OPERAÇÃO MUTUM – O SUFOCO

(Episódio 6)

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Em 1966 Paulo de Sá foi preso em Ipatinga e, como consequência de sua detenção e encarceramento, houve um grande alvoroço em Mutum. Seu irmão, Professor Carlos viajou por uns dias sem que alguém soubesse informar o destino da sua viagem.

 A família, sua esposa e dois filhos, fingiam que nada estava acontecendo, mas, por mais que tentassem continuar suas rotinas diárias, deixavam transparecer, algumas vezes, sinais claros de muita preocupação e de insegurança.

Ao retornar, dias após ter viajado, soubemos por Carlos que o seu irmão Paulo, que havia sido feito prisioneiro na sede do sindicato, em Ipatinga, no Vale do Aço, estava desaparecido, sem constar dos registros oficiais de sindicalistas detidos para averiguação.

 Ele, Carlos, havia tentado junto a conhecidos influentes localizar o seu irmão, sem nenhum sucesso. Temia pela sua vida. “Nem quero imaginar – dizia – o que o coitado do Paulo deve estar passando”. Perguntado sobre os riscos que ele próprio corria, e se havia, também algum perigo para aqueles que havia aliciado em Mutum, dizia estar tranquilo porque não havia nada que os pudesse implicar em atos de subversão. Aconselhava, no entanto, que todos os que possuíssem em casa o famoso Estatuto do Partido Comunista do Brasil se livrassem dele. Não deviam esconder ou jogar fora. Deviam queimá-lo e jogar as cinzas fora. Outros livros considerados subversivos também deveriam ter o mesmo fim.  Finalmente, alertou para o fato de que quanto menos discutíssemos ou falássemos de política mais seguros estaríamos.

A rotina dos mutuenses sofreu algumas alterações. Já não se viam grupos de moradores mais velhos formados nas calçadas, até altas horas da noite, mesmo quando o calor se tornava quase insuportável no interior das residências.

Também na Praça Central os bancos, onde os novos comunistas se sentavam para discutir o futuro do Brasil, se apresentavam quase sempre vazios, assim como também se mostrava vazio o salão de sinucas durante a semana.

 Apenas nos finais de semana, nas noites de sábado e de domingo, o movimento aumentava nas calçadas, na Praça Central e nas mesas de sinucas. Também o Clube Social de Mutum e o Tringolingo passaram a ser frequentados apenas nos finais de semana.

Podia-se perceber no ar um quê de medo, de suspeição e de desconfiança. Quando alguém não era visto por mais de dois dias, corria logo o boato de que a pessoa havia sido presa ou que estava desaparecida ou que tinha fugido da cidade.

 Na realidade, poucas foram as prisões que aconteceram em Mutum em razão da revolução, naqueles primeiros tempos. Mas aconteceram. Como foi o caso, por exemplo, do Manoel Caxias, dono da Casa das Festas, especializada em vender fogos de artifícios e similares. Sua prisão aconteceu durante o dia, com muita gente assistindo, todos muito assustados, sem poder fazer nada, sem poder ajudar.

Manoel Caxias era gaúcho, de Caxias do Sul, motivo do apelido pelo qual era conhecido.

 Até aquele dia, quando foi levado preso pela polícia militar, ninguém sequer poderia imaginar que fosse capaz de praticar algum crime, alguma falcatrua, fazer mal a alguém. Manoel Caxias sempre se apresentara como uma pessoa honesta, íntegra e fraterna, totalmente confiável.

A explicação dada posteriormente, por uma das autoridades policiais que havia participado de sua prisão, o Cabo Eleutério, era a de que Manoel Caxias havia sido denunciado como fornecedor de material bélico para inimigos do Governo. Melhor explicando, o comerciante de fogos de artifícios era acusado de fornecer aos subversivos material explosivo, utilizado na composição e feitura de bombas caseiras. Bombas essas que estariam sendo utilizadas nos assaltos a bancos ocorridos na região.

Levado primeiramente para Juiz de Fora, foi transferido logo depois  para Belo Horizonte, onde ficou detido por trinta dias, retornando depois de solto a Mutum, onde continuou comerciante, mas em outro ramo de negócios, o de armarinhos.

 A Casa das Festas fechou as portas e encerrou suas atividades. Manoel Caxias, desde então, evitava sempre comentar sobre sua prisão.

