vinho trazia uma marca de batom. Nem parecia que há poucos minutos eu teria ido a uma festa não fosse a imensa vontade de me jogar do oitavo andar do meu prédio.
Levantei-me do sofá e fui à geladeira. Peguei um pote de sorvete que o Pedro havia deixado lá pela manhã ciente de que eu odeio sorvete. Peguei uma colher e liguei a TV onde estavam passando programas baratos e sem sentido algum. Tomei quase todo o sorvete a colheradas lentas e irrisórias.
O celular não parava de tocar, o que me irritava. Deixei o pote de sorvete semivazio na mesinha e peguei o celular, não sem antes pegar meu décimo terceiro cigarro e acendê-lo com o isqueiro dourado.
Caminhei a passos nus até a sacada do prédio e fiquei olhando o movimento da rua. Poucos carros passavam por lá, afinal, já passava das três da manhã.
Tirei o moletom lentamente e a calça de algodão também.
Toquei meus seios por cima do sutiã sentindo arrepios a cada curva. Tirei-o. E por último a calcinha cor de vinho. Vi-me completamente desnuda na sacada do prédio. Apenas com um celular na mão direita e o décimo terceiro cigarro na esquerda.
Não sei se alguém me viu. Mas isso nem importava, afinal, eu morreria agora.
Acabei de fumar o último cigarro da minha vida e larguei o celular no chão da sacada. Ele já não tocava mais. Desistiram de mim, afinal.
Debrucei-me sobre a sacada e fiquei sentindo o extremo frio em meus ossos frágeis. Eu só sentia aquela fragilidade humana barata.
Eu era uma Verônika de Paulo Coelho, por isso me joguei do prédio.
 

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