Arquivos Mensais: junho 2020

Family secret

Mom!

Corey had run down from the school bus, opened the classroom door, and found her mother sitting on the couch in the living room, next to … herself. He rubbed his eyes.

“You don’t see it folded,” said the mother on the left.

  • Which one is my mother? Corey asked, looking from one to the other. The one on the right was more tidy and elegant, it probably wasn’t her mother.
  • What do you think? – Asked the one on the right.

“You,” Corey replied, pointing to the one on the left, in home clothes. She blinked an eye at the other.

  • Didn’t I say I wouldn’t be able to deceive you?

“If we had changed clothes, he wouldn’t have noticed,” said the elegant mother. – As in Príncipe and the Beggar …

  • Hey! I know my mom! Corey protested to the elegant mother. – And you are not her … despite being very similar.

“Come here,” called the mother he knew to be the real one. – Sit between us.

Corey left the backpack on an armchair and approached it, suspicious.

“Mom, you never told me you had a twin sister,” he protested, turning to the left.

The mother stroked his hair.

“Family secret,” he said cryptically.

  • How old is he? – Asked the one on the right.
  • Eight.

“You’re a very smart boy, Corey.” The one on the right stroked his hair, just as his mother had done.

  • What are you called, aunt? – Asked the boy, looking up.
  • Cordelia. But everyone calls me Delia.

Corey narrowed his eyes.

  • That’s my mother’s name!

“Our parents weren’t very creative about names,” she replied, with a sarcastic smile.

  • How about now go take your shower and change for lunch? – Suggested the mother.

Corey rose silently, picked up his backpack and went upstairs to the upper floor, where the rooms in the house were. Alone again, Delia, her mother, concerned expression, turned to Cordelia.

  • I don’t think this will work. We are physically identical, it’s true, but you just didn’t live with Corey … he’ll know it’s not me, even if we change clothes.

“I don’t intend to impersonate you,” said Cordelia indifferently. – I’m taking Corey with me.

“Just for a visit,” Delia pointed out firmly.

“If he wants to stay, what counts is his choice,” Cordelia insisted.

And in the face of Delia’s expression of revolt, she added placidly:

  • Deal is deal.

Delia took a deep breath.

“Okay,” he replied bitterly. – But give me a day, I need to talk to him. Explain the situation.

“Tomorrow,” said Cordelia. – Tomorrow I’ll be back to pick you up …

He consulted his watch and specified:

  • At 12 o’clock sharp.

Then he got up and raised his arms, traced the contours of a large rectangle in the air. A dark wooden door with a brass handle appeared out of nowhere, in the middle of the room. Cordelia pushed the knob inside, revealing that on the other side there was an elegant, carpeted room with a fireplace where some logs were burned. Through a tall window next to the fireplace, there was a wintry sky, from which snow fell. Before closing the door behind her, Cordelia turned to Delia and repeated:

  • At 12 o’clock tomorrow.

The door was closed. And it disappeared as if it never existed.

On the couch, Delia plunged her face into her hands in despair, and stayed until Corey touched her shoulder.

  • Mom? What happened? Where’s Aunt Cordelia?

“She’s gone …” murmured Delia. And then he took the boy by the hand and sat him down beside him. She hugged him tightly.

“Your aunt wants you to spend time with her, Corey. Will come back tomorrow.

“But I’m in the middle of the semester,” protested Corey. – Aunt can’t wait until summer vacation?

Delia shook her head.

  • No, Corey, no. Tomorrow. But, don’t worry, you won’t miss a single day of school at school … if it doesn’t take too long.

The boy looked puzzled at his mother.

  • There … where, mother?

Delia took a deep breath.

  • It is a very distant place, and at the same time, very close. Your aunt has … powers.

And holding the boy’s face with both hands, she kissed him on the top of the head.

  • [08-06-2020]
    Alex Raymundo
    Submitted by Alex Raymundo on 06/08/2020
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Segredo de família

Mãe!

Corey havia descido correndo do ônibus da escola, abriu a porta da sala, e deparou-se com sua mãe sentada no sofá da sala, ao lado… dela mesma. Esfregou os olhos.

– Você não está vendo dobrado – disse a mãe da esquerda.

– Qual das duas é minha mãe? – Indagou Corey, olhando de uma para outra. A da direita estava mais arrumada e elegante, provavelmente não era sua mãe.

– O que você acha? – Perguntou justamente a da direita.

– Você – replicou Corey, apontando a da esquerda, em roupas de ficar em casa. Ela piscou um olho para a outra.

– Não disse que não ia conseguir enganá-lo?

– Se tivéssemos trocado de roupa, ele não teria percebido – redarguiu a mãe elegante. – Como no Príncipe e o Mendigo…

– Ei! Eu conheço a minha mãe! – Protestou Corey para a mãe elegante. – E você não é ela… apesar de ser muito parecida.

– Venha cá – chamou-o a mãe que ele sabia ser a verdadeira. – Sente-se entre nós.

Corey deixou a mochila sobre uma poltrona e aproximou-se, desconfiado.

– Mãe, você nunca me disse que tinha uma irmã gêmea – protestou, virando-se para a esquerda.

A mãe acariciou os cabelos dele.

– Segredo de família – disse enigmaticamente.

– Quantos anos ele tem mesmo? – Indagou a da direita.

– Oito.

– Você é um garoto muito inteligente, Corey – a da direita acariciou os cabelos dele, do mesmo jeito que a mãe havia feito.

– Como você se chama, tia? – Perguntou o menino, erguendo a cabeça.

– Cordelia. Mas todos me chamam de Delia.

Corey semicerrou os olhos.

– Esse é o nome da minha mãe!

– Nossos pais não eram muito criativos no tocante a nomes – replicou ela, com um sorriso sarcástico.

– Que tal agora ir tomar seu banho e se trocar para o almoço? – Sugeriu a mãe.

Corey ergueu-se em silêncio, pegou a mochila e subiu as escadas para o andar superior, onde ficavam os quartos da casa. Novamente sós, Delia, a mãe, expressão preocupada, voltou-se para Cordelia.

– Não acho que isso vá dar certo. Somos fisicamente idênticas, é verdade, mas você simplesmente não conviveu com o Corey… ele vai saber que não sou eu, mesmo que troquemos as roupas.

– Eu não pretendo me passar por você – retrucou Cordelia num tom indiferente. – Vou levar o Corey comigo.

– Apenas para uma visita – Delia pontuou com firmeza.

