operação mutum – a companheira duarte

(Episódio 22)

  A COMPANHEIRA DUARTE

Ainda sorria, lembrando o que havia aprontado em meus oitos anos, quando sai da casa dos meus avós, na  praça Benedito Valadares, e me dirigi ao Bar do Paulo, que como diziam, nunca fechava, para fazer o primeiro lanche do dia. Dei uma olhada para cima. A escuridão da noite perdia a sua força. Quando a madrugada vai chegando, os cantos do céu começam a clarear. Começava um novo dia.

Resolvi que não iria acompanhar as tropas nas buscas que seriam feitas naquela manhã.  Procuraria me informar de tudo o que tivesse acontecido na serra, mais tarde, conversando com os militares e com os jornalistas que tivessem ido acompanhá-los lá. Primeiro, queria ouvir de alguns moradores o que pensavam sobre tudo o que estava acontecendo. Os melhores momentos dessa história podem estar aqui mesmo, na cidade, e não onde as bombas caíram, eu pensava.

Ao deixar o Bar do Paulo eu não tinha ainda traçado nenhum plano de ação, nem escolhido alguma pessoa em especial com quem iria iniciar minhas conversas. Foi quando avistei, vindo em minha direção, a Alice. “Ora, ora, ora”, pensei. Há muito tempo eu não via a Alice.

Percebi que ela me também me reconhecera. “Meu Deus, eu lhe disse. Há quanto tempo. Nem posso acreditar. O que está fazendo aqui? De onde saiu? Não mudou, nada!” Ela abriu no rosto um sorrisão e me disse que estava visitando alguns parentes, que ainda morava em Belo Horizonte, que tinha casado e se separado pouco tempo depois e que tinha uma escola infantil no bairro onde morava. Perguntou o que eu também estava fazendo em Mutum e eu lhe falei sobre as bombas e que, estando em férias, havia resolvido ir até lá e acompanhar os acontecimentos. Ela então dirigiu-me   um sorriso e me disse que de vez em quando tinha notícias minhas, que sempre que tinha oportunidade perguntava por mim, a alguém. Sabia que eu era jornalista e professor. Perguntou-me porque eu nunca mais a procurara. Eu fiquei meio sem jeito, sem saber o que responder. Então, ela me disse me, olhando nos olhos “Acho que sei por quê. Deve ser por que pensou que eu virei uma burguesa reacionária” e deu uma risada gostosa enquanto eu tentava dizer que não era verdade, que eu nunca iria pensar uma coisa assim dela, e a verdade é que eu ficava era sem jeito de procurá-la. Ela me disse que estava só brincando, mas eu percebi que o que queria mesmo era me fazer recordar a última vez em que nos vimos. Antes que eu dissesse mais alguma coisa ela me fez prometer que iria vê-la depois, deu-me um beijinho no rosto e me deixou lá, na praça, envolvido em lembranças.

Alice era minha amiga já de muitos anos. Havíamos crescido praticamente juntos, nos vendo todos os dias e frequentávamos um a casa do outro com toda a liberdade possível. Na escola, sentávamos um perto do outro e, sempre que possível, fazíamos juntos os trabalhos que eram dados pelos professores. Éramos como unha e carne.

De tanto ficarmos juntos, era natural que algumas pessoas maliciosas imaginassem que tivéssemos, além da nossa amizade, algum outro tipo de envolvimento. Um relacionamento amoroso secreto. O que jamais havia passado nem pela minha cabeça nem pela cabeça de Alice. Nunca nos havíamos visto, um ao outro, como homem e mulher. Éramos amigos e só amigos. Éramos, por assim dizer, assexuados em relação ao nosso modo de conviver.

Ainda meio atordoado pelo encontro, voltei para o Bar do Paulo. Como a Alice podia pensar que eu tinha pensado que ela tinha virado uma burguesa reacionária? Eu, na verdade, tinha pensado nela muitas vezes em Belo Horizonte. Tinha até perguntado por ela a alguns amigos e algumas amigas. Tinha tido noticias de que ela havia se casado. Sabia até em que bairro ela morava. Sabia que tinha uma escolinha infantil. Era no Pirajá. Eu até já tinha ido lá no Pirajá jogar futebol pelo Ideal, do Bairro da Graça. Só não tinha procurado a Alice porque achava que ela não ira querer me encontrar. Principalmente depois do que a gente tinha feito juntos. Mas que merda, eu nunca ia pensar que ela tivesse virado reacionária. Só porque tinha casado e constituído família? Eu tinha certeza de que ela não teria mudado o seu modo de pensar sobre política, só por ter se casado. A Alice que eu conhecia há tanto tampo não iria mudar o modo de pensar sobre o governo militar por nada nesse mundo. Nem se fosse presa e torturada, eu pensava. Nem nunca viraria uma burguesa. Ainda mais reacionária. No fundo, no fundo, eu gostava mesmo da Alice.

Agora, ela estava ali, de novo em Mutum, onde eu também estava. E esperava que eu a procurasse. É claro que vou procurá-la, resolvi naquele momento. É claro que vou, pensei enquanto deixava as lembranças tomarem conta de mim. Sem nenhum esforço dei um mergulho direto ao passado.

Em uma noite estava jogando ping-pong na sala de jogos da faculdade quando ouvi alguém me chamando. Virei-me e dei de cara com a Alice. Dei um golpe errado na bolinha que morreu na rede. Deixei a raquete na mesa para o próximo jogador, que teria o direito de assumir o meu lugar, indo  ao seu encontro.

