OPERAÇÃO MUTUM / O COMUNICADO / A PESQUISA

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(Episódios 14 e 15)

Eu havia acabado de tomar o café da manhã, com meus avós, quando fui informado por um primo, que trabalhava na Prefeitura, de que estaria acontecendo a porta fechadas, no salão solene da Prefeitura Municipal, uma reunião da qual participavam o Prefeito, Dr. Arquimedes de Souza, os três comandantes militares, Major Alfredo, do Exército, Major Lemos, da Aeronáutica e Capitão-de-Fragata Coutinho, o Juiz de Direito Dr. Altamiro Lages, o Presidente da Câmara Municipal Pastor Freitas e outras pessoas de influência na cidade.

Como não podia deixar de ser, a intensa movimentação de tropas militares na região havia despertado a atenção da imprensa regional e, consequentemente, acorreram para Mutum jornalistas de diversas partes, inclusive de emissoras de TV afiliadas às grandes Redes Nacionais de Televisão.

 A Praça Benedito Valadares estava atulhada de gente e de carros, alguns equipados com aparelhagens especiais que os transformavam em verdadeiras estações móveis de Rádio e Televisão. Fios e cabos de todos os tipos, dimensões e tamanhos se espalhavam pelo chão, em várias direções.

Todos da imprensa foram autorizados a assistir a reunião, mas advertidos de que fazer gravações, fazer fotos, bem como filmar não seria permitido.

Durante a reunião, que decorreu em um clima tranquilo, mas cercado de muitos mistérios, foram fornecidas as informações oficiais do Governo sobre o que estava, na realidade, acontecendo naqueles dias em Mutum. Em nome das Forças Armadas falou o Major Alfredo, representante do Exército.

Primeiramente, informou que as Forças Armadas Brasileiras, ali representadas por tropas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, em cumprimento de determinação do Gabinete Militar da Presidência da República, estava assumindo militarmente o comando da cidade, pelo prazo que se fizesse necessário. Tinham como missão efetuar buscas e localização de bombas que tinham sido, acidentalmente, deixadas cair por um avião militar, sobre a cidade.

Explicou então que tropas de combate do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, sediadas no Rio de Janeiro, estavam participando de manobras militares conjuntas de defesa marítima, no litoral do Espírito Santo, juntamente com tropas militares dos Estados Unidos da América do Norte e do Canadá. E que um dos aviões bombardeiros B-26 da FAB, que iria se incorporar às tropas, ao sobrevoar Mutum, sofreu uma pane, e, precisando livrar-se das bombas que transportava, deixou-as cair na região.

Infelizmente, explicou o Major, a localização exata de onde caíram não foi registrada em mapa, como deveria ter ocorrido, em virtude da pane nos aparelhos de registro do vôo. Mesmo assim, podia garantir e garantia que, para a localização e recuperação de todas as bombas, seriam empregados todos os recursos de que dispunham e que esses recursos eram os mais modernos existentes. Assegurou que as bombas eram seguras e seriam encontradas, com certeza, antes que pudessem se tornar um perigo para a população.

 Terminou dizendo que as Forças Armadas brasileiras contavam com a ajuda de toda a população de Mutum, que todos deveriam manter a tranquilidade, bem como evitar situações que pudessem atrapalhar as buscas e a recuperação dos artefatos militares. Terminou sua fala garantindo que, findada a missão com a localização e o recolhimento das bombas, o comando da cidade seria devolvido imediatamente aos civis que a governavam.

Acabada a reunião, tudo o que havia sido nela informado pelo Major Alfredo foi emitido um boletim e distribuído para a imprensa que se incumbiria de divulgar os fatos e a as medidas adotadas pelas autoridades para toda a população. Carros militares, equipados com alto-falantes passaram a percorrer as ruas, em todas as direções, transmitindo de maneira bem clara as informações oficiais.

Agora, sim, eu tinha toda a certeza de que ali havia coisas. A meu ver, não tinha muita lógica o que estava acontecendo.     

As manobras conjuntas envolvendo forças militares brasileiras e estrangeiras remontavam aos tempos da Segunda Guerra Mundial, quando o Presidente Getúlio Vargas assinou uma aliança formal com os Estados Unidos, em 1942. No entanto, aeronaves de guerra americanas, desde maio de 1941, já atravessavam o Atlântico e utilizavam-se das bases aéreas situadas em terras brasileiras para as suas ações.

 É certo que o Alto Comando do Exército brasileiro se posicionava contrário à presença das tropas americanas no território brasileiro. Mas a Marinha de Guerra dos Estados Unidos já estava autorizada pelo Governo do Brasil a utilizar-se dos portos de Recife, em Pernambuco e de Salvador, na Bahia, e o fazia desde 1941. Portanto, os dois Países já mantinham ações militares conjuntas mesmo antes da assinatura oficial da aliança.

Em 1942 o Brasil abriu em definitivo todos os portos e as bases aéreas e navais no seu território para as operações militares das forças do Vice-Almirante Jonas Ingram, Comandante Norte-Americano das tropas do Atlântico Sul.

 Por decisão do Presidente Vargas, o comandante Ingram assumiu também, de maneira informal, o comando de todas as forças aéreas e navais do Brasil, tornando-se, à partir daí, o verdadeiro responsável pela defesa marítima de todo o território  nacional.