– Se ele quiser ficar, o que vale é a opção dele – insistiu Cordelia.

E diante da expressão de revolta de Delia, acrescentou placidamente:

– Trato é trato.

Delia respirou fundo.

– Certo – replicou com amargura. – Mas me dê um dia, preciso conversar com ele. Explicar a situação.

– Amanhã – retrucou Cordelia. – Amanhã eu volto para buscá-lo…

Consultou o relógio de pulso e especificou:

– Às 12 h em ponto.

Em seguida, levantou-se e erguendo os braços, traçou no ar os contornos de um grande retângulo. Uma porta de madeira escura com uma maçaneta de latão surgiu do nada, no meio do aposento. Cordelia, empurrou a maçaneta para dentro, revelando que do outro lado havia uma sala elegante, acarpetada, com uma lareira onde queimavam algumas achas. Por uma janela alta ao lado da lareira, via-se um céu invernal, de onde a neve caía. Antes de fechar a porta atrás de si, Cordelia virou-se para Delia e repetiu:

– Às 12 h, amanhã.

A porta foi fechada. E desapareceu como se nunca houvesse existido.

No sofá, Delia mergulhou o rosto nas mãos em desespero, e assim ficou até que Corey tocasse seu ombro.

– Mãe? O que houve? Cadê a tia Cordelia?

– Ela já foi… – murmurou Delia. E depois, pegou o menino pela mão e o sentou ao seu lado. Abraçou-o com força.

– Sua tia quer que você vá passar um tempo com ela, Corey. Vai voltar amanhã.

– Mas eu estou no meio do semestre – protestou Corey. – A tia não pode esperar até as férias de verão?

Delia abanou negativamente a cabeça.

– Não, Corey, não. Amanhã. Mas, não se preocupe, você não vai perder nenhum dia de aula na escola… se não demorar muito lá.

O menino olhou intrigado para a mãe.

– Lá… onde, mãe?

Delia respirou fundo.

– É um lugar muito distante, e ao mesmo tempo, muito perto. A sua tia tem… poderes.

E segurando o rosto do menino com as duas mãos, beijou-o no alto da cabeça.

– [08-06-2020]Alex RaymundoEnviado por Alex Raymundo em 08/06/2020
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THE BLACK CAT

Edgard Allan Poe

Gato, Animais, Gatos, Retrato Do Gato

I do not expect or ask you to believe this narrative that is both strange and unpretentious that I am about to write. It would be really crazy if I waited, in which case even my senses rejected the evidence itself. However, I am not crazy and I certainly did not dream what I am going to narrate. But tomorrow I will die and today I want to relieve my soul. My immediate purpose is to place before the world, simply, succinctly and without comment, a series of events that are nothing more than domestic. Through their consequences, these events terrified, tortured and destroyed me. However, I will not attempt to explain or justify them. For me they meant only Horror, for many they will seem less terrible than Gothic or grotesque. Later, perhaps, some intellect will emerge to reduce my phantasmagoria to commonplaces – some calmer, more logical, much less excitable intelligence than mine; and the latter will perceive, in the circumstances I describe with astonishment, nothing more than an ordinary succession of very natural causes and effects.

From childhood they observed my docility and the humanity of my character. The tenderness of my heart was indeed so conspicuous that it made me the target of my companions’ jokes. I especially liked animals, so my parents allowed me to raise a large number of pets. I spent most of my time with them and my happiest moments were when I fed or caressed them. This peculiarity of character grew with me, and as I became a man, I proceeded to derive from it one of my main sources of pleasure. All those who have established an affectionate relationship with an intelligent and faithful dog will hardly need me to bother to explain the nature of the intensity of the gratification that derives from such a relationship. There is something about selfless love and ready to sacrifice an animal that goes directly to the heart of one who has had frequent occasions to test the petty friendship and fragile loyalty of men.

I got married early and was fortunate to find in my wife a disposition that was not very different from mine. Observing how she liked domestic animals, she did not miss an opportunity to bring me representatives of the most pleasant species. We had birds, goldfish, a beautiful dog, rabbits, a little monkey and a cat.

The latter was a remarkably large and beautiful animal, completely black and endowed with a truly admirable wit. In speaking of his intelligence, my wife, whose heart was unaffected by the slightest superstition, made frequent allusions to the old popular belief that all black cats were witches in disguise. It is not that she never mentioned this matter seriously – and if I speak of it it is simply because I have now remembered the fact.

Pluto – that was the cat’s name – was my favorite pet and spent more time with him. It was just me who fed him and the animal accompanied me anywhere in the house I went. In fact, it was difficult to stop him from going out with me and accompanying me.

Our friendship lasted this way for several years, during which my general temperament and my character – due to the interference of Intemperance created by the Demon – had (my face flushed with confession) had undergone a radical change for the worse. With each passing day I became more sulky, more irritable, less interested in the feelings of others. It allowed me to use rude language with my own wife. After a certain period of time, I came to make her the target of personal violence. Naturally, my pets felt the difference in my mood. Not only did he neglect them, he even treated them badly. But with regard to Pluto, however, I still held enough consideration to restrain myself before mistreating him, whereas I had no qualms about judging rabbits, monkeys and even dogs when, by accident or even affection , they got in my way. But my illness grew more and more – since what illness is worse than the addiction to alcoholism? – and finally, even Pluto, who was now getting old and, as a result, somewhat impertinent, even Pluto began to experience the effects of my bad mood.

One night, when I got home quite drunk, after one of my aimless walks through the city, I imagined that the cat was avoiding my presence. I grabbed him by force; and then, startled by my violence, he inflicted a small wound on my hand with his teeth. A demon’s fury instantly seized me. I couldn’t even recognize myself. My original soul seemed to have fled my body immediately; and a more than satanic malevolence, fueled by gin, took control of every fiber in my body. I took a pocketknife out of my vest pocket, opened the blade, grabbed the poor beast by the throat, and deliberately pulled one eye out of its socket. I blush and my whole body trembles as I record this abominable atrocity.

When the morning brought me back to reason – after sleep had put most of the fire out of my alcoholic orgy – I experienced a mixed feeling of horror and remorse for the crime I had committed. But this feeling was at best weak and elusive and the soul remained untouched. Again I plunged into my excesses and soon drowned in the drink every memory of my wrongdoing.

