OPERAÇÃO MUTUM – A “VOLANTE” / O POLICIAMENTO

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( Episódios 20 e 21)

03 de julho de 1975

                           Sexta-feira

                           A “Volante”

O dia nem tinha nascido direito e ainda estava escurão quando as tropas voltaram a se movimentar na direção do São Roque.

Era madrugada do dia 03 de julho, uma sexta-feira e começava o segundo dia das buscas pelas bombas.

A movimentação dos caminhões militares pela praça interrompeu o meu sono e, como não consegui mais voltar a dormir, fui até a janela da sala do sobrado da casa dos meus avós e fiquei observando a agitação provocada pelo comboio que se deslocava lentamente. De onde estava, no alto, pude observar a cidade que começava a despertar. Pareceu-me calma, pacata mesmo. Bem diferente daquela onde vivi os meus primeiros anos de vida. Era uma Mutum brava, como costumavam dizer aqueles que a conheceram naquela época. Meus pensamentos rapidamente voltaram no tempo. Lembrei-me, então de como ajudei o Rolinha a não ser preso.

Era junho de 1953 e ainda me lembro de que fazia frio, como sempre faz frio em Mutum nessa época do ano. Eu faria oito anos de idade em outubro, mas já me considerava grande e muito sabido. Gostava de conversar com meu avô, a quem eu chamava de pai, por ter sido criado por ele desde poucos dias após ter nascido. Minha avó era chamada por mim de mãe. Ambos me acostumaram a participar das refeições na sala de jantar, todos juntos, com lugares já determinados: Dr Bião na cadeira que ficava na cabeceira, meu avô à sua esquerda, minha avó ao lado do meu avô, tendo ao seu lado uma outra cadeira. Do lado direito de onde ficava o Dr. Bião ficavam três outras cadeiras disponíveis para as visitas que porventura chegassem no horário das refeições e, fechando a mesa, a minha cadeira que ficava de frente para o Dr. Bião. Nós dois tínhamos os lugares de mais destaque. Ele, por ser médico e já participar das refeições em nossa casa há mais de cinquenta anos, desde quando meus avós tinham hotel e eu, por ser o neto que meu avô considerava como se fosse o filho mais novo. Me chamava de Meu José. Ali, diariamente, no café da manhã, no almoço e durante o jantar, eu ouvia as conversas, embora delas não participasse a menos que me dirigissem alguma pergunta. O que raramente acontecia. De qualquer forma, só pelo fato de estar fazendo parte da mesa e ouvindo as conversas, eu ia acumulando conhecimentos que não eram comuns para crianças da minha idade. Política local, nacional e mesmo internacional e, principalmente, os casos de medicina comentados pelo Dr. Bião. Na época, a cidade era governada por um prefeito udenista, isto é, filiado a UDN, antiga União Democrática Nacional. Seus opositores eram os pessedistas, aqueles que eram filiados ao PSD, antigo Partido Social Democrático. Havia ainda um outro partido, o PR, Partido Republicano, que era naquela época aliado à UDN. O eleitor udenista era chamado de corta-goela e o pessedista de pica-pau. Eu, embora muito novo, já conhecia praticamente todos os políticos da cidade, identificando-os como udenistas ou pessedistas. Meu avô era udenista. Era também, naquela época, Adjunto de Promotor de Justiça, um cargo existente naquele tempo e que o colocava na respeitável condição de autoridade municipal. Assim, fazia parte do Governo local, junto do Prefeito, do Presidente da Câmara, do Juiz de Paz que substituía o inexistente Juiz de Direito e do Delegado Municipal de Polícia, que era civil e comandava o pequeno batalhão de policiais militares, cujo integrante de maior patente era um Cabo. A força policial era insuficiente para manter a ordem e, como consequência, Mutum tornou-se pouco a pouco uma cidade perigosa, cheia de jagunços, que impunham pela força das armas as suas vontades e as vontades dos fazendeiros que lhes pagassem melhor. Assassinatos eram cometidos sem que alguém fosse preso. A lei do silêncio não permitia denúncias. Famílias eram perseguidas e mudavam-se para outras regiões.

Os moradores da cidade passaram a conviver com indivíduos que andavam pelas ruas portando armas que podiam ser vistas, acintosamente, em coldres presos a cinturões em suas cinturas. Suas figuras nada perdiam em semelhança para as que hoje são vistas nos filmes de faroeste americano, como mocinhos e bandidos. A única diferença era a de que, em Mutum da época da qual estou falando, não havia mocinhos. Os crimes iam se sucedendo e a insegurança passou a ser constante. Nós, as crianças da minha idade, víamos, principalmente na Praça Benedito Valadares, aqueles jagunços e evitávamos ficar onde estivessem. Orientados por nossas famílias, naturalmente. Mas, vez por outra, ouvíamos de alguém os relatos de suas proezas.

