Vozes do caos

Mônica de Nazaré da Costa Pereira

Todos os dias, antes de dormir, fecho meus olhos e oro a um Deus que não sei reconhecer. É que ainda não o vi. Não tivemos nenhum tipo de contato, por isso não sei reconhecê-lo. E isso me incomoda, porque de uns tempos pra cá sinto que Ele anda me rondando pronto para me furtar algo que ainda não faço ideia do que seja. Ele anda me seguindo e eu não consigo saber de onde Ele vem. E nem porque vem… Eu tenho medo… Tenho medode tudo que pode vir por trás. Tenho medo que Ele não resolva vir de frente para me roubar cara-a-cara. Tenho medo do susto e do incômodo de ser surpreendida. Queria que amanhã fosse um dia diferente. E que minha casa fosse diferente. Tudo aqui me deixa tão apagada… E magra. Estou só pele e osso. Ai Deus, não quero que me conheças agora, estou tão feia. Não me roube agora, pois já não tenho nada. Passarei pra debaixo da cama, quem sabe lá Ele não me encontre. Não quero que me veja. E se me encontrar nem trás, nem frente terei. O espaço é tão curto, do tamanho certo para meus ossos. O jeito será Ele chegar de lado. Mas agora para qual lado? Sinto-me inquieta por pensar em ficar debaixo da cama e não saber de que lado Ele virá.

Todas as vezes que oro a Deus eu me sinto perturbado, porque sinto que falo com um estranho que vive correndo nas ruas sem rumo.

Um quase louco. Ele ou eu. Quem corre mais? Já não sei… Outro dia uma borboleta entrou em casa e não soube mais sair. Debateu-se toda no balancim da sala até quase perder suas cores. Era azul. Bateu suas asas até a morte. Morreu no alto e caiu. A vida parece pouca… Fiquei sozinho mais uma vez. Um dia Diana, antes de me deixar, disse que Deus estava nas borboletas. Não fiz por mau. A borboleta desistiu de viver, pois a janela sempre esteve aberta e quis morrer no balancim. Às vezes acho que Deus não passa da janela pra dentro, pois minha casa anda tão bagunçada. Não cabe ninguém. Na verdade não quero que venha aqui, pois não quero que saiba da minha bagunça e da borboleta morta. Vou sair de casa. Não quero falar com Ele, não hoje, porque não quero me sentir sozinho mais uma vez.

Debaixo da cama eu tenho um mundo só meu. Eu sei que Ele pode vir pelos lados e eu talvez não esteja olhando para o lado certo, mas por enquanto eu posso olhar para um dos lados e sentir que não tenho medo.Sentir que Ele não me assustará por trás e que não virá me encarando.Tenho medo de encará-Lo. Acho que não teria estômago pra isso. Quando

eu era pequena minha mãe dizia que Deus ralhava com quem fazia as coisas erradas. Mas ela nunca me ensinou o que era o certo… Nunca tive conceitos… Nunca ditaram as normas. Viver livre demais me assusta porque temo que Deus faça o mesmo que fez a minha mãe. Quando menos esperamos a vida se acaba. Até as flores que dormiam no jardim se acabaram. Nasceu uma única flor solitária. Roxa. Cor da morte. Acho que vivi errando desde sempre. E agora sinto esse Deus mais próximo que nunca.

O sol estava mais forte que nos outros dias, mas mesmo assim saio. Tinha que esquecer um pouco de Deus. Quem sabe eu ignorando-o um só dia faça com que Ele se lembre de mim e pare de correr feito louco atrás de quem não procura por Ele. A minha mágoa é que Ele não me olha, isso até antes mesmo da minha casa começar a ficar bagunçada. E eu estou aqui agora sem saber pra onde ir, nem eu aguento minha bagunça. Quem sabe se eu gritasse? Se eu colocasse fogo em meu próprio corpo? Chorariam algumas mulheres que eu amei, inclusive Diana, mas onde Deus se encaixaria no meu desespero?

