OPERAÇÃO MUTUM

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José Araujo de Souza

(CAPÍTULOS ANTERIORES)

INTRODUÇÃO

Embora fosse uma quarta-feira muito especial, o 31 de agosto de 2016 em nada parecia diferente de um dia comum de quarta-feira. O comércio abrira suas portas e funcionou normalmente, o trânsito era complicado como em todas as quartas-feiras e as ruas apresentavam-se cheias de gente indo e vindo, agitadas.

Em Belo Horizonte, onde eu me encontrava, da janela do apartamento no décimo andar do prédio em que moro, fiquei por um longo tempo observando o ir e vir das pessoas lá embaixo, achatadas,  como eram vistas de cima para baixo. Meu campo de visão alcançava as esquinas de Caetés com Amazonas e Bahia, uma parte de Avenida dos Andradas e um pedacinho de Praça 7, um pouco mais distante. Podia, também, ouvir o pipocar de foguetes que explodiam por todo o centro da cidade e alguns bairros próximos. Além do buzinaço provocado pelos carros que circulavam. E, naturalmente, os gritos de “Fora Dilma” e “É golpe”. Vez por outra uns palavrões também podiam ser ouvidos.

Na sala onde me encontrava, a televisão alternava  comentários de especialistas, analistas, políticos e gente do povo, gente comum, sobre o final do processo de impeachment da Presidente Dilma Rousseff. A sessão de julgamento da Presidente, iniciada na quinta-feira, dia 25, tinha sido encerrada nessa quarta-feira, às 13h35, quando sessenta e um senadores concluíram pela sua culpabilidade perante as acusações que lhe haviam sido feitas e, consequentemente, pela cassação de seu mandato. Vinte senadores votaram contra. Estava, dessa forma, encerrado o governo do PT, iniciado com a eleição de Lula, empossado em 1º de janeiro de 2003, sucedendo a Fernando Henrique Cardoso, do PSDB.

Em lugar da Presidente Dilma assumiu, nesse mesmo dia, o seu Vice-Presidente Michel Temer, do PMDB. Sentado frente à TV fiquei pensando em como, novamente, eu assistia a mais uma mudança radical na História do Brasil.

Sem ter nada de mais importante para fazer do que ficar ali, ouvindo os noticiários da TV, senti curiosidade em saber mais sobre os presidentes do Brasil, principalmente como terminaram os seus governos. Liguei o computador e me dispus a pesquisar na Internet, o governo de cada um, desde o primeiro até o último, o de Dilma, que acabara de ver terminar.

O primeiro fora o Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, nascido em Alagoas da Lagoa do Sul, hoje Marechal Deodoro (AL), que proclamou a República e governou de 15/11/1889 a 23/11/1891, quando renunciou ao mandato. Foi sucedido por Floriano Vieira Peixoto, nascido em Maceió (AL) que ficou no poder de 23/111891 a 15/11/1894. Os demais presidentes foram Prudente José de Morais Barros, nascido em Itu (SP), de 15/11/1894 a 15/11/1898. Manuel Ferraz de Campos Sales, nascido em Campinas (SP), de 15/11/1898 a 15/11/1902. Francisco de Paula Rodrigues Alves, nascido em Guaratinguetá (SP), de 15/11/1902 a 15/11/1906. Afonso Augusto Moreira Pena, nascido em Santa Bárbara (MG), de 15/11/1906 a 14/07/1909, quando faleceu no exercício do mandato. Nilo Procópio Peçanha, nascido em Campos dos Goytacazes (RJ), de 14/07/1909 a 15/11/1910. Hermes Rodrigues da Fonseca, nascido em São Gabriel (RS), de 15/11/1910 a 15/11/1914. Venceslau Brás Pereira Gomes, nascido em Itajubá (MG), de 15/11/1914 a 15/11/1918. . Francisco de Paula Rodrigues Alves, eleito para iniciar o mandato em 15/11/1918 faleceu em 16/01/1919 sem assumir o cargo. Delfim Moreira da Costa Ribeiro, nascido em Cristina (MG), de 15/11/1918 a 28/07/1919. Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa, nascido em Umbuzeiro (PB), de 28/07/1919 a 15/11/1922. Artur da Silva Bernardes, nascido em Viçosa (MG), de 15/11/1922 a 15/11/1926. Washington Luís Pereira de Sousa, nascido em Macaé (RJ), de 15/11/1926 a 24/10/1930, quando foi deposto. Júlio Prestes de Albuquerque, nascido em Itapetininga (SP) eleito para iniciar o mandato em 15/11/1930 não chegou a assumir, tendo sido o único presidente eleito pelo voto direto no Brasil a ser impedido de tomar posse. Junta Governativa Provisória de 1930, formada por General Augusto Tasso Fragoso, nascido em São Luís (MA), Almirante José Isaías de Noronha, nascido no Rio de Janeiro (RJ) João de Deus Mena Barreto, nascido no Rio de Janeiro (RJ), de 24/10/1930 a 03/11/1930.  Getúlio Dornelles Vargas, nascido em São Borja (RS), de 03/11/1930 a 29/10/1945, tendo sido presidente provisório de 1930 a 1934, presidente constitucional de 1934 a 1937  e presidente ditador de 1937 até  29/10/1945, quando foi deposto do cargo. José Linhares, nascido em Guaramiranga (CE), de 29/10/1945 a 31/01/1946.   Eurico Gaspar Dutra, nascido em Cuiabá (MT)de31/01/1946 a 31/01/1951. Getúlio Dorneles Vargas de 31/01/1951 a 24/08/1954. João Fernandes Campos Café Filho, nascido em Natal (RN), de 24/08/1954 a 8/11/1955, quando foi deposto. Carlos Coimbra da Luz, nascido em Três Corações (MG), de 08/11/1955 a 11/11/1955. Assumiu a Presidência da República por ser o Presidente da Câmara dos Deputados, em razão do afastamento do Presidente Café Filho ( Vice-Presidente de Getúlio Vargas, havia assumido o governo após o seu suicídio), tendo sofrido impeachment pelo Congresso Nacional. Em seu lugar assumiu o 1º Vice-presidente do Senado FederalNereu de Oliveira Ramos, nascido em São José dos Pinhais (SC)  de 11/11/1955 a 31/01/1956. Juscelino Kubitschek de Oliveira, nascido em Diamantina (MG) de 31/01/1956 a 31/01/1961. Jânio da Silva Quadros, nascido em Campo Grande (MT) de 31/01/1961 a 25/08/1961. Pascoal Ranieri Mazzilli, nascido em Caconde (SP) de 25/08/1961 a 07/09/1961,  após a renúncia do titular Jânio Quadros, e durante a ausência do vice-presidente João Goulart, que estava em visita oficial à República Popular da China. João Belchior Marques Goulart, nascido em São Borja (RS)  de  07/07/1961 a  01/04/1964, quando foi deposto pelo Golpe Militar de 1964. Pascoal Ranieri Mazzilli de 02/04/1964 a 15/04/1964.  Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, nascido em Fortaleza, de 15/04/1964 a 15/03/1967. Marechal Artur da Costa e Silva, nascido em Taquari (RS) de 15/03/1967 a 31/08/1969, quando afastou-se da chefia do governo por motivo de doença . Junta Governativa Provisória de 1969 ( formada por General Aurélio de Lira Tavares, Ministro do Exército, nascido em João Pessoa (PB),
Almirante Augusto Hamann Rademaker Grünewald,  Ministro da Marinha, nascido no Rio de Janeiro (RJ) e
Márcio de Souza Mello, Ministro da Aeronáutica, nascido em Florianópolis (SC)) de 31/08/1969 a  30/10/1969. General Emilio Garrastazu Medici, nascido em Bagé (RS), de 30/10/1969 a 15/03/1974.  General Ernesto Beckmann Geisel, nascido em Bento Gonçalves (RS), de 15/03/1974 a 15/03/1979. General João Baptista de Oliveira Figueiredo, nascido no Rio de Janeiro (RJ), de 15/03/1979 a 15/03/1985. Tancredo de Almeida Neves, nascido em São João Del-Rei (MG).Eleito, não chegou a assumir o mandato. José Sarney de Araújo Costa (José Ribamar Ferreira de Araújo Costa), nascido em Pinheiro (MA), de 15/03/1985 a 15/03/1990. Fernando Affonso Collor de Mello, nascido no Rio de Janeiro (RJ), de 15/03/1990 a 29/12/1992, quando teve o seu impeachment aprovado pelo Senado Federal. Itamar Augusto Cautiero Franco, nasceu a bordo de um navio na rota Salvador/Rio de Janeiro e teve o seu Registro de Nascimento feito em Salvador (BA), de 29/12/1992 a 01/01/1995.  Fernando Henrique Cardoso, nascido no Rio de Janeiro, de01/01/1995 a 01/01/2003 – Luiz Inácio Lula da Silva (Luiz Inácio da Silva), nascido em Caetés (PE), de 01/01/2003 a 01/01/2011 – Dilma Vana Rousseff, nascida em Belo Horizonte (MG), de 01/01/2011 – 31/08/2016 – e, agora, Michel Miguel Elias Temer Lulia, nascido em Tietê (SP).

