operação mutum – os contrários

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é image.png

(Episódio 5)   

Quando, em 1966, os jornais noticiaram a prisão de um grupo de subversivos no Vale do Aço, em Minas Gerais, houve um rebuliço em Mutum.

Descobriu-se que um dos presos, considerado o mais perigoso dentre todos, um dos cabeças do movimento de resistência naquela região do interior de Minas, era ninguém menos que o irmão de um dos mais conceituados moradores de Mutum, Carlos de Sá, funcionário público federal, responsável pelo escritório encarregado do registro de propriedades rurais na cidade e referência de honradez.

A notícia pegou a maior parte dos mutuenses de surpresa, pois eram poucos os que, gozando da intimidade de Carlos de Sá, sabiam da história política revolucionária do seu irmão.

 A esses poucos amigos, contara que seu irmão mais novo, Paulo de Sá, que vez por outra ia visitá-lo quando tirava férias, era metalúrgico e líder sindical em Ipatinga, onde trabalhava na USIMINAS.

A USIMINAS – Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais, indústria metalúrgica dedicada à produção de aços planos, destinados a atender ao mercado interno e à exportação, principalmente para o Japão, foi fundada em 25 de Abril de 1956, durante o Governo de Juscelino Kubitscheck.

Contando com participação em seu capital dos governos do Estado de Minas Gerais, do Brasil e do Japão, a USIMINAS teve a estaca inicial da construção de sua Usina cravada pelo Presidente JK, em 16 de agosto de 1958, em Ipatinga, então apenas um vilarejo com não mais de 300 habitantes, situado às margens do Rio Piracicaba.

Quando, em 26 de outubro de 1962 o Presidente João Goulart, o Jango, acendeu o primeiro alto-forno e inaugurou a Usina, com capacidade para produzir 500 mil toneladas de aço plano por ano, Ipatinga já contava com uma infraestrutura urbana idealizada pela empresa, capaz de abrigar, de forma definitiva, os cerca de dez mil trabalhadores que atuaram em sua criação e construção.

 Paulo de Sá foi um desses trabalhadores.

Dotado de uma visão política moderna para a época, comungava os ideais libertários daqueles que, após a revolução de 1964, sonhavam com a derrubada do governo militar instituído por ela.

Às escondidas, como era comum aos intelectuais da época, Paulo de Sá assinou filiação ao Partido Comunista do Brasil – PC do B, que, atuando sutilmente na clandestinidade, começava a montar uma estrutura de resistência, inclusive armada, ao governo revolucionário.

 Essa remontagem do partido dá-se, após 1964, com base na estrutura criada a partir de 18 de fevereiro de 1962, quando ocorreu a Conferência Extraordinária do Partido Comunista do Brasil, passando a adotar a sigla PC do B, para diferenciá-lo do Partido Comunista Brasileiro, acusado de ser oportunista e de direita.

Para expor, divulgar e expandir suas idéias o PC do B criou o jornal partidário “A Classe Operária”.

 Paulo de Sá torna-se um de seus colaboradores mais assíduos quando assume, em 1963, a liderança do seu Sindicato no Vale do Aço.

Foi na condição de aluno de Carlos de Sá, ainda no curso ginasial, que fui apresentado por ele ao seu irmão. Foi quando ouvi as primeiras alusões ao comunismo no Brasil e no mundo, feitas por um comunista.

 Antes, só havia estudado o assunto em livros escolares, que procuravam destacar apenas alguns momentos da ação comunista, enfatizando o fato de o Partido ter sido proibido no Brasil desde 1947, quando, por decisão do Supremo Tribunal Federal, em 7 de maio, o Partido Comunista Brasileiro – PCB é colocado como fora da lei e proscrito, ficando a partir de então, à margem da lei e na clandestinidade. Consequentemente, em 7 de janeiro de 1948 foram cassados os mandatos de todos os seus representantes.

 Era então Presidente do Brasil o General Eurico Gaspar Dutra, que sucedia no governo ao Presidente Getúlio Vargas, deposto em 29 de outubro de 1945.

 O Governo de Vargas tinha sido iniciado com a Revolução de 1930, tendo o mesmo sido conduzido ao poder, por uma Junta Militar, como Presidente de um Governo Provisório,  após a derrubada do Presidente Washington Luís.

 Ao assumir, Getulio anula a Constituição em vigor, criada em 1891 e promete uma nova Constituição. Em 1932, por não ter cumprido essa promessa de governo, enfrentou aquela que ficou conhecida como Revolução Constitucionalista. Um movimento revolucionário liderado por São Paulo que se propunha a depor Getulio por descumprimento das promessas feitas ao assumir o governo revolucionário que havia deposto o presidente Washington Luiz e impedido a posse de Julio Prestes.

 Do lado paulista foram mobilizados cerca de trinta e cinco mil revoltosos. O Estado de São Paulo foi sitiado por cerca de cem mil soldados integrantes das tropas federais e a revolta foi dominada.  Em 1934 deu início ao chamado Governo Constitucional, quando foi eleito, em escolha indireta, pelo Congresso.

 Em novembro de 1937, por meio de um Golpe de Estado, tornou-se Ditador, governando nessa situação até ser deposto e sucedido pelo General Dutra, que era até então seu Ministro da Guerra, em 1945.

Com a deposição de Getúlio Vargas em 29 de outubro de 1945, assumiu o Governo em seu lugar José Linhares, Presidente do Supremo Tribunal Federal, até que fossem realizadas as eleições que elegeram, em dezembro daquele mesmo ano, com grande maioria de votos, o General Eurico Gaspar Dutra, que tomou posse em janeiro de 1946.