Meanwhile, the cat slowly recovered. The empty orbit of the missing eye, of course, had a frightening appearance, but he didn’t seem to be in any more pain. He walked around the house, as usual, but, as you might expect, he ran away from me in extreme terror every time I came near him. I still had a certain part of my previous spirit left, and at first I regretted that now I hated so much a creature that had already loved me. But this feeling soon gave way to irritation. And then I was struck, as if for my final and irrevocable fall, by the spirit of Perversity. Philosophy itself has not studied this spirit. And yet, just as I am sure that I have a living soul, it is my conviction that wickedness is one of the primitive impulses of the human heart – one of the primary and indivisible faculties, one of the feelings that give rise to and guide the character of Man. Who has not caught a hundred times to commit a vile or merely foolish action for any reason except to feel that they shouldn’t? Don’t we all have a perpetual inclination and contrary to our best judgment to violate the Laws, simply because we understand that they are mandatory? For it was this spirit of Perversity, I say, that came to cause my final fall. It was this unfathomable longing of the soul, which yearns to harm itself, to offer violence to its own nature, to do evil for the sake of evil and nothing else, that impelled me to continue and finally consummate the injury that I had inflicted on harmless little beast. One morning, in cold blood, I put a noose around his throat and hung it on the branch of a tree – I hung it with tears in my eyes, at the same time feeling the most bitter remorse in my heart – I murdered the poor man cat because I knew he loved me and because I understood very well that he had given me no reason to complain – I killed him because I knew that in doing so I was committing a sin – a mortal sin that would taint my immortal soul by point of putting it – if that were possible – beyond the reach of even the infinite mercy of the Most Merciful and Most Terrible God.

The night after the day I practiced this cruel action, I was awakened from sleep by shouts of “Fire!” The curtains on my bed were on fire. The whole house was on fire. It was with great difficulty that my wife, a maid, and myself escaped the conflagration. The destruction was complete. All my material possessions were consumed and from that moment on I surrendered to despair.

I am above the weakness of trying to establish a cause and effect sequence between disaster and atrocity. But I am detailing a chain of facts – and I do not wish to leave a single link in the chain imperfect. The day after the fire, I visited the ruins. All the walls had collapsed, except for one. This exception was that of an internal room, a wall not too thick, which rose more or less in the middle of the house, precisely the one against which the head of my bed rested. The plaster itself had, to a large extent, resisted the action of fire – as I judged, because it was made of new mortar, perhaps still a little wet. A large crowd was gathered around this wall; and many people seemed to be examining a special section of it, with meticulous attention. The words “strange”, “singular” and similar words aroused my curiosity. I approached and saw, as if it were engraved in bas relief [1] on the white surface, the figure of a gigantic cat. The image was drawn with really wonderful precision. There was a rope outlined around the animal’s neck.

The first time I saw this apparition – because I could hardly call it anything less amazing – my astonishment and terror were extreme. But, finally, reasoning and reflection came to my protection. The cat, he recalled, had been hanged in a garden adjacent to the house. As soon as the fire alarm was given, this garden was immediately filled with basbaques, one of which had probably cut the rope that attached the cat to the tree and tossed the animal into my room through an open window. Maybe even the intention was good, maybe they wanted to wake me up from sleep and throw the animal out the window for that purpose. The fall of the other walls had compressed the victim of my cruelty into the very substance of the freshly applied plaster; the lime contained in it, mixed with the ammonia from the carcass, with the heat of the flames, had then realized the portrait he was now contemplating.

Although I satisfied my reason so quickly, although I could not completely calm my conscience and tried in this way to discard the amazing fact that I have just described, this did not prevent it from making a strong impression on my imagination. For months I could not get rid of my internal vision of the cat’s ghost; and, during that period, a kind of feeling that resembled remorse returned to my spirit, but it was not exactly that. I went so far as to mourn the loss of the animal and to seek, in the ordinary environments I now habitually frequented, for another mascot of the same species, whose appearance was similar and could occupy the void left by the first.

One night I was sitting, numb from drinking so much, in a tavern of the worst kind, when my attention was suddenly drawn to a black object that rested on the lid of one of the immense Bordeaux gin or rum that constituted the main furniture of the piece . Several minutes ago I had already stared at the lid of that barrel, and what now surprised me was the fact that I had not noticed the object that was on it before. I approached with hesitant steps, reached out and touched him. It was a black cat – a very large animal – as big as Pluto and extremely similar to him in every detail, except for one: Pluto had no white fur on any part of his body; but this cat had a rather large white patch, although of an indefinite shape, covering almost entirely his chest.

As soon as I touched it, the animal immediately got up, purred loudly, rubbed itself against my hand and seemed delighted with my attention. He had found the very creature he had been looking for. Immediately I went to speak to the innkeeper and offered to buy the pussy, but he said that the animal did not belong to him – that he had never seen it before and that he had no idea where it had come from or who it might belong to.

I continued with my caresses, and when I was ready to go home, the animal showed its willingness to accompany me. I allowed him to do so; in fact, on the way, I occasionally stopped, bent and caressed him. When we arrived at the house where I now lived, he immediately became acquainted, and then got my wife’s good graces.

As for me, to my disappointment, I soon discovered that I didn’t like the animal. This was just the reverse of what I had anticipated; but – I don’t know how or why – the evident pleasure that the cat found in my company annoyed and disgusted me. Slowly and progressively, these feelings of disgust and boredom have turned to bitterness and hatred. He avoided the creature whenever he could; a certain sense of shame and the memory of my old feat of cruelty prevented me from hurting him physically. For a few weeks, I didn’t hit him or mistreat him violently; but gradually – very gradually – I began to look at him with indescribable disgust and to escape silently from his odious presence, as if I were trying to escape the suffocating breath of a swamp or the pestilent breath of a plague.

Undoubtedly, what sparked my resentment for the animal was the discovery, the very morning after the night I brought him home, that he, just like Pluto, had had one eye taken out as well. This circumstance, however, only led my wife to like him even more, which, as I reported earlier, possessed in a high degree that humanity of feelings that in past times was also one of my characteristic features and the source of many of my most pleasures simple and pure.

As my aversion to the cat grew, his love for me seemed to grow at the same rate. I followed in my footsteps with a pertinacity that would be difficult to make the reader understand. Wherever I sat, I would curl up under my chair or jump on my knees, covering myself with disgusting caresses. If I rose to walk, he would intrude between my feet and almost make me fall; or else I dug his long, sharp nails into my clothes and tried to climb up to my chest in this way. On those occasions, although I longed to blow it up, I still felt unable to do so, partly because of the memory of my previous crime, but especially – I will confess immediately – because I was absolutely terrified of that animal.