Estou ficando velho, pensei. Do dia em que nasci, até hoje, já aconteceram vinte e cinco presidentes.

Quando conclui meu pensamento, tive minha atenção despertada para uma estranha coincidência. O primeiro dos presidentes da minha época, Getúlio Vargas, foi impedido de terminar o seu mandato no período conhecido como Ditadura do Estado Novo, exatamente no dia em que nasci, 29 de outubro de 1945, deposto pelo Alto Comando do Exército. A última presidente eleita foi Dilma, também impedida de terminar o seu segundo mandato, tendo o seu processo de impeachment votado e aprovado pelo Senado Federal.

Dediquei o resto da tarde e uma boa parte da noite ao acompanhamento das repercussões da cassação da Presidente Dilma, posse do Vice-Presidente Temer, agora Presidente e manifestações a favor e contra o impeachment.  Quando desliguei a TV e resolvi que já era hora de ir dormir, passava de duas horas da madrugada. 

Não tive um sono tranquilo. Custei muito para pegar no sono, acordei várias vezes agitado e tive sonhos não muito agradáveis. O dia havia sido muito diferente da minha rotina.

Às seis da manhã, acordei assustado e, num pulo, sentei-me na cama. Em meus ouvidos ainda ressoavam as palavras que eu tinha ouvido, durante o meu sono e que me fizeram acordar. Imediatamente as identifiquei como sendo ditas por Manfredo Kurt que tinha gritado com sua voz rouca e seu português com sotaque germanizado  “E o livro, porra. Não vai escrever mais não, seu bosta?”

Completamente desperto, levantei-me e me dirigi para o banheiro enquanto dizia baixinho “Calma, Alemão. Vou escrever, sim. Começo ainda hoje. Não precisa vir me assombrar. Pode continuar descansando em paz”.

                                            A ORIGEM

Mutum ao contrário do que o nome pode sugerir, não é nenhuma dessas metrópoles modernas e superpovoadas como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou Salvador, com as quais só tem semelhança por estar, também, situada no Brasil. Pelo contrário, é uma pequena cidade de Minas Gerais, distante por rodovia uns trezentos e poucos quilômetros de Belo Horizonte, Capital do Estado, para onde acorrem os mutuenses, nome dado a quem nasce em Mutum, quando querem, como dizem por lá, tomar um banho de civilização.

 Só não gostam, quando estão na capital, de serem chamados de gente do interior. E nisto estão certos, uma vez que Mutum, na realidade, em linha reta, dista não mais de setenta ou, quando muito, oitenta quilômetros do mar que banha as costas do Espírito Santo. Mutum, portanto, é uma cidade mais litorânea que Belo Horizonte. Esta, sim, uma cidade do interior. Foi lá, em Mutum, que fui criado.

Meu nascimento ocorreu dias antes de os meus pais se mudarem do pequeno vilarejo chamado Assaraí, pertencente à época ao município vizinho de Ipanema, onde moravam, para outra cidade, Aimorés, também próxima de Mutum, onde, segundo pensavam, a vida lhes seria mais promissora. O distrito de Assaraí hoje pertence ao município de Pocrane. O município de Pocrane foi desmembrado do município de Ipanema em 1948, passando a ter, como distritos, além de Assaraí, Barra da Figueira, Vila de Cachoeirão e Vila de Taquaral.

Para chegarem à cidade de Aimorés, para onde estavam se mudando, teriam que passar por Mutum, onde moravam os meus avós, Olívio e Cotinha, pais de minha mãe.

 Segundo me disseram bem mais tarde, quando já me entendia por gente, eu, na época da mudança da minha família, adoeci e, com dois meses de idade, fui deixado na casa dos meus avós, para que cuidassem de mim até que eu pudesse, depois de curado, ir para a companhia dos meus pais e de meus irmãos. Só que nada disso aconteceu porque eu, simplesmente, depois de curado, com mais ou menos seis meses de idade, neguei-me a sair da companhia dos meus avós, demonstrando isso através de prantos e birras muito convincentes.

Os meus avós, por sua vez, reforçando a minha vontade de ficar, não me quiseram entregar de volta, prometendo cuidarem de mim como se fossem eles próprios os meus pais. Assim, acabei ficando e vivendo com eles por mais de vinte e dois anos.

Mais tarde, os meus pais mudaram-se em definitivo para Mutum, onde minha mãe tornou-se professora primária estadual e meu pai funcionário da Prefeitura Municipal.

 Mesmo morando na mesma cidade onde moravam os meus pais, continuei morando com os meus avós. Visitava os meus pais em sua casa todos os dias. Mas morava com os meus avós. Eu tinha uma forma especial de me dirigir a eles. Aos meus avós eu chamava de Pai e de Mãe. Ao meu pai chamava Paiplício (ele se chamava Simplício) e à minha mãe chamava Mãeoutra (a minha mãe foi Geracy).

Em Mutum vivi a minha infância e minha adolescência. Iniciei meus estudos e, no único colégio da cidade na minha época, conclui o primeiro e o segundo graus.

Como era devorador de livros e tinha ânsia de escrever, logo cedo me envolvi com a nata da cultura local, formada por uma elite privilegiada que tinha acesso às informações atualizadas, de toda parte do mundo.

 Estava sempre bem informado e abastecido de livros, jornais e revistas para saciar a minha fome de leitura. Como consequência, me via sempre envolvido na criação de grêmios literários e jornais acadêmicos, daí nascendo a minha vontade de um dia ser jornalista. Assim, antes de tornar-me o que sou hoje, professor, acabei, primeiramente, sendo jornalista, após mudar-me para a Capital, em 1969, onde permaneço residindo até este ano de 2016.

 Foi em Belo Horizonte, no ano de 1975, que os acontecimentos que vou relatar me alcançaram.

O CENÁRIO

O Brasil havia passado por uma grande transformação política em 1964, quando aconteceu uma revolução política que colocou o Governo Federal e o País sob regime militar, dirigido por um Presidente escolhido pelas três armas, Exército, Marinha e Aeronáutica, sem que o povo pudesse participar dessa escolha. Uma nova Constituição substituiu a que existia até então. Os direitos e garantias individuais foram suspensos sob a alegação de defesa do regime e uma ditadura implantada, sem data para o retorno futuro aos princípios democráticos.

O povo brasileiro a tudo assistiu sem que acontecesse grande resistência. Um pouco em função da extinção dos partidos políticos existentes antes de 1964, mas, principalmente, pela imposição, pelos revolucionários de um regime de força, amparado pelas ações violentas de repressão a quem se colocasse contra o novo regime. O Poder Executivo passou a ter preponderância sobre os outros poderes constitucionais – Legislativo e Judiciário.

As eleições diretas para a escolha política dos governantes nos três níveis – Federal, Estadual e Municipal – foram suspensas. Instalou-se em todo o País um clima de medo e um regime de exceção onde o totalitarismo prevaleceu.

Após 1964, o País dividiu-se entre os que apoiavam as ações dos governantes responsáveis pela revolução e os que, contrários, a consideravam pura e simplesmente um Golpe Militar e ansiavam pelo retorno à situação de direito, como diziam às escondidas.