Disse-me que fora até ali, na faculdade, encontrar-se como o Elias e uns outros amigos e que, de lá, iriam fazer umas pichações e pregar uns cartazes lá em Santa Tereza e na Floresta. Como sabia que eu deveria estar na faculdade, tinha pensado que em me perguntar se não queria ir também com eles. Eu disse que sim e saímos juntos da faculdade com o Elias, o Márcio, a Vera e a Margarida. Combinamos que, se por algum acaso fôssemos parados por alguma patrulha ou barreira policial, teríamos que ter o cuidado de não demonstrarmos que estávamos em grupo. Cada um teria de se virar sozinho para não complicar os demais.

Quando estávamos começando a atravessar o Viaduto de Santa Tereza o troleibus em que estávamos, que fazia a linha Santo Antônio/Floresta, foi parado em uma barreira policial reforçada por uma Rádio Patrulha. Antes que os policiais entrassem no troleibus, puxei Alice para o meu banco e nos abraçamos como se fôssemos namorados. Os policiais começaram a pedir os documentos a todos os passageiros, fazendo descer alguns que não os traziam consigo. Quando perguntaram o que nós fazíamos ali, respondi que estava voltando da faculdade e indo para casa junto com a namorada, que iria dormir lá. Examinaram os nossos documentos, um deles fez uma piadinha sobre namorados que dormiam juntos e nos deixaram em paz. Quando o troleibus voltou a andar, seguindo o seu caminho, lá embaixo, dentro do Rio Arrudas, um pacote de material contendo propagando contra o governo flutuava. Por muito pouco a Alice não tinha conseguido jogar tudo pela janela, o que a teria deixado em apuros muito sérios.

Nessa noite a PM efetuou a prisão de uma pessoa que estava no troleibus e tinha o seu rosto exposto num daqueles famosos cartazes de “Procurado”. Ao ser reconhecido, desviou a atenção dos policiais para si fazendo com que os policiais nos dedicassem menos atenção, o que nos ajudou e muito naquela noite, no Viaduto de Santa Tereza.

Em uma outra ocasião, estava no apartamento em um domingo pela manhã, quando a campainha tocou e, ao abrir a porta, lá estava Alice, toda sorridente. Disse-me que necessitava de um pequeno favor. Precisava que eu apanhasse uma encomenda com o Elias, na faculdade, e ligasse assim que o tivesse comigo, para que viesse buscar. “Não posso ir lá, pessoalmente, pois estão de olho em mim, sabe como é”, me disse.

No outro dia apanhei com o Elias um pacote e levei-o comigo para casa, de onde liguei para o número que Alice me dera. Ela me disse que o apanharia no dia seguinte.

Só mais tarde fiquei sabendo que o pacote que havia recebido do Elias, guardado por uma noite comigo em minha casa e entregue, noutro dia, para a Alice, continha dinheiro. Muito dinheiro. Que tinha sido obtido em um assalto feito a um Banco, em Sabará, na Região Metropolitana, por um grupo do qual Alice fazia parte. Até então, eu sabia que a Alice participava de ações estudantis contra o Governo, mas nunca a tinha imaginado pegando em armas.

Quando fiquei sabendo que Alice era conhecida pelo codinome de guerra de Duarte, ela já estava casada e tinha deixado de participar das operações do seu grupo. Agora eu a encontrava novamente em Mutum. Por ironia do destino, circulava agora tranquilamente pelas ruas estreitas da nossa pequena cidade, sem que os militares que cruzavam com ela pudessem sequer imaginar que tinham diante de si Duarte, um dos “homens” mais procurado como terrorista e perigoso assaltante de bancos, como era descrito nos boletins oficiais da repressão.

Na última vez que vi Alice, antes de reencontrá-la em Mutum, ela dirigia um fusca e havia me oferecido uma carona da chacrinha, para me levar em casa, na Floresta.

 A chacrinha ficava em frente ao prédio do Hotel Normandy, na esquina da Avenida Afonso Pena com a Rua dos Tamoios, e era um ponto de encontro do pessoal de Mutum e alguns amigos que moravam em Belo Horizonte, para jogar conversa fora enquanto observavam as pessoas que por lá passavam e fofocavam. Mas na chacrinha também se discutia, e muito, política. Por isso, vez por outra apareciam por lá algumas pessoas que faziam parte de grupos subversivos.

Naquela noite aceitei a carona da Alice. No caminho, enquanto conversávamos, eu lhe disse que não sabia que ela tinha um carro e ela me respondeu sorrindo “E não tenho mesmo”. E completou “Este tomamos emprestado hoje, pra gente fazer uma viagenzinha amanhã, pra levantar uma grana preta num banco aqui pertinho”. Então esse fusca é roubado? Perguntei. Ela deu uma gargalhada e falou “A gente pegou emprestado lá em Nova Lima, mas vai largar ele depois por aí, inteirinho. Tava na garagem e o dono tá viajando”.

Pelo resto do caminho, até parar na minha rua, fui dizendo a Alice tudo o que vinha à minha cabeça para fazer ver a ela que tinha sido um ato altamente irresponsável o de me dar carona. Que ela estava me colocando em risco sem saber que estava em um carro roubado. Que se fôssemos parado pela polícia nós estaríamos perdidos, etc e tal. Ela ouviu tudo calada, com um semblante sério. Quando desci ela me disse apenas que não tinha tido nenhuma intenção de me complicar e que isso não seria repetido. Ela simplesmente queria me dar uma carona e deu. 

Depois desse dia eu não tinha mais nem visto nem falado com Alice em Belo Horizonte.

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