MAGIA

Magia, Varinha Mágica, Chapéu

Emílio Serta

Simão, o mágico, depois de espetacular exibição da guilhotina, de impressionante abalo, realizou o último número da noite. Fez aparecer em sua cartola, aparentemente vazia, dois pombos que começaram a fazer evoluções graciosas pelo palco.

O público aplaudiu com entusiasmo suas habilidades e o pano teve que se levantar três vezes para mostrar a cara sorridente do mágico e seus agradecimentos aos sonoros e persistentes aplausos.

Terminada a função, os espectadores foram saindo e comentando os magníficos truques observados, buscando a explicação lógica para todas aquelas maravilhas que haviam desfilado diante dos seus olhos: a cabeça suspensa no ar, a mulher cortada ao meio por um serrote e cujas duas partes se uniram como não poderia fazê-lo o mais hábil dos cirurgiões.

Chang, o ajudante do mágico, estava reunindo os diversos aparelhos do espetáculo para guardá-los convenientemente até a função do dia seguinte, quando se aproximou Simão ainda vestido com sua elegante casa. Do seu rosto desaparecera o brilhante sorriso com que saudava o público. Estava sério, carrancudo e com voz áspera recriminou seu ajudante.

– Está se distraindo muito, Chang.

Chang abriu os olhos orientais o mais que pôde, sem compreender a repreensão.

– Eu senhor?… Por que dizer isto de Chang?

– Não sabe, acaso, que o número da cartola é feito com um só pombo?

– É claro que Chang saber, senhor.

– E se sabe, por que saíram, então, dois pombos em vez de um? Você preparou mal o número.

Mas Chang jurou e voltou a jurar que só pusera um pombo e que de modo nenhum poderia ter-se enganado.

O mágico retirou-se resmungando. O erro fora evidente. Haviam aparecido dois pombos, disto não havia dúvida. Portanto, não adiantava discutir. Mas pouco depois seu ânimo voltou a serenar e ele esqueceu o incidente. Além disto, achava-se preocupado com a preparação de outro número. Pensava combinar, num truque de grande efeito, o ato da mulher hipnotizada que flutuava no ar, com o das espadas que pareciam enfiadas no corpo. Havia possibilidades de grande efeito. E enquanto tirava a casaca, escovando-a cuidadosamente e guardando-a no roupeiro, continuava combinando mentalmente os pormenores que lhe serviriam para obter um número de alta magia.

“A mulher suspensa no vácuo, uma espada que se enfia… Oh, magnífico, magnífico!…”.

No dia seguinte, terminada a função da noite, Simão repreendeu novamente seu ajudante, desta vez com maior violência.

– Chang, se ontem desculpei sua negligência, não poderei fazê-lo outra vez. Já não foram dois pombos, mas três. Dois mais do que é necessário. Que me diz a isto?

O rosto do mágico estava vermelho de indignação. Chang, em troca, empalidecera, e apenas conseguiu balbuciar uma desculpa:

– Chang jurar, senhor Simão, que não colocar mais que um pombo na cartola… Chang jurar…

Mas o prestidigitador interrompeu-o com raiva:

– E para cúmulo havia também mais lenços na prova dos cilindros. Tirei duas vezes a mais da quantidade combinada. Que tem você? Vem bêbedo para o trabalho?

O oriental voltou a jurar e desta vez pela memória sagrada de seus antepassados eu cumprira sua função com a correção requerida e não podia explicar o acontecido.

O mágico, já aborrecido, replicou:

– Está bem. Amanhã eu mesmo prepararei os aparelhos. Não posso mais ter confiança em você. É um desastrado!

E retirou-se, desdenhoso, deixando seu secretário no mais lamentável estado de confusão e perplexidade.

***

No dia seguinte, como dissera, Simão preparou os aparelhos. Separou cuidadosamente um pombo para o número da cartola, e a quantidade necessária de lenços para o dos cilindros. Desta vez não haveria possibilidade de erro, estava certo disto.

Simão suspirou. Ah, bem complicada e cansativa era a tarefa do prestidigitador! Os aparelhos deviam ser minuciosamente preparados para a obtenção do truque. Uma preparação deficiente podia fazer que seus números falhassem e nada havia mais desabonadora para um mágico do que um truque malogrado.

Pouco depois o público voltado a encher o teatro, ansioso por assistir às suas experiências de magia e estremecer com os surpreendentes números de decapitações, invisibilidade, hipnotismo, etc.