Os militares iam impondo a sua vontade e a sua força e os contra-revolucionários iam se organizando em grupos clandestinos, tentando encontrar formas e meios de resistirem. Ficaram conhecidos como subversivos e eram procurados e presos pelos milirares.

A esse grupo podemos agregar também os que ambicionavam a derrubada do regime militar, não para o retorno do estado de direito existente anteriormente, mas para a implantação de uma outra forma de governo, esquerdista, inspirado nos ideais comunistas, tendo como exemplo o governo adotado em Cuba, por Fidel Castro e seus seguidores.

O passar dos anos e a história recente do Brasil nos mostram alguns desses personagens ainda em evidência. Mas, contrariamente ao que pensavam, ao que pregavam e defendiam naqueles dias de subversão e de resistência ao regime militar, apresentam-se hoje como se tivessem sido, no passado, defensores do retorno do País ao um regime de democracia. Esta, no entanto, não é a verdade. Queriam objetivamente esses grupos, formado por marxistas originários em sua maioria do Partido Comunista do Brasil – PC do B, pela força, resistir ao governo militar que consideravam como usurpador, que havia deposto o Presidente da República, derrubá-lo e implantar uma ditadura popular de esquerda, comunista. Tinham como modelo e exemplos os movimentos e governos revolucionários liderados por Fidel Castro, ditador em Cuba e Mao-Tsé-Tung, ditador na República Popular da China.

Da mesma forma que o governo tinha simpatizantes, em todas as localidades do País havia também subversivos.

Nos grandes centros e nos pequenos vilarejos, os dois grupos se contrapunham. E se enfrentavam. A vantagem sempre era dos governistas porque podiam, com base em simples desconfianças, denunciar os que consideravam ou suspeitavam serem subversivos. Esses, quando denunciados, eram feitos prisioneiros políticos, em algumas vezes até torturados ou mortos. Consequentemente procuravam agir sempre às escondidas, na clandestinidade.

 Viviam vida dupla, procurando participar de ações contra o governo, mas procurando também, por outro lado, manter sempre suas atividades normais como despistes, para não levantar suspeitas que pudessem proporcionar motivos para suas prisões. Alguns grupos pegaram em armas, transformando ruas, praças e avenidas em campos de batalha. Mortes aconteceram de ambos os lados. Assaltos a bancos tornaram-se comuns, com o botim servindo, segundo os assaltantes, para financiar a aquisição de mais armas para fortalecer e continuar a sua luta. Já o governo considerava e divulgava que essas ações nada mais eram que roubos efetuados por quadrilhas de meliantes comuns, que se aproveitavam do momento para se fazerem passar por grupos políticos em resistência ao governo.

Quando perseguidos nas cidades grandes os contra-revolucionários embrenhavam-se pelo interior, onde faziam treinamentos práticos de guerrilha. A chamada guerrilha urbana, uma forma de atacar de forma súbita e desaparecer de forma mais rápida ainda. Esse era o Brasil de ponta a ponta após 1964.

O Governo Militar se sustenta até quando, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo de Almeida Neves é eleito Presidente da República, através de uma eleição indireta feita através de um Colégio Eleitoral composto pelos membros do Congresso Nacional (Senadores e Deputados). O Senador por Minas Gerais, representando o PMDB, que era oposição ao Governo, obteve 480 votos e seu adversário Paulo Maluf, Deputado Federal por São Paulo representante do PDS, que apoiava o Governo, 180 votos. Aconteceram ainda 19 abstenções e 9 ausências.  

A vitória de Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral, foi o resultado de um processo de reivindicação popular pelo retorno ao regime democrático.  O povo brasileiro não suportava mais a ditadura militar instalada desde 1964.

OS PODEROSOS

Em Belo Horizonte, como jornalista, acompanhava os acontecimentos políticos do País como observador privilegiado, uma vez que tinha acesso a informações que os outros cidadãos comuns não tinham e nem sonhavam ter.

 A imprensa, de uma forma geral, embora não contasse com total liberdade, considerando a censura existente em todos os órgãos informativos, ainda se auxiliava dos informantes em todas as áreas de influência, indicando o que seria importante noticiar.

 Notícias nunca faltaram, naquele período obscuro na vida dos brasileiros, embora nem todas as que foram escritas tivessem sido divulgadas. Assim como também nem todas as que foram noticiadas relataram essencialmente toda a verdade dos fatos apresentados. Naturalmente os fazedores de notícias sempre sabiam bem mais do que noticiavam.

Era normal que nós, os jornalistas, fossemos permanentemente vigiados, como se tivéssemos cometido ou fossemos, sempre, cometer algum crime. Isso, porque na condição de formadores de opinião, éramos considerados perigosos para o regime, uma vez que tínhamos a força da notícia  e o poder da persuasão e convencimento da opinião pública, através de nossos escritos, segundo constava dos manuais de orientação de combate aos subversivos, espalhados pelos quartéis.

No nosso caso específico, essas ações seriam as de divulgar informações e notícias contrárias ao governo, que deveriam ser enquadradas como de incitamento à resistência e à insubordinação.

 Considerados subversivos, os responsáveis por noticiar e por divulgar a notícia eram detidos e levados a interrogatório policial. Quase sempre eram processados, presos e, ao serem soltos, se um dia o fossem, ficavam colocados sob vigilância constante sob acusação de subversão.

Havia também partidários da situação, os governistas. E, como não podia deixar de ser, entre esses, alguns que considerávamos mais perigosos,  porque eram capazes de denunciar às autoridades militares os colegas de trabalho ou de profissão, os amigos e até familiares, em nome da defesa nacional.

 Por serem favoráveis ao governo então constituído, não tinham a preocupação de se manterem clandestinos, como os que faziam oposição aberta ou armada.

Com o passar do tempo e o aumento do rigor empregado na repressão, iam assumindo os postos mais altos nas instituições em que trabalhavam. Não importava se no serviço público ou na iniciativa privada.  Sua ascensão aos postos de comando era a certeza de que a empresa, não importando qual fosse, seria bem vista pelas autoridades militares. Os privilégios governamentais estariam, assim, garantidos.

Pior do que ser visto como sendo subversivo era levar a pecha de subversivo comunista. Nada podia ser pior. Nada podia ser mais perigoso. Afinal, a Revolução Democrática de 31 de março de 1964, como era conhecido e chamado o golpe militar ocorrido no Brasil naquela data, só aconteceu, segundo os seus líderes, para evitar que o país se tornasse comunista.

 Eles, os golpistas, foram, portanto, do seu ponto de vista, os verdadeiros salvadores da pátria brasileira, e, por conseguinte,  eram também os responsáveis pela manutenção da democracia.

O Presidente João Goulart, ou Jango, como era conhecido, entregaria o Brasil aos comunistas e assim perderíamos a liberdade que tanto apreciávamos, apregoavam. Felizmente tudo transcorrera sem muita resistência, principalmente armada, e milhares de vidas tinham sido poupadas da morte.

 Essa era a fala uníssona dos que fizeram a revolução e assim, como se houvessem ensaiado,  a justificavam.

Em 31 de março de 1964, quando o General de Exército Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria do I Exército, sediados em Juiz de Fora (MG), iniciou a marcha com suas tropas em direção ao Rio de Janeiro, a história do Brasil começava a mudar o seu rumo.

 Por mais de vinte anos futuros, os brasileiros viveriam debaixo de um regime ditatorial, de exceção, perderiam quase em sua totalidade os direitos políticos, veriam desrespeitados os seus direitos humanos e perderiam a felicidade, tendo que aprender a conviver, nas ruas, com tanques de guerra, barreiras policiais com militares armados de metralhadoras e com canhões colocados em pontos estratégicos nos grandes centros.

A revolução proporcionou aos brasileiros algumas situações novas, diferentes, esdrúxulas, até então inimagináveis.

Via-se, por exemplo, crescer enormemente o prestígio, poder e autoridade de pessoas comuns, que pertenciam às forças militares, entendendo-se não apenas à Marinha, Exército e Aeronáutica, mas também àqueles que compunham as Polícias Militares dos Estados, as Guardas Municipais e, principalmente, as Policias Civis.

