Índio Retirante

Max Reis

I

É difícil dizer em cada rima

O que já foi falado pela vida

Desse homem que desce na subida

E de costas dá passos para cima

Quando tudo está triste logo anima

Do gogó tira um som de melodia

E a tristeza sorri na cantoria

Quem se chega assovia e vai cantando

E quem parte se vai cantarolando

Com o peito repleto de alegria

II

Era o galo cantar de manhãzinha

Assanhando as galinhas no poleiro

Que esse homem-menino era o primeiro

A saudar a alvorada da cozinha

E depois do café, rosca e farinha

Já se via no seio da floresta

A pastinha caindo pela testa

E uma faca enfiada no calção

Índio preto, Bai-bai, raio e trovão

Um nativo espreitando pela fresta

24 II PRÊMIO PROEX/UFPA DE LITERATURA

III

Nesse tempo se andava devagar

Passos curtos, medidos, quase lentos

Como se bafejados pelos ventos

Co’a certeza que dava pra esperar

Fala mansa, pausada e sem gritar

Nas conversas alegres da varanda

Lá crescia o moreno em vida branda

Entre folhas, raízes e igapó

Imitando o cantar do curió

Onde a hora do tempo não desanda

IV

Mas ninguém sabe ao certo o seu destino

Onde e quando chegar sem nem ter ido

E por ser um valente e destemido

Foi seguir as pegadas de um felino

Bem mais certo dizer – um leonino

Na esperança de uma vida feliz

Lá nas brenhas assim é que se diz

Como se na grandeza da cidade

Estivesse uma tal felicidade

Invisível e a um palmo do nariz

POESIAS 25

V

Pôs o saco de roupa no cangote

E a faquinha na meia do sapato

Nem olhou para trás pra ver o mato

Transformar a tristeza num chicote

Quando o barco acendeu seu holofote

A saudade brilhou em sua pupila

Gota a gota uma dor fazia fila

E no canto dos olhos virou pranto

Noite escura de puro desencanto

Em que o medo não mata, mas mutila

VI

Aportou feito um pobre retirante

Entre as pedras do Beco do Cardoso

O pisar era um tanto temeroso

Nem lembrava a figura de um xavante

Cabisbaixo e com rugas no semblante

Adentrou pela casa meio triste

Da janela que a vida tudo assiste

Vislumbrou casarões e a velha igreja

Como em fim de oração disse “assim seja”

Passarinho não vive sem alpiste

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