operação mutum – OS PODEROSOS

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(Episódio 4)

Em Belo Horizonte, como jornalista, acompanhava os acontecimentos políticos do País como observador privilegiado, uma vez que tinha acesso a informações que os outros cidadãos comuns não tinham e nem sonhavam ter.

 A imprensa, de uma forma geral, embora não contasse com total liberdade, considerando a censura existente em todos os órgãos informativos, ainda se auxiliava dos informantes em todas as áreas de influência, indicando o que seria importante noticiar.

 Notícias nunca faltaram, naquele período obscuro na vida dos brasileiros, embora nem todas as que foram escritas tivessem sido divulgadas. Assim como também nem todas as que foram noticiadas relataram essencialmente toda a verdade dos fatos apresentados. Naturalmente os fazedores de notícias sempre sabiam bem mais do que noticiavam.

Era normal que nós, os jornalistas, fossemos permanentemente vigiados, como se tivéssemos cometido ou fossemos, sempre, cometer algum crime. Isso, porque na condição de formadores de opinião, éramos considerados perigosos para o regime, uma vez que tínhamos a força da notícia  e o poder da persuasão e convencimento da opinião pública, através de nossos escritos, segundo constava dos manuais de orientação de combate aos subversivos, espalhados pelos quartéis.

No nosso caso específico, essas ações seriam as de divulgar informações e notícias contrárias ao governo, que deveriam ser enquadradas como de incitamento à resistência e à insubordinação.

 Considerados subversivos, os responsáveis por noticiar e por divulgar a notícia eram detidos e levados a interrogatório policial. Quase sempre eram processados, presos e, ao serem soltos, se um dia o fossem, ficavam colocados sob vigilância constante sob acusação de subversão.

Havia também partidários da situação, os governistas. E, como não podia deixar de ser, entre esses, alguns que considerávamos mais perigosos,  porque eram capazes de denunciar às autoridades militares os colegas de trabalho ou de profissão, os amigos e até familiares, em nome da defesa nacional.

 Por serem favoráveis ao governo então constituído, não tinham a preocupação de se manterem clandestinos, como os que faziam oposição aberta ou armada.

Com o passar do tempo e o aumento do rigor empregado na repressão, iam assumindo os postos mais altos nas instituições em que trabalhavam. Não importava se no serviço público ou na iniciativa privada.  Sua ascensão aos postos de comando era a certeza de que a empresa, não importando qual fosse, seria bem vista pelas autoridades militares. Os privilégios governamentais estariam, assim, garantidos.

Pior do que ser visto como sendo subversivo era levar a pecha de subversivo comunista. Nada podia ser pior. Nada podia ser mais perigoso. Afinal, a Revolução Democrática de 31 de março de 1964, como era conhecido e chamado o golpe militar ocorrido no Brasil naquela data, só aconteceu, segundo os seus líderes, para evitar que o país se tornasse comunista.

 Eles, os golpistas, foram, portanto, do seu ponto de vista, os verdadeiros salvadores da pátria brasileira, e, por conseguinte,  eram também os responsáveis pela manutenção da democracia.

O Presidente João Goulart, ou Jango, como era conhecido, entregaria o Brasil aos comunistas e assim perderíamos a liberdade que tanto apreciávamos, apregoavam. Felizmente tudo transcorrera sem muita resistência, principalmente armada, e milhares de vidas tinham sido poupadas da morte.

 Essa era a fala uníssona dos que fizeram a revolução e assim, como se houvessem ensaiado,  a justificavam.

Em 31 de março de 1964, quando o General de Exército Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria do I Exército, sediados em Juiz de Fora (MG), iniciou a marcha com suas tropas em direção ao Rio de Janeiro, a história do Brasil começava a mudar o seu rumo.

 Por mais de vinte anos futuros, os brasileiros viveriam debaixo de um regime ditatorial, de exceção, perderiam quase em sua totalidade os direitos políticos, veriam desrespeitados os seus direitos humanos e perderiam a felicidade, tendo que aprender a conviver, nas ruas, com tanques de guerra, barreiras policiais com militares armados de metralhadoras e com canhões colocados em pontos estratégicos nos grandes centros.

A revolução proporcionou aos brasileiros algumas situações novas, diferentes, esdrúxulas, até então inimagináveis.

Via-se, por exemplo, crescer enormemente o prestígio, poder e autoridade de pessoas comuns, que pertenciam às forças militares, entendendo-se não apenas à Marinha, Exército e Aeronáutica, mas também àqueles que compunham as Polícias Militares dos Estados, as Guardas Municipais e, principalmente, as Policias Civis.