This dread was not exactly a fear of the possibility of physical harm, yet I am not able to define it any other way. I am almost ashamed to admit – yes, even in this condemned cell I am almost ashamed to admit – that the terror and horror that the animal inspired me had been greatly enhanced by one of the most illusory chimeras that would have been possible to conceive. My wife had drawn my attention, more than once, to the character of the white fur patch that I already mentioned and that constituted the only apparent difference between the strange animal and the one that I had killed. The reader will remember that this mark, although large, was originally very vague; however, very slowly, in an almost imperceptible way, a form that for a long time my Reason struggled to consider as merely fanciful, ended up assuming a strictly different outline. It was now the representation of an object such that the very idea of ​​mentioning it makes me tremble. That was why, above all, I hated and feared that monster so much and would have gotten rid of it, if only I dared. That image, I write now, was the image of a horrible thing, a terrifying thing … the image of a STRENGTH! Ah, melancholy and terrible instrument of Horror and Crime – of Agony and Death!

And now, behold, I was really miserable, a wretch beyond the disgrace and misery of human nature. And it was a soulless animal, whose companion I had scornfully destroyed, it was a soulless animal that originated in me – me, who was a man, created in the image of the Most High God – so much intolerable anguish! Woe is me! Neither day nor night was I more blessed by Rest! During the day the creature did not leave me for a single moment; and at night, I would wake up hourly, awakened from dreams filled with indescribable dread, to find the hot breath of that thing blowing directly over my face and its enormous weight – a red nightmare from which I could never wake up , forever oppressing and crushing my heart!

Under the pressure of such torments, the feeble traces that remained of my good nature have completely succumbed. Bad thoughts became my close friends, my only friends, then the wickedest and most evil thoughts. The bad mood of my habitual disposition became an undefined rancor aimed at all things and for all mankind; and the sudden, frequent and uncontrollable fits of fury that I now abandoned myself blindly and without the slightest remorse were discharged – alas! – precisely about my wife, the most patient and most constant sufferer, who never uttered a word of complaint or revolt against me.

One day she accompanied me, with the intention of doing some domestic chores, to the basement of the old building where our current poverty forced us to live. The cat followed me up the steep steps and, when it tripped me and almost caused me to fall down the stairs, it left me exasperated to the point of going crazy. Raising an ax, forgotten in my anger at the childish fear that had hitherto prevented me from raising a finger against it, I aimed a blow at the animal that, without a doubt, would have been fatal if I had hit where I wanted to. However, the ax was prevented by my wife’s hand holding my arm. This interference sent me into more than demonic rage: I pulled her arm out of her grip and, with a single blow, buried the ax in her head. She fell dead in the same spot, not letting out a single moan.

Having committed this dreadful murder, immediately, without remorse and in the most deliberate way possible, I turned to the task of hiding the body. He knew that he could not remove him from the house, day or night, without risking being watched by the neighbors. A series of projects crossed my mind. For a while, I thought of cutting the body into tiny fragments that I would then destroy in the fire. Then I thought of digging a hole in the basement floor. It also crossed my mind to throw the corpse into the well in the courtyard; or placing it in a box, as if it were a commodity, applying all the care that is usually devoted to the preparation of such volumes and hiring a porter to remove it from the house. Finally, I imagined what seemed to me to be a better expedient than any of these. I decided to wall it up in one of the basement corners – as the monks of the Middle Ages used to do with their victims, they say.

The basement was perfectly adapted for that purpose. Its walls had been badly built and had recently been plastered with a coarse mortar, which the humidity of the environment had not allowed to harden. In addition, on one wall there was a projection, caused by a false chimney or fireplace that had been filled with bricks in an attempt to resemble it to the rest of the basement walls. I had no doubt that I could easily remove the bricks at this point, insert the corpse and then restore the entire wall to its previous state, so that looking at it could detect anything suspicious.

I was not mistaken on this point. With a crowbar, I easily removed the bricks and, after carefully depositing the body against the inner wall, lifted it up so that it stood upright against the wall. With little difficulty I replaced the bricks and left the structure exactly as it was before. Having brought lime, sand and a lot of animal hair removed from hides, as was the custom at the time, I prepared, with all possible precautions, a mortar that could not be different from the one that covered the rest of the wall and with this I towed it very carefully the bricks he had replaced. When I finished, I was satisfied with the perfection of the work. The wall showed no sign that it had been modified. I picked up the floor tiles with the utmost care. I looked around me triumphantly and congratulated myself: “At least this time I didn’t work in vain”.

My next task was to look for the beast that had been the cause of such misfortune, because I finally had the firm resolve to kill it. If he had been able to find her at that moment, his fate would have been sealed, but apparently the cunning animal had sensed something or was frightened by the violence of my previous anger, avoiding appearing before me while my bad mood lasted. It is impossible to describe or imagine the feeling of deep and blessed relief that the absence of the detested creature caused in my chest. Better still, the cat did not appear that night – and so, at least for one night, since the bastard had entered my house, I slept soundly and peacefully; yes, I slept the sleep of the just, even though it now had the weight of murder in my soul!

The second and third days passed and my tormentor did not return. Again I breathed like a free man. The monster had fled in terror and left my company forever! I would never see him again! My happiness was supreme! The remorse caused by my action, so black and perverse, hardly disturbed me. Some questions had been asked, but it had been easy to answer. A search had even been made by the police, but of course they had found nothing. I thought my future happiness was assured.

But on the fourth day after the murder, a police patrol returned, very unexpectedly, entered my home and started to make a thorough investigation of the building again. I felt safe, however, due to the impenetrability of the place where I hid the corpse, and so I was not at all embarrassed by the search. The police ordered me to accompany them while they were looking. They left no corner or bin untapped. Finally, for the third or fourth time, they went down to the basement. I didn’t feel a shiver in my muscles. My heart was beating calmly like someone perfectly innocent. I walked from end to end of the cellar. I crossed my arms and kept pacing. The police were finally satisfied and were about to leave, this time for good. The joy in my heart was too great to be contained. I longed to say at least one word of triumph and I wanted to assure myself doubly that they thought me innocent.

“Gentlemen,” he said at last, as the group climbed the stairs, “I am delighted to have dispelled all your suspicions.” I wish you all good health and a little more courtesy. By the way, gentlemen, this house, this house is very well built. (Taken by a violent desire to appear most natural, he spoke without paying much attention to what he said.) I can even say that it is an excellently well-built house. These walls – are they leaving already, gentlemen? – these walls are very solid.

