O amanhecer de um dia qualquer

Airton Souza de Oliveira

Desperto, nessa manhã sórdida, a calçada fria, ao relento, me assusta. Sei que são horas quaisquer, mas a exatidão delas me faltam. Confesso que não são apenas as exatidões dos tempos que se ausentam de mim mesmo. A inocência não me agrada, porque os sonhos partiram desesperados em revoadas. Então acordo, com o pensamento cambaleante. O estômago, vazio, reclama e declama sempre a mesma ausência. O hálito ardido e asqueroso traz repugnância para o corpo todo. Os olhos sujos pedem em silêncio, água para poder continuar abertos, enquanto as pupilas vão encolhendo na claridade do dia que cai levemente sobre a cidade totalmente por mim desconhecida.

Para falar a verdade, conheço pouco esse espaço que me acolhe e parece consumir-me feliz todos os dias. Então, resolvo levantar e buscar o que o estômago quer e deseja freneticamente. Mas, o corpo esquelético, resolve não obedecer ao pensamento. Então, sento no chão frio que disfarçou descanso em mim na noite passada e sem

volta.

Vislumbrando a área que cerca o espaço, posso ver ao meu redor, casas, portas e janelas fechadas, silêncio. As almas que habitam em cada uma delas parecem dormir sonolentas e sem compromisso.

No céu, o sol tímido surge calado e sem força.

Levanto, porque é preciso. O meu compromisso é com a fome que aperta o corpo e com mais este dia em que desejo sobreviver. Contudo, já tenho um caminho certo a percorrer, pois tem sido assim sempre. O meu destino são as lixeiras da rua do lado esquerdo a que estou dormindo nesses últimos dias. Seu nome, eu não sei. Mas, o aspecto dela me parece familiar. Cada calçada, cada buraco, cor e cada alma que por ali perambulam, são como meus antigos parentes.

Em minha viagem, passadas lentas e calculadas, olhar atento a todos os movimentos. É preciso ter cautela sempre.

Outro dia, passando por uns homens em conversa cotidiana, ouvir falar sobre o tal capitalismo. E agora, observando todas essas casas, imagino, ser isso, o que eles chamam de capitalismo. Ou quem sabe não é o lixo que me alimenta todos os dias? Não sei! Deve ser os dois. As casas bem ornamentadas e o lixo fora delas. Posso até admirar as casas e seus ornamentos, mas, o mais importante para mim é o lixo que elas produzem dia após dia.

Prossigo em minha caminhada, é preciso. O estômago aperta o desejo e da-me socos, na moleira esperançosa.

Cabisbaixo, mas, com o olhar atento, vou seguindo viagem como um andarilho bem sucedido, disfarço os meus trajes sujos e fedorentos, é necessário, pois, não há dor maior a sentir que aqueles olhares condenativos a me dizerem coisas e mais coisas em seus pensamentos, as quais os olhos não conseguem fingir.

Percorro poucos metros, já posso sentir aquele cheiro natural do lixo e também do resto de comida de quem sabe, da noite anterior. Posso sentir eles me chamarem em uma voz suave.

Alcanço a lixeira que de fato é bem ampla. Então, enfio a cabeça dentro dela e vou recolhendo as migalhas que serviram para mim e para os pombos que já estão há horas voando nas proximidades.

Sento na calçada e reparto o pão sem o vinho. O cheiro é bom. É um despedaçado fragmento de pizza, resto de arroz e feijão, pedaços das mais variadas frutas, um negócio estranho a que não me arrisco nomear e ainda uma variedade imensa de restos de comidas

que fizeram a felicidade de outros homens no dia anterior, para mim, um verdadeiro banquete grego.

A vida não é toda ruim assim, e vou me divertindo, comendo para sobreviver e alimentando os pombos que pousam perto de mim.

Penso no tal capitalismo do qual já ouvir falar um dia desses o qual não me recordo exatamente. Então, dever ser isso o capitalismo, eu comendo restos e os pombos mariscando migalhas dos restos.

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