O andante

Adelaide Maria Assunçaõ de Miranda

Quem é este homem que passa cantando alto pelos corredores da universidade uma estranha música “Fuzila-se um cabano, o senhor de toda a terra…”? Que história viveu para que, sem qualquer timidez, invada ouvidos alhures, com uma música tão insólita? Onde estarão seus sonhos, aprisionados em correntes, ou nos lábios de uma meretriz? Ou será um louco sem razão alguma para sonhar sonhos novos, vivendo apenas os sonhos velhos e para eles?

Ele anda rapidamente arrastando seu chinelo de dedo, com o vento levando sua calça pelos tornozelos, como se o vento fosse uma força contrária tentando impedi-lo de seguir adiante, teimando em desgrenhar ainda mais seu emaranhado cabelo. Mas sua música o ajuda a lutar contra seu adversário: o vento. A música (quase um lamento) é sua companheira de luta e, sua voz de barítono, sua espada desembainhada. Também carrega uma sacola de pano a tiracolo, com a mão esquerda segurando a alça ao ombro, como se ali carregasse um tesouro precioso, ou como se a sacola desbotada comportasse sua existência, tal o cuidado.

Quem é este afinal? Terá um destino, um porto seguro? Alguém o aguarda com um caldo quente para agarrados tomarem juntos, ou não terá ninguém? Quiçá seja um líder revolucionário onde, numa roda de vanguarda, grita (ou canta) palavras de ordem, a favor de desterrados? Então o grupo seria sua família e, juntos, saboreariam boias frias, biritas e sonhos, até a chegada da polícia com seus rifles, seus cassetetes, suas botas duras e seus magros salários.

Parece ser vergonhoso falar com ele. Ninguém se atreve. Ele sabe disso. E gosta. É sua forma de agredir. De chocar. Logo adiante está o rio cinzento. Em suas águas reflete um sol

redondo e, na calçadinha do arrimo, está um menino vendendo ovos brancos, cintilantes. Ali sentadinho ele grita, “Ovos quentes, cozidos, para vender, quem quer? Ovos quentes, cozidos, para vender, quem quer?”, como uma entediante musiquinha. Uma estudante que por ali passa até o olha, mas não o vê. Ele está ali desamparado, sem Conselho Tutelar, sem juiz, sem ninguém. Então para um pouquinho de gritar e degusta um ovo. Em casa, sua mãe aguarda. Não o menino, mas o dinheiro que ele trará. Em casa, não tem um caldo quente, para que no colo da mãe, tomem juntos. Em casa, só tem um padrasto que bebe os ovos vendidos.

Entrementes, o homem solitário caminha, sem imaginar que pelo menos uma pessoa o olha e o vê: o menino vendedor de ovos. Repentinamente ele corre até o menino, na beira do rio, toma a bandeja de suas mãos e, repousando-a no chão, procura em seus bolsos todo o dinheiro que possui para entregar ao garoto. Dois pares de olhos se fitam. Talvez seja esse o único momento desse dia em que ambos olharam e viram os olhos de alguém. Foi um olhar verdadeiro.

O menino pôs o dinheiro no bolso e saiu correndo imitando galope.

Os ovos foram jogados para cachorros famintos adiante.

Quem é este que, de tão magro, decreta guerra ao vento? De onde tirou o dinheiro para os ovos, para depois entregá-los aos cães? Quem é este que, não conformado, seguiu o pequeno vendedor de ovos e não pôde evitar quando, de tão feliz, o menino se meteu na frente de um ônibus?

Era um dia ensolarado e, no asfalto, jazia uma criança, diante de flashes, câmeras de televisão e olhares curiosos. Até que todos cansaram e foram embora, ficando somente um homem com uma sacola a tiracolo de onde retirou um trapo que cobriu a cabeça de onde escorria massa encefálica. A seu lado, velando, estava um cão sarnento.

“Chegou a ambulância!”, um moleque veio anunciar sem necessidade alguma, pois a sirene soava. Sem necessidade alguma, pois o que restou do vendedor de ovos se resumiu a um corpo com cabeça desfigurada. Um corpo que vestia um shortinho imundo com uns trocados no bolso.

Quem é este por cujo rosto escorre um rio de lágrimas incontidas? E ainda alguém da ambulância lhe pergunta: “Você era o pai dele?”. Ele nada respondeu. Ele se recusou a responder, pois qualquer resposta não mudaria absolutamente nada.

Então chegou o pai torto com a mãe fazendo alarde. “Meu Filho! Meu filho!”, ela gritava. Não era um grito de dor. Era um grito de culpa, quase vergonha. Era um grito que insultava o homem que chorava.

Ele virou as costas e foi embora. Foi chorar em outra freguesia.

Quem é este homem que passa cantando pelos corredores da universidade uma estranha música? Quem encontrará seus olhos? Quem entenderá suas lágrimas? Para quem mais servirá os trapos que carrega em sua encardida sacola?

Não podia ser como ele queria: em cada canto, um lar, em cada lar, uma alegria. Ele não tinha canto, nem lar, tampouco alegria, e fazia do som de cada momento, um lamento. Todavia ele nunca esquecerá o som daquele dia.

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