OPERAÇÃO MUTUM – A PRIMEIRA BOMBA

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(Episódio 23)

A PRIMEIRA BOMBA

Devia ser umas onze horas e eu ainda não havia conversado com ninguém da cidade sobre as bombas. O encontro com Alice tinha mexido com minhas idéias, tirado o meu foco, me distraído. Preciso fazer alguma coisa, pensei. Foi naquele momento em que me decidi por sair e começar a conversar com alguém, que ouvi vozes alteradas. Fui até a porta do bar e vi algumas pessoas agitadas, correndo na direção da Praça da Igreja Matriz. Minha curiosidade levou-me até lá onde me deparei com um caminhão militar coberto por uma lona, cercado de soldados armados que impediam o acesso ao veículo. Quando perguntei o que acontecia informaram-me de que haviam encontrado a primeira bomba e que ela estava dentro daquele caminhão.

 Seria levada para o quartel general, no Estádio, onde ficaria guardada esperando pelas outras, assim que fossem encontradas. Segundo as informações deixadas vazar pelos militares, seria permitido que fosse vista, fotografada e filmada mais tarde, pelo comando geral da operação militar. Lá também seriam prestadas, naquela noite, mais informações sobre tudo o que acontecera até aquele momento.

Pelo resto daquela tarde o meu tempo foi todo direcionado ao que aconteceria à noite, no comando geral da operação de busca às bombas, quando seriam prestados os esclarecimentos que todos queríamos ter.

 A cidade ficou como que virada pelo avesso. Havia, nas ruas, uma agitação incomum. Pessoas iam e viam em todas as direções. Grupinhos se formavam e se dissolviam com a mesma rapidez. Veículos de imprensa se posicionavam de forma a cobrir com suas câmeras e microfones os melhores espaços na Praça Benedito Valadares e nas imediações do Quartel General do Comando Militar, no Estádio Municipal. Eu havia deixado de lado a idéia de conversar com os moradores. Achava melhor esperar pelos acontecimentos que viriam a partir das notícias que nos seriam dadas de forma oficial.

Naquela noite fomos então informados que as bombas deixadas cair sobre Mutum eram do tipo incendiárias. A que nos foi mostrada era uma BINC 200. Sua composição incendiária era o Napalm B, estocável. Segundo foi informado, eram quatro as bombas lançadas sobre Mutum. Uma já havia sido localizada. Restavam ainda três para serem encontradas.

A BINC 200 é uma bomba incendiária projetada para ser utilizada por aeronaves de alto desempenho. No caso de Mutum, um Bombardeiro B-26.

Construída em aço, possui áreas reforçadas capazes de suportar os esforços desenvolvidos durante o vôo. O seu tanque é hermeticamente fechado, o que possibilita o uso de composições incendiárias estocáveis.

Em geral é empregada contra alvos incendiáveis, tais como depósitos de combustíveis, munições e cereais; pátios de estacionamento de aeronaves, etc. Pode também ser empregada contra tropas, caracterizando-se dessa forma como arma antipessoal.

Esses dispositivos incendiários já tinham sido empregados pela FAB cinco anos antes, quando da realização da “Operação Registro” desenvolvida no Vale da Ribeira, em São Paulo, em 1970. Foi a maior mobilização da história do II Exército, quando foram empregados 2954 (dois mil novecentos e cinqüenta e quatro) homens, compostos por membros do Centro de Informações do Exército, regimentos de infantaria e pára-quedistas das forças especiais, policiais da Policia Militar e Rodoviária de São Paulo, DOPs, além da Marinha, com a missão de vasculhar e capturar 9 (nove) integrantes da organização VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) comandados pelo ex Capitão do Exército Carlos Lamarca, que havia instalado naquela região dois centros de treinamento de guerrilha.

A FAB participou ativamente da “Operação Registro” através da 1ª Força Aerotática, comandada pelo Brigadeiro Hipólito e empregando 4 helicópteros e 4 aviões T – 26, além de aviões Bombardeiros B -26.

Durante a “Operação Registro” no Vale da Ribeira foram lançadas pela FAB na região bombas incendiárias de Napalm, do tipo BINC 200. Iguais as que foram deixadas cair por acidente, em Mutum.

Com a intenção de obter informações sobre como tinha sido o achado da primeira BINC 200, dirigi-me ao Hotel Pálace, que hospedava a maioria dos membros da imprensa que tinham acorrido a Mutum, para a cobertura do caso. Lá inteirei-me então de como tudo acontecera.

A primeira bomba tinha sido encontrada por um sitiante chamado Beniamino.

(Continua na próxima semana)

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