O pássaro amarelo


Ives de Oliveira Souza Júnior
Dia apressado era o meu. Acordar cedo. Levar as meninas para a aula. E depois a esposa ao emprego. E por fim chegava eu no trabalho. Ofício difícil e estressante. O sinal do relógio avisando o meio-dia era minha redenção. Saí do prédio da Receita com muita agilidade. Naquele dia, optei por não ir almoçar com os colegas.
Queria me sentir só. Fui àquele restaurante à margem do rio. Distante do centro da cidade, famoso pela badalação nos finais de semana, mas sempre ermo em dias produtivos. Sentei numa mesa bem ao lado do parapeito, para ter uma visão ampla e limpa da paisagem.
Pedi uma moqueca de peixe. Comi e me satisfiz. Ordenei ao garçom que me trouxesse a conta. No mesmo momento em que ele entrou na cozinha, um rapaz que ocupava a única mesa além da minha, levantou-se e foi embora. Sem companhia, instantaneamente, me senti encolher naquele espaço que era tão pequeno, mas que pra mim era tão grande. Olhei para um esteio ao meu lado. Percebi um pássaro pousado. Um lindo pássaro amarelo. Tinha uma crista, um bico longo, e suas asas eram rajadas em preto e branco. Nunca havia visto aquela espécie, eu, um curioso na observação de aves. Fiquei a contemplá-lo.
Ele, como que sentindo que alguém o olhava, retribuiu, fitando-me nos olhos. Assustei-me com a atitude dele. Instantes se passaram.
Os dois ali, parados, apenas trocando olhares. Olhares penetrantes.
Uma impressão. Eu já conheço essa ave. Uma sensação. Essa ave me conhece. Um casamento místico através de olhos. Senti um profundo prazer dentro de mim. E sei que o pássaro também sentiu. O garçom chegou. O passarinho voou. Meio entristecido, deixei o cheque sobre a mesa, e fui direto para o carro. Não conseguia tirar da cabeça a
imagem do pássaro e seu amarelo vibrante. A mente fervilhando em ideias. Cogitei a possibilidade de passar a tarde toda lá, de voltar nos próximos dias, de me hospedar no hotel ao lado do restaurante. Num repente lembrei que tinha de buscar minha mulher no trabalho. Um choque no parabrisa dianteiro. Abri a janela. O corpo do pássaro amarelo caído no chão.

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