OPERAÇÃO MUTUM – A VISITA

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(Episódio 7)

Em 1967, quando completava um ano da prisão de Paulo de Sá, seu irmão Carlos recebeu uma importante informação: Paulo havia sido localizado. Estava encarcerado, já por algum tempo no DOPS em Belo Horizonte. O Departamento de Ordem Política e Social: DOPS/MG, criado em 1956, tinha como atribuições gerais, segundo o seu ato constitutivo, a prevenção e repressão dos delitos de caráter político-social, a fiscalização do fabrico, importação, exportação, comércio e uso de armas, munições, explosivos e produtos químicos, a fiscalização das estações ferroviárias, rodoviárias e aeroportos, além da expedição de salvo-conduto em caso de guerra.

O serviço de polícia-política do Estado de Minas Gerais existia desde 1927, com a criação da Delegacia de Segurança Pessoal e Ordem Política e Social, que possuía como atribuições a manutenção da ordem pública, a garantia dos direitos individuais e a investigação de crimes contra a vida e a integridade física.

Extinto em 1931, as suas funções originais, que eram relacionadas à investigação e repressão ao crime político, foram transferidas para a Delegacia de Ordem Pública que se tornou, depois, o temido Departamento de Ordem Política e Social/ DOPS.

Após inteirar-se da situação e confirmar a presença de seu irmão no DOPS, em Belo Horizonte, Carlos de Sá começou então a mover céus e terra para conseguir obter, de alguém e de alguma forma, autorização para visitá-lo na prisão.

 Quis a sorte que a Secretaria de Estado de Educação promovesse, em Belo Horizonte, um curso de treinamento para professores a ser realizado na Faculdade de Educação/FAE, da Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG, através da Campanha de Aperfeiçoamento e Desenvolvimento do Ensino Secundário – CADES, e Carlos de Sá foi um dos indicados, de Mutum, a frequentar o curso, que ocorreria durante todo  o mês de Julho de 1967.

Recém-formado no segundo grau, eu havia também sido indicado para fazer o mesmo curso, uma vez que seria contratado como professor de História e Geografia do curso ginasial, a partir do segundo semestre.

 Outros seis professores de Mutum compunham conosco o grupo a ser treinado.

Uma manhã, antes de iniciar as aulas, quando caminhávamos pelo corredor da FAE, Carlos de Sá segurou-me pelo braço e me disse “preciso da sua ajuda”. Quando perguntei o que acontecera ele me disse que havia sido autorizado a fazer uma visita ao seu irmão, Paulo, na tarde desse mesmo dia. E que havia sido aconselhado, por um amigo deputado estadual, a se fazer acompanhar por mais alguém. Por segurança, me disse. Essa era a ajuda que esperava de mim. Que eu lhe fizesse companhia na ida ao DOPS para visitar o irmão. Aceitei o convite sem nenhuma discussão.

No horário combinado, ressabiados e muito apreensivos, nós dirigimos à sede do DOPS, que estava situado na Avenida Afonso Pena, pouco acima do Instituto de Educação.

Na portaria, apresentamos nossas identidades, passamos por uma revista minuciosa para ver se portávamos alguma arma, assinamos um livro de controle e ficamos aguardando que nos autorizassem a começar a visita.

Alguns minutos se passaram até que um detetive, portando em mãos uma metralhadora, nos fez um sinal para que o acompanhássemos. Descemos uma escada e entramos em uma sala na parte inferior do prédio, uma espécie de porão, sem janelas.

 Lá, sentado em uma cadeira encostada na parede no fundo da sala, estava Paulo de Sá. Algemado. Ficou a nos olhar sem dizer nada. Nós, também, ficamos a observá-lo, calados, sob o impacto da figura que víamos à nossa frente.

Magro, abatido, envelhecido e, em minha opinião, totalmente vencido. Aquele não era o Paulo de Sá que eu conhecera. Aquele não era o Paulo de Sá que nos falava do comunismo avançando sobre os países capitalistas. Aquele Paulo de Sá era outro muito diferente, um desconhecido. Apenas um preso. Vi lágrimas nos olhos do professor Carlos de Sá.

O detetive que nos acompanhava, metralhadora em punho, riu um riso irônico quando percebeu que Carlos de Sá chorava. Ficamos lá os quatro, calados a maior parte do tempo, com o silêncio só sendo quebrado algumas poucas vezes pelos irmãos. A mim não foi permitido dizer alguma coisa. Até que o tempo da visita se esgotou. Dez minutos que me pareceram um século.

Quando deixamos o DOPS, já rua, enquanto caminhávamos de volta  o professor Carlos de Sá me estendeu a mão, agradeceu pela companhia e disse apenas “Graças a Deus o Paulo ainda está vivo”.

Paulo de Sá nunca mais voltou a Havana para terminar o treinamento de guerrilha. Ficou preso até 1979, quando, beneficiado pela Lei de Anistia, deixou os porões sem janelas da repressão e voltou ao encontro de sua família. O professor Carlos de Sá já se havia mudado de Mutum com a família quando o seu irmão Paulo foi solto.  Eu já me formara jornalista e trabalhava em Belo Horizonte.

 Como antes dissera o Nestor, o Brasil continuava dirigido por autoridades militares, que ainda detinham todo o poder político. Como eu pude comprovar aquele dia, ao entrar como visitante, naquele porão, vigiado por aquele detetive que portava nas mãos uma metralhadora e nos lábios um sorriso insolente, irônico, mas superior, por ser ele, durante todo o tempo em que estivemos naquela sala, o único dono da situação. E da verdade. O único reconhecido como autoridade.

      

 

(Continua na próxima semana)

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