OPERAÇÃO MUTUM – O FOOTING / A SEGUNDA BAIXA

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é image.png

           (Episódios 18 e 19)

O FOOTING

As noites em Mutum sempre foram muito animadas, desde quando eu ainda morava lá, durante a minha infância e minha adolescência. Em minhas lembranças, me vejo parado na calçada que circundava os canteiros floridos da Praça Benedito Valadares, por onde circulam centenas de pessoas, todas as noites, do anoitecer até altas horas. Esse hábito de ficar horas e horas circulando pela praça era conhecido como fazer o footing, uma expressão que em inglês significa fazer uma caminhada ou um passeio informal. Era durante o footing que flertávamos com as garotas, batíamos papo com os amigos e discutíamos calorosamente futebol. Principalmente nos dias em que o Esporte ou o Tringolingo jogava, o que acontecia quase sempre nos finais de semana. Era só o tempo entre voltar do campo de futebol, que era como conhecíamos o Estádio Municipal, tomar um banho, trocar de roupa e correr para a praça. Hora de fazer o footing. Quem tinha namorada, ficava sentado nos bancos de cimento, colocados na parte interna, entre os canteiros sempre bem cuidados, cheios das mais variadas flores e de pequenos arvoredos, podados em formas geométricas ou de animais. Nos bancos podia-se ler o nome daqueles que os patrocinaram. A iluminação da praça era feita por pequenos postes decorativos, trabalhados artisticamente, dos quais pendiam as lâmpadas protegidas por luminárias ornamentais.  Aqueles que ficavam próximos aos bancos estavam sempre com suas lâmpadas apagadas, deixando um escurinho que era disputado pelos casais de namorados. Quanto mais cedo chegavam, maior a certeza de garantirem o espaço nos bancos escuros. Alguns amigos revezavam no uso dos bancos, um casal ficando lá por um tempo determinado e deixando, depois, que outro o ocupasse. Ali aconteciam os abraços, os beijos, entre um amasso e outro e os sarros.               

Durante o dia poucos eram os que se sentavam nos bancos do jardim da pracinha onde era feita o footing, à noite. O calor, provocado pelo sol muito quente no verão ou o frio, excessivo no inverno, afastavam naturalmente o povo da praça durante o dia. Fatores agravados pelo fato de lá só existirem pequenas árvores, incapazes de criarem grandes sombras.

O mesmo já não acontecia com a parte da praça que ficava bem em frente ao Hotel dos Viajantes, que sempre tinha seus bancos ocupados pelas manhãs, por alguns idosos que ali se sentavam, aproveitando  a sombras das árvores, para baterem papo.

Lá, também, ficavam a banca de revistas do Arnaldo e as três cadeiras de engraxates do Rui.

Nessa parte da praça, à noite, não havia footing e nenhum casal usava os bancos para namorar. À noite, eram ocupados por casais que moravam ao redor da praça e lá ficavam observando o movimento no jardim, até o movimento cessar.

Durante a permanência das tropas militares em Mutum, o footing passou a ter um interesse maior por parte das mulheres, já que os soldados, como eram chamados de uma forma genérica, passaram a frequentar a Praça Benedito Valadares quando não estavam de serviço. Consequentemente, em razão de serem estranhos, tornaram-se uma espécie de atração extra. Muitos namoros de alguns casais, até então considerados firmes, foram terminados tendo alguns “de fora”, como nós os chamávamos, como responsáveis.

Em Mutum, como ocorre em algumas cidades interioranas, havia algumas garotas que não gostavam de namorar os rapazes da cidade. Raramente aceitavam algum de nós como namorado. Mas, sempre que havia algum evento com a participação de alguém de fora, era certo que não ficavam sozinhas. Podiam ser vistas na pracinha, circulando abraçadinhas com os seus rapazes, sem se importarem com os olhares atravessados que lhes eram dirigidos. Na realidade, era tudo uma questão de bairrismo, porque quando a situação era inversa, e alguma garota de fora aparecia na cidade, acontecia uma verdadeira corrida entre nós, na tentativa de conquistá-la e partir para os encontros nos bancos escuros da praça. Só que, no caso dos militares que buscavam as bombas, nós estávamos correndo o risco de perder até as nossas namoradas firmes, porque eram muitos e todos de fora.

Foi assim que aconteceu com o meu amigo Clemente, filho da Dona Candinha Quitandeira e namorado da Marcília.

Nas minhas lembranças do meu tempo de criança, em Mutum, a figura de Dona Candinha Quitandeira tem um lugar especial.

    A segunda baixa

O Clemente era meu companheiro de futebol, desde o infantil do Esporte. Crescemos juntos, tínhamos a mesma idade e éramos amigos inseparáveis. Onde estivesse um o outro seria encontrado, com toda a certeza. Dona Candinha aceitava muito bem essa nossa amizade e ia além, afirmando que “se esses dois fossem irmãos, eu acho que não combinariam tanto como combinam, sendo amigos”.

Não passava sequer um dia sem que eu fosse a casa do Clemente. Lá, não importando a hora que chegasse, Dona Candinha fazia com que eu e o Clemente nos deliciássemos com alguns dos quitutes que fazia para atender os seus clientes. Enquanto comíamos, Dona Candinha estava sempre junto conosco, conversando e rindo das nossas brincadeiras. Assim o tempo ia passando enquanto crescíamos. Até que o Clemente começou a namorar com a Marcília, que era uma morena linda que morava em uma rua que ficava perto da caixa d’água, por onde eu e o Clemente passávamos quando íamos jogar futebol.

