MINHA IRMÃ VIROU UM ÁTOMO

MINHA IRMÃ VIROU UM ÁTOMO


Bárbara da Fonseca Palha
 
Alice foi acordada numa hora incomum: às 6 da manhã, pela mãe, que aos berros lhe perguntava por Beatriz, sua irmã, que misteriosamente desaparecera em plena madrugada. Ainda um pouco atordoada, Alice respondeu que quando foi se deitar, sua irmã Beatriz já estava dormindo, até estranhou, pois a mesma costumava dormir altas horas da madrugada e ainda eram 10 horas da noite.
Mesmo assim não se importou muito e tratou de ir dormir.
Enquanto dona Luiza tratava de ligar para as amigas de Beatriz, para os hospitais e até para o necrotério, Alice voltou para a cama, para tentar dormir novamente, em vão… um sono perdido nunca mais pode ser recuperado. Alice havia escutado ou lido essa frase em algum lugar e apesar de não recordar onde, a carregava consigo como uma verdade absoluta e agora comprovava a veracidade do fato!
Aconchegada entre os lençóis, começou a pensar no que poderia ter acontecido com a irmã, e então os devaneios começaram.
Foi abduzida, é claro! Afirmou enfaticamente. Numa época em que as explicações racionais não mais satisfaziam ás perguntas mais inquietantes, uma explicação sobrenatural solucionava o caso.
Mas por que levariam Beatriz?, questionou-se Alice, e a deixariam lá, sã e salva?! Questionou-se mais uma vez: será que sou assim tão desinteressante? Tudo bem que estava sem namorado há uns três anos, mas ser rejeitada por E.T’s seria o cúmulo da solteirice!
Já sei! afirmou Alice, minha irmã virou um átomo! E poderia estar em qualquer lugar do quarto. Agora era preciso ter cuidado por onde pisar, deitar ou sentar. Será que uma lupa ajudaria a encontrá-la?, pensou. Em todo caso, tratou de procurar na gaveta das quinquilharias. Não achava a ideia estranha, afinal já havia assistido a um filme em preto e branco, há algum tempo atrás, em que o personagem principal, após passar por uma nuvem de radiação enquanto velejava, foi gradativamente diminuindo de tamanho, até que finalmente virou um átomo. Bem que Alice estava estranhando que Beatriz ultimamente estava menor que ela, ou era por causa dos saltos plataformas que havia abandonado?, pensou, e continuou procurando por cada milímetro do quarto.
Deixando de lado todas as hipóteses que explicariam o sumiço da irmã começou a achar a ideia boa, afinal desde criança dividia o quarto com ela e agora aos 21 anos de idade precisava de um espaço só seu. Esqueceu a heroica batalha em busca do átomo perdido e
passou a redecorar o quarto. Começou, retirando das prateleiras da irmã todos aqueles objetos místicos que só faziam acumular poeira: pirâmides, cristais, porta-incenso. Ah! Incensos, não os suportava, irritavam o seu nariz, mas o que podia fazer?, Beatriz gostava, os tinha aos montes e para todos os objetivos: dinheiro, sorte, harmonizar ambientes, sucesso, amor… Hum amor, esse não jogou fora, não custava tentar, pensou.
Até o guarda-roupas tinham que dividir. Era um daqueles de casal com 6 portas, dividido “irmãmente”: de um lado ficavam as roupas e sapatos de Beatriz e do outro lado suas coisas. Não entendia porque teve que ficar com o lado que não tinha gavetas, somente duas prateleiras, suas roupas íntimas ficavam lá, expostas, fora de uma gaveta decente. Uma vez até ligou para o serviço de atendimento ao cliente para reclamar da ausência das gavetas do seu lado do guarda-roupa e sugeriu que fizessem um novo modelo que contivesse o mesmo número de gavetas para os dois lados. Quanta bobagem!
Mas, deixando de lado os ressentimentos, começou a separar as roupas e os sapatos. Como usavam o mesmo número, pensou que poderia ficar com os sapatos, já que já dividiam o guarda-roupa, poderiam dividir também as roupas, os sapatos, aquele vestido lindo da Redley que Beatriz havia comprado fazia uma semana, enfim…
Beatriz não se importaria, era muito evoluída para esses assuntos, era espírita. Algumas blusas que não gostava separou para doação, puro altruísmo, herança deixada pelos exemplos da irmã. Os sapatos não, os quis todos, afinal estava precisando, os seus estavam muito gastos.
A outra cama pensou em doar também, mas pensando bem e voltando atrás, achou melhor deixá-la no mesmo lugar, podia servir como cama de hóspedes, afinal suas amigas costumavam sempre dormir lá sempre que voltavam das baladas. Se antes dormiam no
colchão rente ao chão, dormiriam agora numa cama de verdade.
Separa blusa para doar, joga sapato velho fora, encaixota pirâmide do sucesso, cristal da felicidade, incenso que atrai dinheiro, sino de vento que fazia blim blim, isso sempre a assustava… Quando de repente ouve uma voz: “O que é isso, alguém tá de mudança?”. Era
ela própria, Beatriz, ali em pé em carne e osso e um semblante meio reprovador, de como quem quer saber por que suas roupas estavam num saco de supermercado, porque seus excêntricos objetos místicos estavam numa caixa, enfim… Alice não poderia dizer: “é você quem está de mudança e estou separando para doação tudo que não gosto e não posso ficar”. Correu para abraçar a irmã como se não a visse há umas… 8 horas e pensou como realmente pôde acreditar que a irmã havia se reduzido a um átomo.

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