Na realidade, todo aquele indivíduo que tivesse o poder de realizar detenção e conduzir à prisão era muito respeitado, tinha muito prestígio e era reconhecido como autoridade. Ao contrário, todos os que fossem civis, por não serem policiais nem militares, perderam clara e substancialmente o poder, o prestígio e autoridade. Assim, os Intelectuais, estudantes e professores foram os que mais perderam e se desvalorizaram, não importando o grau de instrução que tivessem.

 Do ponto de vista de credibilidade, mais valia um militar de qualquer patente, um detetive ou investigador, que um estudante universitário, um mestre ou um doutor em qualquer área do conhecimento humano. Quem, em qualquer circunstância, acreditaria cegamente em um intelectual no Brasil pós-revolução? Quem, em qualquer dessas circunstancias, desacreditaria de um militar pós-revolução?

Essas duas perguntas, feitas bem da forma como estou colocando e cujas respostas não deixavam nenhuma dúvida quanto ao que deve ser respondido, não fui eu que as fiz, de verdade. Foram feitas uma noite, durante uma das aulas a que assistia na faculdade. Quem as fez foi um dos colegas, chamado Nestor e ele mesmo as respondeu, de uma forma irrefutável, indiscutível, inquestionável. Disse-nos, a nós, seus colegas e ao nosso professor, que depois do acontecimento da revolução, bastava vestir uma farda qualquer, ou apresentar qualquer identificação policial para que a pessoa estivesse investida de toda uma autoridade superior. E que a palavra de uma autoridade, quando colocada em confronto com a de um civil, qualquer que fosse ele, seria sempre aquela a ser considerada e a que seria   verdadeira. E disse mais, o Nestor, que por ser a palavra de uma autoridade, não poderia ser contestada.

 Frisou ainda que “não importa para quem vai decidir a questão sobre de quem é a palavra verdadeira o nível intelectual do civil”, concluindo que “ele não terá autoridade nenhuma sobre o militar, o policial ou sobre aquele que fala pelo governo”.

Lembro bem que quando o Nestor fez as perguntas, estávamos debatendo exatamente a questão da autoridade e do poder adquiridos por um indivíduo quando vencia uma eleição e se elegia para um cargo político. Aí, o Nestor interrompeu o debate.

 Ele ficava sempre sentado lá no fundo da sala, rente à parede, nas últimas carteiras e nunca participava das discussões. Até então. Nesse dia, não só se pronunciou como fez um quase discurso de forma empolgada, tendo até o cuidado de usar um tom de voz que não deixasse dúvidas sobre o que queria dizer: “Acho que esse debate é uma pura e total perda de tempo” começou assim a sua fala. “Estão se esquecendo que vivem em um país onde não se elegem mais políticos. Qualquer coisa que disserem aqui deve ser entendida apenas como utopia. Quem determina, hoje, o que é certo ou errado, que possui poder e autoridade é quem veste uma farda ou pode apresentar uma identidade policial. Quem acreditaria cegamente em um intelectual no Brasil de hoje? Quem desacreditaria de um militar, neste nosso Brasil? Só quem é subversivo ou quem é comunista. E, para esses, temos isso” e o Nestor tirou da cintura um revólver, colocando-o sobre a carteira antes de concluir “ e metralhadoras e cadeia”.

 Descobrimos, assim, o que até então não sabíamos, que o Nestor era uma autoridade policial civil. Depois desse dia ele foi escasseando a sua presença em nossas aulas até abandonar o curso.

 Coincidentemente, alguns de nossos colegas, da minha sala e de outras turmas, começaram, também, a abandonar o curso.

Os comentários feitos à boca pequena, de forma bem despistada, confirmavam que alguns outros policiais e militares estiveram infiltrados em outros cursos na faculdade e que agora, depois do deslumbramento do Nestor, haviam abandonado os estudos e retornado às delegacias e aos quartéis. Não antes de denunciarem alguns “subversivos” que estudavam conosco e que, misteriosamente, desapareceram das salas de aulas sem trancarem a matrícula nem se transferirem.

 Passamos então a fazer uma brincadeira: quando alguém nos perguntava o que achávamos de alguma coisa ou de alguém, respondíamos rindo, em tom de brincadeira, que “eu não acho nada porque um amigo meu achou e nós não o achamos nunca mais”.                             OS CONTRÁRIOS    

Quando, em 1966, os jornais noticiaram a prisão de um grupo de subversivos no Vale do Aço, em Minas Gerais, houve um rebuliço em Mutum.

Descobriu-se que um dos presos, considerado o mais perigoso dentre todos, um dos cabeças do movimento de resistência naquela região do interior de Minas, era ninguém menos que o irmão de um dos mais conceituados moradores de Mutum, Carlos de Sá, funcionário público federal, responsável pelo escritório encarregado do registro de propriedades rurais na cidade e referência de honradez.

A notícia pegou a maior parte dos mutuenses de surpresa, pois eram poucos os que, gozando da intimidade de Carlos de Sá, sabiam da história política revolucionária do seu irmão.

 A esses poucos amigos, contara que seu irmão mais novo, Paulo de Sá, que vez por outra ia visitá-lo quando tirava férias, era metalúrgico e líder sindical em Ipatinga, onde trabalhava na USIMINAS.

A USIMINAS – Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais, indústria metalúrgica dedicada à produção de aços planos, destinados a atender ao mercado interno e à exportação, principalmente para o Japão, foi fundada em 25 de Abril de 1956, durante o Governo de Juscelino Kubitscheck.

Contando com participação em seu capital dos governos do Estado de Minas Gerais, do Brasil e do Japão, a USIMINAS teve a estaca inicial da construção de sua Usina cravada pelo Presidente JK, em 16 de agosto de 1958, em Ipatinga, então apenas um vilarejo com não mais de 300 habitantes, situado às margens do Rio Piracicaba.

Quando, em 26 de outubro de 1962 o Presidente João Goulart, o Jango, acendeu o primeiro alto-forno e inaugurou a Usina, com capacidade para produzir 500 mil toneladas de aço plano por ano, Ipatinga já contava com uma infraestrutura urbana idealizada pela empresa, capaz de abrigar, de forma definitiva, os cerca de dez mil trabalhadores que atuaram em sua criação e construção.

 Paulo de Sá foi um desses trabalhadores.

Dotado de uma visão política moderna para a época, comungava os ideais libertários daqueles que, após a revolução de 1964, sonhavam com a derrubada do governo militar instituído por ela.

Às escondidas, como era comum aos intelectuais da época, Paulo de Sá assinou filiação ao Partido Comunista do Brasil – PC do B, que, atuando sutilmente na clandestinidade, começava a montar uma estrutura de resistência, inclusive armada, ao governo revolucionário.

 Essa remontagem do partido dá-se, após 1964, com base na estrutura criada a partir de 18 de fevereiro de 1962, quando ocorreu a Conferência Extraordinária do Partido Comunista do Brasil, passando a adotar a sigla PC do B, para diferenciá-lo do Partido Comunista Brasileiro, acusado de ser oportunista e de direita.

Para expor, divulgar e expandir suas idéias o PC do B criou o jornal partidário “A Classe Operária”.

 Paulo de Sá torna-se um de seus colaboradores mais assíduos quando assume, em 1963, a liderança do seu Sindicato no Vale do Aço.

Foi na condição de aluno de Carlos de Sá, ainda no curso ginasial, que fui apresentado por ele ao seu irmão. Foi quando ouvi as primeiras alusões ao comunismo no Brasil e no mundo, feitas por um comunista.

 Antes, só havia estudado o assunto em livros escolares, que procuravam destacar apenas alguns momentos da ação comunista, enfatizando o fato de o Partido ter sido proibido no Brasil desde 1947, quando, por decisão do Supremo Tribunal Federal, em 7 de maio, o Partido Comunista Brasileiro – PCB é colocado como fora da lei e proscrito, ficando a partir de então, à margem da lei e na clandestinidade. Consequentemente, em 7 de janeiro de 1948 foram cassados os mandatos de todos os seus representantes.

