O Googlielmo

Franciorlis Freitas Viana

Quando soube que o meu amigo Googlielmo se suicidou, fiquei pasmo. Tão jovem, o rapaz! Tinha uma vida inteira pela frente…

No enterro, sua mãe chorava copiosamente a morte do unigênito; observei, entretanto, que havia poucas pessoas presentes no velório; não se contavam vinte. Dentre elas um pai, três tias maternas, cinco primos, uma avó octogenária, cinco vizinhos abelhudos, dois transeuntes que vieram ao lugar apenas pelo cafezinho e um amigo (diga-se de passagem, eu).

Foi breve o cerimonial de despedida, se é que se pode chamar de cerimonial um coro de meia dúzia de beatas cantarolando a trilha sonora predileta de onze entre dez defuntos, que seja “segura na mão de Deus e vai (…)” aquela mesma, caros leitores, que muito provavelmente soará nos seus também (olhem pelo lado bom da coisa, ao menos vocês não estarão vivos para assistir o chiste!).

Ao término daquele cortejo regressei para casa como passarinho molhado, murcho e silente. Corri para o computador com o objetivo de publicar na internet uma homenagem póstuma

ao meu amigo Googlielmo. Acessei, como todo jovem descolado, antes de qualquer coisa o Orkut; clica aqui, clica acolá e putz! Entrei na página de Googlielmo, nome este seguido do slogan “Eu amo a vida!”; esse foi justamente o primeiro paradoxo que percebi; Como

pode alguém que declara na internet amar a vida, cometer suicídio?

Depois verifiquei que Googlielmo possuía novecentos e vinte e sete amigos adicionados. Esse foi o segundo paradoxo que percebi; como alguém que tem novecentos e vinte e sete amigos no Orkut, no próprio enterro só teve um presente?

Constatei em seguida que Googlielmo tinha mil quatrocentos e trinta e oito seguidores no Twitter, quinhentos e seis no Facebook e duzentos e sete contatos no Myspace! É tão estranho que Googlielmo tenha escrito no e-mail de despedida (enviado simultaneamente a

todos os amigos virtuais de sua lista) que partia dessa vida cruel por não suportar viver na solidão!

(…)

Devemos pensar que nos sites de relacionamentos temos a facilidade de criar tantos personagens para nós mesmos, tantos “Eus” distintos de quem realmente somos. Veja, eu posso me tornar “Rodolfo, sua alma gêmea” no ParPerfeito, posso ser “Felipe, o pegador” no MSN; ou quem sabe o próximo heterônimo a surgir no Chatroulette; posso ser tantos indivíduos que não sou, nem serei, nem tampouco sei de onde inventei! Como no filme hollywoodiano “O substituto”, que narra um estágio da humanidade onde as pessoas nem saem mais de casa. Enviam um clone a fazer suas tarefas, enquanto os controlam da sala de estar a partir de um computador conectado aos seus cérebros.

Isso possibilita que um homem use um clone feminino, um adulto use um clone de um infante, os velhos usem clones jovens, um gordo use um clone magro, o magro de um ainda mais magro, um alguém use o clone do que não é para esconder que o original, o controlador, se tornou um ninguém. É isso que geralmente digitamos nas teclas frias dos notebooks, netbooks, ipads, e smartphones: substitutos.

Chegamos numa conjuntura que se você me encontrar fora da Web terá dificuldade em crer que eu estive on-line com você no batepapo! Ainda mais porque no meu perfil coloquei a foto de um sujeito alto, loiro, corpo sarado e de olhos azuis, quando pessoalmente sou pálido, baixo, magro e vesgo.

Os sites de relacionamentos deveriam servir a um propósito maior que apenas um entretenimento; talvez como meio para nos encontrarmos como seres com necessidades de socialização, no entanto, tem sido usados por alguns como maquiagem emocional,

quebrando pontes internas.

Alcançaremos a perfeição das amizades, pois ninguém será alguém, pois ser alguém de fato é ter defeitos reais e se me oculto atrás duma figura cibernética ilusória, claro que obscurecerei meus erros e equívocos, daí eu dizer que teremos amizades perfeitas, pois excluiremos a coisa que mais causa problemas nas amizades, que é justamente o amigo, que traz consigo suas irritáveis manias, gostos e discordâncias. Arrisco-me que não muito distante o programa de maior sucesso da Apple será algo parecido com “Friendperfect”; o

amigo que nunca irá te decepcionar; mas caso haja algum problema vem com garantia de fábrica. Ressalva-se que se deve manter o antivírus sempre atualizado.

Em breve não existirão mais amizades reais, apenas um moderno software que cria hologramas de amigos – aliás, software com três gigas de memória para armazenar nossos desabafos como se nada fossem além de dados, facilmente deletáveis.

Pobre do Googlielmo! Teve na internet tantas pessoas para trocar scraps, mas na vida lhe faltaram abraços, cafunés e sorrisos. Gestos simples, mas que até aquele supercomputador americano por nome Watson, vencedor de gincanas televisivas, é incapaz de reproduzir.

– Aproveito para deixar meu recado a Watson, que a estas horas deve estar orgulhoso do seu feito: vencer a espécie humana não é tarefa tão difícil (aí está a natureza com suas intempéries, como exemplo). Difícil, caro Wat (posso chamá-lo assim? desafio-o a me alcunhar também com um apelido carinhoso), é um congênere estender as mãos a um derrotado e levantar-lhe do chão – por curiosidade, Watson, se o teu inventor cair com afecção cardíaca ao teu lado, e não houver ninguém por perto, tu podes ajudá-lo?

(bem sei que podes em fração de segundos listar todos os remédios existentes nas terras mais remotas), mas o que quero saber é se podes encostar as mãos ao peito do teu tecnólogo e prestar-lhe uma massagem… Erro crasso meu, tu não tens mãos.

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