Das manhãs sonoras

Wilson Max Costa Teixeira

Deus coçou o queixo, caiu farelo de pão; nesta manhã o velho demiurgo acordou atacado de  achaques, só não fez descer fogo do céu porque a gente indesejável já se tinha ido; de soslaio apenas enxergou os anjos varrendo os areais – era hábito seu observar a criadagem que penava nos afazeres. Deus era mal-humorado pelas manhãs, tinha até o péssimo hábito de espetar com o seu garfo de ouro os insetos de carapaça brilhante por cima da mesa. E mesmo sendo Ele a emanação de todas as coisas, não podia evitar que alguma voz mais habilitada lhe repreendesse por trucidar suas próprias criaturas. Nesta manhã de hoje lamentou não ter uma pedra à mão para sacar num passarinho que lhe interrompia o silêncio dos anjos trabalhando – eram esses descuidos de Deus que chamavam sua grande misericórdia.

Agora que ficara velho e comia na mesa da cozinha, olhando pela porta detrás, não atinava direito para conversações nas primeiras horas do dia; enterrava o pão numa tigela com leite e levava à boca, sem pressa; só interrompia a frugalidade de seus gestos quando a cozinha dava pra ficar muito suja, atraindo as moscas, que lhe atazanavam os ouvidos e caíam em seu leite frio; nestes dias Deus gritava, transformava alguém em estátua de sal, soltava relâmpagos pelos corredores para reclamar da criadagem. Zangava-se também quando lhe adoçavam demais o leite, porque atraía abelhas, sempre elas, impertinentes e doces; mas quanto a isto Deus não reclamava sinceramente: enquanto elas voejavam, zumbindo por cima da mesa, Deus fazia com que viessem até o halo de sua presença para pousarem em sua boca; e sem que ninguém o visse fazê-lo, o Criador, meio que distraído, ia empurrando com as pontas dos dedos uma a uma, sem pressa. Era com razoável satisfação que o Altíssimo ia mastigando a carne doce e tênue dos insetos; mas dos bichos que lhe aferroavam a face, Deus não mais se importava.

Enquanto Deus comia por cima da mesa, uma criança engatinhava perto duma pia de louças por lavar, era um menino de bunda suja quebrincava com o globo de vidro azul de atas douradas; ele arrastava a esfera com as mãozinhas, empurrava-a com força para longe, e a esfera corria saltitando, riscando o chão de cerâmica entre chispas, bulindo com os pés do Todo-Poderoso. O globo batia nos cantos das paredes e se quebrava em milhares de vidros estilhaçados… O menino se ria todo. Mas, de súbito, a esfera de vidro azul e atas douradas se refazia milagrosamente para a traquinagem do Filho Eterno e desgraça da quietude. Outro dia o Menino Deus irritou o Sagrado: o Primogênito, engatinhando por debaixo da mesa, encostou-lhe inocentemente o sexo úmido enquanto brincava com a esfera; Deus irritou-se, lançou um raio que fez brilhar a cozinha inteira chamuscando os cachos dourados do Deus Filho, que chorou para zanga do Velho.

Deus não suportava a idade da infância, apenas se tinha feito menino para não lhe chamarem caduco, ou rabugento, palavra que vinha de rabujo e soava muito parecido a “rabo sujo”, o que lembrava Satanás e seus anjos. Mas era fardo sobre-humano aquela criança barulhenta de cueiros molhados a revirar a esfera azul pelo chão; fosse um menino quieto, não espezinhasse o Altíssimo, o misericordioso Deus não o teria dado à chusma de matadores.

Deus ficava mudo por cima da mesa comendo o pão com o leite frio. Sentia um prazer imenso daquele som etéreo dos anjos varrendo os areais – o passar das vassouras na areia fina, que o vento movimentava incessantemente desde a fundação do mundo. Deus tremia de gozo com o ruído dos grãos descendo pelas dunas em remoinhos leves, o deserto de toda a criação se revirando como um corpo enfermo. Os anjos seguravam pela barra da estola, como a imitar mulheres de vestido: é que as charpas de suas vestes jamais deveriam tocar o chão, trazer um minúsculo grão de areia para a habitação do Eterno. Os dias deveriam ser assim, e se eles não varressem todo o areal até o findar das horas, o sol também não se recolheria para o cair da noite. Contudo, nem mesmo estes instantes de gozo perenal contentavam o Santíssimo por tantas interrupções inoportunas. As tantas miudezas, os psitacismos das aves, os escrofulosos mal curados, toda a sorte de infortúnio vinha pousar aos pés do Onipotente.

A mãe do Eterno, que passava os dias debruçada numa roca, costurando um manto que a cobrisse, o atormentava. A porta do pequeno cubículo onde a Virgem trabalhava era de carvalho negro, tinha tramelas de bronze; abria-se ali o pequeno orifício da fechadura, por onde chave nenhuma passava; e por mais que lhe batessem à porta para fazê-la parar com a barulheira, a Virgem não podia ouvir, que ela mesma já vai idosa e surda na solidão de sua alcova. Deus se agastava por demais com o ruído soturno daquela roca batendo a desfiar barbantes, odiava aquele manto que não se acabava nunca de fabricar. Mas odiava, sobretudo, o cordeiro que balia dentro do cubículo, o cordeiro de lã da Virgem.

Deus coçava o queixo olhando em torno. Aí segurava a tigela, bebia a papa de pão molhado, limpava a boca. As moscas que voejavam há pouco caíram por sobre a mesa, Deus as transformara em feijões torrados. As abelhas que andavam em sua face também sumiram.

Os anjos penavam lá fora, e as trevas jamais chegavam. Mas agora que a Virgem sossegou com a traquitana de fiar, apenas um gorjeio incômodo tornava a manhã imperfeita: era um passarinho desavisado que trilava irritantemente. A melodia da pequena ave acendia em

Deus a cólera de sua ira: o Eterno rilhava os dentes descaindo os lábios, queria fulminar a ave estúpida; mas logo quedava deixando-se da apoplexia para cair em completo deperecimento; é que Deus há muito se tinha ficado catatônico – foram os séculos convivendo com as criaturas imperfeitas da criação. O passarinho, este sorrateiramente havia entrado pelos arcos das ogivas, daí o matreiro desceu ao Jardim Secreto onde o boneco de barro mija continuamente de cima dum chafariz; a ave mergulhou na fonte, gorgolejou na água, debicou um fruto proibido e voou até a rosácea aberta que dava para a cozinha de Deus.A ave estúpida trilava melodias que irritavam sobremodo o Santo dos Santos. Naquela hora Deus lamentou não ter uma pedra à mão para sacar no passarinho; Deus olhou em torno, os cotovelos postos sobre a mesa, as mãos soltas, tateantes, como se estivessem a procurar algo; foi quando segurou um pão, que rapidamente se materializou num pesado seixo… Da manhã sonora não se escutou mais nada. O jardim calou profundamente pra os lados da cantoria. Passaram-se tempos sem que ninguém mais ouvisse outro pássaro; naquelas horas apenas um silêncio tumular e amplo espraiou-se pela

casa inteira envolvendo a criação, envolvendo Deus enquanto Ele comia. Foram assim os dias da velhice.

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