 Era então Presidente do Brasil o General Eurico Gaspar Dutra, que sucedia no governo ao Presidente Getúlio Vargas, deposto em 29 de outubro de 1945.

 O Governo de Vargas tinha sido iniciado com a Revolução de 1930, tendo o mesmo sido conduzido ao poder, por uma Junta Militar, como Presidente de um Governo Provisório,  após a derrubada do Presidente Washington Luís.

 Ao assumir, Getulio anula a Constituição em vigor, criada em 1891 e promete uma nova Constituição. Em 1932, por não ter cumprido essa promessa de governo, enfrentou aquela que ficou conhecida como Revolução Constitucionalista. Um movimento revolucionário liderado por São Paulo que se propunha a depor Getulio por descumprimento das promessas feitas ao assumir o governo revolucionário que havia deposto o presidente Washington Luiz e impedido a posse de Julio Prestes.

 Do lado paulista foram mobilizados cerca de trinta e cinco mil revoltosos. O Estado de São Paulo foi sitiado por cerca de cem mil soldados integrantes das tropas federais e a revolta foi dominada.  Em 1934 deu início ao chamado Governo Constitucional, quando foi eleito, em escolha indireta, pelo Congresso.

 Em novembro de 1937, por meio de um Golpe de Estado, tornou-se Ditador, governando nessa situação até ser deposto e sucedido pelo General Dutra, que era até então seu Ministro da Guerra, em 1945.

Com a deposição de Getúlio Vargas em 29 de outubro de 1945, assumiu o Governo em seu lugar José Linhares, Presidente do Supremo Tribunal Federal, até que fossem realizadas as eleições que elegeram, em dezembro daquele mesmo ano, com grande maioria de votos, o General Eurico Gaspar Dutra, que tomou posse em janeiro de 1946.

Apoiado por Getúlio Vargas, a quem substituía, o Presidente Eurico Gaspar Dutra, que pertencia aos quadros do Partido Social Democrata – PSD, teve como Vice-Presidente Nereu Ramos e como adversário o também militar Brigadeiro Eduardo Gomes, representante da oposição, pertencente à União Democrática Nacional – UDN.

Durante o Governo Dutra aconteceu uma Assembléia Constituinte, responsável pela promulgação da Constituição de 1946, que fortalecia a divisão dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – e restabelecia as eleições diretas para cargos dos Poderes Executivo e Legislativo, estabelecendo o mandato de cinco anos para cargos do Poder Executivo.

A Constituição de 1946 vigorou até acontecer a Revolução de 1964. Foi durante o Governo Dutra que o PC do B foi declarado clandestino.

A história do PC do B, contada pelos comunistas no inicio da década de 60, ia muito além daquela relatada nos livros escolares. Estava atrelada, segundo ouvi de Paulo de Sá em uma de suas visitas a Mutum, ao avanço do comunismo no mundo em defesa dos fracos, dos oprimidos e da igualdade dos direitos humanos.

 Seu maior mérito, segundo ele, era combater o capitalismo selvagem e escravagista representado pelo poder expansionista dos Estados Unidos da América. A sua busca pela liberdade das massas envolvia todo um movimento revolucionário latino americano, que tinham como exemplos maiores a Revolução Castrista de 1959, levada a termo em Cuba, por Fidel Castro, e o processo revolucionário chinês liderado por Mao Tsé-Tung, com suas ações de guerrilhas rurais e urbanas, em sua marcha vitoriosa.

Segundo afirmava Paulo de Sá, os comunistas brasileiros organizavam-se, pós revolução de 64, para a retomada do poder pelos civis, se preciso fosse, até pelas armas, para a instalação de um governo revolucionário e. para que tal fato ocorresse, já contavam com o apoio popular .

 O Brasil seria comunista e iria liderar toda a América Latina e o Caribe, ao lado de Cuba. A Ilha Caribenha era o destino de jovens brasileiros, principalmente estudantes, que para lá se dirigiam em busca de treinamento militar com os guerrilheiros cubanos, na tentativa de formar grupos no Brasil que, adotando as táticas de guerrilha empregadas nos campos e nas cidades aprendidas em Cuba, viessem fortalecer a resistência civil organizada em força militar paralela às legais das Forças Armadas. As chamadas forças subversivas.

O Sindicato presidido por Paulo de Sá, assim como os demais Sindicatos, segundo ele, estimulava e até financiava, quando se fazia necessário, a ida desses grupos a Cuba.

O próprio Paulo, como nos disse, já havia feito duas visitas a Havana, sempre de forma clandestina. Não podia, no entanto, segundo ele, informar os passos e o caminho adotado para sair do País até seu destino e voltar em segurança. Havia programado mais três viagens que considerava serem necessárias para, segundo ele, terminar o treinamento iniciado na primeira, feita poucos meses depois da queda de Jango.

Em uma das suas visitas ao seu irmão, em Mutum, Paulo de Sá iniciou uma tentativa de arrebanhar, com suas idéias esquerdistas, admiradores entre nós, jovens estudantes da cidade e da região. Para tanto, contava com a ajuda de algumas pessoas de influência na cidade, além do seu irmão, que o viam como uma espécie de herói nacional da resistência, predestinado a salvar o Brasil das garras da Águia Americana.

 Esses seus amigos chegados à esquerda providenciaram uma visita de alguns estudantes de uma Universidade Federal Rural, localizada em Campo Grande, no Estado do Rio de Janeiro, à nossa cidade, em 1963. O Projeto Mutum.

Chegaram em dois ônibus, em um total de sessenta estudantes de diversos cursos. A intenção da visita, que duraria quinze dias, era a de prestar ajuda técnica e científica à população, levando conhecimentos modernos nas áreas de educação, saúde, economia e políticas públicas, além de outras, aos mutuenses que se interessassem em adquiri-los.

Foram recebidos com festas e hospedados não em hotéis e pensões, mas nas próprias casas dos moradores, como se fossem de suas famílias. A intenção não declarada e mantida em total disfarce era a de propagar as idéias da Esquerda Estudantil Universitária, seguidora do Partido Comunista do Brasil.

O professor Carlos de Sá e o seu irmão, Paulo de Sá, Presidente de Sindicato no Vale do Aço, estiveram presentes durante todo o tempo em que o grupo de estudantes permaneceu em Mutum, dando-lhes assessoria, orientando-os e apresentando autoridades e pessoas que julgavam importantes e capazes de aderirem à causa comunista, na região.

Estatutos do Partidão, como era chamado o PC do B, foram impressos na principal gráfica da cidade e graciosamente distribuídos a todos os novos filiados ou candidatos à filiação.

 À noite, nas salas de visitas das residências discutia-se artigo por artigo, o Estatuto. O mesmo acontecia até nos bancos da Praça Central onde, sem que o livro fosse manuseado, suas idéias eram discutidas e propagadas.

 Durante quinze dias a doutrinação comunista foi feita de uma forma sistemática através de meios modernos da pedagogia e da didática. Carlos de Sá e seu irmão Paulo, ao final dos quinze dias, quando os estudantes retornaram a sua Universidade, no Rio de Janeiro, estavam satisfeitos com o resultado do trabalho levado a cabo na cidade.

Um grande número de novos seguidores foi filiado ao PC do B, embora a essa filiação fosse de forma clandestina. Novos propagadores do ideário comunista. Novas adesões aos sindicatos regionais existentes e até a formação de um sindicato local, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, que não existia antes em Mutum. O comunismo, segundo os dois irmãos, começava assim a ganhar força e cara na região.

O SUFOCO

Em 1966 Paulo de Sá foi preso em Ipatinga e, como consequência de sua detenção e encarceramento, houve um grande alvoroço em Mutum. Seu irmão, Professor Carlos viajou por uns dias sem que alguém soubesse informar o destino da sua viagem.

 A família, sua esposa e dois filhos, fingiam que nada estava acontecendo, mas, por mais que tentassem continuar suas rotinas diárias, deixavam transparecer, algumas vezes, sinais claros de muita preocupação e de insegurança.