 Nesse mesmo ano de 1942, em agosto, o nosso País sofreu as primeiras agressões dos alemães, com o bombardeio de navios brasileiros, no litoral da Bahia e de Sergipe, com centenas de mortos. Reagindo, o Presidente Getúlio Vargas  declarou solenemente  guerra à Alemanha e à Itália. Mas, hoje, ali em Mutum, não estávamos em guerra com ninguém.

            A PESQUISA

Por que as bombas ainda não estavam sendo procuradas, dois dias após terem caído? Por que o Major havia dito que seriam encontradas antes que se tornassem um perigo para a população? A que tipo de perigo ele estava se referindo? Que tipo de bombas eram as que caíram em Mutum? Quantas eram?

Durante o restante do dia dediquei-me a buscar respostas para essas e outras perguntas que não saíam da minha cabeça. Não obtive nenhum resultado satisfatório. Apenas consegui confirmar que estava acontecendo, no litoral capixada, uma manobra conjunta das Forças Armadas brasileiras e americanas, podendo-se, do litoral, observar vários navios de guerra e alguns submarinos em alto mar.

 A informação do Major Alfredo procedia. Ali, no litoral do Espírito Santo estava o início de tudo o que acontecia em Mutum. A operação militar conjunta fora causa de um avião bombardeiro desgarrado da sua esquadrilha lançar bombas sobre a cidade. Mas, que bombas seriam aquelas?

Para entender melhor os fatos e tirar algumas dúvidas e preocupações que insistiam em não me deixar sossegado, fiz contato com a redação do Jornal do Povo, em Belo Horizonte, solicitando a Manfredo Kurt que me enviasse, por fax, todas as informações possíveis sobre o que pensavam os governantes militares sobre a política de segurança nacional.

 A pesquisa foi feita e as informações me foram enviadas, como havia solicitado.

Já fiz alusão antes a momentos da política brasileira em que presenciamos manifestações de grupos favoráveis a que o Brasil, através de sua política externa, se afastasse do capitalismo, representado pelos Estados Unidos da América do Norte e se aproximasse do comunismo, representado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS. Essas manifestações ao se tornarem públicas, em nosso País, começaram a ser vistas por algumas correntes militares, como sendo uma ameaça à soberania nacional.

 A discussão que se impunha, ainda no campo das idéias, fazia-se, em princípio, apenas e tão somente em torno da soberania nacional.

A soberania, para que tenhamos uma melhor compreensão do termo, é una, integral e universal. O que significa que não pode ser relativa, nem condicionada por um poder normativo dominante que a impeça de ser plena.

 As únicas exceções possíveis de aceitação são aquelas que dizem respeito às exigências relativas à convivência pacífica das nações soberanas, previstas no Direito Internacional, regulamentadas pela Organização das Nações Unidas – ONU. Assim, consideravam os nacionalistas que os Estados Unidos, embora representassem o capitalismo em todo o mundo, respeitavam a soberania dos países sob a sua influência, uma vez que essa influência era sentida apenas no campo econômico. Os países do bloco capitalista eram soberanos.

A URSS, pelo contrário, país de dimensão continental criado em 1922, como resultado da Revolução Russa de 1917, formado pela união das repúblicas da Rússia, Ucrânia, Bielorússia, Transcaucásia, Estônia, Lituânia, Letônia, Moldávia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Quirguistão e Tadjiquistão, tinha apenas um Governo Central, localizado em Moscou, na Rússia, conhecido como Soviete Supremo.  Então, logicamente, concluíam os mesmos nacionalistas que os países que compunham o bloco soviético não possuíam soberania.

O Brasil, em todas as vezes em que precisou alinhar-se a um dos blocos de influência no mundo, sempre o fez para figurar ao lado dos Estados Unidos. Como nas ocasiões da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais.

Quando aconteceu a Primeira Guerra Mundial, o Brasil, inicialmente respaldado pela Convenção de Haia, declarou oficialmente sua neutralidade em 4 de agosto de 1914.

 Em 1917, a 11 de abril o Brasil declarou guerra à Alemanha após o navio brasileiro “Paraná”, um dos maiores da marinha mercante brasileira, carregado de café, ser afundado pelos alemães. Três brasileiros foram mortos.

 O Brasil foi o único país latino-americano a participar da Primeira Guerra mundial. Sua participação se deu mediante o envio de alguns pilotos de aviões, navios de guerra e apoio médico. Os brasileiros foram incumbidos do patrulhamento do Atlântico Sul, como forma de impedir o ataque de submarinos alemães.

 Durante a guerra o Brasil aumentou suas exportações para os países beligerantes, principalmente de borracha, cacau, café e açúcar.

Durante a Segunda Guerra Mundial a Força Expedicionária Brasileira – FEB participou da retomada e libertação da Itália pelas tropas aliadas.

A campanha das Forças Armadas Brasileiras – FEB na Europa previa o envio de até 100.000 brasileiros para os campos de batalha. No entanto, envolveu de 1943 até 1945, 25.834 homens e mulheres, divididos em uma Divisão de Infantaria, uma Esquadrilha de Reconhecimento e um Esquadrão de Caças.

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