Levantou-se o pano. A plateia aplaudiu cordialmente a apresentação de Simão em sua sempre impecável casaca, com as mangas arregaçadas até o cotovelo para demonstrar que não utilizava o artifício grosseiro e vulgar de ocultar objetos nas mangas.

Os números iniciais voltaram a ser repetidos com a habilidade costumeira. Realizou toda a sorte de escamoteações. Fez entrar uma mulher numa caixa absolutamente vazia e depois dum instante, diante da surpresa geral, abriu a tampa sem que existissem sinais dela.

Sorridente, iniciou depois o número da cartola. Fez subir ao palco um espectador, pedindo-lhe que examinasse o interior. O espectador retirou-se satisfeito. Era uma carola como qualquer outra. Mas nas mãos de Simão os objetos adquiriam um sentido maravilhoso. Ele mesmo, além disto, separara para este número o pombo. Estava, pois, certo da matemática realização do truque.

Sobre a cartola, vazia, Simão fez alguns “passes magnéticos”. Sua mão branca simulou alguns curiosos arabescos e logo, para alegria desconcertante do público, começaram a sair os animais da cartola. Primeiro, dois pombos, depois outro e outro mais. O público aplaudia delirantemente, mas Simão sentia que um suor frio inundava-lhe a fronte até derramar-se pelo rosto e que suas mãos, sempre ligeiras e seguras, começavam a tremer.

Os animaizinhos continuavam a sair da cartola. Desta vez eram coelhos e depois mais pombos.

Chang acudiu para recolher os animaizinhos que em grande quantidade enchiam o palco. Enfim, depois de outros três pombos e um coelho, o chapéu parecia ter esgotado sua fonte.

– Por que sair tantos animais, patrão? – perguntou-lhe Chang, baixinho.

Simão, sem responder, olhou-o com raiva. Não sabia mais de nada. Não compreendia mais nada. Estava como que mergulhado numa angústia indefinível. Depois de uma pausa, começou outros números. O taumaturgo, tratando de aparentar serenidade, iniciou outro número de magia. Introduziu as espadas num aparelho, fingindo furar o corpo duma mulher. Depois, com uma rede, começou a caçar animaizinhos no ar. Galinhas e mais galinhas saíam do nada e ficavam presas na rede. O público, fascinado, assistia à estranha caça, mas Simão voltou a preocupar-se. Não devia ter caçado mais de quatro galinhas, somente quatro galinhas bem contadas, mas a rede, com estranha voracidade, continuava agarrando novos espécimes. O palco fervia com as buliçosas galinhas e os aplausos fendiam o ar celebrando a casa prolífera. Por fim, esgotaram-se os animais da rede e Simão começou o número do cilindro e dos lenços de cores.

Como sempre, o mágico exibiu o tubo vazio, sem fundo duplo. E depois de uma ligeira manipulação começou a tirar os lenços. Simão já previa, temeroso, o que ia acontecer. Seria uma fileira inacabável de lenços amarrados. E assim aconteceu, com efeito. Lenços e mais lenços saíam do tubo. Era uma serpente enorme, colorida, interminável.

O público pusera-se de pé, em delirante aclamação. Simão, pálido, tremia esgotado. Chang fugira, espantado com aquilo que nunca vira.

Caiu o pano, voltando a levantar-se várias vezes, exibindo o rosto pálido do mágico, junto a uma selva impenetrável de lenços coloridos.

***

Simão terminou por convencer-se de que seu embuste havia adquirido uma fantástica realidade. Seus truques deixaram de ser truques, concretizavam-se em absoluta magia.

Quando ficou sozinho, voltou a tomar seus aparelhos, sem desta vez colocar neles animais ou lenços. A experiência reproduzia-se com generosidade. Saíam coelhos, galinhas, pombos e lenços… Saíam do nada!

Que significação tinha tudo isto?… Magia?… Ora, falar a ele de magia…

Tentou encontrar uma explicação para o acontecido. Isto ultrapassava o real. Devia ter ligações com as forças sobrenaturais. Alguém, um “alguém” onipotente, devia ter-lhe outorgado o dom da magia. Devia ser isso. Transformara-se num mago autêntico, mesmo que ninguém acreditasse. Ninguém encontraria em suas proezas o truque, o engodo, a habilidade, o fundo duplo.

Mas havia um “alguém” que o favorecia, uma misteriosa divindade que lhe concedera sua mercê, o poder de fazer milagres, o poder de criar do nada o que desejasse. Transformara-se, pois, num “fazedor” que podia repetir o “fiat lux” com gesto imperativo.

