Ver-a-feira

Jacqueline Lima Coelho Sampaio

Menino que corre

Que corre, que anda

Seu andar é o correr

Por entre feirantes, cachorros, gatos

Olha o monte de lixo!

Dribla os obstáculos com a maestria que a condição de moleque

travesso proporciona a ele

O cheiro da fruta, do chorume

Os mendigos com seus dialetos próprios

Ignora a tudo, correndo como o único louco lúcido do lugar

A feira ferve – é dia de peixe fresco e promoção

Alheio a tudo ele corre, brincando com outras crianças

Sozinho também vale

E todo o fascínio daquele monte de gente a comprar

Como compram os capitalistas!

Ele só quer correr, só quer brincar

Esquecer a pobreza, o pai ausente, a mãe que bebe e o chiclete que

deveria vender no sinal

A feira fervilha de gente e de bicho

Ele se fascina com tudo e corre, liberto dos problemas terrenos

Precisa apreciar enquanto não cresce (crescer é o problema)

Só o seu olhar infantil ainda captar a magia daquele lugar

Pulsa como um coração aquela feira

Ele é só célula, vagando, sendo jogado para lá e para cá a cada pulsar

E isso acaba

O Sol desce no horizonte e acaba

O mundo está ficando tão silencioso!

Ao voltar ao barraco, próximo ao Ver-o-Peso, ele apanha

-Safado! Não vendeu nenhum chiclete?

Não importa…

Os ferimentos ardem, mas não importa

Vale a pena viver um sonho

Vale a pena ser um pássaro livre que cheira a priprioca

Dorme, exausto

Amanhã é outro dia e a feira fervilhará de vida

O coração vai pulsar uma vez mais

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