Não! Não tem cabimento eu ficar aqui, escondida desse jeito. Se Deus resolver me raptar terei que ser forte. Mas como vou saber quem é Ele se o desconheço? Um dia minha mãe falou que Deus era um grande ser. Mas se Ele é tão grande, como eu não o enxergo? Estou mais cega que nunca. Mais cega. Acho até que estou enlouquecendo… Estou me sentindo

tão só. Preciso ver gente! Já sei, vou pra rua! Vou andar um pouco. Beber um pouco de sol nesse meu corpo repugnante de medo.

Quando olho para as pessoas na rua, vejo muitas vezes rostos alegres. Será que já encontraram a Deus? Ou será ao contrário? Os velhos mendigos choram nas portas das igrejas. Querem uma esmola. Querem viver. Será que já encontraram Deus? Queria que Deus não corresse de mim uma só vez apenas. Acho que não falaria só de mim. Falaria desses homens nas portas das igrejas. Falaria dessa guerra entre os homens que não acaba nunca. E pediria um amor que me fizesse esquecer tudo isso. Mas faz tempo que o vejo pela janela de casa correndo sem rumo, procurando algo que acho que nem Ele sabe o que é. Somos dois sós. Acho que descobri seu segredo porque agora Ele chora. Começa a chover.

Acabou o sol e meu corpo se embriaga de chuva. Não tenho maismedo, pois não estou mais só, tenho a chuva e ela me parte em milhares de gotículas que caem no chão e deixam meu rastro. Agora ficou mais fácil d’Ele me achar. Deixei minhas gotas pelo caminho. Vou ficar naquela praça da esquina e esperar por Ele e espero que quando venha que me leve tudo de uma só vez e que eu fique logo sem nada para perder o medo de perder tudo. Vou esperar sentada na praça. É então que percebo, Deus está mais próximo que nunca, pois na rua encharcada o céu aparece no chão. Meus pés pisavam onde Deus pisa, de acordo com minha mãe. Estou no território d’Ele e algo pode acontecer a qualquer momento. Não vou

negar, tenho tanto medo. Queria tanto alguém pra me fazer companhia.

Alguém pra amar e sentir que nunca estou só. Para esperar por esse Deus, de braços abertos pra vida, com alguém que seja eu de uma forma que ainda desconheço.

A chuva até que está agradável. Molhou-me o corpo por inteiro. A mim e a uma moça que está nesta mesma praça. Será que Deus está nela? Por que todos fugiram da chuva e só ela que não? Parece gostar de se banhar desse jeito. Ou é Deus? Como Ele não pode sentir a

chuva, pois acho que não tem pele, está nela para sentir ao menos uma vez como é sentir-se pintado numa tela na vida real. A chuva pinta essa moça. Todas as gotas que caem nela são multicoloridas. Acho que na verdade Deus se aquietou. Parou de correr e agora pinta uma das mais belas de suas obras-primas. Deus é o grande pintor. Moça? Cheguei mais perto.

Tenho medo desse homem que se aproxima. Pensei que fosse Deus, mas não era, pelo menos achei que não era. Eu estava molhada e com vergonha. Mas ele também estava. E sorria. Senti que Deus estava no sorriso molhado dele. Diga. E os dois sorriram um riso acolhedor, que aquecia o corpo inteiro. E ela, estendendo sua mão para ele, olhou para o céu e sorriu (nesse sorriso cabiam todas as últimas cores inventadas pelos poetas de acrílico que desenham palavras imortalizadas em meio ao caos). E entre os dois havia um propósito: viver desconhecendo o futuro começado desde hoje.  Ambos sabem que alguém os levou até ali. Só não sabem como… Já não recordam o medo e a angústia. Os olhares equilibravam a poeira do cosmo e repousaram o pensamento para nunca mais reprovar e ser reprovado. E ali permaneceram até o caos gerar a noite e tudo voltar a ser como nunca

fora antes.

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