 De tanto nos ver passando e de tanto que o Clemente a olhava, Marcília acabou dando bola para o Clemente que, por sua vez e mesmo sendo muito tímido, não perdeu a chance. Começaram a namorar e a nossa rotina de amigos foi sendo deixada de lado, pouco a pouco.

Depois, naturalmente, minhas idas à casa do Clemente foram rareando, diminuindo até que se tornaram escassas. Nos dias de treinos eu já não passava mais pela rua da casa do Clemente. Ia direto da minha casa, na Praça Benedito Valadares para o campo, passando por outras ruas. Além de ser mais perto, eu sabia que o Clemente não estaria mais em casa, pois seu tempo de folga ele passava sempre em companhia da Marcília, na casa dela ou de alguma de suas amigas.

Sempre que via Dona Candinha, nas suas andanças pela cidade fazendo entrega de suas encomendas de quitandas, ela reclamava que eu tinha sumido, que devia aparecer, que eu não precisava ir lá na casa dela só quando o Clemente estivesse lá. Assim, vez por outra, eu dava uma chegada na casa de Dona Candinha. E sempre que o fazia, ouvia em algum momento ela dizer “Não gosto nada desse namoro do Clemente com essa tipa” e quando eu tentava argumentar em defesa dos dois, ela retrucava “essa menina não me parece boa pra ele”.

O meu amigo Clemente e sua namorada Marcília já estavam juntos há um bom tempo e todos nós, seus amigos, sabíamos que acabariam no altar da Matriz de São Manoel. Eles até já haviam me confidenciado que seria padrinho dos dois. Não falavam de datas, mas era certo que casariam. Ninguém era capaz de duvidar dessa realidade futura.

Quando as bombas caíram em Mutum eu já não morava mais lá e o Clemente e a Marcília eram noivos, planejando o casamento do qual eu seria padrinho. Ainda faziam o footing na pracinha.

 Foi lá uma noite que a Marcília, que estava aguardando a chegada do Clemente, percebeu que estava sendo observada por alguém quando caminhava com suas amigas. Curiosa, procurou de uma forma discreta e despistada identificar quem a observava. Seu olhar cruzou com o de um soldado da Marinha, que lhe deu um sorriso. A partir daí, durante um bom tempo os dois ficaram se procurando com os olhos, flertando de uma forma bem atrevida. Ele, o soldado, parado na calçada com outros soldados, e ela, Marcília, caminhando com suas amigas ao redor da pracinha. De tanto se olharem, as amigas de Marcília resolveram dar a ela uma cobertura, já que o Clemente demorava para chegar. Em determinado momento, fizeram uma parada junto do grupinho de soldados no qual fazia parte o que flertava com Marcília. Ninguém sabe o que conversaram. O certo é que pouco tempo depois da chegada de Clemente, Marcília lhe disse que não se sentia muito bem e ele a levou para casa. Pouco depois, Clemente se reuniu comigo e outros de seus amigos no salão de sinucas.

Como havia muito tempo que não nos víamos, aproveitamos para atualizar nossa conversa. O ponto principal, como não podia deixar de ser, foi o episódio das bombas perdidas, como ficaram conhecidas. Ficamos conversando e já era bem tarde quando o Clemente despediu-se dizendo que ia para casa porque precisaria acordar bem cedo no dia seguinte      .

 Ninguém se importou quando o Dino Maluco entrou no Bar do Paulo, encostou no balcão e começou a rir sozinho, como era do seu costume quando queria dar alguma noticia sobre alguma coisa que tinha visto de estranho nas suas andanças pela cidade. Ele ficava rindo sozinho até que alguém lhe perguntasse o que tinha acontecido. Aí, desfiava sua estória. E assim foi. Quando lhe perguntaram o que tinha acontecido, Dino Maluco contou que naquela noite, estava passando pela rua da Marcília, noiva do Clemente, quando viu a Marcília trocando abraços e beijos com alguém que não era o Clemente. Era um soldado. Eles estavam no beco da casa dela na maior safadeza. Ele disse que tinha visto tudo o que eles fizeram, mas que eles não tinham visto que ele tinha visto. Quando alguém falou que o que estava dizendo era um absurdo, e que ele devia tomar cuidado, pois o Clemente não ia gostar nada do que ele estava inventando, o Dino Maluco deu uma risada e falou que já tinha contado tudo pro Clemente, de manhãzinha, quando ele estava indo pro serviço. E que o Clemente nem tinha brigado com ele.

Naquela noite, na pracinha durante o footing, sem que alguém se desse conta ou pudesse impedir, Clemente deu dois tiros de garrucha 44 na barriga de um marinheiro chamado Charles. Clemente foi preso em flagrante e recolhido ao quartel do Comando Militar, onde ficaria detido até que a justiça determinasse o que fazer com ele. O marinheiro Charles, atendido emergencialmente, ainda na pracinha, foi removido de helicóptero para Vitória, onde foi internado em estado grave e no Hospital Naval.

Quando encontrei Dona Candinha, no outro dia, e a abracei, dizendo o quanto sentia pelo Clemente, ela me deu um sorriso tristonho dizendo apenas “eu não falei que aquela Marcília não era boa bisca? Ela não serve para o meu Clemente. Eu sabia que ela não prestava pra ele”. Quanto a Marcília, no mesmo dia viajou para Aimorés, de onde, segundo me disse uma de suas amigas, iria pegar o trem para Vitória. Onde ficava o Hospital Naval.

O marinheiro tornou-se a segunda baixa entre os militares encarregados da busca pelas bombas perdidas em Mutum. E ainda não tinha sido encontrada nenhuma das bombas.

(Continua na próxima semana)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s