Miséria e seu Eterno Retorno

Jamile Santos Lago

Quando tinha por volta de 4 ou 5 anos, percebi pela janela de um coletivo um garoto  cheirando cola e deitado no teto de uma parada de ônibus. Foi chocante. Por volta de dois anos atrás, ou menos, não lembro, avistei pela janela de um coletivo um homem e um adolescente em uma carroça, o mais novo estava cheirando cola.

No ano em que eu estava fazendo preparatório para o vestibular, uma adolescente que  aparentava ter minha idade estava vendendo bombons no ônibus no qual me encontrava. Todo o dia quando vou à aula, me assusto com o mesmo deficiente que fica sentado numa

esquina de uma imensa avenida da cidade. Ele fica ali a pedir esmolas. Aquele homem é pavoroso, aquela situação é pavorosa. Na estação de ônibus da Universidade sempre há algum “louco” ou um esquecido abandonado com uma estética alarmante.

Da janela da minha habitual condução, a caminho da aula, contemplo uma cidade à parte, parece abandonada, porém é bem povoada, são corpos, pensamentos, operários, esperanças, sonhos e crianças. Há muitas crianças, e creio que várias perambulam pelo centro urbano, engraxando botas, limpando párabrisas, fazendo malabares.

Sempre esbarrava com um garoto que vagava nos bairros de maior referência. Com uma voz rouca, uma roupa além de grande por tamanho natural, também era alargada pelo tempo, aquela roupa deveria ter uma densa história arraigada, escurecida pela poeira, deveria trazer os odores da vida, da vida daquele garoto. Seus olhos eram vermelhos, mas sua visão não era marejada por pranto. Então seriam vermelhos por ódio? O mais provável: um entorpecente qualquer. Tal garoto deveria drogar-se incansavelmente.

Certa vez ele passou às pressas, corria bastante, e atrás um segurança de loja. O jovenzinho foi puxado pela gola da camisa, “ladrãozinho!”.

Ele havia roubado um cordão de ouro. A vítima passava a mão no pescoço e chorava, por dor, revolta, talvez. O garoto chorava desesperadamente, “tio, não fui eu”.

Uma criança que muito sabe da vida, com sua ingenuidade comprometida, chorava desesperadamente, “tio, não fui eu, não fui eu”.

A vida ensina-nos a mentir… Ou a mentira é uma herança que já trazemos de berço? Mas será que o garoto teve berço? Dúvida.

Pessoas e opiniões: “os pais, apedreje-os”, “Estado, o culpado”, pessoas e opiniões: circulares. E isso espanta, porque a todo o momento vejo a repetição paradoxalmente entrecruzada com a passagem, com envelhecimento, com a queda do que é antigo, com florescimento da morte catalogada em páginas de jornal. As coisas passam, e uma essência

permanece, uma essência medíocre, esteticamente horrenda e mal cheirosa, mas que merece contemplação, estaticamente move-se a um fim que parece nunca terminar.

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