Na subida de um novo degrau




Na subida de um novo degrau
Jamilly Queiroz Vianna
Acordar naquela manhã não foi difícil. Algo novo estava começando.
Uma nova rotina, eu poderia dizer. Mas para os sonhadores como eu, uma nova jornada. Já estava tudo pronto, atrasos logo no primeiro dia são inadmissíveis. Saí de casa no horário previsto para que ônibus, trânsito e outros possíveis fatores não me retardassem.
Estava confiante. A cada passo, dado com vontade, meu pensamento não saía da órbita positiva. “Vai dar tudo certo”, era o que eu pensava, “não vou fazer nenhuma besteira”. Quando menos espero, uma pedra, como dizem todas as línguas, “cortou meu barato”.
Tropecei tão feio que eu mesma ri da situação. Creio que o dia, o destino e a situação tão só me permitiam rir naquele momento, já que nenhum sinal de tristeza ou de má sorte se aproximaria de mim naquele dia.
Já no ônibus – sempre no ônibus – minha mente começou a voar. Imaginei os ternos e os termos. Os saltos finos e os assassinos. A retórica e a lírica. Tudo nesse mundo me atraía. Será que ver esse mundo por sua outra ótica me faria amá-lo ainda mais ou me faria
pessimista? Meu intuito era olhar de perto. Ver e ouvir, mas acima de tudo, sentir e compreender. Afinal, uma decisão fora tomada, porém, como em toda juventude e ingenuidade, toda a abrangência dela me escapavam completamente.
O local era… diferente. Um diferente fora da rotina, um diferente novo e chamativo para olhos tão curiosos quanto os meus. As cores eram extremamente neutras em toda sua imensidão. Tudo seguia um padrão. Imparcialidade. Normalmente aquilo me incomodaria, já que acredito que o local reflete seus habitantes. Não importa se há beleza ou não em um cômodo, de certo modo, ele é uma impressão digital gigante de seu dono, diz muitas coisas sobre quem vive ali. Incrível e surpreendentemente, toda aquela neutralidade me pareceu perfeitamente adequada.
As pessoas, o que realmente importava, eram simplesmente pessoas. Cada uma com sua forma, fala e personalidade. A alegre e extrovertida, o sério e imponente, o inseguro e jovem. É engraçado que, falando desse modo, são pessoas que conhecemos e convivemos
diariamente, mas não. Cada um é tão único em si mesmo que é difícil descrever com exatidão, logo, as qualidades que nos são genéricas são mais fáceis para cumprir essa tarefa.
O primeiro dia. A parte mais difícil, juntamente com as outras 2 semanas seguintes. Como fazer? O que fazer? Por quê? Com licença. Por favor. Obrigada. Socorro. Errei? Perdão. Agora está melhor. Entendeu? Boa tarde. Até amanhã. Quando menos percebi, estava passando do meu horário.
Pensei, dizem que quando fazemos algo que gostamos o tempo passa muito rápido. Concluí, é… mesmo não sabendo muita coisa ainda, devo ter gostado do serviço. Mesmo que eu demore dez minutos pensando numa frase, são dez minutos de prazer. Prazer de aprender,
de descobrir os porquês.
Saí de lá direto para a universidade. Finalmente minha escolha estava se apresentando a mim em toda sua intimidade. No início, eu apenas a conhecia por fora, poderia dizer que minha escolha era apenas uma colega. Agora não. De repente ela aparecia com os segredos mais obscuros, com umas conversas interessantes e com uns macetes para lá de úteis. A amizade entre nós se formava. E isso me estimulava de uma maneira absurda.
Queria saber de tudo. O quê, para quê e por onde. Sabe quando somos tomados por aquela sensação de preenchimento, mas não conseguimos controlá-la porque o que irá nos preencher não cabe (ainda) dentro de nós? Sabe quando nos deparamos com algo e nos sentimos muito pequenos e angustiados? Foi nesse momento.
Enxerguei toda a amplitude de minha escolha. E foi divino. E foi tão certo. Eu havia tomado a decisão certa. Mesmo com todas as pessoas, mesmo com toda a vastidão do conhecimento, mesmo com o cansaço, mesmo com as noites mal dormidas e com a eterna vontade de permanecer na cama nas manhãs de chuva, aquilo me preenchia.
Eu estava no caminho certo, pensei, na caminhada até minha sala de aula. Estava tudo bem. Aquele degrau seria um dos mais difíceis, um dos mais demorados e um dos quais eu jamais esqueceria. Engraçado. Não há sensação melhor que aquela quando se olha para trás e vê todos os degraus já subidos. Alguns pensam “não eram mais que minha obrigação”, outros choram, outros sorriem. Eu apenas dou aquele sorrisinho de canto de boca de cinema e me
sinto grata.
Costumo dizer a mim mesma que “depois da tempestade vem a bonança”. Por mais que, em uma primeira impressão essa tempestade tenha uma cara de má, eu até que estou gostando dela. Ela me refresca, seja com água ou com ventania, ela me conforta, seja com o friozinho ou com o som de suas gotas, ela torna meu dia mais bonito, seja com as gotas de orvalho ou com o azul intenso do céu.
Quero poder chegar no topo dessa escadaria e dizer que valeu a pena. Não importa o quão cansada eu esteja. Tem que valer a pena. Senão, de que adianta? Objetivos, sonhos, chamem como quiserem, uma hora ele aparece e buscá-lo é essencial, é aquele preenchimento,
lembram? Ah… Tenho prova amanhã, hora de dar mais uma lida no texto de mil páginas. Boa tarde!

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