Ao retornar, dias após ter viajado, soubemos por Carlos que o seu irmão Paulo, que havia sido feito prisioneiro na sede do sindicato, em Ipatinga, no Vale do Aço, estava desaparecido, sem constar dos registros oficiais de sindicalistas detidos para averiguação.

 Ele, Carlos, havia tentado junto a conhecidos influentes localizar o seu irmão, sem nenhum sucesso. Temia pela sua vida. “Nem quero imaginar – dizia – o que o coitado do Paulo deve estar passando”. Perguntado sobre os riscos que ele próprio corria, e se havia, também algum perigo para aqueles que havia aliciado em Mutum, dizia estar tranquilo porque não havia nada que os pudesse implicar em atos de subversão. Aconselhava, no entanto, que todos os que possuíssem em casa o famoso Estatuto do Partido Comunista do Brasil se livrassem dele. Não deviam esconder ou jogar fora. Deviam queimá-lo e jogar as cinzas fora. Outros livros considerados subversivos também deveriam ter o mesmo fim.  Finalmente, alertou para o fato de que quanto menos discutíssemos ou falássemos de política mais seguros estaríamos.

A rotina dos mutuenses sofreu algumas alterações. Já não se viam grupos de moradores mais velhos formados nas calçadas, até altas horas da noite, mesmo quando o calor se tornava quase insuportável no interior das residências.

Também na Praça Central os bancos, onde os novos comunistas se sentavam para discutir o futuro do Brasil, se apresentavam quase sempre vazios, assim como também se mostrava vazio o salão de sinucas durante a semana.

 Apenas nos finais de semana, nas noites de sábado e de domingo, o movimento aumentava nas calçadas, na Praça Central e nas mesas de sinucas. Também o Clube Social de Mutum e o Tringolingo passaram a ser frequentados apenas nos finais de semana.

Podia-se perceber no ar um quê de medo, de suspeição e de desconfiança. Quando alguém não era visto por mais de dois dias, corria logo o boato de que a pessoa havia sido presa ou que estava desaparecida ou que tinha fugido da cidade.

 Na realidade, poucas foram as prisões que aconteceram em Mutum em razão da revolução, naqueles primeiros tempos. Mas aconteceram. Como foi o caso, por exemplo, do Manoel Caxias, dono da Casa das Festas, especializada em vender fogos de artifícios e similares. Sua prisão aconteceu durante o dia, com muita gente assistindo, todos muito assustados, sem poder fazer nada, sem poder ajudar.

Manoel Caxias era gaúcho, de Caxias do Sul, motivo do apelido pelo qual era conhecido.

 Até aquele dia, quando foi levado preso pela polícia militar, ninguém sequer poderia imaginar que fosse capaz de praticar algum crime, alguma falcatrua, fazer mal a alguém. Manoel Caxias sempre se apresentara como uma pessoa honesta, íntegra e fraterna, totalmente confiável.

A explicação dada posteriormente, por uma das autoridades policiais que havia participado de sua prisão, o Cabo Eleutério, era a de que Manoel Caxias havia sido denunciado como fornecedor de material bélico para inimigos do Governo. Melhor explicando, o comerciante de fogos de artifícios era acusado de fornecer aos subversivos material explosivo, utilizado na composição e feitura de bombas caseiras. Bombas essas que estariam sendo utilizadas nos assaltos a bancos ocorridos na região.

Levado primeiramente para Juiz de Fora, foi transferido logo depois  para Belo Horizonte, onde ficou detido por trinta dias, retornando depois de solto a Mutum, onde continuou comerciante, mas em outro ramo de negócios, o de armarinhos.

 A Casa das Festas fechou as portas e encerrou suas atividades. Manoel Caxias, desde então, evitava sempre comentar sobre sua prisão.

Outro mutuense considerado subversivo, preso e processado, foi o Marinho Paulista, dono do Posto de Gasolina da Boca da Estrada, um bairrinho assim conhecido por estar situado onde começava a estrada principal que servia de acesso à cidade.

Contrariamente à forma pela qual Manoel Caxias foi preso, durante o dia e na frente de várias pessoas, Marinho Paulista foi apanhado em sua casa, durante a noite, sem que os vizinhos mais próximos se apercebessem de alguma coisa.

 Numa manhã a mulher conhecida por Nezinha do Cota, com quem Marinho Paulista tinha um caso amoroso, foi até o posto e comunicou aos frentistas o que havia acontecido.

Quando indagaram como tudo acontecera, ela simplesmente disse que não sabia de detalhes, que estava na sua própria casa, vizinha a de Marinho Paulista, quando viu chegarem os policiais. Que haviam chamado por ele e o prendido quando abrira a porta. O levaram, segundo ela, algemado, em um jipe. Eram quatro policiais. Ela não conseguiu identificar nenhum deles, o que deixava entender que não era ninguém do policiamento de Mutum.

O sumiço de Marinho Paulista segundo os boatos que se espalharam pela cidade, estaria relacionado com o fornecimento de combustível para abastecer veículos usados por subversivos durante assaltos em cidades próximas.

 Os assaltos a bancos estavam se tornando rotineiros e não dava mais para saber quando eram praticados por grupos subversivos ou por assaltantes comuns. Uns procuravam atribuir os acontecimentos aos outros.

 Marinho Paulista não retornou mais a Mutum. Seu posto de combustível foi abandonado já que não tinha lá nenhum parente que o substituísse nos negócios. O mato foi se apoderando de tudo, tomando conta do local.

Até hoje há alguns mutuenses que continuam afirmando que Marinho Paulista não só abastecia carros de subversivos, mas ganhava também comissão nos assaltos feitos por simples marginais e atribuídos àqueles. Como não retornou mais da prisão, começaram a circular boatos de que Marinho Paulista não tinha suportado a uma sessão de tortura a que tinha sido submetido e que tinha morrido, não se sabia quando nem onde.

Aconteceram também outras prisões não menos importanttes, mas vou tomar a liberdade de relatar, por enquanto, apenas esses dois casos e, naturalmente, o de Paulo de Sá.

    A VISITA        

Em 1967, quando completava um ano da prisão de Paulo de Sá, seu irmão Carlos recebeu uma importante informação: Paulo havia sido localizado. Estava encarcerado, já por algum tempo no DOPS em Belo Horizonte. O Departamento de Ordem Política e Social: DOPS/MG, criado em 1956, tinha como atribuições gerais, segundo o seu ato constitutivo, a prevenção e repressão dos delitos de caráter político-social, a fiscalização do fabrico, importação, exportação, comércio e uso de armas, munições, explosivos e produtos químicos, a fiscalização das estações ferroviárias, rodoviárias e aeroportos, além da expedição de salvo-conduto em caso de guerra.

O serviço de polícia-política do Estado de Minas Gerais existia desde 1927, com a criação da Delegacia de Segurança Pessoal e Ordem Política e Social, que possuía como atribuições a manutenção da ordem pública, a garantia dos direitos individuais e a investigação de crimes contra a vida e a integridade física.

Extinto em 1931, as suas funções originais, que eram relacionadas à investigação e repressão ao crime político, foram transferidas para a Delegacia de Ordem Pública que se tornou, depois, o temido Departamento de Ordem Política e Social/ DOPS.

Após inteirar-se da situação e confirmar a presença de seu irmão no DOPS, em Belo Horizonte, Carlos de Sá começou então a mover céus e terra para conseguir obter, de alguém e de alguma forma, autorização para visitá-lo na prisão.

 Quis a sorte que a Secretaria de Estado de Educação promovesse, em Belo Horizonte, um curso de treinamento para professores a ser realizado na Faculdade de Educação/FAE, da Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG, através da Campanha de Aperfeiçoamento e Desenvolvimento do Ensino Secundário – CADES, e Carlos de Sá foi um dos indicados, de Mutum, a frequentar o curso, que ocorreria durante todo  o mês de Julho de 1967.

Recém-formado no segundo grau, eu havia também sido indicado para fazer o mesmo curso, uma vez que seria contratado como professor de História e Geografia do curso ginasial, a partir do segundo semestre.

 Outros seis professores de Mutum compunham conosco o grupo a ser treinado.