And it was at this point that, taken by a stupid bravado frenzy, I tapped heavily with a cane in my hand just over that portion of the wall behind which lay the corpse of the wife he had pressed so often against his chest.

May God shield and protect me from the fangs of the Father of Demons! As soon as the reverberation of the blows he had made disappeared in the silence, he was answered by a voice from inside the tomb! – answered by a cry, at first muffled and choppy, like the sobs of a child, but quickly swelling into a long, loud and continuous cry, totally abnormal and inhuman – a howl -, a wailing squeak, a bit of horror and half of triumph, just as it could only have risen from the depths of hell, a scream emitted jointly by the throats of hundreds condemned to eternal damnation, tortured in their agony, and by the demons who rejoice in their condemnation.

It is foolish to try to describe my thoughts. Feeling faint, I staggered to the opposite wall. For a moment, the group of policemen who were climbing the stairs remained motionless, in a mixture of awe and deep terror. In the next moment, a dozen sturdy arms struggled to crush the wall. It fell all over. The corpse, already badly decomposed and covered with clotted blood, was erect before the eyes of the spectators, in the same position in which I had left it. But over his head, with his red mouth wide open and a spark of fire in his one eye, sat the hideous beast whose devices had led me to murder and whose accusing voice would now lead me to the executioner. I had walled the monster inside the grave!

[1]. Low relief. In French in the original. (N.T.)



O GATO PRETO

Edgard Allan Poe

Gato, Animais, Gatos, Retrato Do Gato

Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que até mesmo meus sentidos rejeitaram a própria evidência. Todavia, não sou louco e certamente não sonhei o que vou narrar. Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu propósito imediato é o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem comentários, uma série de eventos nada mais do que domésticos. Através de suas consequências, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destruíram. Entretanto, não tentarei explicá- los nem justificá-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecerão menos terríveis do que góticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, nada mais que uma sucessão ordinária de causas e efeitos muito naturais. 

Desde a infância observaram minha docilidade e a humanidade de meu caráter. A ternura de meu coração era de fato tão conspícua que me tornava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava especialmente de animais e, assim, meus pais permitiam que eu criasse um grande número de mascotes. Passava a maior parte de meu tempo com eles e meus momentos mais felizes transcorriam quando os alimentava ou acariciava. Esta peculiaridade de caráter cresceu comigo e, ao tornar-me homem, prossegui derivando dela uma de minhas principais fontes de prazer. Todos aqueles que estabeleceram uma relação de afeto com um cão inteligente e fiel dificilmente precisarão que eu me dê ao trabalho de explicar a natureza da intensidade da gratificação que deriva de tal relacionamento. Existe alguma coisa no amor altruísta e pronto ao sacrifício de um animal que vai diretamente ao coração daquele que teve ocasiões frequentes de testar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade dos homens. 

Casei-me cedo e tive a felicidade de encontrar em minha esposa uma disposição que não era muito diferente da minha. Observando como gostava de animais domésticos, ela não perdeu oportunidade para me trazer representantes das espécies mais agradáveis. Tínhamos pássaros, peixinhos dourados, um belo cão, coelhos, um macaquinho e um gato. 

Este último era um animal notavelmente grande e belo, completamente preto e dotado de uma sagacidade realmente admirável. Ao falar de sua inteligência, minha esposa, cujo coração não era afetado pela mínima superstição, fazia frequentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos eram bruxas disfarçadas. Não que ela jamais mencionasse esse assunto seriamente – e se falo nele é simplesmente porque me recordei agora do fato. 

Pluto – esse era o nome do gato – era minha mascote favorita e era com ele que passava mais tempo. Era só eu que o alimentava e o animal me acompanhava em qualquer parte da casa em que eu fosse. De fato, era difícil impedi-lo de sair à rua comigo e acompanhar-me. 

Nossa amizade perdurou desta forma por diversos anos, durante os quais meu temperamento geral e meu caráter – devido à interferência da Intemperança criada pelo Demônio – tinham (meu rosto se cobre de rubor ao confessá-lo) sofrido uma mudança radical para pior. A cada dia que se passava eu ficava mais mal-humorado, mais irritável, menos interessado nos sentimentos alheios. Permitia-me usar linguagem grosseira com minha própria esposa. Após um certo período de tempo, cheguei a torná-la alvo de violência pessoal. Naturalmente, minhas mascotes sentiram a diferença em minha disposição. Não apenas as negligenciava, como chegava a tratá-las mal. Mas com relação a Pluto, entretanto, eu ainda conservava suficiente consideração para conter-me antes de maltratá-lo, ao passo que não tinha escrúpulos em judiar dos coelhos, do macaco e até mesmo do cão quando, por acidente ou até mesmo por afeição, eles se atravessavam em meu caminho. Porém minha doença cresceu cada vez mais – pois que doença é pior que o vício do alcoolismo? – e, finalmente, até Pluto, que estava agora ficando velho e, em consequência, um tanto impertinente, até Pluto começou a experimentar os efeitos de meu mau humor. 

Uma noite, ao chegar em casa bastante embriagado, depois de um de meus passeios sem destino através da cidade, imaginei que o gato estava evitando minha presença. Agarrei-o à força; e então, assustado por minha violência, ele infligiu uma pequena ferida em minha mão com os dentinhos. A fúria de um demônio possuiu-me instantaneamente. Nem sequer conseguia reconhecer a mim mesmo. Minha alma original parecia ter fugido imediatamente de meu corpo; e uma malevolência mais do que satânica, alimentada pelo gim, assumiu o controle de cada fibra de meu corpo. Tirei um canivete do bolso de meu colete, abri a lâmina, agarrei a pobre besta pela garganta e deliberadamente arranquei da órbita um de seus olhos. Encho-me de rubor e meu corpo todo estremece enquanto registro esta abominável atrocidade. 

Quando a manhã me trouxe de volta à razão – depois que o sono tinha apagado a maior parte do fogo de minha orgia alcoólica –, experimentei um sentimento misto de horror e de remorso pelo crime que havia cometido. Mas este sentimento foi no máximo débil e elusivo e a alma permaneceu intocada. Novamente mergulhei em meus excessos e logo afoguei na bebida toda lembrança de minha má ação. 

