OPERAÇÃO MUTUM – AS BUSCAS / A PRIMEIRA BAIXA

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(Episódios 17 e 18)

02 de julho de 1975

          

O dia 2 de julho, uma quinta-feira, terceiro após o lançamento involuntário das bombas sobre Mutum, foi, na realidade, o primeiro dia em que efetivamente começaram as buscas.

As tropas militares foram movimentadas bem cedo, pela madrugada, em direção a saída para Lajinha. Obtive informações de que as primeiras buscas seriam feitas na região do distrito de Ocidente, onde, supunha-se, poderiam estar as bombas e, após haver insistido muito e prometido solenemente não interferir em nenhum momento nas ações, fui autorizado a acompanhar as tropas, na condição de observador.

 O trabalho de buscas começou, realmente, na altura da Serra do São Roque.

 Ali, no sopé da serra, foi onde as tropas desceram dos veículos e se esparramaram pelos dois lados da estrada, já então demarcada como MG 108, ainda não totalmente encascalhada, mas já sendo preparada para receber o asfalto.

A Serra do São Roque sempre foi uma referência para os viajantes que iam de Mutum para Lajinha, por ser um trecho que, na época das chuvas, tornava-se praticamente intransitável em razão das quedas de barreiras e das pedras que, rolando da serra, impediam em alguns trechos a sua passagem.

Nós não estávamos em um período chuvoso, o que contava a favor dos militares empenhados na missão de recuperação das bombas, embora a temperatura se fizesse muito baixa na Serra do São Roque, com a presença de um forte nevoeiro, acompanhado de uma intensa neblina, comuns em regiões altas nas manhãs durante o inverno.

A região do Distrito de Ocidente, em Mutum, está situada em uma área montanhosa, com predominância de grandes pedras, como a Invejada, localizada a 20 quilômetros do centro da cidade, na Serra do São Roque. Trata-se de uma imponente elevação de puro granito, com altitude estimada em mais de 1000 metros.

 A Invejada é considerada como o maior bloco de granito puro do Estado de Minas Gerais e um dos maiores do Brasil.

Com toda a certeza, considerando a topografia da região, não seria fácil para as Forças Armadas localizarem as bombas, se tivessem mesmo caído naquela região.

 Essa era também a opinião de Manuel da Mota, um antigo morador de São Roque, profundo conhecedor daquela região e que tinha se oferecido como voluntário para ajudar nas buscas, já que, segundo ele, entendia também um pouco  de bombas.

“Nesta região – dizia ele fazendo cara de deboche –  existem buracos tão escondidos nas pedras, que não se consegue achar nada que tenha caído lá. Sem contar se tiver caído nas profundezas das grotas”.

Manuel da Mota tinha realmente experiência em operações militares do Exército Brasileiro. Fora integrante da Força Internacional de Emergência conhecida como III – 2º RI – Batalhão Suez.

 Esse contingente militar, composto de um Batalhão Independente, fora instituído pelo governo brasileiro através do Decreto Legislativo nº 61, de 22 de novembro de 1956, do Senado Federal, para atender a Resolução da Assembléia Geral das Nações Unidas, de 07 de novembro de 1956, com o objetivo de manter a paz e a segurança internacional na região compreendida entre o Canal de Suez e a linha de armistício entre Israel e o Egito, no continente africano.

 O Canal de Suez, com 163 quilômetros de extensão liga Port Said, no Mar Mediterrâneo a Suez, no Mar Vermelho, ambos no território egípcio. O Batalhão Suez,  do qual Manuel Mota fizera parte atuou na região do conflito entre árabes e israelenses de 1957 até 1967.

                              A PRIMEIRA BAIXA

O grupo de buscas na Serra do São Roque era formado por uma Companhia do Exército, composta por 150 homens, liderados pelo Primeiro Sargento Pereira e sob o comando do Tenente Coaracy, que reportava suas ações diretamente ao Capitão Peixoto.

O Sargento Pereira determinou que os seus soldados, que se encontravam espalhados pelas duas margens da estrada, formassem duplas e dessem inicio ao trabalho de buscas.

 Apenas Manuel Mota, do pessoal civil, foi autorizado a acompanhar a tropa. Eu e os demais representantes da imprensa, bem como os curiosos, que acompanhávamos a operação, tivemos que permanecer observando à distância.

