Lirismo em (sobre) viver

Airton Souza de Oliveira

Abandonou o lirismo do (sobre) viver

desfez as malas e retirou os trajes

calçou as alpercatas de borracha colorida

limpou os resíduos de batom que ainda

persistiam em existir nos lábios

fez de conta que nunca amou

disfarçou a exatidão das horas noturnal

esqueceu as carícias do momento passado

lavou a face por completo

olhou-se no velho pedaço de espelho

pendurado na antiga parede de barro

no reflexo, os olhos vislumbrou si mesma

nada de ornamento a lhe enfeitar

alguns sinais do tempo no rosto

nem uma lembrança da infância

assim como o tempo, que também não

tem infância

enquanto o estômago foi reclamando a ausência

de um pão qualquer

o corpo cansado teimava em descansar

do pote de barro, pegou um copo com água

bebeu em um deleite saboroso

passou a mão pelo corpo

como quem limpava as sujeiras

da fresta do telhado descolorido

olhou o céu escuro sem saber a hora exata

contemplou estrelas a bailarem na escuridão

deitou na mesma cama simples de sempre

ignorou o frio e a todos

fechou as pálpebras e descansou as retinas.

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