Enquanto isso, o gato lentamente se recuperou. A órbita vazia do olho perdido apresentava, naturalmente, uma aparência assustadora, mas ele não parecia estar sofrendo mais nenhuma dor. Andava pela casa, como de costume, mas, como se poderia esperar, fugia de mim em extremo terror cada vez que chegava perto dele. Ainda me restava uma certa parte de meu ânimo anterior e a princípio lamentei que agora me detestasse tanto uma criatura que já me havia amado. Mas este sentimento logo deu lugar à irritação. E então fui acometido, como se fosse para minha queda final e irrevogável, pelo espírito da Perversidade. A própria filosofia não estudou este espírito. E todavia, assim como tenho certeza de possuir uma alma vivente, é minha convicção que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades primárias e indivisíveis, um dos sentimentos que dão origem e orientam o caráter do Homem. Quem já não se flagrou uma centena de vezes a cometer uma ação vil ou meramente tola por nenhuma razão exceto sentir que não devia? Não temos todos nós uma inclinação perpétua e contrária a nosso melhor julgamento para violar as Leis, simplesmente porque compreendemos que são obrigatórias? Pois foi este espírito de Perversidade, digo eu, que veio a causar minha queda final. Foi este anseio insondável da alma, que anela por prejudicar a si mesma, por oferecer violência à sua própria natureza, por praticar o mal pelo amor ao mal e nada mais, que me impulsionou a prosseguir e finalmente consumar a injúria que tinha infligido sobre a pequena besta inofensiva. Uma manhã, a sangue-frio, passei-lhe um laço ao redor da garganta e o pendurei no galho de uma árvore – enforquei-o com lágrimas nos olhos, sentindo ao mesmo tempo o remorso mais amargo em meu coração –, assassinei o pobre gato porque sabia que ele me tinha amado e porque eu entendia muito bem que ele não me tinha dado razão alguma de queixa – matei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado – um pecado mortal que iria manchar minha alma imortal ao ponto de colocá-la – se isso fosse possível – fora do alcance até mesmo da infinita misericórdia do Deus Mais Misericordioso e Mais Terrível. 

Na noite seguinte ao dia em que pratiquei esta ação cruel, fui despertado do sono por gritos de “Fogo!”. As cortinas de meu leito estavam em chamas. A casa inteira estava ardendo. Foi com grande dificuldade que minha esposa, uma criada e eu mesmo escapamos da conflagração. A destruição foi completa. Todos os meus bens materiais foram consumidos e a partir desse momento entreguei-me ao desespero. 

Estou acima da fraqueza de tentar estabelecer uma sequência de causa e efeito entre o desastre e a atrocidade. Mas estou detalhando um encadeamento de fatos – e não desejo deixar imperfeito um só dos elos da corrente. No dia que se seguiu ao incêndio, visitei as ruínas. Todas as paredes tinham desabado, à exceção de uma única. Esta exceção foi a de um aposento interno, uma parede não muito grossa, que se erguia mais ou menos na metade da casa, justamente aquela contra a qual descansava a cabeceira de minha cama. O próprio reboco tinha ali, em grande parte, resistido à ação do fogo – segundo julguei, porque era feito de argamassa nova, talvez ainda um pouco úmida. Em torno desta parede estava reunida uma grande multidão; e muitas pessoas pareciam estar examinando um trecho especial dela, com minuciosa atenção. As palavras “estranho”, “singular” e outras semelhantes excitaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se estivesse gravado em bas relief [1] sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem estava desenhada com uma precisão realmente maravilhosa. Havia uma corda esboçada ao redor do pescoço do animal. 

Da primeira vez que contemplei esta aparição – porque dificilmente poderia chamá-la de algo menos assombroso –, meu espanto e meu terror foram extremos. Mas, finalmente, o raciocínio e a reflexão vieram em meu amparo. O gato, segundo recordava, tinha sido enforcado em um jardim adjacente à casa. Logo que fora dado o alarme de incêndio, este jardim ficou imediatamente cheio de basbaques, um dos quais provavelmente tinha cortado a corda que prendia à arvore o gato e jogado o animal dentro de meu quarto através de uma janela aberta. Talvez até mesmo a intenção fosse boa, quem sabe queriam acordar-me do sono e lançassem o animal janela adentro para esse fim. A queda das outras paredes tinha comprimido a vítima de minha crueldade na própria substância do reboco recém-aplicado; o cal contido nele, misturado à amônia proveniente da carcaça, com o calor das chamas, tinha então realizado o retrato que contemplava agora. 

Embora eu satisfizesse minha razão assim rapidamente, se bem que não tivesse podido acalmar totalmente minha consciência e tentasse desse modo descartar o fato assombroso que acabei de descrever, isso não impediu que produzisse forte impressão sobre minha imaginação. Durante meses não conseguia livrar minha visão interna do fantasma do gato; e, durante esse período, retornou a meu espírito uma espécie de sentimento que se assemelhava a remorso, mas não era exatamente isso. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e a procurar, nos ambientes ordinários que agora habitualmente frequentava, outra mascote da mesma espécie, cuja aparência fosse semelhante e pudesse ocupar o vazio deixado pela primeira. 

Uma noite eu estava sentado, entorpecido de tanto beber, em um botequim da pior espécie, quando minha atenção foi subitamente atraída para um objeto preto que repousava sobre a tampa de uma das imensas bordalesas de gim ou de rum que constituíam o principal mobiliário da peça. Há vários minutos eu já contemplava fixamente a tampa desse barril, e o que agora me causava surpresa era o fato de que não houvesse percebido antes o objeto que se encontrava sobre ele. Aproximei-me a passos vacilantes, estendi a mão e toquei-o. Era um gato preto – um animal muito grande –, tão grande quanto Pluto e extremamente parecido com ele em todos os detalhes, salvo um: Pluto não tinha um pelo branco sequer em qualquer porção de seu corpo; mas este gato tinha uma mancha branca bastante grande, embora de formato indefinido, cobrindo-lhe quase inteiramente o peito. 

Assim que o toquei, o animal ergueu-se imediatamente, ronronou bem alto, esfregou-se contra minha mão e pareceu encantado com minha atenção. Tinha encontrado a própria criatura que vinha procurando. Imediatamente fui falar com o taverneiro e ofereci-me para comprar o bichano, mas ele disse que o animal não lhe pertencia – que nunca o tinha visto antes e que não fazia a menor ideia de onde tinha vindo ou a quem pudesse pertencer. 

Continuei com minhas carícias, e, quando me dispus a ir para casa, o animal demonstrou estar disposto a me acompanhar. Permiti-lhe que o fizesse; de fato, durante o caminho, ocasionalmente parava, curvava-me e fazia-lhe carícias. Quando chegamos à casa em que agora eu morava, ele familiarizou-se de imediato, adquirindo em seguida as boas graças de minha esposa. 

