Sob o mar revolto eu me interno

Anselmo de Sousa Gomes

Sob o mar revolto eu me interno,

Feito a ostra estéril de pérola.

E lá, na areia fofa e sempre fria,

Subjugo meus medos, meus dias,

Para sempre esquecidos no não-oxigênio

Dos peixes e das sereias.

Sob as ondas monumentais eu descanso,

Encaixado entre os cascos dos navios vencidos.

E lá, na fuselagem viva de corais,

Desfaço-me da casta dos pensamentos,

Para sempre tornados a ciência

Dos ossos de almirantes e Camões.

Sob a espuma salgada eu esqueço

Tudo o que não é água-viva ou baleia.

E lá, no branco cuspe das marés,

Deflagro a minha ignorância querida,

Para sempre metamorfoseada consciência

De cânions abissais.

Sob o tridente de Netuno me resguardo

Da ameaça constante de lutar.

E lá, na proteção mítica da eterna arma,

Reservo-me o direito de não ser.

Para sempre feliz de ver a sombra

De Ulisses e Moby Dick.

Sob as florestas de algas eu camuflo

Tornando-me esguio, irrelevante e comestível.

E lá, entre as frias folhas líquidas,

Dou trégua ao Universo

Para sempre meu irmão na rota traçada

A lugar nenhum.

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