Na mesa de jantar da minha casa, ouvindo as conversas de meu avô e de seus convivas, descobri que um dos jagunços, de nome Rolinha, era afilhado de batismo do meu avô. Por isso, eu o via vez ou outra indo lá em casa, tomar a bênção dos meus avós. Chegava sempre cabeça baixa, chapéu de boiadeiro na mão, conversava um pouco e logo se despedia e ia embora. Nessas ocasiões, nunca levava um revólver na cintura.

A situação na cidade tornou-se mais e mais perigosa até que um dia, ao sentar-me à mesa para o jantar, dei falta de meu avô à mesa. Não perguntei por ele mas estranhei sua falta. Quando o Dr. Bião perguntou a minha avó pelo meu avô, ela lhe disse, com a maior naturalidade, que ele tinha ido à tarde do dia anterior a Aimorés, onde ia esperar uma volante que estava vindo de Belo Horizonte para Mutum.

As volantes eram unidades móveis da força policial do Estado, compostas por policiais civis e militares, sob o comando de Delegados da Policia Civil ou Oficiais Militares, que combatiam a bandidagem no interior, em missões especiais, quando solicitados, por ordem direta do Governador, com plenos poderes sobre as autoridades locais, civis ou militares.

A volante havia partido de Belo Horizonte, por trem, com destino a Aimorés, onde fariam baldeação para um caminhão que a levaria ao destino final, que era Mutum. Tinha por missão capturar todos os jagunços que moravam na cidade que possuíssem mandados de prisão expedidos e que já haviam sido denunciados, formal e nominalmente.

É certo que uma operação dessa envergadura, naquela época, não tinha como ser feita totalmente em sigilo. Em algum momento, tinha que haver algum vazamento. Nem que fosse por alguma casualidade, como aconteceu.

 Eu estava brincando na sala da minha casa, bem cedinho, esperando a chegada do Dr. Bião para tomar o café da manhã, quando alguém bateu na porta. Levantei-me, fui ver e dei de cara com o Rolinha. Sorrindo, ele me perguntou: “Cadê o padrinho?” De pronto e sem pestanejar eu lhe disse “Foi pra Aimorés buscar a volante”. Nem entendi porque ele saiu tão depressa e nem entrou para cumprimentar a sua madrinha, minha avó. Quando a minha Madrinha Maria, que cuidava da casa junto com a Elvira, me perguntou quem tinha batido na porta, eu falei que era o Rolinha. Uma delas me perguntou o que ele queria, e, quando  contei a minha conversa com ele, ela só riu e falou “Ah, bem feito. Mas também ficam falando coisas sérias na frente de crianças”. Naquele dia, a volante ainda prendeu muita gente. Mas o Rolinha, e uns amigos mais chegados dele, ninguém entendeu como conseguiram fugir e não serem presos.

A lembrança de como, com a minha inocência dera fuga ao Rolinha e seus amigos, me fez sorrir sozinho. Eu não tive culpa, pensei. Apenas tinha repetido o que tinha ouvido em casa. Lembrei-me também do sermão que tinha ouvido do meu avô. E das recomendações que me fez de nunca, mas nunca mesmo, repetir para ninguém, nem estranho nem conhecido, o teor das conversas que eu vivia ouvindo dentro da nossa casa.

Ainda sorrindo desci do sobrado e fui tomar um banho antes de me dirigir ao Bar do Paulo para um café da manhã, que me deixaria no ponto para iniciar os trabalhos daquele que seria mais um dia de buscas, na região da Serra do São Roque.

O POLICIAMENTO

A ordem pública em Mutum, como na maioria das pequenas cidades do interior de Minas Gerais e do Brasil, era responsabilidade da Polícia Militar e da Polícia Civil. Embora as duas entidades atuem na garantia da segurança dos cidadãos, a Policia Militar e a Polícia Civil apresentam funções diferentes.

A Polícia Militar tem como principal atribuição o policiamento preventivo. Para tanto, atua de forma ostensiva, cuidando do patrulhamento dos locais públicos e da repressão aos danos do patrimônio. Utiliza-se de uniforme próprio, de forma a ser identificada facilmente. Para facilitar a sua ação preventiva, mostra-se presente aos cidadãos de forma a inibir ações criminosas.

A Polícia Civil, também conhecida como Polícia Judiciária é encarregada das investigações criminais, da busca de evidências e provas que possibilitem a solução e elucidação de crimes ou contravenções, com o apontamento dos seus responsáveis. Seus integrantes, na maioria das vezes, usam roupas comuns, sendo conhecidos como paisanos, isto é, aqueles que andam à paisana. A palavra tem sua origem no latim “paganus” que quer dizer “o que não é militar” ou pessoa que não está submetida à organização militar. A expressão “andar á paisana” se aplica ao militar quando não está usando o uniforme.