Outro mutuense considerado subversivo, preso e processado, foi o Marinho Paulista, dono do Posto de Gasolina da Boca da Estrada, um bairrinho assim conhecido por estar situado onde começava a estrada principal que servia de acesso à cidade.

Contrariamente à forma pela qual Manoel Caxias foi preso, durante o dia e na frente de várias pessoas, Marinho Paulista foi apanhado em sua casa, durante a noite, sem que os vizinhos mais próximos se apercebessem de alguma coisa.

 Numa manhã a mulher conhecida por Nezinha do Cota, com quem Marinho Paulista tinha um caso amoroso, foi até o posto e comunicou aos frentistas o que havia acontecido.

Quando indagaram como tudo acontecera, ela simplesmente disse que não sabia de detalhes, que estava na sua própria casa, vizinha a de Marinho Paulista, quando viu chegarem os policiais. Que haviam chamado por ele e o prendido quando abrira a porta. O levaram, segundo ela, algemado, em um jipe. Eram quatro policiais. Ela não conseguiu identificar nenhum deles, o que deixava entender que não era ninguém do policiamento de Mutum.

O sumiço de Marinho Paulista segundo os boatos que se espalharam pela cidade, estaria relacionado com o fornecimento de combustível para abastecer veículos usados por subversivos durante assaltos em cidades próximas.

 Os assaltos a bancos estavam se tornando rotineiros e não dava mais para saber quando eram praticados por grupos subversivos ou por assaltantes comuns. Uns procuravam atribuir os acontecimentos aos outros.

 Marinho Paulista não retornou mais a Mutum. Seu posto de combustível foi abandonado já que não tinha lá nenhum parente que o substituísse nos negócios. O mato foi se apoderando de tudo, tomando conta do local.

Até hoje há alguns mutuenses que continuam afirmando que Marinho Paulista não só abastecia carros de subversivos, mas ganhava também comissão nos assaltos feitos por simples marginais e atribuídos àqueles. Como não retornou mais da prisão, começaram a circular boatos de que Marinho Paulista não tinha suportado a uma sessão de tortura a que tinha sido submetido e que tinha morrido, não se sabia quando nem onde.

Aconteceram também outras prisões não menos importanttes, mas vou tomar a liberdade de relatar, por enquanto, apenas esses dois casos e, naturalmente, o de Paulo de Sá.

O SUFOCO

Em 1966 Paulo de Sá foi preso em Ipatinga e, como consequência de sua detenção e encarceramento, houve um grande alvoroço em Mutum. Seu irmão, Professor Carlos viajou por uns dias sem que alguém soubesse informar o destino da sua viagem.

 A família, sua esposa e dois filhos, fingiam que nada estava acontecendo, mas, por mais que tentassem continuar suas rotinas diárias, deixavam transparecer, algumas vezes, sinais claros de muita preocupação e de insegurança.

Ao retornar, dias após ter viajado, soubemos por Carlos que o seu irmão Paulo, que havia sido feito prisioneiro na sede do sindicato, em Ipatinga, no Vale do Aço, estava desaparecido, sem constar dos registros oficiais de sindicalistas detidos para averiguação.

 Ele, Carlos, havia tentado junto a conhecidos influentes localizar o seu irmão, sem nenhum sucesso. Temia pela sua vida. “Nem quero imaginar – dizia – o que o coitado do Paulo deve estar passando”. Perguntado sobre os riscos que ele próprio corria, e se havia, também algum perigo para aqueles que havia aliciado em Mutum, dizia estar tranquilo porque não havia nada que os pudesse implicar em atos de subversão. Aconselhava, no entanto, que todos os que possuíssem em casa o famoso Estatuto do Partido Comunista do Brasil se livrassem dele. Não deviam esconder ou jogar fora. Deviam queimá-lo e jogar as cinzas fora. Outros livros considerados subversivos também deveriam ter o mesmo fim.  Finalmente, alertou para o fato de que quanto menos discutíssemos ou falássemos de política mais seguros estaríamos.

A rotina dos mutuenses sofreu algumas alterações. Já não se viam grupos de moradores mais velhos formados nas calçadas, até altas horas da noite, mesmo quando o calor se tornava quase insuportável no interior das residências.

Também na Praça Central os bancos, onde os novos comunistas se sentavam para discutir o futuro do Brasil, se apresentavam quase sempre vazios, assim como também se mostrava vazio o salão de sinucas durante a semana.