O Sargento Pereira, munido de um rádio transmissor, escolhera um ponto mais alto, situado à nossa direita, para dali acompanhar a movimentação de seus comandados, enquanto o Tenente Coaracy e o Capitão Peixoto examinavam alguns mapas espalhados sobre o capô de um dos veículos de transporte da tropa.

De onde estava eu podia perceber quando o Sargento Pereira recebia informações ou ditava ordens pelo rádio.

O tempo passou sem nenhuma novidade sobre as bombas nessa manhã do primeiro dia de buscas. O sol indicava a metade do dia quando ficou alto no centro do céu. Eu, junto com alguns outros jornalistas, observadores da operação resolvemos nos dirigir para Ocidente à procura de um local para almoçar. Antes, no entanto, procuramos nos informar com o Capitão Peixoto sobre alguma novidade, sendo comunicados de que ninguém havia encontrado algum sinal que pudesse indicar a presença das bombas. Masque as buscas continuariam durante todo o resto do dia.

Em Ocidente, embora fosse um distrito relativamente grande, não encontramos nenhum restaurante, mas fomos informados por alguns dos moradores de lá, que se encontravam também acompanhando o movimento das tropas, que poderíamos almoçar no Bar do Povo, do Seu Nonô, na Praça da Igreja.

O Bar do Povo não era mesmo nenhum restaurante, mas lá o Seu Nonô nos serviu uma deliciosa macarronada, com arroz, feijão, frango frito, angu e uma salada de tomate com folhas verdes que, segundo ele, colhia de sua própria horta, que cultivava nos fundos da casa. “Sem essa porcaria de agrotóxico”, nos falou todo orgulhoso.

Enquanto comíamos, Seu Nonô  nos relatou o que sabia sobre o avião e sobre as bombas. Segundo ele o avião passara muito alto, sobre Ocidente e não pareceu ser um avião dos comuns, que sempre sobrevoavam a região, pelo barulho que fez ao cruzar o céu. Era um barulho diferente, coisa que ele nunca tinha ouvido antes. Parecia com o barulho daqueles aviões que via nos filmes de guerra na televisão.

  Ele se lembrava de ter ido até a porta do Bar, para tentar ver o avião, mas não conseguiu, embora se lembrasse também de que o céu ainda estava bem claro, naquele início de noite. O avião já tinha passado e a única coisa que pôde ver foram as suas luzes piscando, muito alto. Quando perguntei se tinha visto as bombas caindo do céu ele disse que não, que ninguém em Ocidente tinha visto e que só ficaram sabendo delas depois que os soldados chegaram a Mutum.

Após o almoço, combinei com o Tião Fotógrafo, que morava em Ocidente, para que fizesse umas fotos do Distrito e da região da Serra do São Roque, onde estavam sendo feitas as buscas, para que eu as pudesse enviar ao jornal, junto com os primeiros relatos da viagem. Como era de costume, eu não levava nenhum fotógrafo do jornal comigo para cobrir reportagens feitas em outras cidades. Aproveitava sempre alguém do local, que conhecesse melhor a região. Assim, além das fotos recentes, tiradas durante a reportagem que estivesse fazendo, poderia usar outras, antigas, tiradas dos arquivos dos fotógrafos locais, que sempre enriqueciam o meu trabalho. Além de poder me aproveitar das dicas de quem conhecia melhor a região e que sempre eram bem-vindas.

 Assim, estava certo de que quando retornasse para a casa dos meus avós, em Mutum, estaria levando uma boa quantidade de fotos de Ocidente e da Serra do São Roque, para poder  escolher quais as que mandaria para a redação. Todas legendadas, naturalmente.

Ao retornarmos ao nosso ponto de observação, após o almoço, ficamos sabendo da primeira baixa entre as tropas do Exército.

Um soldado, identificado depois  como Laerte, ao se aproximar de um córrego, foi picado no braço por uma cobra.

A serpente foi morta pelo seu companheiro Soldado Marins e, por sorte do Soldado Laerte, identificada pelo Manuel da Mota, que estava próximo ao local do ataque, como sendo uma surucucu, ainda nova, considerando que media pouco mais de um metro e meio de tamanho.