Na realidade, todo aquele indivíduo que tivesse o poder de realizar detenção e conduzir à prisão era muito respeitado, tinha muito prestígio e era reconhecido como autoridade. Ao contrário, todos os que fossem civis, por não serem policiais nem militares, perderam clara e substancialmente o poder, o prestígio e autoridade. Assim, os Intelectuais, estudantes e professores foram os que mais perderam e se desvalorizaram, não importando o grau de instrução que tivessem.

 Do ponto de vista de credibilidade, mais valia um militar de qualquer patente, um detetive ou investigador, que um estudante universitário, um mestre ou um doutor em qualquer área do conhecimento humano. Quem, em qualquer circunstância, acreditaria cegamente em um intelectual no Brasil pós-revolução? Quem, em qualquer dessas circunstancias, desacreditaria de um militar pós-revolução?

Essas duas perguntas, feitas bem da forma como estou colocando e cujas respostas não deixavam nenhuma dúvida quanto ao que deve ser respondido, não fui eu que as fiz, de verdade. Foram feitas uma noite, durante uma das aulas a que assistia na faculdade. Quem as fez foi um dos colegas, chamado Nestor e ele mesmo as respondeu, de uma forma irrefutável, indiscutível, inquestionável. Disse-nos, a nós, seus colegas e ao nosso professor, que depois do acontecimento da revolução, bastava vestir uma farda qualquer, ou apresentar qualquer identificação policial para que a pessoa estivesse investida de toda uma autoridade superior. E que a palavra de uma autoridade, quando colocada em confronto com a de um civil, qualquer que fosse ele, seria sempre aquela a ser considerada e a que seria   verdadeira. E disse mais, o Nestor, que por ser a palavra de uma autoridade, não poderia ser contestada.

 Frisou ainda que “não importa para quem vai decidir a questão sobre de quem é a palavra verdadeira o nível intelectual do civil”, concluindo que “ele não terá autoridade nenhuma sobre o militar, o policial ou sobre aquele que fala pelo governo”.

Lembro bem que quando o Nestor fez as perguntas, estávamos debatendo exatamente a questão da autoridade e do poder adquiridos por um indivíduo quando vencia uma eleição e se elegia para um cargo político. Aí, o Nestor interrompeu o debate.

 Ele ficava sempre sentado lá no fundo da sala, rente à parede, nas últimas carteiras e nunca participava das discussões. Até então. Nesse dia, não só se pronunciou como fez um quase discurso de forma empolgada, tendo até o cuidado de usar um tom de voz que não deixasse dúvidas sobre o que queria dizer: “Acho que esse debate é uma pura e total perda de tempo” começou assim a sua fala. “Estão se esquecendo que vivem em um país onde não se elegem mais políticos. Qualquer coisa que disserem aqui deve ser entendida apenas como utopia. Quem determina, hoje, o que é certo ou errado, que possui poder e autoridade é quem veste uma farda ou pode apresentar uma identidade policial. Quem acreditaria cegamente em um intelectual no Brasil de hoje? Quem desacreditaria de um militar, neste nosso Brasil? Só quem é subversivo ou quem é comunista. E, para esses, temos isso” e o Nestor tirou da cintura um revólver, colocando-o sobre a carteira antes de concluir “ e metralhadoras e cadeia”.

 Descobrimos, assim, o que até então não sabíamos, que o Nestor era uma autoridade policial civil. Depois desse dia ele foi escasseando a sua presença em nossas aulas até abandonar o curso.

 Coincidentemente, alguns de nossos colegas, da minha sala e de outras turmas, começaram, também, a abandonar o curso.

Os comentários feitos à boca pequena, de forma bem despistada, confirmavam que alguns outros policiais e militares estiveram infiltrados em outros cursos na faculdade e que agora, depois do deslumbramento do Nestor, haviam abandonado os estudos e retornado às delegacias e aos quartéis. Não antes de denunciarem alguns “subversivos” que estudavam conosco e que, misteriosamente, desapareceram das salas de aulas sem trancarem a matrícula nem se transferirem.  Passamos então a fazer uma brincadeira: quando alguém nos perguntava o que achávamos de alguma coisa ou de alguém, respondíamos rindo, em tom de brincadeira, que “eu não acho nada porque um amigo meu achou e nós não o achamos nunca mais”.        

(Continua na próxima semana)

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