Quanto a mim, para meu desapontamento, logo descobri que não gostava do animal. Isto era justamente o reverso do que havia antecipado; porém – não sei como nem por que – o evidente prazer que o gato achava em minha companhia me aborrecia e enojava. Lenta e progressivamente, estes sentimentos de desgosto e aborrecimento se transformaram em rancor e ódio. Evitava a criatura, sempre que podia; uma certa sensação de vergonha e a lembrança de meu antigo feito de crueldade evitaram que eu o machucasse fisicamente. Durante algumas semanas, eu não bati nele nem o maltratei violentamente; mas gradualmente – muito gradualmente – comecei a encará-lo com uma repugnância indescritível e a fugir silenciosamente de sua presença odienta, como se estivesse tentando escapar do sopro sufocante de um pântano ou do hálito pestilento de uma praga. 

Sem a menor dúvida, o que originou meu rancor pelo animal foi a descoberta, logo na manhã seguinte à noite em que o trouxe para casa, de que ele, exatamente como Pluto, também tivera um dos olhos arrancado. Esta circunstância, entretanto, só levou minha esposa a gostar ainda mais dele, a qual, conforme relatei anteriormente, possuía em alto grau aquela humanidade de sentimentos que em épocas passadas fora também um de meus traços característicos e a fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros. 

À medida que aumentava minha aversão pelo gato, seu amor por mim parecia crescer na mesma proporção. Seguia meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer o leitor compreender. Onde quer que me assentasse, vinha enroscar-se embaixo de minha cadeira ou saltar sobre meus joelhos, cobrindo-me de carinhos nojentos. Se eu me erguesse para caminhar, ele se intrometia entre meus pés e quase me fazia cair; ou, então, cravava suas unhas longas e afiadas em minhas roupas e procurava, desta forma, trepar até chegar a meu peito. Nessas ocasiões, embora eu ansiasse por rebentá-lo à pancada, ainda me sentia incapaz de fazê-lo, em parte pela recordação de meu crime anterior, mas especialmente – confessarei de imediato – porque tinha absoluto pavor daquele animal. 

Este pavor não era exatamente um temor da possibilidade de algum dano físico, todavia não sou capaz de defini-lo de outra forma. Estou quase envergonhado de admitir – sim, mesmo nesta cela de condenado tenho quase vergonha de admitir – que o terror e horror que o animal me inspirava tinham sido muito aumentados por uma das mais ilusórias quimeras que teria sido possível conceber. Minha esposa me tinha chamado a atenção, mais de uma vez, para o caráter da mancha de pelo branco que já mencionei e que constituía a única diferença aparente entre o estranho animal e aquele que eu tinha morto. O leitor há de lembrar que esta marca, embora grande, era originalmente muito indefinida; porém, muito lentamente, de uma forma quase imperceptível, uma forma que por muito tempo minha Razão lutou para considerar como meramente fantasiosa, acabou por assumir um contorno rigorosamente distinto. Era agora a representação de um objeto tal que a simples ideia de mencioná-lo me faz tremer. Era por isso, acima de tudo, que eu detestava e temia tanto aquele monstro e teria me livrado dele, se ao menos eu ousasse. Essa imagem, escrevo agora, era a imagem de uma coisa horrível, uma coisa apavorante… a imagem de uma FORCA! Ah, melancólico e terrível instrumento de Horror e de Crime – de Agonia e de Morte! 

E agora eis que me encontrava realmente desgraçado, um miserável além da desgraça e da miséria da natureza humana. E era um animal sem alma, cujo companheiro eu tinha destruído com desprezo, era um animal sem alma que originava em mim – eu, que era um homem, criado à imagem do Deus Altíssimo – tanta angústia intolerável! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite eu era mais abençoado pelo Repouso! Durante o dia a criatura não me deixava por um único momento; e, de noite, eu me acordava de hora em hora, despertado de sonhos cheios de um pavor indescritível, para encontrar a respiração quente daquela coisa soprando diretamente sobre meu rosto e seu enorme peso – um pesadelo encarnado do qual eu não poderia jamais me acordar, oprimindo e esmagando eternamente o meu coração! 

Sob a pressão de tormentos assim, os débeis traços que restavam de minha boa natureza sucumbiram totalmente. Os maus pensamentos se tornaram meus amigos íntimos, meus únicos amigos, logo os pensamentos mais ímpios e mais maléficos. O mau humor de minha disposição habitual transformou-se em um rancor indefinido voltado para todas as coisas e para toda a humanidade; e os acessos de fúria súbitos, frequentes e incontroláveis aos quais eu agora me abandonava cegamente e sem o menor remorso eram descarregados – ai de mim! – precisamente sobre minha esposa, a sofredora mais paciente e mais constante, que nunca emitia sequer uma palavra de queixa ou de revolta contra mim. 

Um dia ela me acompanhou, com a intenção de executar alguma tarefa doméstica, ao porão do velho edifício em que nossa pobreza atual nos obrigava a morar. O gato me seguiu pelos degraus íngremes e, quando me fez tropeçar e quase me levou a cair escada abaixo, deixou-me exasperado a ponto de enlouquecer. Erguendo um machado, esquecido em minha cólera do medo infantil que até então havia impedido que levantasse um dedo contra ele, dirigi um golpe ao animal que, sem a menor dúvida, teria sido fatal se tivesse acertado onde eu queria. Porém a machadada foi impedida pela mão de minha esposa a segurar-me o braço. Esta interferência me lançou em uma raiva mais do que demoníaca: arranquei o braço de seu aperto e, com um único golpe, enterrei o machado na cabeça dela. Ela caiu morta no mesmo lugar, sem soltar um único gemido. 

Tendo cometido este assassinato pavoroso, imediatamente, sem remorsos e da maneira mais deliberada possível, voltei-me para a tarefa de esconder o corpo. Sabia que não podia removê-lo da casa, tanto de dia como de noite, sem correr o risco de ser observado pelos vizinhos. Uma série de projetos passou por minha cabeça. Durante algum tempo, pensei em cortar o corpo em minúsculos fragmentos que depois destruiria no fogo. Depois pensei em cavarlhe uma cova no chão do porão. Também me passou pela cabeça jogar o cadáver no poço que ficava no pátio; ou colocá-lo dentro de uma caixa, como se fosse uma mercadoria, aplicando todos os cuidados que em geral se dedica à preparação de tais volumes e contratando um carregador para retirá-lo da casa. Finalmente, imaginei o que me pareceu ser um expediente melhor que qualquer um desses. Resolvi emparedá-lo em um dos cantos do porão – conforme dizem que os monges da Idade Média costumavam fazer com suas vítimas. 