Em Mutum, em 1975, havia uma Delegacia de Polícia onde atuavam, sob a ordem de um Delegado de Polícia Civil, quatro detetives, que eram chamados de Investigadores. O Delegado era o Dr. Marcônio Carlos de Freitas, um advogado.

O Dr. Marcônio não era Delegado de Carreira, o que significava que não fora nomeado para o cargo após aprovação em Concurso Público. Sua indicação para a nomeação pelo Governador do Estado havia sido feita por políticos que representavam o partido que mandava na política local. Assim, o Dr. Marcônio, de uma maneira geral, agia de forma a não prejudicar aqueles que o haviam indicado, sendo cuidadoso quando de suas investigações para não melindrar os que detinham o poder.

A Polícia Militar em Mutum era composta por dois cabos e doze soldados, comandados pelo Sargento Souza. Todos estavam sob as ordens do Delegado de Polícia. Havia, ainda, um Escrivão de Polícia Civil, quatro carcereiros encarregados de cuidar da guarda dos presos na Cadeia Pública e um Subdelegado, o Senhor Praxedes, que, nas ausências do Dr. Marcônio, era o encarregado de substituí-lo se necessário.

As investigações criminais, transformadas em Inquéritos Policiais eram enviadas ao Ministério Público, representado pelo Promotor de Justiça Dr. Anacleto Peri da Silva, encarregado de proceder ao Processo Criminal e o respectivo envio ao Juiz de Direito, Dr. Altamiro Lages, para as medidas judiciais cabíveis.

Por sua natureza policial estadual e conforme determina a Constituição Federal, a Polícia Militar é uma força  auxiliar e reserva do Exército.

Com a chegada das tropas federais em Mutum e em cumprimento da hierarquia constitucional, o Sargento Souza apresentou-se ao Major Alfredo colocando todos os policiais militares sob o seu comando à disposição das Forças do Exército, recebendo ordens de continuar a fazer o policiamento urbano, reportando ao Comando Militar todas as ações policiais realizadas.

Em todo o tempo que estava em Mutum, o Sargento Souza não reclamava da vida que levava. O comando do policiamento era tranquilo, a cidade estava pacata, o povo era ordeiro. Pedir mais era exagerar na dose, dizia sempre. E ele conhecia bem até os elementos que em algumas ocasiões poderiam dar trabalho. Os maiores arruaceiros eram alguns pés-rapados que, com mínima ou nenhuma posse, enchiam a cara de cachaça nos finais de semana e de vez em quando arranjavam uma briguinha mais sem importância. Aí, tomavam sempre umas bolachas pela cara, de alguém mais sem paciência e nem queixa na Delegacia faziam. Quando alguém chegava a chamar a polícia era só para levar o malfadado, bêbado e com a cara quebrada, para um dos médicos que atendessem mais perto, dar nele uns pontos. Depois, era levado até a sua casa pra curar a bebedeira. Essas brigas de botequim nunca davam cadeia. E, como sempre acontecia, eram esquecidas no outro dia.

Também acontecia muita briga de família, quando marido e mulher se pegavam nos tapas e alguém chamava a polícia. Nesses casos, ele é que gostava de comparecer para dar nos dois brigões uma carrascana daquelas boas, em particular.

Na realidade o Sargento Souza sabia que todos respeitavam o policiamento porque aqueles tempos eram tempos bicudos e a lei era determinada pelos militares. Assim, a Polícia Militar podia muito bem até abusar do poder que ninguém iria reclamar. Ele, zeloso cumpridor da lei, não permitia que seus comandados cometessem nenhum abuso de autoridade. Mas o povo, de tanto acompanhar os acontecimentos pelos noticiários, preferia acreditar que todos os policiais seriam capazes de se excederem no uso da força. Então evitavam correr riscos. E olhavam com uma certa desconfiança e um muito de respeito para os policiais.

Para o Sargento Souza era até muito bom que os militares assumissem o comando da Polícia Militar. Sua responsabilidade diminuiria. O que de fato aconteceu, até o dia em que o Major Alfredo mandou chamá-lo em sua sala improvisada no quartel e lhe disse sem nenhum preâmbulo “Sargento, preciso que me faça um relatório sucinto contendo todas as informações, possíveis e imagináveis, sobre todos os elementos da cidade que possam ser considerados suspeitos de serem comunistas ou de serem simpáticos aos comunistas ou contra o governo revolucionário. Todos os que o possam ser subversivos. Quero esse relatório na minha mesa em doze horas, sem mais demora”.

(Continua na próxima semana)

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