OPERAÇÃO MUTUM – O VATICÍNIO

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(Episódio 16)

Em 1941 o já famoso escritor austríaco Stefan Zweig, que escolhera o Brasil como local para viver ao lado de sua segunda esposa, Charlotte Elizabeth Altmann, masi conhecida como Lotte, ao fugir das atrocidades cometidas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, publicou o livro “Brasilien ein land der zukunft” – “Brasil, um País do Futuro”, no qual tecia rasgados elogios ao nosso país.  Moravam em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde suicidaram-se em 1942. Deixou o escritor uma declaração, na qual escreveu: Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite. Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes. Stefan Zweig”.

Zweig não viu a aurora surgir após o final da Segunda Guerra Mundial, com a derrota de Hitler, destruição e reconstrução da Alemanha, surgimento da Guerra Fria e divisão do mundo em dois blocos distintos: um capitalista, liderado pelos Estados Unidos da América do Norte e um comunista, sob a liderança da União Soviética. Nem viu, também, o cumprimento de sua profecia de que o Brasil era o País do Futuro.

A partir de 1964, com a Revolução, o Brasil havia se transformado, segundo os seus governantes militares, em um Brasil Novo.

Para reforçar essa afirmação, em 1975, quando ocorreu o incidente de Mutum, apresentavam as suas realizações, com destaque para as construções da Rodovia Transamazônica, Ponte Rio Niterói, Usinas Hidroelétricas de Itaipu, Tucuruí, Ilha Solteira, Jupiá,  Ferrovia do Aço, Usinas Nucleares de Angra I e Angra II, criação do Instituto Nacional de Previdência Social/INPS, FUNRURAL, construção do Porto do Maranhão, entre outras.

 Os governos militares apregoavam o que era conhecido então como o “Milagre Brasileiro”.

 Para confirmar tal ufanismo, em 1974 o Presidente  Richard  Milhous Nixon, 37º Presidente eleito dos EUA, pouco antes de ser tornar o primeiro presidente americano a renunciar ao seu mandato, afirmou ao Presidente Garrastazu Médici que, “para onde for o Brasil irá a América latina” procurando demonstrar que, para aquele País, Brasil deveria posicionar-se como líder entre os demais países da América Latina. Assim sendo, mantê-lo alinhado com os Estados Unidos era a principal pretensão do governo americano.

O Governo Militar procurou, de todas as formas, inclusive promovendo violenta repressão aos seus contrários, mostrar o Brasil como um país que dera um salto ao encontro do desenvolvimento.

O País começou a ser apresentado ao mundo, pelos governistas, como uma nação progressista, desenvolvimentista, a caminho de tornar-se uma grande potência. Na economia, estimulava-se o consumismo da classe média, que despontava como nova força social. O progresso e o desenvolvimento apregoado por todos, fazia com que houvesse uma corrida em busca de melhoria de vida e ascensão social. Paralelamente, o governo também fortaleceu todo o seu aparato repressivo e, com base na sua Doutrina de Segurança Nacional, procurou internacionalizar todo o processo econômico brasileiro e, ao mesmo tempo, eliminar focos internos de resistência. Resistência, essa, que já estava sendo disseminada para o interior do País e para alguns outros países sul-americanos, como os nossos vizinhos fronteiriços Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Venezuela e Colômbia, além do Chile e do Equador, na costa do Pacífico.

 Em alguns desses países os regimes democráticos também sofreram interrupção no mesmo período em que o poder militar se impunha no Brasil, sendo substituídos por ditaduras, civis ou militares.

 A preocupação com a Segurança Nacional era justificada pelo governo brasileiro como necessária para assegurar ao País continuar seu crescimento de forma segura, impedindo o avanço sistemático do comunismo.

Nesse sentido, o General Breno Borges Fortes, então comandante do Estado Maior do Exército, ao proferir discurso em Caracas, na Venezuela, durante a 10ª Conferência dos Exércitos Americanos, publicado no Jornal da Tarde de 10 de setembro de 1973, afirmou, referindo-se aos que se opunham ao governo que “O inimigo usa mimetismo, se adapta a qualquer ambiente e usa todos os meios, lícitos e ilícitos, para lograr seus objetivos. Ele se disfarça de sacerdote ou professor, de aluno ou de camponês, de vigilante defensor da democracia ou de intelectual avançado; vai ao campo e às escolas, às fábricas e às igrejas, à cátedra e à magistratura; enfim, desempenhará qualquer papel que considerar conveniente para enganar, mentir e conquistar a boa fé dos povos ocidentais.Daí porquê a preocupação dos Exércitos em termos de segurança do continente  deve consistir na manutenção da segurança interna frente ao inimigo principal; este inimigo, para o Brasil, continua sendo a subversão provocada e alimentada pelo movimento comunista internacional.”