Uma manhã, antes de iniciar as aulas, quando caminhávamos pelo corredor da FAE, Carlos de Sá segurou-me pelo braço e me disse “preciso da sua ajuda”. Quando perguntei o que acontecera ele me disse que havia sido autorizado a fazer uma visita ao seu irmão, Paulo, na tarde desse mesmo dia. E que havia sido aconselhado, por um amigo deputado estadual, a se fazer acompanhar por mais alguém. Por segurança, me disse. Essa era a ajuda que esperava de mim. Que eu lhe fizesse companhia na ida ao DOPS para visitar o irmão. Aceitei o convite sem nenhuma discussão.

No horário combinado, ressabiados e muito apreensivos, nós dirigimos à sede do DOPS, que estava situado na Avenida Afonso Pena, pouco acima do Instituto de Educação.

Na portaria, apresentamos nossas identidades, passamos por uma revista minuciosa para ver se portávamos alguma arma, assinamos um livro de controle e ficamos aguardando que nos autorizassem a começar a visita.

Alguns minutos se passaram até que um detetive, portando em mãos uma metralhadora, nos fez um sinal para que o acompanhássemos. Descemos uma escada e entramos em uma sala na parte inferior do prédio, uma espécie de porão, sem janelas.

 Lá, sentado em uma cadeira encostada na parede no fundo da sala, estava Paulo de Sá. Algemado. Ficou a nos olhar sem dizer nada. Nós, também, ficamos a observá-lo, calados, sob o impacto da figura que víamos à nossa frente.

Magro, abatido, envelhecido e, em minha opinião, totalmente vencido. Aquele não era o Paulo de Sá que eu conhecera. Aquele não era o Paulo de Sá que nos falava do comunismo avançando sobre os países capitalistas. Aquele Paulo de Sá era outro muito diferente, um desconhecido. Apenas um preso. Vi lágrimas nos olhos do professor Carlos de Sá.

O detetive que nos acompanhava, metralhadora em punho, riu um riso irônico quando percebeu que Carlos de Sá chorava. Ficamos lá os quatro, calados a maior parte do tempo, com o silêncio só sendo quebrado algumas poucas vezes pelos irmãos. A mim não foi permitido dizer alguma coisa. Até que o tempo da visita se esgotou. Dez minutos que me pareceram um século.

Quando deixamos o DOPS, já rua, enquanto caminhávamos de volta  o professor Carlos de Sá me estendeu a mão, agradeceu pela companhia e disse apenas “Graças a Deus o Paulo ainda está vivo”.

Paulo de Sá nunca mais voltou a Havana para terminar o treinamento de guerrilha. Ficou preso até 1979, quando, beneficiado pela Lei de Anistia, deixou os porões sem janelas da repressão e voltou ao encontro de sua família. O professor Carlos de Sá já se havia mudado de Mutum com a família quando o seu irmão Paulo foi solto.  Eu já me formara jornalista e trabalhava em Belo Horizonte.

 Como antes dissera o Nestor, o Brasil continuava dirigido por autoridades militares, que ainda detinham todo o poder político. Como eu pude comprovar aquele dia, ao entrar como visitante, naquele porão, vigiado por aquele detetive que portava nas mãos uma metralhadora e nos lábios um sorriso insolente, irônico, mas superior, por ser ele, durante todo o tempo em que estivemos naquela sala, o único dono da situação. E da verdade. O único reconhecido como autoridade.

       29 de junho de1975

        O começo de tudo

No dia 29 de Junho de 1975, um Domingo, eu havia cumprido a mesma rotina de sempre.

Pela manhã, tinha assistido a uma missa solene na Igreja de São José, na Avenida Afonso Pena, entre as Ruas Tamoios e Espírito Santo e almoçado um Kaol no Restaurante Giratório, na Rua Rio de Janeiro, esquina de Praça Sete, no subsolo do Edifício Helena Passig.

 Na parte da tarde, um cochilo em casa, na Rua Itajubá, esquina com Rua Pouso Alegre, na Floresta, um filme no Cine Paladium, na Rua Rio de Janeiro, um chopp no Maleta, na Rua da Bahia. À noite, ver televisão em casa. Rotina, pura rotina.  

Como já era de costume e como gostava de saber quais eram as últimas notícias importantes do dia e de estar sempre ligado em noticiários, eu tinha por hábito assistir, todas as noites, ao Repórter Real, que havia sucedido ao Repórter Esso, na TV Itacolomy.

O Repórter Esso era o principal noticiário televisivo do Brasil até ser extinto, em 1970.  Existiu desde 28 de agosto de 1941, quando foi apresentado pela primeira vez na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, para noticiar principalmente os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial.

Foi criado nos Estados Unidos para difundir propaganda de guerra e era transmitido em quatorze países das Américas através de cinquenta e nove estações de rádios e televisões.   Era patrocinado pela empresa petrolífera americana “Standart Oil Company of Brazil”, conhecida em nosso País como ESSO Brasileira de Petróleo.

Encerrou suas atividades radiofônicas em 31 de dezembro de 1968, com sua última transmissão feita pela Rádio Globo do Rio de Janeiro, mas permaneceu sendo apresentado, nas redes de Televisão, até 31 de dezembro de 1970, quando teve sua última apresentação levada ao ar pela TV TUPI.

Naquela noite de 29 de junho de 1975, um Domingo, as notícias apresentadas pelo Repórter Real estavam dentro do que eu considerava um padrão normal de notícias, sem nada que pudesse ser considerado um destaque especial, daqueles que me fariam parar o que estivesse fazendo para dedicar maior atenção ao que estava sendo noticiado.

Eu estava a caminho da cozinha quando o que ouvi me fez parar e correr para perto da TV. O repórter acabava de anunciar que um avião militar, ao sobrevoar uma cidade do interior de Minas Gerais, havia sofrido uma pane e deixado cair sobre a região as bombas que transportava quando se dirigia para um exercício militar.

 O porta-voz do Governo informou que a Aeronáutica soltaria uma nota oficial assim que estivesse de posse de detalhes da operação.

O que me fez parar a minha caminhada para a cozinha e me colocar ao lado da TV foi a palavra Mutum que eu tinha ouvido, com toda a clareza. “Puta merda, as bombas caíram em Mutum”, eu disse baixinho.

Minha primeira providência foi telefonar para um amigo que trabalhava na redação da Itacolomy, para me inteirar melhor sobre o ocorrido. Ele me informou que a notícia estava sendo divulgada apenas conforme fora informada pelos serviços de divulgação do Governo. Quando perguntei se havia mais alguma coisa, por parte da Aeronáutica, me disse que não havia mais nada além do que fora anunciado no Repórter Real.

 Em seguida, fiz uma ligação para a casa dos meus avós, em Mutum, recebendo a informação de que lá só sabiam do que tinham acabado de ouvir, divulgado pela TV Globo, pela TV Tupi e pela TV Bandeirantes, únicas emissoras de TV que eram captadas na região. Nenhuma outra notícia havia sido divulgada, nem mesmo através das rádios. E que a cidade estava que era uma agitação só. Uma verdadeira loucura, antes nunca visto. disse-me o meu avô.

Como  eram as mesmas informações que eu já tinha ouvido e levando em conta que não me adiantaria fr nada ficar tentando obter mais informações naquela noite, resolvi que o melhor que podia fazer era ir para o meu quarto, dormir e deixar para tentar entender melhor toda a situação no dia seguinte, pela manhã.

Meu sono foi muito agitado e entrecortado de sonhos que mais pareciam pesadelos.

         30 de junho de  1975

Segunda-feira   

    A viagem

No outro dia, ainda cedo, me dirigi para a redação do Jornal do Povo, onde trabalhava. A noticia do acontecimento em Mutum já se espalhara e todos queriam saber mais de mim sobre o assunto, por eu ser de lá, de Mutum, onde o fato acontecera. Expliquei que havia falado na casa dos meus avós, mas que não sabiam de nada diferente do que tinha sido noticiado.

O Redator-chefe, Manfredo Kurt, com aquele seu jeitão alemão de falar e toda a sua experiência de mais de trinta anos farejando notícias, me chamou em sua sala e me disse de uma forma bem clara “Aí tem coisas. Estou com um pressentimento de que aí tem coisas. Quero que vá lá e veja de perto. Afinal, bombardearam foi a sua cidade, não é mesmo?” 