Apoiado por Getúlio Vargas, a quem substituía, o Presidente Eurico Gaspar Dutra, que pertencia aos quadros do Partido Social Democrata – PSD, teve como Vice-Presidente Nereu Ramos e como adversário o também militar Brigadeiro Eduardo Gomes, representante da oposição, pertencente à União Democrática Nacional – UDN.

Durante o Governo Dutra aconteceu uma Assembléia Constituinte, responsável pela promulgação da Constituição de 1946, que fortalecia a divisão dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – e restabelecia as eleições diretas para cargos dos Poderes Executivo e Legislativo, estabelecendo o mandato de cinco anos para cargos do Poder Executivo.

A Constituição de 1946 vigorou até acontecer a Revolução de 1964. Foi durante o Governo Dutra que o PC do B foi declarado clandestino.

A história do PC do B, contada pelos comunistas no inicio da década de 60, ia muito além daquela relatada nos livros escolares. Estava atrelada, segundo ouvi de Paulo de Sá em uma de suas visitas a Mutum, ao avanço do comunismo no mundo em defesa dos fracos, dos oprimidos e da igualdade dos direitos humanos.

 Seu maior mérito, segundo ele, era combater o capitalismo selvagem e escravagista representado pelo poder expansionista dos Estados Unidos da América. A sua busca pela liberdade das massas envolvia todo um movimento revolucionário latino americano, que tinham como exemplos maiores a Revolução Castrista de 1959, levada a termo em Cuba, por Fidel Castro, e o processo revolucionário chinês liderado por Mao Tsé-Tung, com suas ações de guerrilhas rurais e urbanas, em sua marcha vitoriosa.

Segundo afirmava Paulo de Sá, os comunistas brasileiros organizavam-se, pós revolução de 64, para a retomada do poder pelos civis, se preciso fosse, até pelas armas, para a instalação de um governo revolucionário e. para que tal fato ocorresse, já contavam com o apoio popular .

 O Brasil seria comunista e iria liderar toda a América Latina e o Caribe, ao lado de Cuba. A Ilha Caribenha era o destino de jovens brasileiros, principalmente estudantes, que para lá se dirigiam em busca de treinamento militar com os guerrilheiros cubanos, na tentativa de formar grupos no Brasil que, adotando as táticas de guerrilha empregadas nos campos e nas cidades aprendidas em Cuba, viessem fortalecer a resistência civil organizada em força militar paralela às legais das Forças Armadas. As chamadas forças subversivas.

O Sindicato presidido por Paulo de Sá, assim como os demais Sindicatos, segundo ele, estimulava e até financiava, quando se fazia necessário, a ida desses grupos a Cuba.

O próprio Paulo, como nos disse, já havia feito duas visitas a Havana, sempre de forma clandestina. Não podia, no entanto, segundo ele, informar os passos e o caminho adotado para sair do País até seu destino e voltar em segurança. Havia programado mais três viagens que considerava serem necessárias para, segundo ele, terminar o treinamento iniciado na primeira, feita poucos meses depois da queda de Jango.

Em uma das suas visitas ao seu irmão, em Mutum, Paulo de Sá iniciou uma tentativa de arrebanhar, com suas idéias esquerdistas, admiradores entre nós, jovens estudantes da cidade e da região. Para tanto, contava com a ajuda de algumas pessoas de influência na cidade, além do seu irmão, que o viam como uma espécie de herói nacional da resistência, predestinado a salvar o Brasil das garras da Águia Americana.

 Esses seus amigos chegados à esquerda providenciaram uma visita de alguns estudantes de uma Universidade Federal Rural, localizada em Campo Grande, no Estado do Rio de Janeiro, à nossa cidade, em 1963. O Projeto Mutum.

Chegaram em dois ônibus, em um total de sessenta estudantes de diversos cursos. A intenção da visita, que duraria quinze dias, era a de prestar ajuda técnica e científica à população, levando conhecimentos modernos nas áreas de educação, saúde, economia e políticas públicas, além de outras, aos mutuenses que se interessassem em adquiri-los.

Foram recebidos com festas e hospedados não em hotéis e pensões, mas nas próprias casas dos moradores, como se fossem de suas famílias. A intenção não declarada e mantida em total disfarce era a de propagar as idéias da Esquerda Estudantil Universitária, seguidora do Partido Comunista do Brasil.

O professor Carlos de Sá e o seu irmão, Paulo de Sá, Presidente de Sindicato no Vale do Aço, estiveram presentes durante todo o tempo em que o grupo de estudantes permaneceu em Mutum, dando-lhes assessoria, orientando-os e apresentando autoridades e pessoas que julgavam importantes e capazes de aderirem à causa comunista, na região.

Estatutos do Partidão, como era chamado o PC do B, foram impressos na principal gráfica da cidade e graciosamente distribuídos a todos os novos filiados ou candidatos à filiação.

 À noite, nas salas de visitas das residências discutia-se artigo por artigo, o Estatuto. O mesmo acontecia até nos bancos da Praça Central onde, sem que o livro fosse manuseado, suas idéias eram discutidas e propagadas.

 Durante quinze dias a doutrinação comunista foi feita de uma forma sistemática através de meios modernos da pedagogia e da didática. Carlos de Sá e seu irmão Paulo, ao final dos quinze dias, quando os estudantes retornaram a sua Universidade, no Rio de Janeiro, estavam satisfeitos com o resultado do trabalho levado a cabo na cidade.

Um grande número de novos seguidores foi filiado ao PC do B, embora a essa filiação fosse de forma clandestina. Novos propagadores do ideário comunista. Novas adesões aos sindicatos regionais existentes e até a formação de um sindicato local, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, que não existia antes em Mutum. O comunismo, segundo os dois irmãos, começava assim a ganhar força e cara na região.

(Continua na próxima semana)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s