Para adequar-se à Doutrina de Segurança Nacional, o governo revolucionário além de criar organismos militares como o Serviço Nacional de Informações/SNI, o Centro de Informações do Exército/ CIE, o Centro de Informações da Aeronáutica/CISA e a reformulação do Centro de Informações da Marinha/CENIMAR, que já funcionava desde 1964, criou a Operação Bandeirantes/OBAN, em São Paulo, financiada com verbas de empresas nacionais e internacionais, dividida em três tipos de operações efetuadas durante 24 horas por dia: de buscas, de interrogatório e de análises. A Operação OBAN, como ficou conhecida, contava como elementos militares das três armas das Forças Armadas, da Polícia Federal, das Polícias Estaduais e até do Corpo de Bombeiros. Seu custo operacional era muito elevado, em razão das operações que realizava, tendo sido necessário, para o seu financiamento, um sistema de arrecadação permanente de recursos entre empresários nacionais e estrangeiros com atuação no Brasil, que apoiavam o golpe militar e temiam o aumento da influência comunista na América Latina, via Cuba.

A presença do Brasil na região passou a ser vista como de tal importância, que alguns setores militares mais duros brasileiros e americanos passaram a discutir a necessidade de tornar o País, no menor prazo possível, uma potência atômica.

 Assim, poderiam contrabalançar a ofensiva da URSS ao tentar usar a ilha caribenha de Cuba como ponta de lança avançada, colocando nela algumas ogivas nucleares, considerando estar situada tão perto dos americanos, como se fizesse parte do seu próprio quintal.

O sonho nuclear brasileiro remonta aos longínquos anos 30, com o início das pesquisas relativas à física nuclear sendo feito na Universidade de São Paulo. Estenderam-se, depois, pouco a pouco a outras Universidades, espalhadas pelo País, como em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.

 Aqueles cientistas que sonhavam com o Brasil como uma potência atômica contavam, já na década de 50, com institutos de pesquisas equipados com reatores atômicos experimentais e grupos próprios de pesquisadores atuando em sofisticados laboratórios.

Mais precisamente em 15 de Janeiro de 1951 foi criado pelo governo o Centro Nacional de Pesquisas – CNPq, encarregado da coordenação e orientação de toda a  produção científica, e do desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Brasil. Era, com toda a certeza, um grande passo dado pelo País em direção ao desenvolvimento que levaria a busca de uma política nuclear. Acordos e parcerias de troca de informações já vinham sendo firmados entre os Governos  do Brasil e dos Estados Unidos, desde a partir da década de 40.

 Através desses acordos, o Brasil pretendia ter acesso às tecnologias que possibilitavam o domínio da energia atômica. Aos Estados Unidos interessava também, além do alinhamento do Brasil com suas políticas anticomunistas, ter acesso aos minérios atômicos existentes em algumas áreas do  nosso território, principalmente o Urânio.

Em 04 de Outubro de 1967 o Presidente Arthur da Costa e Silva, em reunião ministerial realizada no Palácio do Planalto, em Brasília, lançou oficialmente o programa brasileiro de energia nuclear, denominado como Política Nacional de Energia Nuclear.

Em 1º de Junho de 1968, em Nova York, nos Estados Unidos, foi assinado por 190 países o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que começou a vigorar em 05 de março de 1970. O governo brasileiro não assinou o Tratado e, em 1971, adquiriu da empresa americana Westinghouse o seu primeiro reator nuclear, que foi instalado na Usina Nuclear de Angra I, situada em Angra dos Reis, cidade do litoral fluminense, cujas obras de construção tiveram seu início em Março de 1972.

O Brasil, País do Futuro, imaginado pelo escritor austríaco Stefan Zweig na década de 1940, tornava-se agora nuclear, na década de 1970. Começava, na visão do Governo, o Brasil Novo.                    

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