Arquivos Mensais: junho 2020

The World Machine


Carlos Drummond de Andrade

And as I vaguely insole
a Minas road, rocky,
and in the late afternoon a hoarse bell
mix with the sound of my shoes
that it was paused and dry; and birds hovered
in the leaden sky, and its black forms
slowly if they were diluting
in the greater darkness, coming from the hills
and of my own being disillusioned,
the machine of the world parted
for those who break it already dodged
and just having thought about it.
It opened up majestic and circumspect,
without making a sound that was impure
not a flash greater than the tolerable
for pupils spent on inspection
continuous and painful desert,
and the exhausted mind of lying
a whole reality that transcends
the image itself its debugged
in the face of the mystery, in the abysses.
It opened in pure calm, and inviting
how many senses and intuitions were left
whoever used them had already lost them
and I wouldn’t even want to get them back,
if in vain and forever we repeat
the same without sad periplated scripts,
inviting them all, in cohort,
to apply on the unprecedented pasture
of the mythical nature of things,
so he told me, although no voice
or blow or echo or simple percussion
attest that someone, on the mountain,
to someone else, nocturnal and miserable,
at a conference he was addressing:
“What did you look for in yourself or outside
your being restricted and never showed yourself,
even affecting giving or surrendering,
and with each moment more withdrawing,
look, notice, listen: this wealth
over all pearl, this science
sublime and formidable, but hermetic,
this total explanation of life,
that first and singular nexus,
you don’t even conceive anymore, because it’s so elusive
revealed itself before the fiery research
in which you consumed yourself … see, contemplate,
open your chest to wrap it. ”
The most superb bridges and buildings,
what is elaborated in the workshops,
what we thought was and soon reaches
greater distance than thought,
the dominated land resources,
and passions and impulses and torments
and everything that defines the terrestrial being
or extends even in animals
and reaches the plants to get soaked
in the spiteful sleep of the ores,
goes around the world and engulfs itself again,
in the strange geometric order of everything,
and the original absurdity and its riddles,
its high truths more than all
monuments raised to the truth:
and the memory of the gods, and the solemn
feeling of death, which flourishes
on the stem of the most glorious existence,
everything presented itself at a glance
and called me to his august kingdom,
after all submitted to human sight.
But, as I was reluctant to answer
to such a wonderful appeal,
because the faith had softened, and even the yearning,
the most minimal hope – this yearning
to see the thick darkness faded
that between the rays of the sun it still filters;
as defunct beliefs summoned
promptly and fretfully did not take place
to dye the neutral face again
that I go through the paths demonstrating,
and as if another being, no longer that
inhabitant of me for so many years,
started to command my will
which, already volatile, closed
similar to those reticent flowers
in themselves open and closed;
as if a late gift was no longer
appetizing, before despising,
I looked down, incurious, lazy,
disdaining to reap the offer thing
that opened free to my mill.
The strictest darkness ever landed
over the Minas road, rocky,
and the machine of the world, repelled,
if it was carefully recomposing,
while I, evaluating what I had lost,
he was still slow, with thoughtful hands.

Originally published in the book “Claro Enigma”, the text above was extracted from the book “Nova Encontro”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1985, p. 300.

A Máquina do Mundo

Carlos Drummond de Andrade



E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.


Publicado originalmente no livro “
Claro Enigma”, o texto acima foi extraído do livro “Nova Reunião”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1985, pág. 300.

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