Nunca estive tão perto

Alan Michel Santiago Nina

Nunca estive tão perto de tocar o seu corpo

Tão perto da fábula real

Tão perto da mesquinharia de algodão.

Minhas mãos viris a um segundo de seus músculos,

Numa exclusiva áurea de testosteronas,

Respirando a vontade de transcender.

Estou sentindo você aqui,

Invadindo a minha lata de lixo,

Dominando-me com uma faca cega,

Com os golpes tolos de ursinhos de pelúcia.

Rosnam-se agrados

Cantam-se versos

Sapateiam-se lindos passos de balé

Dentro de um sufocante paletó.

POESIAS 47

Nunca estive tão perto de me consumir

E de me esconder pelas ruas

Mas ainda tive medo de mostrar meu corpo

Às cegas,

Aos cegos,

Porque vegeto no meu rio caudaloso.

E quando estiver finalmente envenenado

Vou pôr máscaras de Carnaval e dançar à vontade

E vou ter tanto medo que morrerei de medo de perder o medo;

Revelar-me-ei ao Santo mais puro,

Atingindo a profundeza imensurável.

Afinal, nunca estive tão perto do ápice,

Embora saiba dos passos de formiga

E das gerações que se estendem à chuva

No insano varal de fotografias.

Nunca estive tão perto de ser dominado pelo domínio.

Estúpido ser!

A escola abriga vermes com cascas padronizadas

E esbarro em odiosas saias e em formosas bermudas,

Em dois banheiros,

Em claridades vazias,

Em livros didáticos,

Em professores escravos do sistema,

Em robôs projetados para a ciranda:

o rosto azul de Maria e a pele rosada de João.

Domínio…

Domínio…

Animais grotescos

Roldanas

Corpos suados e homens fortes

Engrenagens

Alavancas

Bíceps e carne

Vida e beleza

Revolta!

Nunca estive tão perto da Revelação,

De me ver no fundo do rio, apodrecendo,

Sabendo que estou amarrado à âncora selvagem,

Pois sou apenas um homem,

Entregue à projeção de tela

Repetitiva e natural.

Nunca estive tão perto de ceder…

A vida inteira a um passo

E um passo dado por uma vida inteira

No descompasso do tempo,

Na tartaruga que vive mais de cem anos,

Enfraquecendo a minha ínfima grandeza:

Chego a achar que já vivi demais.

Sou opaco, um cão farejando o osso,

Um amigo querendo estender o ombro,

Lutando contra o próprio desejo.

Nunca estive tão perto,

Mesmo sabendo que sempre estive tão longe.

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