Não eram ainda dez horas da manhã e eu já estava a caminho, na estrada, conforme determinara o meu chefe de redação, levado pelo Francisco Neto, motorista do Jornal do Povo, em um Fusca, rumo a Mutum.

 Passaríamos por Ouro Preto e Ponte Nova, caminho mais curto, com estrada asfaltada até Manhuaçu. De lá, iríamos por estrada de terra até Mutum, passando por Lajinha. Não acontecendo nenhum imprevisto, chegaríamos a Mutum no mais tardar no final do dia ou no inicio da noite.

Durante a viagem, enquanto Francisco Neto se preocupava exclusivamente em chegar o mais rápido possível a Mutum, eu tentava, na minha cabeça, entender os acontecimentos de uma forma lógica. Mas não me esquecia das palavras de Manfredo Kurt  “aí tem coisas”. Que coisas, eu pensava, poderiam estar escondidas na noticia de que um avião militar havia, durante uma pane, soltado suas bombas sobre Mutum? Que tipo de bombas seriam? Por que a Aeronáutica ainda não soltara nenhuma nota oficial? O que fazia um avião militar sobrevoando a região de Mutum? Por que estava transportando bombas? Quantas bombas?

 Eu, até aquele momento da viagem, não era capaz de responder, com certeza e segurança, a nenhuma das muitas perguntas que até aquele momento formulara em minha mente. Embora pudesse fazer inúmeras conjecturas, com base em informações que eu tinha e que eram, na maioria das vezes, do desconhecimento da maior parte do povo comum.

 Como alguns fatos que serviram de base para o levante militar que derrubou Jango.

OS FATOS

Antes de acontecer no Brasil o Golpe Militar que ficou conhecido como Revolução de 1964, assistíamos o surgimento de movimentos populares que questionavam a situação interna do País. Indo além, criticavam a nossa dependência externa, exigindo um rompimento político do governo com os Estados Unidos da América, então considerados opressores pelos líderes nacionalistas, principalmente os estudantes, representados nacional e politicamente pela União Nacional dos Estudantes – UNE, com sede no Rio de Janeiro.

 Ao mesmo tempo, esses mesmos grupos populares reivindicavam fosse feita uma maior inclusão social das camadas mais pobres e trabalhadoras.

 A rejeição declarada aos americanos, chamados pelos estudantes e esquerdistas de “ianques”, era manifestada através da expressão “yanques go home”, que podia ser lida nos muros ao longo do País e ouvida como palavra de ordem nas passeatas de estudantes e trabalhadores, que já se tinham tornavam um fato comum no Governo João Goulart.  Significava “ianques vão para casa”.

A palavra iankee, para pessoas que não são americanas indica qualquer americano. Para um americano, no entanto, um yankee é uma pessoa que vive em um Estado do Norte do País. Para pessoas que vivem no Leste dos Estados Unidos, um yankee é uma pessoa que tem origem ou reside em Nova Inglaterra, região localizada no Nordeste dos Estados Unidos, composta por seis estados – Connecticut, Maine, Massachusetts, Nova Hampshire, Rhode Island, Vermont.

Durante a Guerra de Secessão, entre 1861 e 1865, a palavra yankee foi popularizada pelos sulistas, quando foi usada para referir-se aos soldados nortistas, vitoriosos, e, de uma maneira geral às pessoas que viviam no Norte dos Estados Unidos.

Esses anseios democráticos, no Brasil, tiveram origem na década de 50 avançando pelo inicio dos anos 60 até o advento da Revolução.              

Como não poderia deixar de acontecer, o Governo Militar, após a Revolução de 1964, procurou criar uma Doutrina de Segurança Nacional, que fosse capaz de identificar, apontar e eliminar os possíveis inimigos internos, incluindo-se, aí, naturalmente, todos aqueles que questionassem e criticassem o novo regime, com especial destaque para os reconhecidamente partidários do comunismo.

Para tornar reais as ações que se fariam necessárias para o alcance dos objetivos propostos, foram criados alguns órgãos governamentais especiais, com destaque para o Serviço Nacional de Informações – SNI. Responsável por toda a rede de informações e contra-informações do Governo, o SNI, criado em 1964 e dirigido pelo General Golbery do Couto e Silva, passou a direcionar todas as informações recebidas, diretamente para o Poder Executivo, ou seja, para o Presidente da República.

Ao terminar esta primeira análise sobre o que ocorrera em Mutum, naquele Domingo 29 de Junho de 1975, conclui que, embora a Aeronáutica, responsável pelo avião que sofrera a pane e lançara sobre a cidade as quatro bombas, não tivesse soltado nenhuma nota oficial, com certeza o General Ernesto Geisel, Presidente do Brasil, já estaria a par de tudo. Com certeza o Serviço Nacional de Informações/SNI já o havia informado.

Por que será então que ninguém falava oficialmente? Sendo assim, era muito provável que Manfredo Kurt, o Redator-chefe do Jornal do Povo estivesse certo. “Aí tem coisas” conclui.

 Com os olhos fechados, perguntei ao Francisco Neto em tom de brincadeira –  E aí, Chicão, vamos chegar em Mutum ainda esse mês? – enquanto me ajeitava no banco para tentar cochilar um pouco. Com os olhos semicerrados, deixei o pensamento voar solto em direção a Mutum. Uma lassidão foi tomando conta de meu corpo enquanto o sono se apossava de mim. Francisco Neto não deve ter entendido porque eu estava sorrindo enquanto cochilava no banco do passageiro do fusca.

O QUARTEL MILITAR

Pouco antes de entrarmos em Mutum, nas imediações da encruzilhada que levava ao Distrito de  Ocidente, nos deparamos com um comboio do Exército Brasileiro, formado por três caminhões de transporte de tropas, precedidos por um jipe onde deveria levar, eu supus, algum oficial comandante. Deduzi que deveriam estar se deslocando desde Juiz de Fora, onde estava sediada a IV Divisão de Infantaria da IV Região Militar do Exército, e que a razão para a presença ali, daquela tropa, não seria outra senão a mesma que me fizera viajar tanto, desde Belo Horizonte: a queda as bombas.

Como tínhamos feito apenas uma parada rápida durante toda a viagem, para reabastecer, em Realeza, chegamos à casa dos meus avós pouco depois das dezesseis horas, com o sol ainda alto no céu.

Eu estava ansioso para sair andando pela cidade em busca de informações. Mas não antes de saber, pelo meu avô, que todos na cidade estavam apreensivos, que ninguém sabia direito o que tinha acontecido, que haviam, sim, ouvido o som de um avião sobrevoando Mutum por umas três vezes, no dia anterior, devia ser umas sete horas da noite e que algumas pessoas viram que ele deixava cair alguma coisa sobre a cidade. Mas ninguém identificou o que era nem onde tinha caído.

Só mais tarde, quando a noticia foi divulgada nos rádios e nas TVs ficaram sabendo que se tratava de um avião militar e de bombas.

Minha avó, que estava sentada na varanda da entrada da casa, enquanto meu avô e eu conversávamos na sala, irrompeu ao nosso encontro, dizendo que caminhões cheios de soldados estavam chegando na Praça. Expliquei que já os tinha visto na estrada na chegada e que iria até lá, para saber o que tinham ido fazer em Mutum.

A tropa do exército passou pela Praça Benedito Valadares e dirigiu-se para o espaço existente na frente do Estádio Municipal, na beira do rio, onde montaram acampamento e aquartelaram-se. Fui até lá e consegui, sem muitas dificuldades,  falar com o Major Alfredo, que estava no comando da tropa.

 Ouvi dele a informação de que, por ordens superiores recebidas do Comando do Exército, em Brasília, estavam ali para manter a ordem e prepararem o caminho para uma operação militar que seria realizada, a partir daquela noite.

Nada disse sobre as bombas e quando perguntei delas, virou-me simplesmente as costas sem responder.

(Os episódios seguintes serão publicados a partir da próxima semana)

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