O porão estava perfeitamente adaptado para esse propósito. Suas paredes tinham sido muito mal- construídas e há pouco tempo tinham sido novamente rebocadas com uma argamassa grosseira, que a umidade do ambiente não deixara endurecer. Além disso, em uma das paredes havia uma projeção, causada por uma falsa chaminé ou lareira que tinha sido preenchida com tijolos na intenção de assemelhá-la ao restante das paredes do porão. Não tinha dúvidas de que poderia facilmente retirar os tijolos neste ponto, enfiar o cadáver e depois restaurar a parede inteira ao estado anterior, de tal modo que olhar algum poderia detectar qualquer coisa suspeita. 

Não me enganava neste ponto. Com um pé de cabra retirei facilmente os tijolos e, depois de depositar o corpo cuidadosamente contra a parede interna, ergui-o de modo a deixá-lo em pé, apoiado contra a parede. Com pouca dificuldade recoloquei os tijolos e deixei a estrutura precisamente da maneira em que se achava antes. Tendo trazido cal, areia e uma porção de pelos de animais retirados de couros, como era costume na época, preparei, com todas as precauções possíveis, uma argamassa que não podia ser diferente da que recobria o restante da parede e com esta reboquei muito cuidadosamente os tijolos que havia recolocado. Ao terminar, sentia-me satisfeito com a perfeição do trabalho. A parede não apresentava o menor sinal de que tinha sido modificada. Recolhi a caliça do chão com o cuidado mais minucioso. Olhei ao meu redor triunfantemente e congratulei-me: “Pelo menos desta vez não trabalhei em vão”. 

Minha próxima tarefa era a de procurar a besta que tinha sido a causa de tamanha desgraça, porque tinha, finalmente, a firme resolução de matá-la. Se nesse momento tivesse podido encontrá-la, seu destino estaria selado, mas aparentemente o animal ardiloso tinha pressentido alguma coisa ou se amedrontado com a violência de minha raiva anterior, evitando apresentar-se diante de mim enquanto durasse minha má disposição. É impossível descrever ou imaginar a sensação de alívio profunda e abençoada que a ausência da detestada criatura causou em meu peito. Melhor ainda, o gato não apareceu nessa noite – e assim, ao menos por uma noite, desde que o desgraçado se introduzira em minha casa, dormi profunda e tranquilamente; sim, dormi o sono dos justos, mesmo que tivesse agora o peso de um assassinato em minha alma! 

Passaram-se o segundo e o terceiro dias e meu atormentador não regressou. Novamente eu respirava como um homem livre. O monstro tinha fugido aterrorizado e deixado para sempre minha companhia! Nunca mais iria vê-lo! Minha felicidade era suprema! O remorso ocasionado por minha ação tão negra e perversa praticamente não me perturbava. Algumas perguntas haviam sido feitas, mas fora fácil responder. Até mesmo havia sido feita uma busca pela polícia, mas naturalmente não haviam descoberto nada. Pensei que minha felicidade futura estava assegurada. 

Mas no quarto dia depois do assassinato, uma patrulha da polícia retornou, muito inesperadamente, entrou em minha casa e recomeçou a fazer uma investigação rigorosa do prédio. Achava-me seguro, todavia, devido à impenetrabilidade do lugar em que escondera o cadáver, e assim não me senti nem um pouco constrangido pela busca. Os policiais ordenaram-me que os acompanhasse enquanto procuravam. Não deixaram nem canto nem escaninho sem explorar. Finalmente, pela terceira ou quarta vez, desceram ao porão. Não senti estremecer nem um só de meus músculos. Meu coração batia calmamente como o de alguém perfeitamente inocente. Caminhei de ponta a ponta do porão. Cruzei os braços e fiquei andando de um lado para outro. A polícia finalmente satisfez-se e estava a ponto de partir, desta vez em definitivo. A alegria em meu coração era grande demais para ser contida. Ansiava para dizer ao menos uma palavra de triunfo e queria garantir-me duplamente de que eles me julgavam inocente. 

– Cavalheiros – disse finalmente, enquanto o grupo subia as escadas –, estou encantado por ter desfeito todas as suas suspeitas. Desejo a todos uma boa saúde e um pouco mais de cortesia. A propósito, cavalheiros esta casa, esta casa é muito bem-construída. (Tomado de um violento desejo de aparentar a maior naturalidade, falava sem prestar muita atenção no que dizia.) Posso até dizer que é uma casa excelentemente bem-construída. Estas paredes – já estão de partida, cavalheiros? –, estas paredes são muito sólidas. 

E foi neste ponto que, tomado por um estúpido frenesi de bravata, bati pesadamente com uma bengala que tinha na mão justamente sobre aquela porção da parede atrás da qual jazia o cadáver da esposa que tinha apertado tantas vezes contra o peito. 

Possa Deus escudar-me e proteger-me das presas do Pai dos Demônios! Tão logo a reverberação dos golpes que havia dado desapareceu no silêncio, foi respondida por uma voz de dentro do túmulo! – respondida por um grito, a princípio abafado e entrecortado, como os soluços de uma criança, mas rapidamente se avolumando em um grito longo, alto e contínuo, totalmente anormal e desumano – um uivo –, um guincho lamentoso, meio de horror e meio de triunfo, tal como só poderia ter subido das profundezas do inferno, um berro emitido conjuntamente pelas gargantas de centenas de condenados à danação eterna, torturados em sua agonia, e pelos demônios que exultam em sua condenação. 

É tolice tentar descrever meus pensamentos. Sentindo-me desmaiar, cambaleei até a parede oposta. Por um instante, o grupo de policiais que subia as escadas permaneceu imóvel, em um misto de espanto e profundo terror. No momento seguinte, uma dúzia de braços robustos esforçava-se por esboroar a parede. Ela caiu inteira. O cadáver, já bastante decomposto e coberto de sangue coagulado, estava ereto perante os olhos dos espectadores, na mesma posição em que eu o deixara. Mas sobre sua cabeça, com a boca vermelha escancarada e uma chispa de fogo no único olho, sentava-se a besta horrenda cujos ardis me tinham levado ao assassinato e cuja voz denunciadora agora me levaria ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro do túmulo! 

[1]. Baixo-relevo. Em francês no original. (N.T.)