 Apenas nos finais de semana, nas noites de sábado e de domingo, o movimento aumentava nas calçadas, na Praça Central e nas mesas de sinucas. Também o Clube Social de Mutum e o Tringolingo passaram a ser frequentados apenas nos finais de semana.

Podia-se perceber no ar um quê de medo, de suspeição e de desconfiança. Quando alguém não era visto por mais de dois dias, corria logo o boato de que a pessoa havia sido presa ou que estava desaparecida ou que tinha fugido da cidade.

 Na realidade, poucas foram as prisões que aconteceram em Mutum em razão da revolução, naqueles primeiros tempos. Mas aconteceram. Como foi o caso, por exemplo, do Manoel Caxias, dono da Casa das Festas, especializada em vender fogos de artifícios e similares. Sua prisão aconteceu durante o dia, com muita gente assistindo, todos muito assustados, sem poder fazer nada, sem poder ajudar.

Manoel Caxias era gaúcho, de Caxias do Sul, motivo do apelido pelo qual era conhecido.

 Até aquele dia, quando foi levado preso pela polícia militar, ninguém sequer poderia imaginar que fosse capaz de praticar algum crime, alguma falcatrua, fazer mal a alguém. Manoel Caxias sempre se apresentara como uma pessoa honesta, íntegra e fraterna, totalmente confiável.

A explicação dada posteriormente, por uma das autoridades policiais que havia participado de sua prisão, o Cabo Eleutério, era a de que Manoel Caxias havia sido denunciado como fornecedor de material bélico para inimigos do Governo. Melhor explicando, o comerciante de fogos de artifícios era acusado de fornecer aos subversivos material explosivo, utilizado na composição e feitura de bombas caseiras. Bombas essas que estariam sendo utilizadas nos assaltos a bancos ocorridos na região.

Levado primeiramente para Juiz de Fora, foi transferido logo depois  para Belo Horizonte, onde ficou detido por trinta dias, retornando depois de solto a Mutum, onde continuou comerciante, mas em outro ramo de negócios, o de armarinhos.

 A Casa das Festas fechou as portas e encerrou suas atividades. Manoel Caxias, desde então, evitava sempre comentar sobre sua prisão.

Outro mutuense considerado subversivo, preso e processado, foi o Marinho Paulista, dono do Posto de Gasolina da Boca da Estrada, um bairrinho assim conhecido por estar situado onde começava a estrada principal que servia de acesso à cidade.

Contrariamente à forma pela qual Manoel Caxias foi preso, durante o dia e na frente de várias pessoas, Marinho Paulista foi apanhado em sua casa, durante a noite, sem que os vizinhos mais próximos se apercebessem de alguma coisa.

 Numa manhã a mulher conhecida por Nezinha do Cota, com quem Marinho Paulista tinha um caso amoroso, foi até o posto e comunicou aos frentistas o que havia acontecido.

Quando indagaram como tudo acontecera, ela simplesmente disse que não sabia de detalhes, que estava na sua própria casa, vizinha a de Marinho Paulista, quando viu chegarem os policiais. Que haviam chamado por ele e o prendido quando abrira a porta. O levaram, segundo ela, algemado, em um jipe. Eram quatro policiais. Ela não conseguiu identificar nenhum deles, o que deixava entender que não era ninguém do policiamento de Mutum.

O sumiço de Marinho Paulista segundo os boatos que se espalharam pela cidade, estaria relacionado com o fornecimento de combustível para abastecer veículos usados por subversivos durante assaltos em cidades próximas.

 Os assaltos a bancos estavam se tornando rotineiros e não dava mais para saber quando eram praticados por grupos subversivos ou por assaltantes comuns. Uns procuravam atribuir os acontecimentos aos outros.

 Marinho Paulista não retornou mais a Mutum. Seu posto de combustível foi abandonado já que não tinha lá nenhum parente que o substituísse nos negócios. O mato foi se apoderando de tudo, tomando conta do local.

Até hoje há alguns mutuenses que continuam afirmando que Marinho Paulista não só abastecia carros de subversivos, mas ganhava também comissão nos assaltos feitos por simples marginais e atribuídos àqueles. Como não retornou mais da prisão, começaram a circular boatos de que Marinho Paulista não tinha suportado a uma sessão de tortura a que tinha sido submetido e que tinha morrido, não se sabia quando nem onde.

Aconteceram também outras prisões não menos importantes, mas vou tomar a liberdade de relatar, por enquanto, apenas esses dois casos e, naturalmente, o de Paulo de Sá.

(Continua na próxima semana)

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