A surucucu ou Lachesis muta é considerada a maior serpente venenosa de todo o continente americano e uma das maiores do mundo. É muito comum na região do Vale do Rio Doce, onde está situada Mutum, principalmente na divisa com o Espírito Santo, onde fica Ocidente e a Serra do São Roque. Pode alcançar, quando adulta, quatro metros e meio de comprimento e suas presas chegam a medir 3,5 centímetros. Os naturais da região a temem pela sua periculosidade e virulência, aprendendo, desde quando crianças, a identificarem a sua presença pelo som que emite ao se sentir incomodada quando o seu território é invadido. Ela não tem guizos em forma de chocalho na ponta da cauda para chacoalhar como a cascavel, mas emite um som perceptível por quem a conhece. Esse é o seu sinal de ataque. Com toda a certeza o Soldado Laerte não a conhecia, como afirmou Manuel da Mota. Aproximou-se muito e, ao movimentar o braço em sua direção, foi atacado e picado.

 A surucucu é uma cobra que tem um comportamento muito agressivo e pode, com seu bote, alcançar a distância correspondente a um terço do seu comprimento. O veneno de suas presas provoca, nas suas vítimas, um quadro de queda imediata da pressão arterial, inchaço e dor no local da picada, diminuição da frequência cardíaca, alteração da visão, sangramento na gengiva, pele e urina, diarreia, vômitos e insuficiência renal. De ação neurotóxica, a vítima de sua picada, para ter alguma chance de sobrevivência, precisa contar com ajuda médica imediata, com utilização de soro antilaquésico/antibotrópico laquésico.

Pela avaliação de Manuel da Mota a tropa militar que se deslocara para Mutum tinha muito conhecimento sobre a região, principalmente sobre os riscos que iriam correr durante toda a operação. Sua opinião era fundamentada no fato de que, logo após a identificação que ele fizera da serpente como sendo uma surucucu, o Soldado Marins, companheiro da vítima retirou da sua mochila um estojo de primeiros socorros e lhe aplicou, de imediato, o soro indicado para a picada daquele tipo de ofídio. O que demonstrava estar a tropa bem preparada para a busca das bombas em locais de risco de ataques de animais peçonhentos, como as pedreiras da região do São Roque.

Segundo Manuel da Mota, a situação dos soldados ali era idêntica a dos pracinhas brasileiros em ação de paz em Suez, no Egito, respeitadas, naturalmente, as devidas proporções. Encontrariam, segundo ele, muitas dificuldades pela frente antes de encontrarem as bombas perdidas. O terreno acidentado não seria o seu único e grande inimigo. Disso ele não tinha dúvidas. O relevo era representado por pedras, muitas pedras, mato serrado da Mata Atlântica compondo a Serra do Mar, vales profundos, nascentes de riachos e ribanceiras traiçoeiras. Mas havia também animais peçonhentos, animais selvagens como porco do mato, jaguatiricas e onças parda e pintada.

Manuel da Mota observava o lento avanço dos soldados pela região e torcia para que estivessem, realmente, preparados para aquele tipo de ação como ele próprio estava, quando partiu com a força de paz, para o Egito. Lembranças foram tomando formas em sua mente e Manuel da Mota deixou-se ficar quieto, imóvel, encostado a uma árvore, os olhos fixos no vazio. Via-se, novamente, segurando um binóculo, observando a imensidão do nada formado pelas areias do deserto da Península do Sinai. Aos poucos, saiu do estupor em que se encontrava, deu uma sacudidela na cabeça e falou baixinho, sem que alguém pudesse ouvir – “Ah, não vão encontrar porra nenhuma de bombas nessas pedras”.

Beirava dezoito horas quando o Tenente Coaracy, atendendo determinação do Capitão Peixoto, ordenou pelo rádio que o Sargento Pereira reunisse a sua tropa e retornasse ao seu ponto de apoio, onde se encontravam os veículos que os levariam de novo ao acampamento, em Mutum. Nenhuma bomba havia sido localizada na região do São Roque nesse primeiro dia de buscas. O Exército tivera sua primeira baixa oficial.

(Continua na próxima semana)

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