Ao ter consciência desta força, Simão sentiu-se assaltado por sentimentos opostos. Sentiu medo e alegria ao mesmo tempo. Uma estranha mistura de alegria e terror agitou-se em seu peito e em seus pensamentos. Temia esse mistério suspenso acima de sua cabeça, temia a posse desse milagroso dom e o envaidecia, assim mesmo, o poder que esse “alguém” onipotente parecia conferir-lhe.

Como uma confirmação de seus pensamentos, Chang apareceu.

– Chang ir embora, patrão.

– Vai deixar-me?

– Sim, patrão. Isto não ser já ilusionismo. Isto ser outra coisa. Os deuses estar irritados com o senhor.

– Não me deixe, Chang, preciso de você…

Mas Chang, obstinado, balançou a cabeça negativamente.

– Os deuses estar irritados, patrão… Adeus.

***

No entanto, apesar de todos os pensamentos de angústia que o assaltaram, Simão orgulhava-se por se saber possuidor desse estranho poder.

Já não precisava de truques nem de aparelhos. Faria seus números, dali em diante, sem preparativo algum, mesmo quando o público o acreditasse existente.

Chang tinha ido embora? E daí? Ele sozinho poderia oferecer espetáculos cada vez mais maravilhosos e de magia real.

Convicto do seu poder sobrenatural, esperou a próxima função com verdadeira impaciência e ao entrar em cena ostentava o semblante iluminado por um amplo sorriso de triunfo. Faria maravilhas. Bastaria invocar esse “alguém” para povoar o ambiente de pássaros e animais curiosos.

E assim foi, com efeito. Fazia um simples gesto e em sua mão aparecia um pombo, um coelho, um papagaio. O público aplaudia entre surpreso e assustado. Quais seriam os truques desses estranhos atos de ilusionismo?

– Abra sua mão, senhor – disse o taumaturgo a um espectador muito gordo, sentado na primeira fila.

O senhor gordo abriu a mão vazia, aparecendo nela, de repente, um papagaio grotesco que voou emitindo agudos chiados. O público prorrompeu em risadas e aplausos. O senhor gordo preferiu levantar-se de sua cadeira e retirar-se a toda pressa.

Simão estava radiante. Os números saíam com toda a perfeição desejada, impecáveis, inverossímeis.

O ato seguinte era o de maior expectativa da noite: o da guilhotina. Recostava-se uma mulher junto ao aparelho, introduzindo sua cabeça debaixo da navalha. Os preparativos realizaram-se lentamente, como era de rigor diante da nervosa atenção dos espectadores.

Com o olhar ébrio de jactância, Simão puxou a corda que segurava a navalha e a cabeça da mulher rolou pelo solo, enquanto um grosso jato de sangue brotava de seu pescoço decapitado.

O espetáculo tinha uma tal aparência de realidade que assustava de verdade. O silêncio era absoluto. O público observava tudo o que ocorria invadido de mudo e contido espanto, mesmo quando aguardava a ressurreição da vítima.

Transcorridos alguns momentos de tensa espera, depois dos quais brotou um aplauso atroador que pareceu encher a sala com algo de conciso, espesso, a multidão aplaudia, exaltada de entusiasmo, até ficar com as mãos vermelhas. Simão levantara a cabeça que jazia no solo e a observava. O público continuava aplaudindo, mas Simão nada ouvia. Estava surdo a ponto de enlouquecer. Sentia que o sangue se paralisava nas veias e que um torvelinho de angústia e pavor apoderava-se de suas sensações. Suas mãos sustentavam o crânio sangrento da jovem que se prestara ao número… e não havia magia possível. Em vão invocava o “alguém” onipotente… Onde estava essa escura divindade que lhe outorgada o poder da magia?

Febril, dirigiu-se ao corpo exânime da mulher. Tirou as correias que o sustentavam e diante do horror de todos os que contemplavam a cena exibiu o corpo decapitado. Já com uma risada de loucura, tentou sem jeito colocar a cabeça sobre os ombros. Tinha as mãos manchadas de sangue, como as dum açougueiro.

O público, compreendendo que não havia ilusionismo naquilo, fugiu aterrorizado, enquanto Simão, já no abismo da demência, gritava:

– Não pode morrer. Eu sou um mágico autêntico. Um mágico autêntico… Não pode morrer…

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